Exegese de Romanos 8.26-28
1. Tradução do texto Grego
Vs.26 (grego) –“Ὡσαύτως δὲ καὶ τὸ Πνεῦμα συναντιλαμβάνεται τῇ
ἀσθενείᾳ ἡμῶν· τὸ γὰρ τί προσευξώμεθα καθὸ δεῖ οὐκ οἴδαμεν, ἀλλὰ αὐτὸ τὸ Πνεῦμα
ὑπερεντυγχάνει στεναγμοῖς ἀλαλήτοις[1]”
Vs.26 (tradução) – “Também o
Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar
como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos
inexprimíveis”.
Vs.27 (grego) –“ὁ δὲ ἐραυνῶν τὰς
καρδίας οἶδεν τί τὸ φρόνημα τοῦ Πνεύματος, ὅτι κατὰ Θεὸν ἐντυγχάνει ὑπὲρ ἁγίων”.
Vs.27 (tradução) – “E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque
segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos”.
Vs.28 (grego)
–“Οἴδαμεν δὲ ὅτι τοῖς ἀγαπῶσιν τὸν Θεὸν πάντα συνεργεῖ εἰς
ἀγαθόν, τοῖς κατὰ πρόθεσιν κλητοῖς οὖσιν”.
Vs.28 (tradução) –“Sabemos que todas as
coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados
segundo o seu propósito”.
2. Análise estrutural – Rom.8.26
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Transliteração
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Grego
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Tradução
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Morfologia
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Ὡσαύτως
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Do mesmo modo
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Advérbio
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de
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δὲ
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Além disso
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Conjunção
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Kai
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καὶ
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Também
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Conjunção
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To
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τὸ
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o
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Art, dativo, fem., sing.
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Pneuma
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Πνεῦμα
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Espírito
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Subs., nom., neutro, sing.
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συναντιλαμβάνεται
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Ajuda em conjunto
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Verb., pres., indic. Méd. ou pass., terc. Pes. do
sing.
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τῇ
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o
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Art. Dat. Fem. Sing.
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ἀσθενείᾳ
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Fraqueza
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Subs. Dat. Fem. Sing.
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ἡμῶν
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De nós
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Pron. Poss., Gen. 1ª pes. Plural
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To
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τὸ
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o
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Art, dativo, fem., sing.
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γὰρ
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De fato
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Conjunção
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ti
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τί
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Coisas que
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Interrog. Pron. Ind. Acus. Neut. Sing.
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Devemos orar para
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Verb. Aoristo, Subj. Med. 1ª Plural
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καθὸ
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Como
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Adv.
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dei
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δεῖ
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cabe
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Verb. Present. Indic. Ativo, 3ª Pes. Sing.
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ouk
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οὐκ
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Não
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Adv.
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οἴδαμεν
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Nós sabemos
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Verb. Perf. Ind. At. 1ª Plural
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alla
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ἀλλὰ
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Mas
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Conj.
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auto
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αὐτὸ
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se
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Pron. Poss.Nom. Neutro, 3ª Pes. Sing
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To
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τὸ
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o
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Art, dativo, fem., sing.
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Pneuma
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Πνεῦμα
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Espírito
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Subs., nom., neutro, sing.
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Intercede
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Verb. Present.Ind. Atv. 3ª Pes. Sing
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στεναγμοῖς
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Com gemidos
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Subs. Dativo, Mac. Plural
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ἀλαλήτοις
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inexpressable
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Adjet. Dativo, Masc. Plural
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Análise estrutural – Rom.8.27
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Transliteração
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Grego
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Tradução
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Morfologia
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ὁ
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O, um
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Art. Nom. Msc. Sing.
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ἐραυνῶν
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procura
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Verb. Present. Partic.Atv.
Nom.Masc. Sing.
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||
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καρδίας
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Corações
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Subs. Acus. Fem. Plural
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||
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οἶδεν
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sabe
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Verb. Perf. Indic. Atv. 3ª Pes. Sing
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φρόνημα
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Mente
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Nom. Neut. Sing.
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||
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ὅτι
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porque
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Conj.
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κατὰ
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Conforme
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Prep.
