A morte da razão, Francis Schaeffer (Resumo do livro apresentado na aula de Filosofia, faculdade Presbiteriana Mackenzie)
Natureza e Graça
Vamos iniciar com Tomás
de Aquino (1225-1274) que abriu o caminho para a discussão do que chamamos
de “natureza e graça”, que podem ser representadas em termos do seguinte forma:
GRAÇA, O NÍVEL
SUPERIOR: Deus o criador; o céu e as coisas celestes, o invisível e sua
influência na terra, a alma humana.
NATUREZA, O NÍVEL
INFERIOR: A criação, a terra e as coisas terrenas, o visível e o que fazem a
natureza e o homem na terra.
Nesta época as formas de pensamento eram bizantinas e
as realidades celestiais capitalizavam toda importância e se revestiam de tal
santidade que não eram retratadas de maneira realista. Destarte, antes de Tomás
de Aquino, dava ênfase às coisas celestes representadas através de símbolos,
com pouco interesse pela natureza. Com o advento de Tomás de Aquino temos o
verdadeiro surto da Renascença humanista.
Uma boa porção de coisas excelentes adveio do surto do
pensamento renascentista. A natureza passou a usufruir de um conceito mais apropriado.
Do ponto de vista bíblico a natureza é importante porquanto criada por Deus e,
por isso, não deve ser menosprezada. Nem devem ás coisas relativas ao corpo ser
desprezadas quando comparadas com as da alma. Tudo que reflete a beleza se
reveste de importância. A sexualidade em si mesma não é um mal. Tudo isto se
integra no fato de que Deus nos outorgou na própria natureza uma dádiva
excelente, pelo que, se o homem a desdenha está na realidade atentando contra a
dignidade daquilo que é criação divina. Destarte em certo sentido está
desprezando o próprio Deus, pois que despreza o que Deus criou.
Vejamos agora o diagrama de natureza e graça numa
perspectiva diferente. Na concepção tomista a vontade humana estava caída, mas
não o intelecto. Dessa noção incompleta do conceito bíblico da Queda, vieram
todas as dificuldades. O intelecto humano se tornou autônomo. Em um aspecto era
o homem agora independente, autônomo.
Esta esfera do autônomo em Tomás de Aquino assume
várias formas. Um dos resultados foi o desenvolvimento da teologia natural. A
teologia natural é uma teologia que se poderia formular independentemente das
Escrituras. Com base neste princípio de autonomia, também a filosofia se tornou
livre e se separou da revelação. Portanto, a filosofia começou a criar asas,
por assim dizer, voando por onde quer que lhe aprazia, deixando à margem as
Escrituras.
Os primeiros pintores e escritores como Cimabue
(1240-1302), mestre de Giotto (1267-1337) começaram a pintar as coisas da
natureza como natureza. Neste período de transição a mudança não ocorreu toda
de uma vez. Havia a tendência de se pintarem os elementos de menos importância
no quadro de forma naturalista, continuando porém a se representar Maria, por
exemplo como um Símbolo.
Depois Dante (1265-1321) passou a escrever de maneira
como estes artistas Pintava e tudo começa a alterar-se no sentido, de que a
natureza veio a tornar-se importante. Pode-se perceber nos também isso nos renomados
escritores, Petrarca (1304-1374) e Bocácio (1313-1375). Petrarca foi o primeiro
de quem se ouviu dizer; jamais haver escalado montanhas sem ser pelo simples
prazer de fazê-lo. Tal interesse pela natureza como Deus a criou é, como já
vimos, bom e apropriado, mas Tomás de Aquino havia aberto um caminho ao
Humanismo Autônomo, com uma filosofia autônoma e logo o movimento adquiriu
força e a tendência se tornou um verdadeiro dilúvio.
Natureza versus graça
A medida que a natureza se fazia autônoma, passava a
”devorar” a graça. Através da Renascença, de Dante a Miguel Ângelo,
gradualmente a natureza se fez mais inteiramente autônoma. Ela libertou-se de
Deus à medida que os filósofos humanistas começaram a operar cada vez mais à
vontade. Quando a Renascença chegou ao seu clímax, a natureza havia devorado a
graça.
Vejamos no Norte Europeu, Van Eyck (1380-1441) foi quem
abriu a porta à natureza numa nova maneira pois começou a pintar de forma real,
tal qual se mostra. Em 1410, data muito importante na história da arte, pintou
uma miniatura de reduzidas proporções que de apenas doze por oito centímetros.
