História do Pensamento Cristão, Paul Tillich, cap. I - IV (Resumo apresentado na aula de História do Pensamento Cristão, faculdade Presbiteriana Mackenzie)



INTRODUÇÃO - O CONCEITO DE DOGMA

    Começamos pela importância do pensamento, pois a linguagem é o pensamento expresso e não há existência humana sem o pensamento. Não é o emocionalismo mais importante nas religiões que o pensamento.
    O homem não pode viver sem pensamento, animais têm sentimentos, mas não pensamentos. Pelo pensamento o homem dá nomes em vários rituais na religião, usando a linguagem.  O pensamento molda a realidade, os padres com seus pensamentos chegaram a conclusões que mudaram o pensamento de muitos cristãos. Quando o pensamento é expresso pela fala produz doutrinas teológicas. Então se tornam sistemas teológicos e esses sistemas não foram feitos para serem prisões.
    Na “historia do dogma ou do pensamento cristãos”, é o pensamento aceito pela igreja, no sentido de dogma que cruza a fronteira da igreja e o mundo secular. Os dogmas causam medo naquele que estão de fora e também naqueles que estão dentro, seria como a capa vermelha dos toureiros, que eles usam para provocar os touros.
    Dogma vem do grego “doken” que significa “pensar, imaginar ou ter uma opinião”, nas escolas filosóficas era o “dogmata” um princípio de pensamento que separava as escolas e qualquer que desejasse entrar, precisava concordar com suas ideias básicas. As doutrinas cristãs foram compreendidas como “dogmatas”, distinguindo as escolas cristãs das filosóficas. Assim os dogmas não eram declarações teóricas individuais, mas expressavam a realidade da igreja.  Mas esses dogmas foram sendo formulados negativamente para combater interpretações errôneas, como no caso o Credo Apostólico, “Creio em Deus Pai, Criador dos céus e da terra”, que combate o dualismo. Quanto mais tardio e mais anos se passaram, mais os dogmas vinham no sentido de proteger a substância da mensagem bíblica. Esses dogmas se tornaram como a lei canônica da igreja. O problema foi à aceitação disso como lei civil, então quando a pessoa quebra a lei canônica das doutrinas não é só herege, mas criminoso contra o estado. O iluminismo e todo pensamento liberal se caracterizou pela recusa do dogma. Na verdade os dogmas não devem ser abolidos, mas interpretados de maneira que não venham a ser repressivos, pois eles devem ser vistos como expressões profundas e maravilhosas da verdadeira vida da igreja.

CAPÍTULO 1

A PREPARAÇÃO PARA O CRISTIANISMO

A. Kairos


    Segundo Paulo a vinda de Jesus aconteceu em um momento específico, é o tempo Kairos que descreve que o tempo estava pronto, maduro ou preparado. Para a palavra tempo os gregos possuem dois sentidos, o primeiros é o chronos, que é o tempo do relógio, da cronologia e o outro é o tempo kairos, que é o tempo qualitativo da ocasião, o tempo certo. Paulo e a igreja primitiva falavam desse tempo certo da vinda de Cristo, o tempo kairos.

B. Universalismo do império romano


    Ajudou de duas maneiras, negativamente porque significa o desmoronamento das religiões e das culturas nacionais. Positivamente porque fortalecia a ideia de que a humanidade podia ser concebida como um todo. Roma se tornou uma monarquia universal no qual se unia todo o mundo conhecido, e essa mesma ideia está presente na Igreja católica e com o papa, que deseja de volta todo o poder e centralização, pois ela é herdeira do império romano. Então quando avaliarmos a igreja católica precisamos avaliar o que existe de Roma nela, e da mesma forma, se formos avaliar os cristãos, o que existe de conceitos filosóficos gregos.

C. Filosofia helênica


    Precisamos separar o período clássico do pensamento grego e o período helênico que mais influenciou o cristianismo. O lado negativo é o ceticismo, que é o fim da construção de um mundo baseado na interpretação da realidade, os gregos haviam minado as tradições e rituais, então havia necessidade de investigar e interpretar o mundo atual, eles não eram só teóricos sentados escrevendo livros, eles viviam a realidade e a interpretavam escrevendo até uma nova dimensão espiritual.

1. Ceticismo


    Um movimento que significava o desabamento de todas as convicções e a consequência foi uma espécie de paralisia da ação. Porque se não há mais juízos teóricos, não se pode mais agir na prática. Essa é a introdução do “epoché”, suspensão do juízo, não julgar e nem agir. Mas o ceticismo ajudou o cristianismo, porque nessas escolas os alunos queriam viver de acordo com o que aprendiam e também a ideia de inspiração, porque acreditavam que seus professores eram inspirados, da mesma forma como cristãos viam as escrituras. Também Epícuro era considerado um Salvador, libertava seus seguidores das angustias, e as pessoas dos demônios.

2. A tradição Platônica


    Platão fala sobre a transcendência, de existe algo capaz de sobrepor a realidade empírica. Encontramos também uma forte desvalorização da existência, o mundo real não tinha o mesmo valor com o mundo essencial. O ser humano tinha como pensamento se tornar semelhante a Deus tanto quanto fosse possível. Essa mesma ideia aparece nos escritos dos padres capadócios da igreja, para descrever o alvo da existência humana. E por terceiro a ideia da queda da alma e seu livramento deste corpo material, que é uma escravidão, também presente no ensino oficial dos pais da igreja. Por quarto vemos a ideia de providência, onde Platão queria acabar com a angústia e da morte presente da época. E por último vindo da tradição platônica com Aristóteles, Deus como a forma mais perfeita que movimenta o mundo, tudo por meio do amor, isso influenciou também a teologia cristã.

3. Estoicismo

         
    O cristianismo tomou do estoicismo muitas ideias e uma delas é o logos, que significa “palavra”, e pode também representar a lei universal da realidade. Para os estóicos, logos era a lei da natureza, o princípio determinante do movimento de todas as coisas. Também era a lei moral, a lei inata em todos os seres humanos. E também a capacidade humana de reconhecer a realidade, a capacidade humana da razão. Nos estoicos vemos a compreensão que o logos dava direto de cidadania a todos, Marcos Aurélio, um imperador estoíco aplicava esse conceito de logos a situação da política. Era a concessão de cidadania romana a todos os cidadãos das nações. Não foram os cristãos que inventaram essas coisas, mas os estóicos, por acreditarem na ideia que todos participavam do logos.

4. Ecletismo


    O termo vem do grego que é escolher algumas possibilidades entre muitas. Os ecléticos não criaram novos sistemas, o mais importante para os cidadãos romanos. Era o melhor para produzir um modo de vida possível para todos os cidadãos romanos. Essas ideias também foram preparando o mundo antigo para o cristianismo.

D. Período intertestamentário


    É o período onde Deus fica abstrato e onde aparecem mediadores e esses tornam-se mais importantes para a vida piedosa. A figura maior é o Messias, um ser transcendental, chamado o “filho do Homem”, destinado a julgar o mundo. Também surge o shekinah de Deus, representando poderes entre Deus e os seres humanos, significando a habitação de Deus na terra. Também entre Deus e os homens surge o mundo de seres poderosos, os demônios, que são anjos bons e maus.

E. Religiões de mistério


    Influenciaram bastante o culto e a teologia cristã, pois ao iniciar o mistério, a pessoa passava por experiência, da mesma forma como Paulo diz em Romanos 6, sobre termos participação na morte e ressurreição de Cristo. Os participantes eram levados a tristeza com a morte do seu deus e depois se alegravam com sua ressurreição.

F. Metodologia do Novo Testamento


    O novo testamento construído foi capaz de usar palavras, conceitos e símbolos surgido na história das religiões, preservando ao mesmo tempo a pessoa de Jesus. O poder espiritual do novo testamento soube muito bem incorporar esses conceitos no cristianismo, a exemplo disso vemos a palavra “logos”, conceito grego para descrever a idéia universal, mas adotado pelo cristianismo para descrever que esse logos se fez carne numa vida pessoal. E mesmo assim, sem perder a realidade básica.