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Θεὸν
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Deus
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Nom. Acusat. Masc. Sing.
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ἐντυγχάνει
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Ele intercede
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Verb. Present. Indic. Atv. 3ª Pes.
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ἁγίων
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O, santos
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Adj. Gen. Masc. Plural
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Análise estrutural – Rom.8.28
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Transliteração
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Grego
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Tradução
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Morfologia
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ὅτι
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Que
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Conj.
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ἀγαπῶσιν
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amoroso
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Verb. Present. Part. Ativ. Dat.
Masc. Plural
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Todas as coisas
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Adj. Acus. Neut. Plural
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συνεργεῖ
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Trabalha em conjunto
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Verb. Present. Ind. At. 3ª Pes.
Sing.
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Sua, propósito
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Acus. Fem.Sing.
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οὖσιν
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ser
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Verb. Present. Part. At. Dat.
Masc. Plural
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1.a
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Ὡσαύτως δὲ καὶ τὸ Πνεῦμα συναντιλαμβάνεται
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Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza
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1.b
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τῇ ἀσθενείᾳ ἡμῶν· τὸ γὰρ τί προσευξώμεθα
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porque não sabemos orar como convém
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1.c
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καθὸ δεῖ οὐκ οἴδαμεν, ἀλλὰ αὐτὸ τὸ Πνεῦμα ὑπερεντυγχάνει στεναγμοῖς
ἀλαλήτοις·
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mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos
inexprimíveis
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2.a
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ὁ δὲ ἐραυνῶν τὰς καρδίας οἶδεν τί τὸ φρόνημα τοῦ Πνεύματος,
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E aquele que sonda os
corações sabe qual é a mente do Espírito
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2.b
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ὅτι κατὰ Θεὸν ἐντυγχάνει ὑπὲρ ἁγίων
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porque segundo a vontade de
Deus é que ele intercede pelos santos
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3.a
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Οἴδαμεν δὲ ὅτι τοῖς ἀγαπῶσιν τὸν Θεὸν πάντα συνεργεῖ εἰς ἀγαθόν
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Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a
Deus
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3.b
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τοῖς κατὰ πρόθεσιν κλητοῖς οὖσιν
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daqueles que são chamados segundo o seu propósito
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3. Análise Lexicográfica
Palavras chave:
Vs. 26 – Espírito (πνευμα pneuma), fraqueza
(ασθενεια astheneia), intercede
(υπερεντυγχανω huperentugchano), gemidos
(στεναγμος stenagmos) inexprimíveis
(αλαλητος alaletos).
Vs.27 – Corações (καρδια kardia), mente
(φρονημα phronema)
Vs.28 – cooperam (συνεργεω sunergeo), amam
(αγαπαω agapao), chamados (κλητος
kletos), propósito (προθεσις
prothesis)[1].
Começamos nossa análise chamando
a atenção de certas palavras chaves, que colaboram por uma estrutura mais
abrangente do capítulo 8.26-28 de Romanos. Mencionamos a primeira palavra
“Espírito” (πνευμα pneuma), que pode
ser mais esclarecida como terceira pessoa da trindade, o Santo Espírito, co-igual,
coeterno com o Pai e o Filho. Algumas vezes é mencionado de um modo que
enfatiza sua personalidade e caráter, o Santo Espírito, também mencionado de um
modo que enfatiza seu trabalho e poder como o Espírito da Verdade (Jo.14.26).
Ele nunca é mencionado como um força despersonalizada.
Esta palavra também pode se
referir ao espírito, o princípio vital pelo qual o corpo é animado, o espírito
racional, o poder pelo qual o ser humano sente, pensa e decide, uma alma, um
espírito, uma simples essência, destituída de tudo ou de pelo menos todo
elemento material. Possuído do poder de conhecimento, desejo, decisão e ação, é
o espírito que dá vida - um espírito superior ao homem, contudo inferior a
Deus. Também pode ser usado com um anjo, usado de demônios, ou maus espíritos,
que pensava-se habitavam em corpos humanos. Outro sentido é um movimento de ar,
um sopro suave, do vento, respiração pelo nariz ou pela boca[2].
