FÁCIL CRER, DIFÍCIL SER CRENTE E COMO É SER UM CRISTÃO?

Existem algumas questões que passam tão despercebidas em nosso cotidiano que acabamos não vendo como afetam nossa forma de caminhar com Deus.
Nessa primeira questão podemos analisar sobre toda carga de ensino ou pensamento que temos recebidos ao longo da história. Todos concordam que muitas coisas que hoje pensamos ou falamos, são uma continuidade de uma forma criada de se viver e pensar, que foi analisada e estudada por séculos.
Gostaria de lhe mostrar um exemplo: O ensino do Ocidente (toda nossa história recebida pelos gregos) separou o pensar do agir, ou seja, você pode pensar em algo e não colocá-lo em prática, da mesma forma, pode agir em coisas práticas sem pensar no que realmente está fazendo.
Observe que em nossa cultura, existem pensadores que escrevem bem, falam de forma convincente, conseguem mostrar por meio da comunicação o erro, elaboram uma técnica convincente, que ao passar, lágrimas e choros saltam dos ouvintes. Mas quando vamos caminhar na prática daquilo que falam, é completamente diferente, não conseguimos fazer nem metade daquilo que pronunciaram com tanto vigor.
Por outro lado podemos encontrar o grupo dos praticantes, pessoas com um ótimo coração, um senso humanitário tremendo, com práticas abrangentes resolvendo o problema da fome em diversas localidades, gerando união, contribuição e mobilizando pessoas. Mas se você perguntar a esses o porquê de estarem fazendo o que fazem; talvez a resposta seja sem base alguma na vida. Fazem mais pelo sentimento do que por um pensamento racional sobre a vida.
Obviamente os pensadores saberiam responder bem melhor a essa pergunta, sobre a vida e a prática que conduz a uma felicidade real, mas quem daria ouvidos aos textos complexos que elaboram sobre a vida? Os praticantes seriam os últimos, pois preferem praticar e não pensar, pois vêem os pensamentos como dificuldade para realizar determinadas coisas que são tão simples.
Quem nunca conheceu um rapaz motivado pelo sentimento de amor, que praticava coisas simples para ajudar as pessoas, então desejou se aperfeiçoar em alguma área (teologia, assistência social, medicina) e ao se aprofundar nos estudos perdeu por completo a ação das boas obras? Ou, quem não conheceu alguém que desejava mudar o mundo com pensamentos reais sobre a prática da vida, mas deixou de lado por ver que só falar é impossível, então começou a praticar coisas simples. Percebe como existe um abismo entre o pensamento (literário, estudo) e a prática (realização, obra, projetos). Essa separação foi criada pelo homem, pois existiu na historia alguém que ensinou e ao mesmo tempo praticou.
ELE praticou e ensinou
Atos 1:1 – “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo quanto Jesus começou a fazer e ensinar”
Fazer no grego (poieo) – produzir, construir, formar, modelar
Ensinar no grego (didasko) – conversar, instruir, pronunciar
Jesus fazia as duas coisas sem separá-las, ele produzia, agia diante de todos com curas e milagres (Mt.4:23), recebia as crianças (Mt.19:13), tocava os leprosos (Mt.8:3) acalmou uma tempestade (Mt.8:23), multiplicou pães e peixes (Mt.14:13) e até chicoteou pessoas que estavam profanando o templo (Jo.2:15). Ele não estava à mercê de qualquer pensamento filosófico ou de qualquer herança grega. Na vida de Jesus havia apenas uma direção, fazer a vontade do Pai (Jo.4:34/5:30/6:38/7:17), e essa vontade não podia ser controlada por homens ou por ensinamentos de pensadores, que lançam complicações naquilo que para Deus é apenas seu desejo sendo manifesto de forma normal no dia a dia. Observe como Jesus se assentava no monte para ensinar (Mt.5:2), e depois de ensinar partia para outros lugares para pregar (Mt.11:1), enviava os discípulos aguardando-os retornarem (Mt.10), criava estudos em forma de parábolas (Mt.13). Em Jesus se completa o fazer e o ensinar, não havia separação, era um só.