Capítulo II

DESENVOLVIMENTO TEOLÓGICO NA IGREJA ANTIGA

A. Pais apostólicos

    As cartas após os apóstolos mostram um certo conformismo, não havia mais o debate de Paulo contra os judeus cristãos, aquilo que estava na era primitiva havia se perdido e agora eles estavam com ideias novas e outras preocupações. Também na primitiva havia aqueles que eram inspirados pelo Espírito Santo, mas com esses mesmo naquela época, já havia dificuldades, assim necessitou da ordem para eles. Então vemos o período dos pais apostólicos com ordem e muita cautela para com o Espírito Santo, ignorando as manifestações e dando mais ênfase nas ordens. A primeira base de autoridade foi o Antigo Testamento, e com uma coleção que mais tarde se tornou o Novo Testamento, mas vemos nas cartas como de Clemente, orientações sobre como a igreja tinha que se posicionar, como os novos cristãos tinham que se comportar, parecia um credo e normas. O batismo nas águas era o inicio e cada vez mais eles eram ensinados nas liturgias e não na teologia. Também houve a necessidade de distinguir aqueles que eram cristãos e a autoridade agora, estava na mão do bispo, que tomou o lugar do Espírito Santo e poderia distinguir quem era e quem não era. O Bispo foi se tornando cada vez mais importante na luta contra os pagãos. Profetas poderiam vir e estariam certos ou errados, mas o bispo sempre estaria certo. Outra questão foi a luta do cristianismo para estabelecer o credo “Creio em Deus Pai Todo Poderoso, criador do céu e da terra”, indo contra o dualismo pagão que exercia forte influência. Também vemos Clemente começar neste tempo falar teologicamente de Cristo como de Deus, ou seja, Cristo não era apenas uma força, Ele era Deus. E a soteriologia caminhava de duas formas, conhecimento e depois vida, ou seja, não tínhamos um ser, Ele nos chamou para que tivéssemos um ser, a partir de seu novo ser. Essa participação do novo ser era a participação na verdade, no verdadeiro conhecimento.

B. Movimento apologético


    Apologia significa resposta ou pergunta ao juiz, partindo do acusado. Foi dessa forma que o cristianismo respondeu pelos apologistas. Pois ameaçavam o império romano de forma politica e era considerado pelos filósofos, uma tolice. Considerou Celsus, um médico filósofo que o cristianismo é uma mistura de superstição fanática e pedaços da filosofia e os relatos bíblicos eram desprovidos de qualquer evidencia histórica, encontramos aqui o início da crítica contra a historicidade da bíblia, principalmente contra a ressurreição, colocando a ideia que muitos outros haviam criados historias dessa mesma forma.
    Mas a critica maior de Celsus está em contradizer que Cristo venceu todos os poderes demoníacos, na verdade para ele Roma era o poder de reter isso e governar o mundo de forma correta, dizer isso era atrapalhar que Roma era a única que poderia proteger o mundo. Os apologistas responderem de três formas esses ataques, o primeiro era procurar um denominador comum para que ambas as partes soubessem o que o outro quer dizer, ou seja, teria que haver um denominador comum para a exata compreensão. Em segundo eles mostraram as falhas dos filósofos pagãos, como suas ideias tinha furos. E em terceiro que o cristianismo era a resposta aos desejos pagãos.

1. Filosofia Cristã


    Justino Mártir dizia que o cristianismo era a única certa e adequada, mas ele entendia que filosofia eram movimentos de caráter espiritual opostos a magia e superstição. Também dizia sobre a verdade total, independente de onde vinha, ela pertencia aos cristãos, não era arrogância, mas o entendimento e compreensão do logos, pois nele habitava todo conhecimento e agora esses logos estava conosco.
    Os apologistas jamais diriam que sua religião era verdadeira e as outras erradas, mas entendiam que a palavra cristianismo não se podia comparar como religião, porque nele continha o aparecimento total da verdade, e nisso se entendia a negação de outras religiões.  Cristo era o início de toda a verdade e em outras partes as verdades apenas eram reflexo da fonte que era Cristo, o logos, por isso os apologistas não tiveram problemas de usar algumas partes da filosofia grega. Justino termina dizendo que o mundo vive das orações dos cristãos, e Deus preserva o mundo por causa dos cristãos.

2. Deus e Logos

    Há uma diferença do Ser da filosofia grega clássica e a doutrina de Deus de Justino. O Deus criador age e seu poder é presente em todas as coisas que Ele movimenta. O logos é o principio da manifestação de Deus. Então onde Deus aparece, é o Logos que aparece. O Logos é a primeira obra ou geração de Deus Pai. O Logos divino não é igual a Deus, é a auto-manifestação de Deus, mas se o separarmos de Deus, esvazia-se e não poderá ter conteúdo. O processo de geração do Logos em Deus não diminui o ser divino. Justino afirmava que o Logos é diferente de Deus segundo número, mas não segundo o conceito. O Logos é o principio das gerações de Deus; possui certa transcendência ou divindade diminuídas.
    Sobre a encarnação, os apologistas diziam que não é a união do Espírito divino com o homem Jesus; é o Logos que realmente se faz homem. Por meio da vontade de Deus o Logos se fez homem. Esse Logos nos concede as leis morais que devemos seguir livremente.

C. Gnosticismo

Um perigo chamado gnosticismo assombrou o cristianismo primitivo, um conhecimento diziam eles gerais, tanto de místicos e relação sexual. Esse conhecimento busca a união e a salvação. Esses gnósticos eram intelectuais gregos. Era um sincretismo que misturava todas as religiões. Filo seria um tipo precursor. Diziam possuir tradições secretas apenas aos iniciados, rejeitavam o antigo testamento e aceitavam apenas algumas partes do novo testamento. Para os gnósticos o mundo criado é mau e o salvador desce a terra em forma humana para salvar. Possui um corpo, mas não se torna carne, porque a matéria é má. A alma humana é libertada pelo salvador e pelo conhecimento que ele traz. Exigia a elevação da alma e o exemplo do salvador que subia, pois ele liberta para promover a união da alma com a plenitude com pleroma, mundo espiritual. Isso mostra que o gnosticismo era uma religião de salvação dos demônios. Isso era um problema, pois Cristo estava no centro como autor da salvação, mas ficava na visão dualista. O gnosticismo foi uma grande ameaça, mas graças aos pais antignósticos, o cristianismo superou e avançou.

D. Os pais antignósticos

    Eles partiram pela ideia do logos para combater, e esses teólogos são o catolicismo antigo, que expressão rejeição do paganismo da época. Irineu foi o mais importante, entendeu os ensinos de Paulo e como era a doutrina cristã, para ele o ensino mais fundamental foi sobre o Espírito Santo.
    Tertuliano também era antignóstico, e criou a terminologia eclesiástica em latim; mas aceitava a filosofia estóica e a ideia que a alma é naturalmente cristã.
Hipólito manteve inúmeros polêmicas contra o movimento gnóstico por meio de suas obras.

1. Sistemas de autoridades

    Quem era mais importante? Os escritos sagrados ou os ensinos secretos dos gnósticos? Os mestres gnósticos ensinavam que Jesus lhes passou ensinos secretos, mas os pais combatiam dizendo que o Logos havia dado o canôn, então firma-se nas Escrituras para combater os gnósticos. Da mesma forma vem a regra de fé, que se usou como base de interpretação, e os documentos confessionais após reforma param se fixar em uma ideia e não abrir espaço para eventuais heresias. A regra de fé foi chamada de canôn da verdade, só é verdadeiro o que vêm dos apóstolos, nisso o bispo aprovava a verdade. Temos então o sistema de autoridades, a Bíblia, a tradição apostólica, a regra de fé, o credo batismal e os bispos.

2. A reação montanista

    Surge a reação do Espírito comandada por Montanus; tinham duas ideias, o Espírito e o fim. O Espírito havia suprimido pela igreja organizada. O movimentos espirituais eram temidos por causa dos gnósticos. A igreja não entendia este lado do espírito. Os profetas não precisam estar em êxtases para falar. O fim estava relacionado ao desapontamento da vida eminente do fim anunciado por Jesus e pelos apóstolos, esse desapontamento forçou os cristãos de uma igreja mundana a viver no mundo. Essa igreja se tornou disciplinada e fria. Os montanistas acreditavam ser da época do Espírito. Mas o resultado foi pobre, como outros movimentos, os quacres, parecem novo, mas é só racional de moralismo. Eles começam e depois se tornam racionais moralistas e legalistas, perde-se o êxtase.
    Os montanistas fixaram a ideia de novos livros e adotaram a ideia de sucessão profética, mas não deu certo. A igreja excluiu o montanismo e a hierarquia tradicional triunfou contra o espírito profético, mas isso foi perda porque exclui totalmente o espírito profético da igreja, a escatologia perde a força e a organização eclesiástica passou a ser o primeiro lugar. A rígida disciplina dos montanistas foi abandonada, substituída pelos costumes.