Vários sentidos podem ser resgatados com esta palavra, mas iremos estudar o
contexto da organização do Apóstolo Paulo, e iremos reconhecer que seu foco na
mensagem está se tratando do Espírito Santo de Deus.
Essa palavra é extensa em sua
expressão, podendo conter vários significados, mas desejamos focar
primeiramente no contexto de Paulo no livro de Romanos 8.26-28, referindo-se ao
Espírito de Deus e não no espírito do homem. Podemos ver essa mesma palavra
sendo usada em outros contextos, referindo-se ao Espírito de Deus, vejamos com
o livro de Mateus: (Mt.1.18/4.1/12.18/12.28/12.32).
Aqui encontramos expressões
que não restam dúvidas que a palavra “pneuma”
está referindo-se ao Espírito Santo de
Deus, como no caso de Maria grávida,
Jesus sendo levado para o deserto pelo Espírito, Jesus confrontando os fariseus
sobre a blasfêmia contra o Espírito de Deus que não será perdoada. Podemos
encontrar a diferença, quando a mesma palavra “pneuma“ é usada em outro contexto, mas referindo-se ao espírito do
homem (Mt.5.3), ou quando se refere a espírito imundo, demônios,
(Mt.12.43).
A próxima palavra é a “fraqueza” (ασθενεια astheneia), que
possui um sentido de falta de força, debilidade do corpo, ou sua fraqueza
natural e fragilidade, no exemplo de uma saúde debilitada ou enfermidade da
alma, falta de força e capacidade requerida para alguma ação, como fazer coisas
grandes e gloriosas[3].
Neste ponto iremos notar que a própria palavra traz força ao sentido do texto,
e essa fraqueza se relaciona em uma esfera que capta tanto o estado de uma
fraqueza natural como espiritual.
Podemos compreender de melhor
estado com o exemplo de Paulo ao Coríntios (12.9), onde o Apóstolo expressa
como Deus o ajudou em sua fraqueza, o sentido que iremos explorar com essa
palavra, está relacionado ao que Paulo explica – Deus opera na fraqueza, sustenta
e nos responde: “A minha graça te basta,
porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”.
A próxima palavra é “intercede” (υπερεντυγχανω, huperentugchano),
que explora o sentido de interceder por alguém, ou se colocar no lugar de outra
pessoa, sentir o que essa pessoa está passando[4].
A próxima palavra pode completar a ação realizada pelo Espírito de Deus, pois
tenta explicar como a intervenção do Espírito é feita e em qual grau de
intensidade ela é proposta aos Santos, encontramos as palavras, “gemidos” (στεναγμος stenagmos) “inexprimíveis” (αλαλητος alaletos).
Gemidos relacionados a suspiros constantes, porque não podem ser expressados
por palavras[5],
por isso são inexprimíveis[6].
A palavra intercede foi pouco utilizada no Novo
Testamento, mostrando-se em apenas casos específicos e importantes, Paulo usou
em um exemplo perfeito que mostra a atuação do Espírito de Deus, que caminha no
mesmo que Jesus, intercedendo por nós (Rm.8.34) – obviamente Cristo intercede
por nós pela obra da redenção, seu sangue que nos lavou, nos comprou e nos
redimiu – o papel do Espírito será explorado em nosso texto, usando a mesma
força da palavra mas trabalhando em nós para uma completa obra do Pai.
Outras palavras precisam ser
consideradas, como “corações”, que
podem expandir o sentido, e com eles precisamos compreender o que exatamente o
autor desejava enfatizar: (καρδια, kardia), é a forma prolongada da palavra
primária kar (Latim, cor "coração") pode ser órgão do corpo do animal
que é o centro da circulação do sangue, e por isso foi considerado como o
assento da vida física, ou denota o centro de toda a vida física e espiritual,
também pode ser a alma ou a mente, como fonte e lugar dos pensamentos, paixões,
desejos, apetites, afeições, propósitos, esforços do entendimento, a faculdade
e o lugar da inteligência, da vontade e caráter - da alma na medida em que é
afetada de um modo ruim ou bom, ou da alma como o lugar das sensibilidades,
afeições, emoções, desejos, apetites, paixões - do meio ou da parte central ou
interna de algo, ainda que seja inanimado[7].
