A Confissão de Fé de Guanabara sendo analisada com os escritos dos pais da Igreja (a Patrística)
Na confissão de fé de Guanabara,
encontramos no primeiro ponto alguns elementos de fé que podemos comparar com
os pais da Igreja e ver grande semelhança, vejamos uma parte do primeiro ponto:
“Cremos em um só Deus, imortal e invisível, criador do céu e da terra”, e
podemos comparar com o Credo Niceno que diz “cremos em um só Deus, Pai todo
poderoso, criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis”. Neste ponto e de
acordo com Hermas, “o primeiro mandamento é crer que Deus é um só o qual criou
e estabeleceu todas as coisas, fazendo-as existir a partir da não existência”,
mas para Clemente, “Deus é o Pai e Criador de todo o cosmo” e para Barnabé e o
Didaquê, “nosso criador”, reconhecidas sua Onipotência e Sua soberania
universal, pois Ele é o Senhor Todo Poderoso.
Com Justino vemos a unicidade, a
transcendência e a função criativa de Deus declaradas numa linguagem fortemente
influenciada pelo estoicismo platonizante da época, ou seja, Deus é eterno,
inefável e sem nome, imutável, impassível e ingerado. Teófilo de Antioquia diz
que “Deus criou tudo o que desejava conforme desejava”, para ele, Deus não teve
princípio porque é um ser incriado, imutável, porque é imortal, Senhor porque é
Senhor sobre todas as coisas e Pai porque é anterior a todas as coisas. Irineu
dizia que “nada existe acima ou além dEle, visto que só Ele é Deus, só Ele é
Senhor, só Ele é Criador, só Ele é Pai, e só Ele contém todas as coisas e a
elas outorga existência”.
Em outro ponto sobre a Trindade, uma
herança conquistada pela história da Igreja e podemos encontrá-la na fé de
Guanabara que diz: “o qual é distinto em três pessoas: o Pai, o Filho e o Santo
Espírito, que não fazem senão uma mesma substancia em essência eterna e uma
mesma vontade”, e no concílio de Nicéia vemos um forte levante da Igreja contra
o Arianismo, doutrina defendida por Ário presbítero de Alexandria que
acreditava que o Pai era maior que o Filho e que este era maior que o Espírito
Santo. Essa heresia dizia que por meio do Filho o Pai teria criado o universo,
mas o próprio Filho também teria sido criado, não sendo, portanto eterno e nem
verdadeiro Deus.
Observe como o pensamento Ariano também é
oposto a confissão de fé de Guanabara, podemos notar uma confissão de fé contra
a ideia Ariana e bem próxima da fé defendida pelos cristãos históricos, se
compararmos com a doutrina defendida pelo Concílio de Nicéia iremos ver o
seguinte: “E em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus, gerado do Pai,
unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus
verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial do Pai, por
quem todas as coisas foram feitas do céu e na terra, o qual por causa de nós
homens e por causa de nossa salvação desceu, se encarnou e se fez homem,
padeceu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus e virá para julgar os
vivos e os mortos”. Nesta mesma linha de
defesa podemos ver que Atanásio dizia que “do Pai como ótimo criador, tudo
governa, dispõe e faz convenientemente o que lhe parece justo, por sua
sabedoria e por seu verbo, Cristo, nosso Senhor e Salvador” e da relação do Pai
e seu Filho e como se envolvia na criação, Atanásio dizia: Portando, da
criação, obra do Verbo do Pai, Verbo que é o próprio ser, dele participa e é
por ele auxiliada, a fim de não cessar de existir, o que aconteceria, caso não
fosse guardada pelo Verbo, que é a imagem do Deus invisível, primogênito de
toda criatura. Por Ele e nEle tudo existe, tanto as coisas visíveis quanto as
invisíveis. Ele é também o “Cabeça da Igreja”.
Hipólito relutou em designar a Palavra como
Filho em qualquer outro sentido que não fosse proléptico até a encarnação. Já
Tertuliano, acompanhou os apologistas, indicando que sua geração perfeita teria
ocorrido quando ele foi extrapolado para a obra da criação. Antes desse
momento, não se poderia dizer exatamente que Deus tinha um filho, enquanto,
depois disso, o termo “Pai” que para os teólogos anteriores, em geral, dizia
respeito à Deus como autor da realidade. Então começou a adquirir o sentido
especializado de pai em relação ao Filho. Gerado dessa maneira, a palavra ou o
Filho é uma mesma pessoa.
Hipólito e Tertuliano estavam em harmonia
com Irineu ao considerar os três revelados na economia como manifestações da
pluralidade como eles perceberam, ainda que de modo obscuro, na vida imanente.
Para Orígenes, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três pessoas. Essa
afirmação de que cada um dos três é uma hipóstase distinta desde toda a
eternidade não se tendo manifestado apenas na economia, como acreditavam
Tertuliano e Hipólito.
Essa é uma das principais características
da doutrina, brotando diretamente da ideia de geração eterna. De acordo com seu
ponto de vista, o verdadeiro ensino é que o Filho é outro em subsistência em
relação ao Pai, ou até mesmo que o Pai e o Filho são dois no que diz respeito
às suas pessoas. Entretanto, eles são um só em unanimidade, harmonia e
identidade de vontade.
Desse modo, conquanto realmente distintos,
de outro ponto de vista, os três (Pai, Filho, Espírito Santo) são um só
conforme Orígenes diz: “não temos medo de, no sentido, falar de dois deuses e,
em outro de um só Deus.” A cerca do Espírito Santo Orígenes declara: “Aqueles
que, por causa dEle e da participação nEle são chamados santificados, Ele
fornece o conteúdo, se é que posso descrevê-lo assim, de suas graças”. Este
mesmo conteúdo das graças é efetuado por Deus, ministrado por Cristo e alcança
subsistência individual como o Espírito Santo”.
Dionísio de Alexandria repudiou a acusação
de separar Pai, Filho e Espírito. Os três são, obviamente, inseparáveis, como
demonstram Seus próprios títulos: Um Pai implica um Filho, um Filho implica um
Pai, e Espírito implica tanto a fonte de onde procede quanto o meio dessa
procedência. Assim mesmo, é preciso ficar com sua definição de que Eles são
três hipóstases, na medida em que são três; caso contrário, dissolve-se a
tríade.
Ronaldo José Vicente (ronjvicente@gmail.com)

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