3. Deus criador

    Os pais combatiam a ideia gnóstica que haviam contrastado Deus Pai com Deus salvador. Irineu afirmava que não havia dualismo nele, tanto a lei como o evangelho, a criação como a salvação deriva do mesmo Deus. Sem Deus não de pode conhecer a Deus, Deus não é objeto, somente Ele se conhece a si mesmo, Ele não é objeto que o conhecemos pelo exterior, não se pode conhecê-lo em sua grandeza, Ele só é conhecido com o amor que vem até nós. Ele cria a partir do nada, não precisou de matéria para criar o mundo. A palavra trindade aparece nos primeiros escritos de Tertuliano, embora seja um só, Ele nunca está só. Estão sempre com Ele, a sabedoria, a palavra, Jesus e o Espírito Santo. Ele falava sobre a substância divina uma desenvolvida na economia triádica. A divindade se constrói eternamente em unidade. Sobre imagem, Irineu diz que todos os homens possuem a imagem natural de Deus; o homem racional é capaz de se relacionar com Deus. O homem pode se tornar semelhante a Deus e essa marca é a vida eterna e ao alcançar o homem supera a mortalidade natural.

4. História da salvação

    Vem da criação. Lei natural, lei inato do amor. Mas ele perde e há uma reabilitação dessa salvação. Ela é estabelecida por Cristo. Mas Tertuliano diz sobre a aliança do paracleto, que o Espírito divino dá nova leis no fim dos tempos. O homem passa por diferentes estágios, judaísmo, filosofia grega e a revelação se adapta a cada nova aliança.
Sobre a cristologia, Irineu dizia, o invisível do Filho é o Pai; o visível do Pai é o Filho. O Filho que é visível do Pai se manifesta na pessoa de Jesus Cristo. Irineu chamava a salvação de recapitulação, que dizia que todas as coisas se reuniam em Cristo. A nova humanidade começava em Cristo, Nele a humanidade se chegava no que deveria ser. Mas para realizar tudo isso, Cristo teve de participar da natureza de adão. Cristo é o começo dos vivos e adão é o início dos mortos.

5. Trindade e Cristologia

    Tertuliano dizia três não em essência, mas em grau, não em substância, mas em forma. Temos a palavra trindade sendo posta pela primeira vez. Falou também da unidade da trindade e introduziu a palavra economia na linguagem teológica. Quando afirmamos que Deus é Espírito, precisamos acrescentar que Ele é também trinitário. No momento da criação o Filho se torna a segunda pessoa e o Espírito a terceira. Mas o conceito de pessoas que temos não foi aplicado a Deus, porque Tertuliano diz que pessoa para Deus era três faces, três semblantes, três expressões características da divindade.
    Na cristologia, Tertuliano dizia: “percebemos uma essência dupla, sem confusão, unida numa só pessoa, em Deus e no homem Jesus”. Acha-se aí a fórmula da doutrina das duas naturezas. Na pessoa de Jesus une-se os dois poderes, o divino e o humano. Cada um é independente, não se confundem, mas reúnem-se numa pessoa só.
    Na encarnação é a metamorfose em que Deus se transforma em homem, Jesus enquanto homem não é um Deus transformado, é homem real e verdadeiro. O poder salvador é o Espírito divino que habita sobre a igreja, Cristo lhes dá vida, luz para os membros. Mas em Irineu temos a ideia de participação mística, em Tertuliano a sujeição a lei. Esses são os dois lados do catolicismo primitivo.       
                                                 

6. O Sacramento do Batismo

    Tinha dois significados, a lavagem dos pecados e a recepção do Espírito divino. Caminha com a imposição de mãos e o óleo sagrado, a pessoa que vai batizar rejeita o diabo, e também qualquer participação com o paganismo, e por fim uma nova vida cristã eram agora chamados de perfeitos. Os pecados eram apagados de certa forma fisicamente, e o Espírito também era concebido fisicamente. Tertuliano chama isso de materialismo. Assim, começa o entendimento do batismo de crianças, se a água tem poder salvador, pode salvar adultos e crianças.
    A ceia para Irineu é a mediação física da imortalidade, nela o cristão se unia com elementos celestiais e divinos.

E. Neoplatonismo
    
    O fim da filosofia grega se dá quando ela se torna religião e a religião em filosofia mística. Certos filósofos cristãos usam dela no meio religioso. Na época no novo testamento, a filosofia está cheia de meios religiosos, e ideias platônicas, estoicas e aristotélicas estavam misturadas.
    O neoplatonismo por meio de Dionísio Areopagita influenciou todas as formas de misticismo cristão, e a maior parte das formas da teologia cristã clássica, especialmente as doutrinas de Deus, do mundo e a da alma.  Para Plotino, Deus é o Uno transcendental; transcende todos os números. O Uno indica em particular o que está além das divisões básicas da realidade, tais como separação entre sujeito e objeto e entre eu e o mundo. Uma vez que o Uno não abriga em si a diferença, é imutável, imóvel e eterno.
Plotino de alma é o princípio da vida em todo o pensamento grego, o princípio do movimento. O princípio movimenta as estrelas ao ponto que podemos dizer que têm alma. Movimenta animais e plantas, por isso eles têm alma. Movimenta nossos corpos, por isso temos alma. Há muitas almas no cosmo, mortais como plantas e imortais, seres humanos, mas o princípio ordenador do mundo é o Logos, Ele é o princípio dinâmico, o poder que opera providencialmente e dirige as leis naturais e morais.

F. Clemente e Orígenes de Alexandria

1. Cristianismo e filosofia

    Muito ensinado na escola de Alexandria, Clemente era o mais sábio, utilizava a doutrina do Logos e dependia mais do Estoicismo do que da escola platônica. Deus é o Uno além dos números, mas Logos é o mediador de todas as coisas nas quais o divino se manifesta. O Logos ama o seres humanos, portanto a educa. Preparou os judeus por meio da lei, os gregos pela filosofia, jamais se ausenta.
    Clemente vê a participação da filosofia no entendimento dos cristãos, eles agora vivem com fé e procuram se alinhar com o Logos e seus ensinamentos. Ele reunia todos os valores do passado, não negava a filosofia grega, o cristianismo assim foi levado ao estado de educação pela escola de Alexandria.

2. Método alegórico

    Orígenes vê as escrituras como autoridade básica e separa três formas de compreensão. O primeiro é o sentido somático, literal ou filológico, todas as pessoas são capazes de entender. Segundo é o sentido psíquico ou moral, que significa a aplicação do texto bíblico a nossa situação de caráter existencial. O terceiro é o sentido pneumático ou espiritual, alcançado apenas pelos perfeitos, mas no sentido místico. Qual seria a razão existente por trás deste método? Foi para ficar aplicável a situação do intérprete, pois era preciso um outro sentido além do literal. Para Orígenes existem dois graus com os cristãos, o primeiro é a ingenuidade, o grau de não compreender totalmente, uma fé simples e inferior que segue para o segundo passo, onde o cristão se torna mais profundo e conhecedor, por isso dizia que os filósofos se tornavam profundos cristãos.

3. Doutrina de Deus

    Deus está além do conhecimento, ultrapassa a mudança e a paixão, é a fonte de tudo. O Logos eterno é gerado eternamente da substância divina, não é finito, é da mesma substância do Pai. Temos dois pensamento de Orígenes, o Filho é co-eterno com o Pai, mas seu poder de ser é pouco inferior ao do Pai, é a mais alta das realidades geradas, mas menor do que o Pai. O mesmo se diz do Espírito que age nas almas dos santos. O Espírito é considerado menor que o Filho e o Filho, menor que o Pai. Dois pensamentos conflitantes, um deles é a divindade do Salvador; se não for divino não poderá salvar e o esquema das emanações, graus a partir do absoluto, que é o Pai, até os níveis mais baixos.
    Sobre a liberdade, não foi perdida na queda, presente e real em todas as situações concretas. E de onde procede a queda? A queda precede a criação da mesma maneira como vem depois dela. Dois pensamentos de Orígenes: o caráter transcendental. Mitologicamente falando, a queda não se deu no espaço. O outro pensamento é imanente, a queda se dá no meio da história por meio de atos especiais no plano histórico. Para Orígenes, o pecado é abandono de Deus, o pecado se relaciona com a criação.

