Em que Crêem os que não Crêem (Resenha feita para a disciplina de Filosofia, faculdade Presbiteriana Mackenzie)



Em que Crêem os que não Crêem.

O livro “Em que crêem os que não crêem” começa com um diálogo entre Umberto Eco e o cardeal Carlo Maria Martini. O início é o pronunciamento de Umberto para o Cardeal Carlo falando sobre a história e como desde tempos primórdios, pessoas estão sustentando a ideia de uma catástrofe, algo relacionado ao fim do mundo, Umberto dá exemplo do apocalipse escrito por João e como o próprio cristianismo incorporou esta direção, vejamos o que ele diz: -“as sete trombetas, e o pedrisco e o mar que se converte em sangue, e a queda das estrelas, e das lagostas que surgem com a fumaça do poço do abismo e os exércitos do Gog e Magog, e a Besta que surge do mar; a não ser, o multiplicar-se dos depósitos nucleares incontrolados e incontroláveis; e as chuvas ácidas; e os bosques do Amazonas que desaparecem; e o buraco de ozônio; e as migrações de hordas de deserdados que vão a chamar, às vezes com violência, às portas do bem estar; e a fome de continentes inteiros; e novas e incuráveis pestilências; e a destruição interessada do solo; e os climas que se modificam; e as geleiras que se degelam; e a engenharia genética que construirá nossos replicantes; e, segundo o ecologismo místico, o necessário suicídio da humanidade inteira, que terá que perecer, para salvar à espécie que quase destruiu, a mãe Géia a que desnaturalizo e sufocou”. Segundo Umberto, isso nos leva ao terror das massas, mas que este conceito adquirido pelos cristãos é mais do mundo laico do que dos cristãos.
No caso de Agostinho e a patrística doa ao mundo a idéia da História como trajetória, uma ideia estranha para o mundo pagão, mas foi o cristianismo que inventou a história e o Anticristo. O historicismo laico apenas entendeu esta história como imensamente imperfeita de modo que o manhã aperfeiçoe o hoje. Mas essa não é a forma de pensar de todo o mundo laico, que da história em qualquer caso, dá-se uma visão da história originalmente cristã cada vez que este caminho se percorre sob o sinal da Esperança.
Umberto coloca várias perguntas ao Cardeal como: -“Existe uma noção de esperança em relação ao amanhã que possa ser comum à crentes e não crentes? Que função crítica pode adotar uma reflexão sobre o fim que não implique desinteresse pelo futuro, a não ser, julgamento constante aos enganos do passado?”
A resposta do Cardeal Carlo não concorda com a ideia de Umberto dizendo que o medo ao futuro existe, pois os milenarismos se reproduziram constantemente ao longo dos séculos, seja em forma de seitas ou grandes movimentos utópicos. Hoje são as ameaças ecológicas que vão substituindo às fantasias do passado. O cardeal responde sobre o Apocalipse podendo defini-lo como um depósito de imagens de terror, que evocam um fim trágico e irremissível, face às semelhanças de tantas páginas do chamado Apocalipse de São João, com outros numerosos textos apocalípticos daqueles séculos.
O cardeal explica o apocalipse é, em geral, a fuga do presente para refugiar-se em um futuro que, depois de ter desbaratado as estruturas atuais do mundo, instaure com força uma ordem de valores definitiva, conforme às esperanças e desejos de quem escreve o livro. Depois da literatura apocalíptica se acham grupos humanos oprimidos por graves sofrimentos religiosos, sociais e políticos, os quais, não vendo saída alguma na ação imediata, projetam-se na espera de um tempo, no qual as forças cósmicas se abatam sobre a terra para derrotar todos os seus inimigos. Neste sentido, pode observar-se que em todo apocalipse há uma grande carga utópica e uma grande reserva de esperança, entretanto, ao mesmo tempo, uma desolada resignação em relação ao presente. Mas tudo isso também se define na salvação e não há nada que venha a se opor a salvação dos cristãos.
O cardeal concorda com Umberto quando diz que a ideia do fim dos tempos é hoje mais própria do mundo laico que do cristão, mas o sentido cristão caminha por três direções, primeiro, a história possui um sentido, uma direção de marcha, não é um mero amontoado de feitos absurdos e vãos. Segundo, este sentido não é puramente imanente, mas sim, projeta-se além dela, e portanto não deve ser objeto de cálculo, mas sim de esperança e em terceiro esta perspectiva não esgota, mas sim, solidifica o sentido dos acontecimentos contingentes: é o lugar ético, no qual se decide o futuro meta-histórico da aventura humana. Agrada-me esta consonância sobre o sentido que tem a história e que permite que possam se amar as realidades terrenas e acreditar com caridade que exista ainda lugar para a Esperança.