É, contudo, um quadro de tremendo significado porque representa a primeira
paisagem real que deu origem a todos os fundos de quadro que surgiram
posteriormente no decurso da Renascença. O tema é o batismo de Jesus, mas a
cena abrange apenas diminuta área no quadro como um todo. O fundo apresenta um
rio, um castelo muito real, casas, colinas e outros elementos. A natureza se
tornou importante e depois desta, paisagens do gênero se difundiram rapidamente
do norte ao sul da Europa.
Surge logo o estágio seguinte. Em 1435, Van Eyck pintou
a Madonna do Chanceler Rolin que está no Museu do Louvre em Paris. A
característica significante é que o Chanceler Rolin, ao defrontar-se com Maria,
tem as mesmas dimensões que ela. Maria não mais se retrata remota, o Chanceler
não mais uma figura minúscula, como teria sido o caso em relação aos
patrocinadores do período anterior.
Mas o que mais penetrou nesta questão foi a obra de
Filippo Lippi (1406-1469), e salta à vista que a natureza começa a “devorar” a graça
de modo mais sério do que se viu na Madona do Chanceler Rolin, de Van Eyck.
Bem poucos anos antes, artista nenhum ousaria pensar em pintar Maria em moldes
naturais. Quando, porém, Filippo Lippi executou o quadro da Madona em
1465 a mudança que se patenteava era surpreendente. Retratava uma jovem
extremamente formosa com uma criança nos braços em uma paisagem que sem dúvida
fora grandemente influenciada pela obra de Van Eyck. Esta Madona já não
mais era um símbolo remoto, distante, de cunho transcendente, era uma linda
jovem com uma criança. Mas a jovem que representava Maria era nada menos que
sua amante, fato conhecido de toda Florença. Ninguém teria ousado fazer isso
alguns anos antes. A natureza estava matando a graça. Leonardo da Vinci é a figura que em seguida se
impõe à consideração. Viveu de 1452 a 1519, faixa que se reveste de não
reduzida importância porquanto coincide com os primórdios da Reforma Protestante.
Integra também, e com acentuada relevância, a assinalada mudança que se
manifestou no pensamento filosófico. Nos dias de Leonardo da Vinci era o
Neo-Platonismo a força dominante em Florença. Assumiu essa relevância
simplesmente porque se fazia mister encontrar algo a colocar-se no “andar
superior”. O Neo-platonismo era colocado a essa privilegiada posição com vistas
a restaurar idéias e ideais – isto é, coisas universais.
GRAÇA – UNIVERSAIS
NATUREZA – PARTICULARES
Uma Unidade de Natureza e Graça
A esta altura é importante observar certas relações históricas.
Calvino nasceu em 1509 e suas Institutas foram escritas em 1536. Leonardo
faleceu em 1519, o mesmo ano em que se travou a Disputa de Leipzig entre Lutero
(1483-1546) e Dr. Eck. O rei que levara Leonardo para a França no final da vida
foi Francisco I, o monarca reinante a quem endereçara Calvino suas Institutas.
Chegamos, pois, a um ponto de justa posição da Renascença e Reforma. Quanto
a este problema de unidade a Reforma deu resposta completamente oposta à da
Renascença. A Reforma repudiou tanto a formulação aristoteliana quanto a
neo-platônica. Que resposta deu, pois? Sustentou que a raiz da dificuldade
brotava do velho e crescente humanismo. A Reforma aceitou a noção bíblica de
uma Queda total. O homem em sua totalidade era obra de Deus; agora, porém, é
decaído em toda a sua natureza, inclusive o intelecto e a vontade. Encontraste
coma posição tomista, admitia que somente Deus é autônomo.
Os evangélicos devem observar, neste ponto, que a
Reforma afirmou “a Escritora somente”, e não “a Revelação de Deus em Cristo
somente”. Se não temos das Escrituras o mesmo conceito que tiveram os
Reformadores, não contamos como real conteúdo da palavra “Cristo” e esta é a
moderna tendência na teologia. A Reforma, porém, seguiu o ensino do próprio
Cristo vinculando a revelação que fizera de Deus com a revelação escrita, a
Escritura.
O homem da Reforma sabia que a criatura marcha rumo ao Inferno
em razão da revolta contra Deus. Todavia o homem da Reforma e aqueles que após
a Reforma forjaram a cultura do Norte Europeu sabiam que, enquanto o homem é
moralmente culpado diante do Deus que existe, ele não é o nada. O homem
moderno tende a julgar-se ser nada. Aqueles, entretanto, sabiam que eram
exatamente o oposto do nada porque conheciam o sentido de serem feitos à imagem
de Deus.