4. Cristologia

    O Logos se une à alma de Jesus que é um Espírito eterno como os demais.  A alma do homem Jesus recebe o Logus completamente. Desse modo, duas naturezas claramente separadas que se unem em Jesus. A verdade é que o Logus ao se fazer carne, se fez carne de tal maneira que se poderia dizer que se transforma em carne. Depois da encarnação, o Logus deixa de ser homem fato comum entre os seres espirituais e por essa razão são chamados de deuses. Orígenes também interpretava o cântico dos cânticos em termos do amor místico da alma com Cristo. A alma humana é a noiva do Logus. A alma recebe o noivo em si e é visitada algumas vezes por ele. Já no judaísmo o cântico é interpretado entre Deus e a sinagoga.

5. Escatologia

    A interpretação sobre o fim do mundo de Orígenes é espiritual. A segunda vinda de Cristo é o aparecimento espiritual de Cristo nas almas das pessoas piedosas. Ele retorna muitas vezes à terra não fisicamente mas nas almas humanas. Orígenes foi considerado herege na igreja cristã. Isso porque acreditava que a punição do pecado é o inferno. Entretanto, é um estado temporário, destinado à purgação das almas. No fim dos tempos, todas as pessoas vão se espiritualizar. E a existência corpórea desaparecerá.

G. Monarquismo Dinâmico e Modalista

    Os cristãos leigos não estavam interessados em especulações cosmológicas presentes no conceito do Logus. Queriam apenas ter a presença do próprio Deus na terra. Suas ideias por meio dos monarquistas que queriam ter apenas um governante, um só Deus e não três como suspeitava acontecer com a cristologia baseada no Logus. Teodoto ensinava que Jesus era um homem em que o Espírito descera no batismo dando-lhe o poder de sua vocação messiânica. Entretanto, não era divino. Negavam assim, a doutrina do Logus.
    Muitos outros movimentos ao longo da história da igreja que ressaltara a humanidade de Jesus, desde a escola de antioquia, passando pelo Adopcionismo medieval até a moderna teologia liberal eram contra o Logus. Essa cristologia chama-se de adopcionista. O homem Jesus é adotado, recebe o Logus, ou o Espírito, mas não é Deus.                     

1. Paulo de Samosata

    Paulo de Samosata afirmava que o Logus e o Espírito eram qualidades divinas e não pessoas. Eram poderes ou potencialidades de Deus, mas não pessoas como seres independentes. Jesus era homem inspirado pelos poderes de cima. O poder do Logus habitara em Jesus como num vaso, assim como nós habitamos em nossas casas. Quanto mais Jesus se desenvolvesse mais haveria de receber o Espírito e então alcançaria a união eterna com Deus. Com essa ideia, Jesus tornou-se Deus, mas teve de certa forma, o mérito do acontecido. Isso nega a natureza divina do salvador. Por isso, foi considerado herege. O movimento monarquista se dividiu: um dos dois lados seguiu a cristologia adopcionista que ensinava que Deus adotara o indivíduo plenamente humano, transformando-o no Cristo, permitindo-lhe a possibilidade de ser plenamente divino em sua ressurreição. O outro lado do monarquismo chama-se modalismo que estava mais de acordo com o sentimento das massas cristãs. O modalismo significa que um Deus aparece em modos diferentes pessoas, significando que o próprio Deus pai sofrera na paixão de cristo.

2. Sabélio

    Sabélio foi líder do monarquismo modalista que declarava que o mesmo é o pai, o mesmo é o filho e o mesmo é o Espírito Santo. Pai, filho e Espírito santo são apenas nomes e não seres independentes. Trata-se do mesmo Deus agindo na história por meio de três semblantes. O pai aparece com sua obra criadora, como doador da lei. E o filho aparece do nascimento à ascenção de Jesus. E a partir da ascenção de Jesus surge o semblante do Espírito. Entretanto, é o pai – Deus monárquico – que está presente em todos os aparecimentos. Portanto, não existe trindade celeste.

H. Controversa Trinitária


    Os direitistas diziam: nada foi criado ou permanece subordinado na trindade. Nada novo apareceu na trindade que já não estivesse nela desde o começo. O filho não é inferior ao pai. Nem o Espírito ao filho. Por outro lado, os esquerdistas opunham-se ao tradicionalismo da direita. Consideravam-se científicos e modernistas. Acreditavam que o filho era o filho era essencialmente diferente do pai, pois foi criado. Não existia ser algum antes que Jesus fosse gerado. Em primeiro lugar estava Deus, em seguida o filho sendo inferior em hierarquia a Deus. Finalmente, em terceiro lugar viria o Espírito Santo abaixo do filho.

1. Arianismo

    Segundo Ário, somente Deus seria eterno e não gerado. O Logus (o Cristo pré-existente) seria mera criatura, criada a partir do nada, nem sempre existindo. O Cristo existira um tempo anterior à nossa existência temporal. Entretanto, não era eterno. Maria concebera um meio deus, nem plenamente Deus, nem plenamente homem. Estava na mesma linha do culto aos heróis do mundo antigo que era povoado por meio-deuses e Jesus teria sido um desses deuses, quase Deus, mas não o próprio Deus.

2. Concílio de Niceia

    A cristologia de Ário foi rejeitada pelo Consílio de Niceia em 325dc. O credo Niceno começa: “Cremos em um só Deus, pai onipotente, criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis e em um só senhor Jesus Cristo, filho de Deus, gerado do pai, unigênito da essência do pai, Deus de Deus, luz de luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado não feito, consubstancial com o pai, por quem todas as coisas foram feitas no céu e na terra; o qual por nós homens e pela nossa salvação desceu do céu e encarnou e foi feito homem. Padeceu e ao terceiro dia ressuscitou; subiu ao céu. E retornará para julgar os vivos e os mortos”.

Alguns pontos que contribuíram para a importância da decisão de Nicéia

1. Aniquilou essa grande heresia de tentar colocar Cristo abaixo de Deus, isso faria com que o cristianismo fosse mais uma religião como as outras.
2. A confissão ganhou mais espaço para Roma e todo o Ocidente.
3. A declaração decisiva foi “consubstancial com o Pai”.
4. Ficou bem definido, Jesus não é um semi-deus encarnado; não é uma criatura acima das outras; é Deus.
5. As declarações foram feitas m termos filosóficos, em uma base de filosofia mística.
6. Começou na igreja haver uma autoridade maior dos Bispos em decisões.
7. A igreja começou a ter que manter suas bases com pressão, começa aqui uma nova história no cristianismo.

3. Atanásio e Marcelo

    O principal defensor em Nicéia foi Atanásio e segundo ele o pecado é vencido pelo perdão e a morte, pela nova vida. A vida nova é comunhão com Deus, renovação moral e possa agora da vida eterna. E para isso duas coisas são necessárias, vitória sobre a finidade e vitória sobre o pecado.  Participamos do infinito de Deus através de Cristo, enquanto verdadeiro homem sofre a maldição do pecado, e enquanto verdadeiro Deus supera a morte. Nenhum semi-deus seria capaz de nos salvar.
    O Cristo encarnado não pode ser entendido pela mente humana a não ser mediante o Espírito Santo. Surgiram grupos também negando a divindade do Espírito, a esses Atanásio diz: “Estão errados querendo transformar o Espírito em criatura. Se o Espírito for criatura, Cristo também é criatura”. O Espírito de Cristo é o próprio Deus em Jesus por meio dele em nós. Um dos apoiadores de Atanásio foi Marcelo, responsável pela introdução do pensamento Monárquico no debate. Ele defendia o sistema monarquista dinâmico, a trindade é dinamizada.

4. Teólogos Capadócios

    Foi Basílio Magno, Gregório de Nyssa e Gregório de Nazianzo. Eles faziam claras distinções entre os conceitos empregados para definir o dogma trinitário. A primeira dizia uma divindade, uma essência, e uma natureza; a segunda, três substâncias, três propriedades e três pessoas. A divindade era entendida como uma essência ou natureza em três formas, três realidades independentes. Todas as três tinham a mesma vontade, a mesma natureza e a mesma essência.