 Quando começa a vida humana?

Umberto pergunta para o Cardeal sobre a vida e diz que não se vê jamais na circunstância de, ante uma mulher que se declarasse grávida por causa de minha colaboração, ter que lhe aconselhar o aborto, ou dar meu consentimento à sua vontade de abortar. Se me ocorresse algo assim, faria todo o possível para persuadi-la de que dessa vida a essa criatura, fosse qual fosse o preço que juntos tivéssemos de pagar, ele afirma que não se sente capaz de impor esta posição ética à ninguém. Considero que existem situações terríveis, das quais todos nós sabemos pouquíssimo, nas quais a mulher tem direito a tomar uma decisão autônoma, que afeta seu corpo, seus sentimentos e seu futuro, mas outros apelam aos direitos da vida: se em nome do direito à vida não podemos consentir que ninguém mate a um semelhante, e nem sequer que se mate a si mesmo, da mesma forma, não podemos permitir que ninguém tranque o caminho de uma vida iniciada.
Alguns irão caminhar com o sentido da vida também na natureza, ou seja, existe uma mãe terra que coordena todas as coisas, outros sendo apenas vegetarianos, que renunciam em respeito da vida vegetal para proteger a animal. Há ascetas orientais que cobrem a boca para não ingerir e destruir microorganismos invisíveis.
Se por ventura um macaco, oportunamente educado, sem capacidade para falar, mas sim de teclar, sustentando um diálogo; manifestando afetos, memória, capacidade de resolver problemas matemáticos; receptividade ante os princípios lógicos da identidade e do terceiro excluído, consideraríamos um ser quase humano? Reconheceríamos direitos civis? Veríamos como humano porque pensa e ama?
Umberto enfatiza claramente onde deseja chegar quando pergunta: - Quando começa a vida humana? Existe um não crente, que afirme que, um ser é humano, unicamente, quando a cultura o iniciou à humanidade, com linguagem e pensamento articulado, por isso, não constitui delito matar a um menino que acaba de nascer. Se a vida e humanidade estão já no sêmen consideraremos que o desperdício do sêmen é igual ao homicídio?
        A resposta do Cardeal Carlo diz que a vida humana participa da vida de Deus e a partir desta evidência devemos reconhecer que o tema da Vida constitui sem dúvida um dos pontos críticos de conflito, em especial no que se refere à legislação sobre a interrupção do embaraço, pois uma coisa, com efeito, é falar da vida humana e de sua defesa do ponto de vista ético, e outra é perguntar-se pela maneira concreta mediante a qual uma legislação pode defender, do melhor modo possível, estes valores em uma determinada situação civil e política.
O Cardeal explica a Umberto o conceito real de vida ao dizer que pela primeira acepção se entende qualquer ser vivente no céu, sobre a terra e clandestinamente, e em ocasiões inclusive a mesma com seus sobressaltos, sua fecundidade, sua respiração. O hino ambrosiano da noite da quinta-feira canta, referindo-se ao primeiro capítulo de Gênese: “O quarto dia tudo o que vive, tirou, Oh, Deus, das águas primordiais: saltam os peixes no mar, os pássaros se perseguem pelo ar”. Mas não é este conceito extenso de Vida o que está agora em questão, por muito que possa haver aqui, diferenças culturais e inclusive religiosas, pois o candente problema ético se refere à vida humana.
Ele prossegue mostrando uma maneira teológica de se entender a vida, pois pensa-se às vezes, e assim se escreve, que a vida humana é para os católicos o valor supremo. Semelhante maneira de expressar-se resulta pelo menos imprecisa. Não corresponde aos Evangelhos, pois a vida que representa o supremo valor para os Evangelhos não é a vida física e, nem sequer, a psicológica, para as quais os Evangelhos usam os termos gregos bios e psyché, a não ser, a vida divina comunicada ao homem para a qual se usa o termo zoe. Os três termos se distinguem cuidadosamente no Novo Testamento e os dois primeiros ficam subordinados ao terceiro. Por isso, quando dizemos Vida com maiúscula, devemos entender antes que nada a suprema e muito concreta Vida e Ser que é Deus mesmo. É esta a vida que Jesus se atribui a si mesmo e da que todos os homens e as mulheres são chamados a formar parte. O valor supremo neste mundo é o homem vivente da vida divina.
O cardeal conclui dizendo que por aí se compreende o valor da vida humana física na concepção cristã: é a vida de uma pessoa chamada a participar da vida de Deus. Para um cristão, o respeito da vida humana desde sua primeira individuação não é um sentimento genérico, mas sim um encontro com uma precisa responsabilidade: deste ser vivente humano concreto, cuja dignidade não está ao arbítrio, unicamente, de uma valoração benévola minha, ou de um impulso humanitário, mas sim de uma chamada divina.
Sobre a concepção, todos sabemos que hoje se conhece melhor a dinâmica do desenvolvimento humano e a claridade de sua determinação genética a partir de um momento que, teoricamente ao menos, a partir da concepção nasce, com efeito, um novo ser.