A palavra corações deve ser compreendida como o
centro do homem, sua expressão, compreensão, entendimento e o mais profundo
ser, que capta o trabalho de Deus em sua vida (At.15.8/ 2Cor.3.3/Ap.2.23).
Outra palavra é a “mente” (φρονημα phronema), no sentido de
que alguém tem em mente, os pensamentos e propósitos[8].
A palavra mente que desejamos explorar se relaciona aos mistérios e propósitos
divinos, algo que deve ser revelado, e Paulo fala muito sobre essa mente de
Deus que deve ser a mente de cada cristãos (Rm.11.34/ICor.2.16).
Podemos também levar em
consideração a palavra “cooperam”
(συνεργεω sunergeo) que é trabalhar junto, ajudar no trabalho, ser parceiro no
labor, juntar as forças. Com essa palavra podemos pegar o exemplo de Paulo ao
mencionar Jesus, conhecido como Justos, que cooperava com os trabalhos
de Paulo (Col.4.11).
Outra palavra é “amam” (αγαπαω agapao) com respeito as
pessoas, receber com alegria, acolher, gostar muito de, amar ternamente, com
respeito as coisas, estar satisfeito, estar contente sobre ou com as coisas.
Este amar está no sentido de reconhecimento, força de expressão e atuação em
prol daquele que está realizando algo, como alguns textos
(1Cor.2.9/Ef.6.24/2Tm.4.8).
A palavra “chamados”, (κλητος kletos), convidado para um banquete, ou
convidado por Deus na proclamação do Evangelho, ou a obter eterna salvação no
reino por meio de Cristo, chamado ao desempenho de algum ofício, sendo
selecionado e designado divinamente. Um bom exemplo é a própria apresentação de
Paulo ao Romanos sobre o seu chamado
(1.1), pois expressa o sentido que iremos usar, um chamado especifico de Deus
para seus filhos.
A palavra “propósito” (προθεσις prothesis), que
pode ser apresentação de algo, colocá-lo a vista, o pão sagrado, doze pães de trigo,
correspondentes ao número das tribos de Israel. Eram oferecidos a Deus cada
sábado e separados em duas fileiras, deixados por sete dias sobre uma mesa
colocada no santuário ou na parte frontal do tabernáculo, e mais tarde no
templo[9].
4. Explorando e desenvolvendo o texto
Observamos a importância de
analisar as palavras em seu sentido original, devemos agora, encontrar o
sentido que o Apóstolo Paulo desejou
focar. Começamos com o início do versículo 27: -“Também o Espírito...”, e deve haver um ponto de total atenção, pois
devemos perceber quem, ou o que é este “πνευμα,
pneuma”. Vimos vários sentidos e significados que esta palavra nos fornece,
pois ela pode estar relacionada também ao espírito
humano - Mas o que nos favorece em enfatizar que Paulo estava falando do
Espírito de Deus? O contexto do capítulo nos fornece base, para compreendermos
que Paulo está trabalhando na ideia, de filhos de Deus, que possuem o Espírito
de Deus, o mesmo que ressuscitou a Cristo, e que agora vivifica nossas vidas
(Rm.8.11). Paulo distingue as áreas de atuação, favorecendo a força do Espírito
de Deus, que nos impulsiona na justiça (Rm.8.9) e define o papel no espírito do
homem – morto por causa do pecado, mas o espírito (πνευμα pneuma), neste caso, do homem, que vive impulsionado por
essa justiça.
Partindo deste ponto de
separação, onde o agente ativo e operante de toda transformação humana está nas
mãos do Espírito de Deus, podemos encontrar sentido e maior entendimento no
acompanhamento e fortalecimento deste Espírito de Deus – ou seja, (8.27a) “...Ele assiste nossas fraquezas...”[10],
essa palavra “assiste” em grego é “συναντιλαμβανομαι” (sunantilambanomai)
que nos traz o sentido de “trabalhar
junto, lutar para obter algo juntamente, ajudar a obter, trabalhar lado a lado
com alguém”. Aqui notamos toda força expressada pelo Apóstolo Paulo,
mostrando como o agente divino é totalmente responsável para o nosso
amadurecimento. Ele assiste, mas como uma pessoa que atua e com o objetivo de
participar e colaborar onde estamos fracos e inoperantes.