Mas existiu o lado negativo disso e algumas dificuldades sobre o conceito da trindade.

1. De um lado o Pai, é o fundamento da divindade; de outro é um persona especial, uma hypostais particular. Se reunirmos esses dois pontos de vista, podemos falar em quadriedade em lugar de trindade.
2. As distinções no interior da trindade eterna são vazias. A diferença entre Jesus histórico e Deus era óbvia, mas como manter isso na trindade transcendental? As distinções são estabelecidas por palavras como não-gerado, gerado e procedente. Essas são palavras sem conteúdo, porque não há percepção alguma que lhes possa confirmar o sentido.
3. Se o Espírito Santo for compreendido no interior da trindade transcendental será muito mais uma abstração do que uma pessoa.
4. A ideia das três hypostaseis poderia se levar ao triteísmo, que segundo Aristóteles a coisa individual era o telos, dessa forma os três poderes se tornam independentes, ou seja, pessoas independentes.

I. Cristologia

    Sempre houve dois tipos de pensamentos cristológicos: ou o Deus Pai usara o homem Jesus de Nazaré, gerando-o, inspirando-o  e adotando-o como Filho, ou o ser divino se teria tornado homem num ato de transformação.

1. Teologia antioquena

O Oriente e a escola de Antioquia protestaram contra essa tendência da teologia alexandrina.

1. Estavam muito interessados em filologia e procuram alcançar interpretação da pessoa histórica de Jesus e se aprofundaram na crítica histórica.
2. Mostrava certa tendência racionalista
3. Estavam interessados numa ética acentuadamente personalista.
Antioquia defendeu a igreja contra os monofisistas para quem o caráter humano de Cristo desaparecera no divino originando inúmeras ideias mágicas e supersticiosas, preparando assim o caminho para a ênfase escatológica do Ocidente. Teodoro de Mopsuestia declarou contra Apolinário que em Cristo a natureza humana perfeita está unida com a natureza perfeita de Deus. Não se deve dizer que Logos se fez carne; em lugar disse se deve dizer, Ele assumiu a humanidade, a ideia de transformação lhe parecia pagã.

2. Teologia Alexandrina

1. A lenda de Maria crescia sem base Bíblica
2. Alexandria predominava sobre Antioquia.
3. Havia um espaço vazio na religião e uma figura feminina era aceita pelas pessoas, pois outras religiões tinham essa figura feminina, como o Egito.
4. A cristologia de Alexandria possuía um forte apelo popular, ou seja, Deus agora era visível por Cristo e todos tinham acesso.

3. Concílio de Calcedônia

    Dizia que as propriedades de cada natureza e substância eram inteiramente preservadas e reunidas para formar uma só pessoa. A humildade fora assumida pela majestade, a fraqueza pela força e a mortalidade pela eternidade. Vejamos alguns pontos de Calcedônia:

1. Confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito em divindade e humanidade.
2. Verdadeiro Deus e homem, contando de alma racional e corpo.
3. Consubstancial com o Pai, segundo a divindade e consubstancial conosco, segundo a humanidade, semelhantes a nós exceto no pecado.
4. Gerado segundo a divindade antes dos séculos e gerado, segundo a humanidade nestes séculos, gerado pela Virgem Maria, mãe de Deus.
5. Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor e Unigênito, que se deve confessar duas naturezas, sem divisão.
6. As naturezas permanecem intatas, correndo para formar uma só pessoa e substância. Ele não é dividido ou separado em duas pessoas.     

4. Leôncio de Bizâncio

    Ensinou que a natureza humana de Cristo não tinha hypostasis própria devia ser considerada anhypostasis (sem hypostasis). Neste contexto a palavra queria dizer “ser independente”. Em vez disso, a natureza humana era enhypostasis, significando que a natureza humana estava na hypostasis do Logos divino. Chega-se dessa maneira, ao escolasticismo. A briga entre Oriente e Ocidente, prevaleceu o Ocidente e Calcedônia conseguiu preservar o lado humano da figura de Jesus para a nossa teologia Ocidental, e até mesmo para o Oriente. Esse lado humano esteve seriamente ameaçado de ser engolido pelo lado divino.

J. Pseudo- Dionísio Areopagita

    Dionísio representa as principais características dos últimos desdobramentos bizantinos entre os gregos. Trabalhou na mediação do neoplatonismo para o cristianismo, e é considerado o pai da boa parte do misticismo cristão. Alguns de seus termos, como hierarquia, ajudaram para formar o sistema hierárquico de Roma. Deixaram duas obras fundamentais, nomes divinos e sobre hierarquias. Hierarquia é definida como sistema sagrado de graus a respeito do conhecimento e da eficácia.
    Como podemos saber a respeito de Deus? Dionísio dizia que há duas maneiras de se conhecer a Deus; Em primeiro lugar o caminho da teologia positiva e afirmativa, todos os nomes positivos devem-se se atribuir a Deus, pois todas as coisas o indicam, Deus deve ser nomeado com todos os nomes. Em segundo lugar, temos a teologia negativa, no qual ele não pode ser designado por nome algum, seja qual for o nome, pois Deus está acima de qualquer nome, Ele é super-essencial.  É importante que o lado negativo e positivo termine no mesmo fim.
    O conceito de anjo se une ao conceito de essências ou poderes hipostatizados de ser. Tornam-se um mesmo ser representando as hierarquias celestes. Os anjos são emanações do poder divino de ser em essências, em poderes de ser. Os anjos são espelhos espirituais do abismo divino. Estão sempre a contemplá-lo e são os recipientes imediatos de seu poder de ser. Querem ser iguais a ele e retornar a ele.

K. Tertuliano e Cipriano

    Tertuliano achava que o Espírito era uma espécie de substância tênue, como era também considerado a filosofia estóica. Essa substância superior, que era o Espírito, era também a graça e o amor. E o caminho para a recepção dessa graça substancial de Deus passava pela ascese, que era a auto-negação da própria realidade vital. Empregava o termo jurídico “compensação pelo pecado”; o ascetismo representava essa compensação em face do caráter negativo do pecado. Também passou a usar o termo “satisfação”, que por meio de boas obras podemos satisfazer a Deus. Ele falava também de “autopunição”, assim Deus não haverá de nos punir.

Cipriano via a igreja diante de todos os problemas que passava da seguinte forma:

1. Quem não tem a igreja como sua mãe, não pode ter Deus como seu pai. Não há salvação fora da igreja. A igreja é a instituição que se obtém a salvação.
2. A igreja está edificada sobre o episcopado, portanto o bispo está na igreja e a igreja está no bispo, e se alguém não estiver no bispo, não estará na igreja.
3. A unidade da igreja depende da unidade do episcopado. A unidade é representada por todos os bispos, portanto há um representante dessa unidade; é Pedro e sua fé.
4. O bispo é o sacerdote e sua função principal é sacrificial. Ele sacrifica os elementos da ceia repetindo o Gólgota.

L. Vida e pensamento de Agostinho

    Agostinho influenciou a teologia moderna, ele passou e foi até os Franciscanos da Idade Média, passou pelos Reformadores, pelos filósofos dos séculos dezessete e dezoito, chegando aos alemães clássicos, incluindo Hegel e terminando na atual filosofia da religião.