CRER
Vamos pensar um pouco sobre as três palavrinhas deste artigo: crer, crente e cristão. Parece ter a mesma origem e com o mesmo significado, mas na realidade existe uma fundamental diferença e uma explicação obvia para muitas ações que estamos vendo hoje na nossa Igreja atual.
A palavra “crer” no grego é pisteuo, que significa acreditar, depositar confiança em algo ou alguma coisa, tornando-se piedoso ou adepto de um ensinamento. É fácil compreender: Um homem pode crer (acreditar) em Deus, como também pode acreditar no diabo, ou na Aparecida, ou no santo Antônio ou até em um “ete”. Como opção de crença, ele se torna um adepto daquilo que optou.
A palavra “crer” não só se restringe há uma crença de vida, mas também para determinadas situações normais no dia a dia, por exemplo: Um homem comum entra pela manhã no ônibus. Esse homem não conhece o motorista, mas “crê” de forma simples que o condutor o levará até o seu destino. O “crer” harmoniza-se há um acreditar em algo que cada um de nós opta seguir, viver, trabalhar, decidir e andar. A forte questão nessa palavra está que todos passam a “crer” em inúmeras atividades ocorridas no dia a dia. Sendo assim, “crer” em algo faz parte da vida do homem, mesmo se sua crença for doentia, maluca ou ainda desconhecida. Se pegarmos um “ateu”, veremos nele a palavra “crer”, porque mesmo não reconhecendo a soberania de Deus, ele precisa “crer” em sua filosofia que não existe esse controle. Absurdo! Sim, mas o crer está enraizado no homem como natureza.
A Bíblia nos mostra que até os caídos (espírito inferior) tornam-se obrigados a reconhecer a existência de Deus através do crer: observe o texto de Tiago (2:19) – “ Crê tu que Deus é um só? Fazes bem; os demônios também o crêem, e tremem”. Note que a palavra crer neste texto está sendo exposta para nós e para os demônios. Com isso podemos nos surpreender, porque o mesmo crer usado para nós, também é usado para os demônios. Com essa base podemos concluir que não existe duas formas de crer, é uma palavra só, um sentido apenas, um sentimento criado.
CRENTE
Agora vamos estudar a palavra “crente” que no grego significa pistos, que quer dizer verdadeiro, fiel, digno de confiança, alguém que confia nas promessas de Deus, alguém que está convencido que Jesus Cristo ressuscitou dentro os mortos. Essa palavra se encontra no livro de Galatas (3:9) – “De modo que os que são da fé são abençoados como o crente Abraão”. Então eu te pergunto: qual a diferença entre apenas crer ou entender que somos crentes pela fé em Jesus Cristo? Se você pegar o nosso dicionário irá ver que a palavra crer e a palavra crente estão no mesmo significado. Mas se olharmos no grego, iremos notar que o crente não se limita apenas no compreender, mas caminha para realizá-lo. A grande diferença é que o crente não separa o entender do realizar, pois recebe pelo evangelho um pacote completo sem separação. O verdadeiro crer do evangelho te leva a ser um crente praticante da vontade de Deus, observe o texto: (3:6) – “assim como Abraão creu a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça”. O crer o levou a entender a justificação (aceitável a Deus, aprovado) para a prática, como o “crente Abraão”. Com essa base podemos entender o contexto do livro de Tiago e a comparação que faz sobre demônios que crêem e apenas estremecem. Tiago prossegue colocando o exemplo da vida de Abraão, que as obras caminharam junto com sua fé em Deus. Observe: Tg.2:20-23 “Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante? Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus”. O texto mostra o crer (fé) e as obras. Pense comigo: O Cristão recebe o pleno conhecimento de Cristo (Ef.1:17/4:13/Fp.3:8/Cl.1:9/2Pd.3:18), a revelação da obra da cruz, é o evangelho e a partir disso, dessa compreensão, as obras explodem segundo o coração de Deus. Podemos ver alguns exemplos muito claros de como o verdadeiro evangelho é um pacote completo e nele não há separação entre crer e fazer.