Precisamos compreender que
essa força do Espírito de Deus trabalha segundo o propósito divino, atuando
onde Ele deseja e caminhando em submissão aos mistérios do Pai. Barth comenta que: “O Espírito opera em causa própria e segue seu próprio caminho; não
somos nós que o possuímos, porém é ele quem nos tem”[11].
O trabalho do Pai é nos
amadurecer para que corramos no processo de desenvolver nossa salvação (Fp.2.12), a obra de Cristo deve ser
completada (Fp.1.6), mas como
observamos no texto – existem fraquezas, terríveis tribulações onde os cristãos
passam, mas encontramos esperança quando vemos uma forte atuação divina,
trabalhando em nossas vidas.
Champlin comenta que este “este Espírito é apresentado como o Grande
Ajudador e a natureza desse auxílio é tão poderosa que ele garante a adoção e a
redenção, na direção da qual os homens poderiam apenas anelar, mas não obter”[12].
Então encontramos esperança em um caminho árduo de cada cristão, mas definimos
total acompanhamento, pois o cristão nunca é desamparado, ele é um filho
conforme o próprio Paulo menciona no texto de Romanos (8.14), Wilson caracteriza da seguinte forma: “O cristão não é esmagado por um forte senso
de sua fraqueza, porque o Espírito Santo bondosamente compartilha com ele o
esforço de suportar este fardo”[13].
A afirmação do texto segue um
nivelar de reconhecimento da total obra do Espírito Santo, que sabe a maneira
correta de orar por nós. Entendendo e reconhecendo a obra perfeita do Espírito,
consequentemente reconhecemos nossa total fragilidade de pronunciar as mesmas
verdades em relação as nossas fraquezas, somos incapazes de acertar o alvo da
oração, Pohl comenta que: “Não há ocasião em que o ser humano se mostre
mais desqualificado que justamente na
oração”[14], Barh
comenta o mesmo ponto: “É na oração que
justamente o homem que ora, mostra que é totalmente humano[15]”-
este é o ponto, nossa total fragilidade. Podemos olhar de outras maneiras
também, fraqueza pode estar relacionado a um estado de consequências, lutas,
tribulações, fortes tentações pessoais, onde um cristão está atravessando, uma
luta particular igual Cristo passou pelo deserto (Mt.4), o estado deste cristão
é a sua incapacidade de lutar, ele esta esgotado, mas nunca abandonado – aqui
encontramos um sentido paterno na atuação do Espírito de Deus.
Mas
há uma grande esperança, o Consolador
(Jo.14.26), Aquele interessado em completar a obra, Ele intercede por nós, e o
sentido dessa intercessão é uma atuação conjunta, participativa e não ausente,
de ordem lançada ao vento - o Espírito está em nós, ele habita no coração dos
crentes (ICor.6.19) e por isso sua intercessão pode ser colocada na categoria,
daquele que toma o lugar do fraco, usando-o para expressar a própria oração que
o salvará. Bruce comenta que: “Quando os crentes oram no Espírito, o
próprio Espírito intercede em favor deles”[16].
Uma aceitação maior e com esperança mais convicta é notarmos que este mesmo
papel do Espírito intercedendo por nós, é feito também por Cristo, mencionado
por Paulo em versículos seguintes (Rm.8.34), então encontramos mais
expectativas da Trindade em favor dos filhos aqui na Terra – Pohl comenta da seguinte forma: “Deus está a favor de nós, Cristo está a favor de nós,
o Espírito está a favor de nós”[17].