Este Deus da Bíblia, pessoal e infinito é o Criador de
tudo mais. Deus criou todas as coisas e as criou do nada. Logo, tudo mais é
finito, criatura. Ele, e Ele somente, é o Criador infinito.
Há não poucos resultados práticos dessas diferenças
entre o pensamento da Renascença e o da Reforma. Por exemplo, a Renascença
outorgou liberdade à mulher. Não menos o fez a Reforma e com grande diferença,
porém a obra de Jacob Burckhardt – A Civilização da Renascença na
Itália, publicada na Basiléia em 1860 é ainda padrão nestas questões.
Ressalta ele que a mulher da Renascença na Itália era livre, contudo, havia o
preço elevado da imoralidade geral.
A posição bíblica, acentuada pela Reforma, sustenta que
nem a concepção platônica nem a humanista satisfaz. Primeiro, Deus fez o homem
todo e está interessado na totalidade do ser humano. Segundo, quando se deu a queda,
fato histórico que ocorreu no tempo e no espaço, ela afetou o homem inteiro.
Terceiro, à base da obra de Cristo como Salvador e
mercê do conhecimento que temos na revelação das Escrituras, há redenção para o
homem no seu todo. No futuro, o homem integral será levantado dentre os mortos
e redimido perfeitamente. Desta sorte, isto que dizer que Cristo é Senhor em
ambas as áreas igualmente: Tanto graça como natureza.
A ciência moderna nos primórdios
Francis Bacon (1561-1626), afirmou, na obra Novum
Organum Scientiarum que “O homem pela queda decaiu ao mesmo tempo do estado
de inocência e do domínio sobre a natureza. Ambas essas perdas, entretanto,
podem ser mesmo nesta vida reparadas em parte; a primeira religião e a fé,
a segunda pelas artes e ciências”. Portanto, a ciência foi admitida, no melhor
sentido, como atividade religiosa. Francis Bacon não via a ciência como autônoma,
pois se situava no âmbito da revelação das Escrituras ao ponto da queda.
Todavia, dentro dessa “forma”, a ciência e a arte eram livres e de valor intrínseco
não só diante dos homens como também de Deus.
A ciência nos seus primórdios era uma ciência natural
porque tratava de coisas naturais, mas longe estava de ser naturalista, pois,
embora sustentasse a uniformidade das causas naturais, não concebia a Deus e ao
homem como presos dentro do mecanismo. Tais cientistas nutriam a convicção,
primeiro, de que Deus propiciou conhecimento ao homem, conhecimento de Si
próprio e também do universo e da história; e, segundo, de que Deus e o homem
não eram partes do mecanismo e poderiam afetar a operação do processo de causa
e efeito. Dessa forma, não havia uma situação autônoma no “andar de baixo”.
Assim se desenvolveu a ciência, uma ciência que tratava do mundo natural e real
que, porém, ainda não se havia tornado naturalista.
A moderna ciência moderna dos primórdios criam uma
uniformidade das causas naturais. O que não aceitavam era a uniformidade das
causas naturais em um sistema fechado. Aquela pequena frase faz,
entretanto, uma diferença enorme. Faz a diferença entre ciência natural e uma
ciência que tem suas raízes na filosofia naturalista. Faz toda a diferença
entre o que eu chamaria de ciência moderna e o que eu designaria de moderna
ciência moderna. É importante ponderar que isto não é uma falha da ciência como
ciência; antes, que a uniformidade das causas naturais em um sistema fechado se
tornou a filosofia dominante entre os cientistas.
O existencialismo secular se divide em três correntes
principais representadas por: Jean-Paul Sartre (nascido em 1905) e Camus
(1913-1960) na França, Jaspers (nascido em 1883) na Suíça, Heidegger (nascido
em 1889) na Alemanha.
Em primeiro lugar, Jean-Paul Sartre. Diz racionalmente,
que o universo é absurdo e o homem deve buscar autenticar-se a si mesmo. Como?
Mediante um ato da vontade. Em segundo lugar, Jaspers. Ele é fundamentalmente
um psicólogo e fala da uma “experiência final”, isto é, uma experiência que lhe
proporciona a certeza de que você existe e uma esperança de significado,
embora, racionalmente, não lhe seja possível auferir tal esperança. Em terceiro
lugar, temos o que Heidegger denomina Angst. Angst não é medo
simplesmente, pois o medo tem um objeto. Angst é um vago senso de temor,
a
sensação desagradável que se tem quando se entra em uma casa que se tem
por assombrada. Heidegger firmou tudo nesta espécie de ansiedade básica.