1. Itinerário de Agostinho

a) Situa-se na influência que sua mãe exerceu sobre ele, que significa ao mesmo tempo sua dependência da tradição cristã. O pai era pagão; e a mãe cristã possibilitou-lhe a entrada em outra tradição num novo arcaísmo.
b) Agostinho descobriu o problema da verdade, influenciado por Cícero, um grande estadista romano. Mas Agostinho estava interessado na cidade de Deus e não na civitas terrena. Desenvolveu uma filosofia pragmática, com elementos platônicos, baseados nas necessidades da vida cristã e não na cidadania romana.
c) Agostinho foi atraído pelo maniqueísmo que diziam possuir a verdadeira teologia científica da época e também por causa do dualismo maniqueu capaz de explicar racionalmente o pecado. Agostinho era atraído e havia razões; primeiro a verdade não mera questão teórica, mas assunto religioso preocupado com questões práticas. E em segundo, a verdade era salvadora. Em terceiro, a verdade refulge na luta entre o bem e o mal. Agostinho nunca se livrou da influência dessa seita, seus pensamentos e seus sentimentos sempre mostraram no seu profundo pessimismo em face da realidade, ele só abandonou o maniqueísmo sob a influência da astronomia.
d) Depois que abandonou o grupo maniqueu, caiu no ceticismo. O ceticismo estava na moda, representou o fim de todas as tentativas de se construir um mundo objetivo, no espaço das coisas e dos objetos, e conseguiu jogar Agostinho sobre si mesmo para encontrar no seu interior o lugar da verdade. Temos assim duas consequências; de um lado a aceitação da revelação e do outro a certeza da verdade interior do ser humano.
e) Depois Agostinho se tornou um filósofo neoplatônico, transformando-o em base de nova certeza, a certeza imediata de Deus. O neoplatonismo deu também a Agostinho os fundamentos de sua interpretação da relação de Deus com o mundo. Agostinho transformou o sentido do neoplatonismo no seu oposto. O neoplatonismo era uma filosofia negativa, uma filosofia de escape deste mundo, uma elevação da alma acima do mundo material. Agostinho trocou a ênfase abandonando a ideia de graus e usou para descrever a experiência imediata do divino em todas as coisas, especialmente em sua alma.
f) A autoridade para Agostinho se concentrava no poder da igreja com seus grandes representantes. Mas não se tratava para ele de problema heterônomo, como é hoje para nós. Não significa a submissão ao que alguém nos ordenaria a fazer ou crer. Era, antes a resposta à questão implícita no antigo ceticismo. Portanto não experimentou como heteronomia, como teonomia.                     
g) Agostinho descobriu um novo tipo de santificação eficaz para si e para os outros, à medida que era cristão, com firmes raízes no Antigo Testamento, valorizava a família e o sexo de tal maneira que o sexo deveria se manter dentro do casamento.
h) O século treze foi tomado pela tensão entre Agostinho e Aristóteles.

Vejamos a diferença.

1. Aristóteles construiu um sistema de mediação, já Agostinho acreditava numa visão dualista do mundo.
2. Aristóteles dava importância ao individuo, já Agostinho preferia a comunidade da Igreja.
3. Aristóteles negava qualquer afirmação semelhante à êxtases eróticas e ascéticas de Agostinho, sua atitude era burguesa.
4. Aristóteles representa as ciências especiais, já Agostinho importava o conhecimento de Deus e da alma.
5. Aristóteles era  lógico, Agostinho não era lógico.
6. Aristóteles era um pensador indutivo, partia da realidade dada no tempo e no espaço. Agostinho era um pensador intuitivo, partia de cima e descia as realidades.

2. A epistemologia de Agostinho

    O método se expressa da seguinte maneira; “Desejo conhecer a Deus e a alma”. Nada mais. Deus é visto na alma. Está no centro da alma. Agostinho também liga a questão do problema da certeza, ele afirma que temos a evidência imediata em duas coisas; Em primeiro lugar, da forma lógica – porque até mesmo a questão da evidência pressupõe a forma lógica – e sem segundo lugar, da experiência sensorial imediata, que deveria realmente ser chamada de “impressão” sensorial, porque a palavra “experiência” é demasiadamente ambígua. Ela quer dizer que: “Agora sei que estou vendo azul”.
    Como superar a dúvida a respeito da realidade? Devemos começar com a dúvida em geral, devemos duvidar de todas as coisas. Haverá certeza em algum lugar? Você sabe que esta pensando. Não vá para fora do seu pensamento, vá para dentro. Fique onde você está pensando. A verdade reside no interior do homem, pois a mente não conhece o que está fora dela. Agostinho entendia que a busca da verdade não responde à questão da verdade.
    Sobre a natureza, Agostinho não tinha qualquer interesse técnico em relação a natureza, nem se preocupava com o caráter analítico do conhecimento controlador. Ele mostrava diferença fundamental entre filosofia e teologia; a filosofia poderia levar os teólogos a falar do Logos, mas no momento em que a teologia afirma que o Logos se fizera carne, baseava-se em mensagem teológica capaz de distinguir o cristianismo de qualquer filosofia clássica. A afirmação da encarnação do Logos é de natureza teológica; vem da revelação, não da filosofia.

3. A ideia de Deus

    Para Agostinho Ágape é p elemento de amor no sentido neotestamentário do caráter pessoal e compassivo de Deus. Eros representa o anseio das criaturas por Deus enquanto bem supremo, buscando unir-se a ele, para se realizarem eternamente. Ágape ressalta quando falamos de Deus descendo ao homem. O Logos se fez carne é ágape. Mas toda a carne deseja a Deus; isto é Eros. Quando amamos as coisas corretamente, incluindo a nós mesmos, amamos a substância divina presente nelas e em nós. Quando amamos as coisas em si, separadas do fundamento divino nelas, amamos erradamente; e nos separamos de Deus. Há certo tipo de amor correto e é aquele com que nos amamos, enquanto amados por Deus. Em outras palavras, amamos a Deus, fundamento divino do ser, por meio de nós mesmos.
    Para Agostinho “Pai, Filho e Espírito são análogos, a Trindade é análoga à memória, inteligência e vontade”. Ele emprega o conceito da trindade para descrever Deus analogicamente como pessoa. Sendo pessoa, portanto, todos os atos de Deus, são atos da trindade, até mesmo a encarnação. Nenhuma das três age por si mesma.
    Sobre a criação, não existe matéria alguma antes da criação; Deus cria sem qualquer substância prévia. O mundo é criado a cada instante pela vontade divina, que é a vontade do amor. Portanto, conclui Agostinho, seguido depois pelos reformadores, a criação e a preservação são a mesma coisa; em nenhum momento o mundo se torna independente de Deus.
    O tempo para Agostinho não é uma realidade objetiva no sentido em que as coisas são objetivas. Portanto não pode ser aplicado adequadamente a Deus. Não tem sentido perguntar pelo tempo antes da criação. O tempo foi criado juntamente com o mundo. Tanto o mundo como o espaço/ tempo têm eternidade apenas enquanto sujeitos à vontade eterna da criação. Pode-se dizer que estão potencialmente presentes na vida divina, mas não são eternos enquanto reais; enquanto realidade são finitos. Começam e terminam. Para Agostinho havia um começo definido e haverá haver um fim igualmente definido. Somente a eternidade transcende esse começo e esse fim. O sentido do tempo está presente para Agostinho nos seis mil anos da história mundial. E se por acaso, em lugar disso, tivesse havido cem mil anos ou mesmo alguns bilhões de anos, o sentido do tempo ainda permaneceria. Significado é termo quantitativo, não qualitativo. A medida do tempo não é o relógio. O relógio só mede o tempo físico. E se repete. Mas o significado do tempo é o kairos, o momento histórico, que é a característica qualitativa do tempo.

4. Doutrina do homem

    Agostinho entendia que a função mais importante do homem era à vontade. Mostra-se na memória e no intelecto, e possui a qualidade do amor, isto é, o desejo de reunião. “Nós somos, sabemos que somos, e amamos nosso ser e nosso conhecimento”. O que significa que nos auto-afirmamos e nos autorelacionamos. Afirmamo-nos por meio do conhecimento e da vontade. Para Agostinho as almas não são apenas eternas em sua essência, mas também imortais no sentido técnico de continuação no tempo. Como resultado disso os excluídos da eternidade, os que se separam de Deus são ainda imortais; essa imortalidade significa sua pena e condenação. Estão excluídos de Deus, excluídos do seu amor, o amor que é o fundamento do ser e não merecem nenhuma piedade. Segundo Agostinho, nem mesmo as crianças não batizadas são condenadas ao inferno. Elas vão para o limbus infantium, onde são excluídas da bem-aventurança eterna e do amor divino.

5. Filosofia da história

    A filosofia da história de Agostinho baseia-se como em geral qualquer filosofia da história num dualismo ontológico, de um lado está a cidade de Deus e do outro a da terra ou do diabo. A cidade de Deus realiza o amor de Deus. Está presente na igreja, mas a igreja é um corpo misturado, com pessoas que pertencem essencialmente e espiritualmente a ela e outras que não lhe pertencem.
    Agostinho percebia certa relação entre o reino de Deus e a igreja, e dizia não haver o período de mil anos na história mundial, nenhuma terceira época. Negava o chilianismo ou o milenarismo. Cristo governa a igreja agora. Para ele a história tem três períodos, antes da lei, sob a lei e depois da lei.