A intercessão do Espírito de
Deus dentro de cada cristão só pode ser explicada segundo o que a própria palavra
diz, é através de gemidos inexprimíveis, compreender a
profundidade desta ação requer total revelação, pois o sentido da palavra nos
diz que é uma forma de intercessão, que não pode ser pronunciada por palavras. Bruce menciona o termo inarticulados, que pode ser referir o
falar a Deus no Espírito com línguas (ICor.14.2)[18],
mas algumas opiniões divergem, o ponto que precisa ser estabelecido é que
existe a participação do cristão nessa oração. O Espírito de Deus intercede com
gemidos inexprimíveis, mas esse Espírito habita no cristão e usa do próprio
para clamar. Uma definição mais esclarecedora é feito por Brown citada por Champlin:
Enquanto
lutamos por expressar, em linguagem articulada, os desejos de nossos corações,
descobrindo assim que nossas mais profundas emoções são as mais difíceis de
expressar, ‘gememos’ debaixo do peso dessa incapacidade sentida. Esses gemidos,
entretanto, não são inúteis. Porquanto ‘O próprio Espírito’ está nos crentes,
dando, às emoções que ele mesmo acendeu, a única linguagem de que são capazes;
de tal modo que, embora de nossa parte sejam fruto da incapacidade de expressar
o que sentimos, ao mesmo tempo são a intercessão do próprio Espírito Santo em
nosso favor[19].
Cristãos alinhados com a intenção do Espírito
de Deus
Encontramos
um seguimento do nivelar da ação de Deus nos cristãos, estamos elaborando nosso
contexto baseando que o Espírito habita no coração de cada cristão, Ele é
participante, trabalha no amadurecimento, submisso aos mistérios do Pai e que
deseja alinhar cada filho a vontade de Deus. O texto de Paulo prossegue com a
seguinte afirmação: -“E aquele
que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito...”, existe
uma harmonia entre Deus e o Espírito, pois só o Pai esquadrinha os corações
(Jr.17.10), e nessa função o Espírito caminha, porque Ele intercede segundo
essa vontade, Pohl cita o texto de I Coríntios 2.10,11 para explicar essa
passagem, nela encontramos essa unidade e cooperação entre o Pai e o Espírito –
como o Pai trabalha, revela, governa e como o Espírito também esquadrinha,
vasculha, pesquisa e penetra na vontade correta de Deus. Por isso enfatizamos
novamente, é uma intercessão alinhada ao alvo do Pai.
Neste ponto levantamos uma ideia de
nivelação, entre os desalinhados filhos que desconhecem a vontade do Pai, para
um caminho de submissão, reconhecendo a obra do Espírito de Deus, que conhece a
mente de Deus, intercede por nós segundo essa vontade e nos revela. Nesse ponto
de esclarecimento entre os filhos de Deus, existe o processo de conquista, o
Pai vai se revelando através do Espírito e os filhos vão se entregando ao amor
do Pai. Barth comenta que: “Em seu relacionamento com o homem Deus se
revela a favor dele, por força e graça, nenhuma outra força e poder poderá
separa-los”[20].
Existe grande importância de compreendermos esse princípio, pois tanto o Pai
como o Espírito estão alinhados, a uma vontade, nessa vontade o Espírito
trabalha em nós.
Wilson expõe este
contexto da seguinte forma: “Quando Deus
sonda o coração do homem, vê nos gemidos do Espírito, um reflexo perfeito do
Seu próprio propósito amoroso quanto a eles”[21] –
obviamente isso explica a unidade do Pai com o Espírito e a sua total
colaboração para trabalhar naquilo que o Pai deseja. Nosso papel como cristãos
é se submeter a essa intenção do Espírito, pois a palavra “mente do Espírito”, pode ser compreendida como um propósito, uma
intenção, um pensamento que está completamente voltado ao desejo de Deus para
seus filhos. Stern comenta que: “A súplica do Espírito a favor do povo de
Deus está de acordo com a vontade divina, devemos passar para essa confiança
pois nela existe um propósito”[22],
este propósito esta estritamente ligado a vontade de Deus para cada filho, e
que se expressa na vida cotidiano com planos do Senhor. Paulo expõe no livro de Efésios
(2.10), sobre obras que Deus preparou de antemão para que andássemos nelas, o
sentido que o Apóstolo descreve, é como um Pai que planeja de bom coração os
caminhos do seu filho. Champlin comenta
que:
Assim, pois, o Espírito Santo intercede de
conformidade com Deus, de conformidade com a sua natureza, da qual somos
participantes, segundo a sua paternidade e segundo a nossa filiação para com
ele; de conformidade com todo o elevado plano que Deus traçou para o destino
humano dos seus remidos. Essa intercessão, portanto, se alicerça inteiramente
no ser e no plano de Deus, e isso visa ao benefício dos homens[23].