No livro de João (Cap.4) podemos ver uma história sendo narrada que ilustra com exatidão a força do evangelho. Jesus está numa cidade chamada Samaria, depois de uma viagem cansativa, pára perto de um poço onde encontra uma mulher (que podemos chamá-la de “a samaritana”, pois a bíblia nao menciona seu nome). No capítulo quatro do evangelho de João podemos ver uma das mais surpreendentes passagens da proclamação do evangelho, entre o filho de Deus, uma mulher e depois a sua consequencia. Desejo lhe mostrar um versiculo que prova esse fato: (Vrs, 28-30) - “Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens: Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo? Saíram, pois, da cidade, e foram ter com ele”. Se você observar notará que a samaritana, ouviu o evangelho e imediatamente o anunciou para toda uma cidade, alcançando um número forte de pessoas crendo em Jesus. (39) – “E muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, pela palavra da mulher” e (42) –“E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo”. Neste texto podemos ver o crer relacionado com as obras. Ela ouviu, creu e praticou. Ela entendeu e a consequencia foi o anunciar. É entender e caminhar em cima das obras que o Pai já nos preparou (Efésios 2:10 – “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”).
O crente. (religioso) nos dias atuais
Visualize um homem que vigia seu próprio comportamento, porque reconhece o evangelho aliado a questões morais. Ele não fala palavrão, não se veste de forma vulgar, não escuta músicas do mundo, não assiste filmes, não fala de futebol e sempre carrega uma bíblia. Talvez você também imagine um evangelho assim, ou crentes dessa forma. Se por um lado vemos uma categoria de crentes tradicionais como legalistas, por outro lado também vemos crentes mais liberais, que sempre estão num salão de beleza, em partidas de futebol, nos shoppings, cinemas, campings, ouvem todo tipo de músicas, possuem tatuagem, brincos, pierce, e por aí afora. Nesses dois grupos vemos uma imagem sendo carregada, a imagem do crente nos dias atuais. O problema nisso é que todas essas imagens, ou condutas, foram ensinadas, passadas, como um professor faz há um aluno. Ensinando passo a passo a forma e o modelo de como fazer uma determinada atividade. Pense comigo: um professor precisa ensinar seus alunos sobre uma determinada matéria, esse professor precisa arranjar um meio de fazer seus alunos entenderem a necessidade de aprenderem. Então vemos um líder usando de todas as formas para abrir em seus alunos um espaço de compreensão.
Um grupo atual de crentes faz a mesma coisa. Um novo integrante se aproxima e em breve está falando da mesma forma, se vestindo do mesmo modo e agindo pela fé com as mesmas programações de sua localidade. O individuo nunca foi para um hospital visitar alguém, mas se a sua localidade faz esse trabalho de evangelismo em hospitais, então é obvio que esse novo integrante irá fazer, se vestirá como os outros e falará da mesma maneira. Da mesma forma se houver um trabalho de evangelismo onde grupos se organizam com danças, teatros e outros meios, um novo membro fará tudo o que lhe ensinarem, pois se torna um adepto, como um aluno aprendendo.
Sabe onde está o problema nessa questão? O evangelho está produzindo apenas adeptos que crêem e não crentes que descobrem em Deus as obras que Ele nos preparou para que andemos nelas. Alguém que apenas crê, precisa ser ensinado como um aluno, ser preparado, ser motivado, ser convencido e ainda, ser mantido naquela orientação para que não mude de idéia. Um crente é totalmente diferente; ele é despertado pelo Espírito, e o Espírito Santo que habita em sua vida (ICor.3:16) o guia para descobrir o caminho e a verdade que deve seguir.
Observe comigo: É o Espírito Santo que irá te ensinar todas as coisas (João 14:26 – “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”) como um professor, que se assentará ao nosso lado (ele está dentro de nós) e mostrará individualmente o que cada um deve fazer. Ele também dará o testemunho do Pai (João 15:26 - “Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testemunhará de mim), como fará isso?
Através de cada um de nós. Nós somos o testemunho vivo do Pai na terra através do Espírito Santo. E é Ele através das nossas vidas (falar, agir, condutas, pensamentos, grupos, Igreja, palavra, música, testemunho) que trará o convencimento ao mundo (João 16:8 – “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo”).
FRASE: “Há dois tipos de pessoas: as que têm medo de perder Deus e as que têm medo de O encontrar.”