6. Controvérsia pelagiana

    Pelágio não era um herético, ele representava a doutrina comum de gente educada no pensamento grego, especialmente das tradições estóicas. Para ele o homem é um ser racional e eles têm liberdade para deliberar e decidir. Para Pelágio a morte não é um evento natural, mas resultado da queda, se Adão não tivesse pecado não teríamos a morte, pois ela pertence à finidade. O pecado de Adão é apenas de Adão; não pertence a raça humana, nesse sentido não há pecado original. As pessoas devem primeiramente pecar para depois se chamarem de pecadoras. A simples dependência de Adão, não nos faz pecadores. Pelágio afirma então que não pode haver pecado sem participação pessoal no pecado. Para ele, quando as crianças nascem estão no mesmo estado de Adão, antes da queda, são inocentes. Para ele as funções de Cristo são duplas; conceder o perdão dos pecados no batismo aos que crêem e dar exemplo de uma vida sem pecado. Ele também dizia que o bem e o mal dependem de nós; somos nós que o praticamos. Não são dados a nós, de fora. Se isso fosse verdade, a religião correria o perigo de se transformar em moralismo.
    A doutrina do pecado de Agostinho renega essas ideias de Pelágio, pois para Agostinho havia liberdade apenas em Adão antes da queda, e o pecado original herdado pela humanidade, restringiu essa liberdade. Acreditava que o primeiro homem, Adão tinha a liberdade de não cair, de não morrer, de não dar as costas para o bem. Não havia cupidez, nem desejo, nem mesmo na vida sexual. Não havia dor nesse estado, nem mesmo para o nascimento de crianças. Era fácil não cair, não havia nenhuma razão para a queda. Mas Adão caiu e não havia razão externa, isso começou do interior, é um pecado espiritual. O homem tinha todas as possibilidades de não cair, mas quis ser o dono de tudo, se levantar sobre os próprios pés. Voltou-se então contra Deus e caiu. Para Agostinho o começo do pecado foi o orgulho e o começo do orgulho é o abandono de Deus.

7. Doutrina da igreja

    Agostinho seguia o mesmo pensamento de Cipriano, e nisso caminhava com distinção entre fé e amor; a fé e a esperança podem existir fora da igreja porque são determinadas pelo conteúdo, pode-se viver entre os hereges e até mesmo ser um deles, mas desde que se satisfaça a fórmula do batismo corretamente, o conteúdo será decisivo e não o status pessoalmente herético ou moralmente indigno da pessoa. As fórmulas são as da igreja Católica. Se as igrejas heréticas empregam as mesmas fórmulas da Igreja Católica, seus sacramentos são válidos por causa dos conteúdos.

    O espírito de amor, encarnado na igreja, enquanto unidade de paz é algo que só pode ser encontrado na igreja, por essa razão só há salvação dentro da igreja.

O Mundo Medieval

Só de entende a idade Média como realidade transcendental, manifesta e materializada numa instituição particular, numa sociedade sagrada específica, dirigindo a cultura e interpretando a natureza. Ela não pode ser medida pelos padrões de hoje, e podemos defini-la pelos seguintes períodos:

1 – Transição, de 600 a 1.000. Este ano 600 é marcado pelo papado de Gregório Magno que mantinha a tradição antiga e é com ele que a Idade Média começa.  Um tempo de preservação e não foram tão escuros assim.

2- Primeira Idade Média de 1.000 a 1.200, período onde artes se desenvolveram, é a arte romanesca.

3- Alta Idade Média de 1.200 a 1300, todos os motivos básicos que irão formar os sistemas escolásticos, da arte gótica e da vida feudal.

4- Idade Média posterior, de 1.300 a 1.450. A partir de 1.300 começa a desintegração.

Escolasticismo, misticismo e biblicismo

O escolasticismo foi a atitude teológica determinante na Idade Média, que é a explicação metodológica da doutrina cristã. O termo vem de “escola” e significa filosofia da escola, era a interpretação teológica de todos os sentidos da vida. Havia apenas um limite, a educação era dada apenas a classe alta, os livros eram escritos em latim e só os educados poderiam ler. As massas não sabiam nem ler e escrever. Todos os escolásticos eram místicos, experimentavam em suas vidas as coisas que falavam. Misticismo era a experiência da mensagem escolástica. A base do dogma era a união com o divino nas orações, nas contemplações e nas praticas as céticas.
No método escolástico, era empregado o dialético conhecido como o método do “sim e do não”, ela combinava e harmonizava a sentença dos pais e dos concílios, primeiramente na pratica e logo em seguida no que se refere as declarações teológicas. A razão coletava, harmonizava e comentava as sentenças dos pais. Platão, Agostinho, Boaventura e os Franciscanos expressam pontos de vistas mais místicos enquanto que a linha que vai de Aristóteles até Tomás de Aquino demonstrou um pensamento mais racional e mais empírico. Do ponto de vista dos fundamentos da religião e da teologia, talvez tenha sido essa a disputa mais importante da Idade Média. Quase todos os problemas que hoje discutimos em nossa filosofia da religião foram examinados nesse conflito, especialmente vigoroso no século treze.

Forças religiosas na Idade Média

A força maior era a hierarquia que representava a realidade sacramental da qual dependiam a existência da igreja e do estado, e a cultura como um todo. Administrava a missa que era o evento sacramental básico, em seguida mantinha a obra educacional das tribos germano-românicas. A hierarquia eclesiástica queria governar o mundo e o imperador queria a mesma coisa, por isso houve tantos conflitos. Ao assumir cargos seculares a hierarquia corria o risco de secularizar. Havia forças religiosas que combatiam isso, entre elas o monasticismo, que era a negação do mundo.
Os monges produziram a mais refinada forma da cultura estética medieval, e até hoje, algumas ordens monásticas representam ainda as mais altas formas culturais na igreja Católica. Os beneditinos tem preservado essa tradição até nossos dias.
Outra força religiosa foi o sectarismo que combatia a igreja por falar algo e fazer outra coisa. Mantinham grupos especiais por ideias de consagração, de santificação e de santidade. Procuravam desenvolver o radicalismo monacal em termos contrários a hierarquia. A própria palavra era “cortavam-se” do corpo da igreja.      