Compreendendo
que todas as coisas cooperam para este plano
Chegamos ao clímax do nosso texto, pois para entendermos que “todas as coisas” que são trabalhadas
pelo Espírito em nós, alinhada a vontade do Pai, cooperam para que este plano
particular torne-se expressivo, necessário foi caminhar por versículos
anteriores que trouxeram um fundamento para a compressão do texto do Apóstolo
Paulo (Vs.28)
–“Sabemos que todas as coisas cooperam
para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu
propósito[24]”.
Um cristão só irá entender que “todas
as coisas” estão cooperando, quando compreender o trabalho do Espírito de
Deus em sua vida, pois se alinhará a vontade do Pai e reconhecerá que o plano
de Deus, é um projeto melhor.
Barth comenta, “Precisamos todos completar o ciclo de nossa
existência, segundo leis eternas, férreas e poderosas”[25].
Assim estabelece na mente do crente, que existe um Soberano que projeta meios
de alinhar seus filhos a Sua vontade, e há um “ajudador” alinhado totalmente a vontade do Pai, que conhece a
profundidade dessa vontade e que está habitando no coração do homem – este
homem através de iluminação deve reconhecer que o Pai está trabalhando através
de todas as coisas para alcançar seu objetivo. Wilson comenta, “é Deus que
dirige as coisas para o bem de Seus filhos”[26]. Bruce coloca da seguinte forma: “Para os que amam a Deus, Deus faz com eles
todas as coisas para o bem”[27]
O caminho deste amadurecimento
responderá verdadeiramente “aqueles que
amam a Deus”, pois são aqueles que reconhecem em Deus um trabalho perfeito
sendo realizado, pois aqueles que amam a Deus, estão satisfeitos naquilo que
Deus está projetando. Pohl comenta
que: “No nosso amor a Deus não realizamos
nada de especial. Simplesmente somos reflexo, espelho de seu amor a nós”[28].
Por fim compreendemos o chamado que
está ricamente ligado ao amor de Deus e com nossa reposta, Barth coloca da seguinte forma: “De
acordo com a sua decisão, aqueles que o amam são chamados a executar a obra
para a qual ninguém pode chamar outra pessoa, nem mesmo oferecer-se”[29]. É algo pessoal,
que deve ser
compreendido de maneira particular, uma caminhada, uma expressão do Pai e um
amadurecimento no amor e no chamado de Deus. Murray coloca o chamado da seguinte forma: “Os chamados são chamados segundo um propósito; o propósito é anterior
ao chamado”[30]
Exegese de Pr.Ronaldo José Vicente (ronjvicente@gmail.com)
Bibliografia
1 - site BibleHub
2 - Bible Study – Oliver Tree, com Strongs
3 - BARTH, Karl, Carta aos Romanos, Ed. Fonte Editorial
4 - CHAMPLIN, Russel Norman, O Novo Testamento
Interpretado, Volume 3, Ed. Hagnos,
5 - WILSON, Geoffrey B. Romanos, Ed. Pes
6 - POHL, Adolf, Carta aos Romanos, Comentário
Esperança, Ed. Evangélica Esperança, 1998
7 - BRUCE, F.F. Romanos, introdução e comentário, Série,
Cultura Bíblica, 2002
8 - Stern, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento,
Ed. Atos, 2014
9 – Bíblia usada, Tradução Revista e Atualizada
[9] Tradução
retirada do Bible Study – Oliver Tree, com Strongs – cooperam (συνεργεω sunergeo), amam (αγαπαω
agapao), chamados (κλητος kletos), propósito (προθεσις prothesis).
[19] Brown, citado por CHAMPLIN, Russel
Norman, O Novo Testamento Interpretado, Volume 3, Ed. Hagnos, 1995, p.722

Excelente trabalho!
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