(Pascal)
Tento ser um crente e me torno um hipócrita
Para o religioso apenas crer é o suficiente. Quando ele tenta viver (evangelho) acaba se tornando um hipócrita, porque olha as suas obras como uma vitória e não como uma conseqüência de uma vida diária com Deus, não é prazer é obrigação. É só você imaginar a diferença entre um filho e um servo: o filho sabe qual é o prazer do Pai, como também sabe quais são as ordens do Pai. Viver ao lado do Pai é sempre um aprendizado e qualquer ação, seja ela como ordem ou lazer, sempre estará envolvida num sentido de comunhão, relacionamento e amizade.
O servo também conhece as ordens, e a conseqüência de não realizá-las, e pelo fato de vê-las como obrigação, espera o senhor da casa sair para não efetuá-las (Mt.24:48). Ou, as pratica de forma extremamente correta, mas nunca a ultrapassa, sempre se mantém na mesma linha (Mt.5:20), tornando-se um inútil na novidade que o Espírito tem para realizar (Lucas 17:10 – “Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer”).
O servo (religioso) nunca irá ver a figura de Deus como um Pai, mas sempre o verá como um rigoroso general, ou um ditador autoritário e distante. Seu relacionamento com Deus será sempre baseado em leis e cumprimentos, nunca será de forma amiga, inesperada, carinhosa e prazerosa (João 15:15 – “Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer”).
O grande problema atual é que as igrejas estão lotadas de “servos”. Quando uso esse titulo, o coloco de forma que se harmoniza ao contexto do artigo, no sentindo de pessoas que apenas crêem (pisteuo), e são simpatizantes. Vêem a igreja como um clube social, um convívio de funções não tão ameaçadoras moralmente como o mundo é, então se tornam moralistas que aprovam suas próprias ações para morar no céu.
Nossas igrejas estão lotadas de pessoas que crêem na verdade que está sendo pregada no púlpito e ao mesmo tempo, crêem em fofocas, em mentiras, em heresias, em sermões enganosos, em todo tipo de comunicação que só gera divisão, duvida e morte para uma comunhão eclesiástica.
FRASE: “Muitos seguem a Jesus até a distribuição do pão, mas poucos até beberem o cálice da paixão.”
(Tomás de Kempis)
Ser Cristão está além de apenas crer
Ser um cristão é bem diferente de ser apenas um simpatizante ou um adepto. A palavra cristão vem do grego Christianos, que significa ser um seguidor de Cristo. A primeira vez que essa palavra foi usada, está no contexto do livro de Atos (11:26) – “...em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos”. Sabe porque? Eles demonstravam através de suas próprias vidas o testemunho vivo de Cristo. Tudo o que resumia a vida dos discipulos, era uma forma expessiva de mostrar o quanto Jesus ainda estava vivo e atuante. Um cristão atua em sua crença, que está viva e explodindo em seu coração, expressando de forma ilimitada a glória de Cristo. Ele se torna o canal de Deus por onde o Espírito o deseja levar (Jo.3:8).
FRASE: “O que significa ser um Cristão? É ser constrangido por um senso do amor de nosso Senhor, de tal modo que lhe consagramos nossa vida”
(Charles Hodge)
Um cristão descobre os segredos do Pai (Jer.33:3), anda na linha do Espírito, ouvindo seu desejo (At.15:28), consegue viver como Igreja (At.2:46), vive os milagres de Deus (At.5:15), enxerga o sobrenatural (At.5:19), é impedido pelo Espírito (At.16:6), destrói prisões (At.16:26), é prercursor de um grande avivamento (At.19), ressuscita os mortos (At.20:10), ama sua pátria celestial (Hb.11:16), pratica a justiça (Hb.11:33), busca uma melhor ressusrreição (Hb.11:35), é torturado, perseguido, caluniado, apedrejado, tentado, maltratado, humilhado e sempre compreende, que todas essas coisas sobem como glória ao Único e Eterno Deus.
Encerro este artigo com a honestidade do autor de Hebreus em dizer que o mundo não é digno de ter os cristãos, porque não os reconhece, e não os valoriza.
Hebreus 11:37,38 – “Outros foram mortos a pedradas; outros, serrados pelo meio; e outros, mortos à espada. Andaram de um lado para outro vestidos de peles de ovelhas e de cabras; eram pobres, perseguidos e maltratados. Andaram como refugiados pelos desertos e montes, vivendo em cavernas e em buracos na terra. O mundo não era digno deles!”
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