Portanto, os termos por que se expressa andar superior não fazem diferença
alguma. A base deste sistema reside no salto. A esperança está separada do
andar inferior racional.
A Arte como salto no Andar Superior
No andar superior vemos o homem lutando pela liberdade.
A liberdade que era buscada era uma liberdade absoluta, sem limitações. Não
existe Deus, nem mesmo um universal, a limitá-lo de sorte que o indivíduo
procura expressar-se com total liberdade e, todavia, ao mesmo tempo, sente a
condenação de ser absorvido na máquina. Esta é a tensão do homem moderno.
No esforço que o homem faz por expressar a liberdade a
seu próprio modo autônomo, muito embora não o todo, de sua arte torna-se
destituído de qualquer sentido. Em contraste, muitos projetos industriais estão
tornando-se mais regulares, em padrões mais estilizados, com real estética e
formosura. Isso ilustra como a ciência em si não é autonomamente livre mas deve
ater-se ao que existe. Mesmo que o cientista ou filósofo sustente que tudo é
fortuito e sem sentido, ele está limitado, pois que tem de lidar com o que acha
aí. Se assim não procede a ciência deixa de ser real ciência para tornar-se
ficção científica. O projeto industrial, como a ciência, está de igual modo
junto à forma do universo e, portanto é frequentemente mais belo que a “Arte”
que expressa a rebelião e o desespero do ser humano. Estamos agora em condições
de ponderar algumas das várias expressões de arte que apresentam o salto do andar superior.
A posição de Heidegger com uma parcela do Ser é o ser,
o homem que exerce a função verbalizada. Em consequência, uma vez que há
palavras no universo, nutrimos a esperança de alguma forma de significado do
Ser, isto é, o que é. Observa-se naturalmente que o poeta existe e, em sua
existência se torna o profeta. Já que a poesia está em nosso meio, podemos
ceder à esperança de que há em relação à vida mais do que simplesmente o que se
admite em bases lógicas e racionais. Este é, pois outro exemplo de um andar
superior irracional, sem nenhum conteúdo.
Outro exemplo é Picasso. Ele tentara criar o universal
por meio da abstração. Suas telas abstratas chegaram a tal ponto que não era
mais necessário diferenciar uma loura de uma morena, ou um homem de uma mulher,
ou mesmo uma criatura humana de uma cadeira! A abstração havia sido levada tão
longe que Picasso fizera seu próprio universo na tela. Na realidade parecia que
nessa época ele estava tentando fazer com êxito o papel de deus em seus
quadros. No momento, porém, em que pintou o universal não mais o particular,
estabeleceu em um dos dilemas do homem moderno, a falta de comunicação. O
indivíduo que contemplava o quadro perdeu toda a comunicação com a obra de arte
diante da qual se posta, não se sabe o que a tela representa. Que adiante ser
deus nua superfície de 60cm por 120cm se ninguém sabe de que se está tratando!
A moderna literatura pornográfica se explica nestes
mesmos termos. sempre houve escritos desta natureza mas são diferentes. Não são
meras obras imundas da espécie que sempre se encontrou, muitas das obras pornográficas
da atualidade são exposições filosóficas. Focalizem-se os escritos de alguém
como Henry Miller. Verifica-se que são a afirmação de que, do ponto de vista
racional e lógico, até mesmo a sexualidade está morta; contudo, em obras mais
recentes lança-se ele a um panteísmo em busca de uma esperança de sentido ou
significação.
Loucura
Os racionalistas não descobriram qualquer espécie de
unidade, ou qualquer esperança de solução racional. Este conceito quase
monolítico se pode sentir no cinema e na televisão tanto quanto nas demais
áreas a que já nos referimos. Os produtores cinematográficos de renome e
talento da atualidade têm todos basicamente a mesma proclamação ou mensagem. O que
é realmente perigoso é que o povo está assimilando esta mensagem típica da mentalidade
do século vinte sem ser capaz de entender o que lhe está acontecendo. Essa
razão porque esta mentalidade tem penetrado não apenas na esfera dos
intelectuais mais ainda na própria massa de nível cultural mais modesto.
A urgente necessidade de nossos dias é compreendermos o
sistema moderno como um todo e apreciarmos o significado da dualidade, da
dicotomia e do salto. O andar superior, como já vimos, pode assumir muitas
formas, algumas religiosas, outras seculares, algumas sujas, outras limpas. A
própria essência do sistema conduz ao fato de que o tipo de palavras usadas em relação
ao andar superior não importa, nem mesmo o nome tão amado como o de
"Jesus".
Ronaldo José Vicente (ronjvicente@gmail.com)

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