                               Homens e Mulheres segundo a Igreja?

Umberto pergunta sobre a posição das mulheres da Igreja e diz que não consegue encontrar ainda na doutrina nenhuma razão persuasiva pela qual as mulheres devam ser excluídas do sacerdócio. O Cardeal Carlo responde que a Igreja reconhece, portanto, que não chegou ainda à plena compreensão dos mistérios que vive e celebra, mas olha com confiança para um futuro que lhe permita viver a realização não de simples expectativas ou desejos humanos, mas sim das promessas mesmas de Deus. Neste caminho se preocupa de não separar-se da praxe e do exemplo de Jesus Cristo, porque só permanecendo exemplarmente fiel a eles poderá compreender as implicações da liberação que, como recorda São Tomás citando a Santo Agostinho, -“Foi muito conveniente que o Filho de Deus recebesse o corpo de uma mulher”, porque deste modo se enobreceu toda a natureza humana. Por isso Agostinho diz: "A liberação do homem devia manifestar-se em ambos os sexos”.
O cardeal expõe a força que a Igreja se mantém em caminhar segundo os princípios de Cristo, ele não escolheu mulheres para serem dos doze apóstolos, ele colocou homens para estar na frente. A Igreja é fiel a este principio de Cristo e se mantém neste caminho.

 Conclusão

Percebe haver um diálogo coerente em questões de extrema importância, que sugerem uma abrangente forma de compreender como a mente do homem difere em muitos casos. Se tratando de uma maneira racional, o debate, ou uma forma de tentar chegar a um parecer comum, sempre se esbarra na crença, ou seja, Umberto está recheado de conhecimento como herança, fundado na evolução e adaptação humana, enquanto que o Cardeal sustenta sua base de argumentação na fé e na herança aprovada pela Igreja.
Pode-se chegar a um parecer aparentemente lógico, com meios benéficos para sustentar um limite de respeito entre ambas as partes, a Igreja e o declínio humano sustentado pelo discurso da evolução intelectual – este dois abismos, religião e mentalidade moderna, conseguem discursar teoricamente e modestamente, mas ainda estamos longe de encontrar este método numa praticidade recorrente que consiga um acordo prático que satisfaça ambas as partes.
Talvez o caminho do respeito seja o melhor meio de começar uma conversa para não haver o choque que sustenta a guerra entre religião e modernidade – anos e anos de luta onde a religião tenta levantar sua bandeira da verdade sem rebaixar sua crença e por outro lado, anos e anos de resistência de pessoas que levantam suas bandeiras de liberdade, acusando a Igreja de tirania. Mas podemos ter esperança em processo de respeito, e precisamos de muito mais esperança para se ter um processo de acordo e contribuição mutua entre grandes partes que estão em desavença a muitos anos. Por fim, deve-se acrescentar, a mente de ambos recorrem um sentido diferente do que buscam, avaliam e desejam – enquanto que um vê o sentido da vida quando este já se forma e é recebido entre uma sociedade, ou seja, o maior forte concorre para sobreviver, o outro, vê na vida uma dádiva divina com um plano glorioso de caminho e integridade como filho. Isso faz a diferença e tentar ajuntar essas partes é o impossível que muitos anos não conseguem.  


Ronaldo José Vicente (ronjvicente@gmail.com)  

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