 A Igreja Medieval

Qual era a relação entre igreja e o reino do pensamento medieval? Segundo agostinho a igreja se identifica em parte no reino de Deus e em parte não. Um sério problema porque a igreja queria se identificar com as relações seculares mas era um corpo divino. Agostinho identificava em parte o estado com o reino da terra, também designado com o reino de Satã. A ênfase recaía na identidade do estado como reino de Satã, ou pelo menos do mundo pecaminoso, ou na negação dessa identidade, concedendo a função divina controladora do caos.
Sobre os sacramentos, do ponto de vista da vida religiosa, eram os mais importantes da historia da igreja, pois não eram atos realizados em certas épocas do ano em maior ou menor solenidade. O divino se fazia presente por meio de formas sacramentais. E sacramento queria dizer uma porção de coisas na historia da igreja. Eram os feitos de Cristo e seu sofrimento, eram os evangelhos, eram os símbolos da Bíblia, o caráter simbólico dos edifícios eclesiásticos, com atividades desenroladas, tudo como presença do sagrado. Na igreja Romana os principais sacramentos são o batismo e a eucaristia, mas a penitencia sempre esteve no centro da piedade popular.
Mas o que é o sacramento? É um sinal visível, instituído por Deus para ser um remédio do qual sob formas materiais o poder de Deus age de maneira oculta. As ideias básicas são: instituição divina, sinal visível, remédio, e o poder oculto de Deus sob a forma sensível. A vida inteira se passava sob os efeitos do sacramento, o batismo removia o pecado original, a eucaristia os pecados veniais, a confissão os mortais, a extrema unção o que restava de pecaminoso antes da morte; a confirmação levava as pessoas a lutar pela igreja; a ordenação fazia o clero, e o matrimonio levava o homem e a mulher ao desenvolvimento da sua vocação natural.
Anselmo afirmava que toda verdade estava contida nas escrituras e o conteúdo da verdade é aprendido pela submissão de nossa vontade a mensagem cristã e pela subsequente experiência que vem daí. Essa experiência é concedida pela graça; não é produzida pelas atividades humanas. A fé não depende de conhecimento embora o conhecimento dependa da fé. Qualquer conhecimento baseado na experiência conduz a sistemas. Podemos analisar alguns pontos a mais: Segundo Anselmo até o tolo do Salmo 53 diz no seu coração, “não há Deus” e entendo o significado do termo Deus. Ele entende que o mais alto, o incondicional, se concebe no termo Deus. Se ele entende o significado de Deus como algo incondicional, essa ideia então existe na mente humana. Mas existe uma forma superior de ser, não apenas na mente humana, mas no mundo real fora da mente humana. Uma vez que estar na mente ou fora dela é superior a estar apenas no intelecto, esse ser é o incondicional.
Abelardo representa o lado subjetivo que leva em consideração a vida pessoal, enquanto realidade subjetiva e não mero desejo vago. Ele não gostava de aceitar os mistérios da fé sem entender o significado das palavras utilizadas. Não queria deduzir esses mistérios da razão, mas compreendê-los com a razão. Abelardo não estava apenas interessado com o compromisso com a verdade e com a bondade, mas no compromisso em si. Por exemplo; o sentimento e refletimos sobre ele. Experimentamos a fé e pensamos a respeito dessa fé experimentada. Trata-se de uma atitude caracteristicamente moderna que apareceu pela primeira vez com Abelardo. Representou também a descoberta do eros contra dois fatores até então predominantes, a autoridade paternalista e a mera sexualidade, sem qualquer relacionamento com as relações pessoais, permitida e limitada pela igreja e assim utilizada na família paternalista.
Bernardo em seu misticismo tem dois tipos de conteúdo: o divino se faz transparente, em primeiro lugar por meio da pessoa de Jesus, a ênfase recai sobre sua humildade e não sobre sua ética. Nós participamos, por meio dele, na realidade de Deus, e a nossa caminhada com Jesus é uma experiência mística. O misticismo cristão tem em comum com as demais formas de misticismo. Bernardo acreditava em três passos como: a consideração, a contemplação e o excessus.
O século treze é o mais importante, pois todo o destino do mundo Ocidental foi definido nessa época. Esse século pode ser definido em três etapas e representado por três nomes: Boaventura, Tomás de Aquino e Duns Escoto.
Os pressupostos que fizeram deste século o mais importante foram as cruzadas que proporcionaram o encontro do cristianismo com duas culturas altamente desenvolvidas, a judaica original e a islâmica. Isso causou reflexão, pois o encontro gerou divergências. O segundo pressuposto foi o surgimento dos escritos completos de Aristóteles trazendo um sistema filosófico, superior a de Agostinho. Em terceiro aparecem ordens religiosas novas, a dos pregadores e dos mendicantes, que popularizavam e intensificavam a substância religiosa. Criaram organizações mundiais em todos os países e discutiam entre si teologicamente.
Tomás de Aquino com a doutrina da graça, diz que a graça e a natureza não se contradiziam. A graça apenas contradiz a natureza deformada, mas não a natureza em si. A natureza se realiza na sobrenatureza, que é a graça. Essa estrutura de realidade existia desde a criação. Deus dera a adão no paraíso, não apenas capacidades naturais, mas o donum superadditum, o acréscimo de um outro dom aos dons naturais. Trata-se do dom da graça em virtude do qual Adão podia permanecer unido a Deus. Tomás também cinco argumentos em defesa de Deus. Primeiro: Do movimento, pois o movimento exige causa e essa causa também é movida, ou seja, é preciso montar um motor imóvel que chamamos de Deus. Segundo: cada efeito tem sempre uma causa, mas cada causa é efeito de uma causa anterior, então precisamos falar de uma causa primeira. Terceiro: Tudo no mundo é contingente, não é necessário que tudo seja como é, poderiam ser diferentes. Quarto: há propósitos na natureza e no homem. Quinto: graus de perfeição, algumas coisas são mais belas que as outras e para isso, necessita haver alguma coisa absolutamente perfeita.                
 Catolicismo Romano de Trento

Observando a Contra-Reforma que se levanta com a Igreja Romana, através do concilio de Trento, levantando assim a defesa do que criam. Com isso vemos Doutrinas das autoridades, onde as Escrituras e a Apócrifa do Antigo Testamento tem a mesma autoridade. A escritura e a tradição estão no mesmo pé de igualdade. A vulgata de São Jerônimo, foi a única tradução autorizada da Bíblia. Somente a Santa Mãe Igreja interpreta a Bíblia.
Sobre a doutrina do pecado, entende-se que o pecado transforma o homem em algo pior do que é e a liberdade não se perdera, mas foi enfraquecida. No batismo todos os pecados são perdoados, mas a concupiscência permanece depois do batismo. Na doutrina da justificação é baseada na cooperação do homem para com Deus e quanto maior for essa cooperação, mais a graça preveniente, maior será a justificação.
Os sacramentos foram mantidos pois se dizia que pelos sacramentos começa toda a verdadeira justiça, e se já começou, é aumentada, e se foi perdida é restituída. Não há salvação sem os sacramentos, eles são poderes salvadores e não só fortalecedores como no protestantismo. Possuem força oculta própria que passa para os que não oferecem resistência a graça. E por fim a infalibilidade papal.

A Teologia os Reformadores Protestantes

Lutero foi um dos mais destacados nessa reforma, pois dava respostas a todo sistema de Roma e se opunha totalmente as diretrizes da Igreja Católica. A ruptura de Lutero foi provocada externamente pelo sacramento da penitência. Há dois principais sacramentos na Igreja Romana, a missa e o sacramento. A critica principal de Lutero era contra a penitência, então dizia: “A penitência oscila entre a justiça e a injustiça. Portanto, arrependemo-nos porque somos pecadores, mas por essa mesma razão somos igualmente justos, na verdade o que importa é o arrependimento.
Lutero valorizava altamente a edição do novo testamento feita por Erasmo e interpretava as Escrituras em harmonia com sua nova compreensão da relação do homem com Deus. Afirmava que a Bíblia é a palavra de Deus. Mas quando queria expressar o que pensava, dizia que na Bíblia se encontrava a palavra de Deus, a mensagem de Cristo, a expiação, o perdão dos pecados e a dádiva da salvação. Deixava bem claro que a Bíblia continha a palavra de Deus no sentido em que transmitia a mensagem do evangelho. Mas entendia que essa mensagem existia antes da Bíblia, na pregação dos apóstolos. Como Calvino diria mais tarde, Lutero entendia que os livros da Bíblia eram uma situação de emergência, posto que necessários, “se eu sei o que creio, conheço o conteúdo das Escrituras, pois elas não contem outra coisa a não ser o Cristo”.
Sobre o pecado e a fé Lutero dizia que pecado é falta de fé; falta de fé é o verdadeiro pecado. Nada justifica a não ser a fé, nada é pecaminoso a não ser a falta de fé. A falta de fé é todo o pecado. A ideia de Deus é que Ele só pode ser visto por meio de contrastes. Negava tudo o que pode dar a ideia de finidade em Deus. Entre as coisas menores, Deus é ainda menor, entre as maiores, maior. Na doutrina de Cristo, Ele é Deus para nós, Deus relacionado conosco.
Para outro reformador, Calvino, Deus é sempre o elemento fundamental em qualquer doutrina e a doutrina central do cristianismo, é a da majestade de Deus. Deus é numinoso para ele, é inatingível, terrível e, ao mesmo tempo, fascinante. Sobre o sofrimento humano dizia que primeiro é a consequência do mundo natural caído e em segundo, um modo de trazer os eleitos de Deus e em terceiro, um modo de Deus mostrar sua santidade, punindo um mundo caído. Sobre a vida cristã ele afirmou, “quando explicam a alegria que a mente experimentada depois de apaziguada, em face de perturbações e temores, não posso concordar com eles (Lutero e seus seguidores), pois essa experiência deveria significar, antes, o ardente desejo e a decisão de se levar uma vida santa e pia, posto que o homem só começa a viver em Deus quando morre para si mesmo”. Para Lutero a vida nova é alegre reunião com Deus, para Calvino, o cumprimento da lei de Deus.
                                       

              Ronaldo José Vicente (ronjvicente@gmail.com)

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