Os Humildes de espírito

Sermão da Montanha.

Humildes de espírito

“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus[1]” (Mt 5.3).

Vamos observar duas palavras neste versículo no original grego, para podermos ter um ponto de início em nosso artigo:

·      Bem-aventurados (μακαριος [grego]), (makarios [transliteração]), (feliz [tradução])

·      Os humildes (πτωχος [grego]), (ptochos [transliteração]), (reduzido a pobreza, mendicância; que pede esmola, pobre, destituído de riqueza, influência, posição, honra, humilde, aflito, desamparado, impotente para realizar um objetivo, pobre, indigente, necessitado em todos os sentidos [tradução])[2] 

Iniciamos o nosso primeiro entendimento sobre o sermão do monte. Vamos compreender que Cristo mostrou a característica correta de um cidadão do reino dos céus. Da mesma forma que existem características culturais em vários povos, existe também uma característica predominante naquele que é cidadão do reinos dos céus. Cristo detalhou como ele é; como se posiciona, como se apresenta e como atua na Terra – e atuará no reino vindouro.   
O segundo ponto deve chamar nossa atenção pelo fato de Jesus começar o sermão do monte com à ênfase na humildade. Ele poderia ter começado com as “lágrimas” de sofrimento ou com o senso de “justiça” das pessoas, entretanto Ele preferiu começar com a humildade.  

Necessariamente, essa é a primeira das bem-aventuranças devido à excelente razão que ninguém pode entrar no reino de Deus, também chamado reino dos céus, a menos que seja possuidor da qualidade nela expressa. No reino de Deus não existe sequer um participante que não seja “humilde de espírito”. Essa é a característica fundamental do crente, do cidadão do reino dos céus; e todas as demais características são, em certo sentido, resultantes dessa primeira qualidade (Lloyd-Jones. 1999, p. 37).        

Este é o ponto inicial com grande valor no sermão, pois Cristo identifica já no princípio; como devemos ser aniquilados pelo Evangelho em nossa essência pecaminosa. Para ilustrarmos esta verdade, imagine uma grande montanha, onde o próprio Deus está assentado. Ao olharmos para este monte, despertaremos desejos de encontrá-Lo, ou seja, desejo de subir o monte pela nossa própria força, capacidade, inteligência, talento e expectativas. Porém,  para subir, o homem deve se sujeitar às bem-aventuranças. Elas servem como degraus até o lugar da habitação de Deus. O segrego então está nesta primeira operação.

Quem, SENHOR, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte? O que vive com integridade, e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade; o que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho; o que, a seus olhos, tem por desprezível ao réprobo, mas honra aos que temem ao SENHOR; o que jura com dano próprio e não se retrata; o que não empresta o seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem deste modo procede não será jamais abalado (Sl 15.1-5).


Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente. Este obterá do SENHOR a bênção e a justiça do Deus da sua salvação (Sl 24.3 –5).

O orgulhoso dirá em seu coração: - “Eu posso subir! Sou humilde. Eu consigo cumprir, através da minha capacidade, o que a lei determina”. Aquele que pensa assim, já está condenado.  
Ou então, o homem dirá: - “Eu consigo cumprir partes da bem-aventurança e apenas preciso cumprir às outras exigências para ser completo e subir”. Novamente o orgulhoso não entendeu o ponto mais crucial do sermão. Ninguém é capaz de cumprir as ordenanças pelas próprias forças. A primeira sentença de Cristo é baseada na morte do ego. A aniquilação do nosso poder de tentar conseguir sermos santos sem Cristo.

Ser humilde de espírito é nos ver espiritualmente pobres, ao invés de ricos, em se tratando de nossa habilidade de experimentar e desenvolver nossa vida espiritual sem o Espírito. Isto significa ver nossa profunda necessidade de sermos ajudados por Deus para entendermos o quanto Deus quer nos dar, vermos nosso estado de pobreza nas coisas espirituais e, ainda, compreendermos nossa carência e deficiência espirituais (Mike Bickle).

Precisamos entender algo fundamental. Há um enorme desejo de Deus em fazer-nos subir ao monte santo. Porém, devemos compreender que YHVH odeia qualquer homem que tenha uma postura orgulhosa - pensar poder subir sem receber a condição dada exclusivamente por Ele. O homem carrega uma natureza de orgulho. Acredita que pode aproximar-se, ou, permanecer na presença de Deus pelo mérito da própria bondade. Crê ser apto em cumprir os requisitos. Deus odeia essa atitude!

Ora, presunção de espírito quer dizer orgulho e arrogância. Assim é dito, frequentemente, dos orgulhosos que estão cheios de si. Com razão, pois, a palavra “espírito” também significa vento. De fato, está escrito: “O fogo, o granizo, a neve, a geada, o vento das tempestades” (Sl 148.8). Na verdade, quem ignora que se diz dos soberbos que eles estão inchados como se estivessem cheio de vento? Isso levou o Apóstolo a dizer: “A ciência incha; é a caridade que edifica” (ICo 8.1). Logo, com razão se entende aqui que são pobres de espírito os humildes e tementes a Deus, isto é, os desprovidos de todo espírito que incha (AGOSTINHO. 2017. P. 24)    

A pergunta feita no Salmo 15 e 24, não pode ser interpretada como proposta convidativa. Até podemos compreender como um convite divino no sentido do desejo de Deus em trazer-nos para sua presença. Entretanto nele há um grande desafio. YHVH está desafiando a humanidade: - “Quem pode subir o monte? Quem pode vir até mim através de suas próprias forças?”.  O Rei está assentado em seu trono propondo um desafio a toda rebeldia na natureza do homem. Por isso a bem-aventurança inicia-se com a condição da humildade. Ele primeiramente quer destruir nosso egocentrismo, para depois levar-nos à ser da maneira como Ele quer. Fazendo isso através do Seu Filho: Jo.14.6 –“Respondeu- lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”.

É digno de uma nota de agradecimento que essa bem-aventurança evangélica desça ao nível exato onde a lei deixa-nos, depois de ter feito por nós o melhor que pôde dentro de seu poder e desígnio. O máximo que a lei pode fazer por nossa humanidade caída é mostrar-nos nossa pobreza espiritual, e convencer-nos dela. Ela não pode enriquecer o homem sob nenhum ponto de vista; seu maior serviço é arrancar-lhe sua riqueza imaginária de justiça própria, mostra-lhe seu endividamento esmagador com Deus, e pô-lo com o rosto em terra cheio de desconfiança de si mesmo (SPURGEON. 2014. p. 27)

Assim, ser “humilde” (pobre) de espírito” é reconhecer nossa pobreza espiritual ou, falando claramente, a nossa falência espiritual diante de Deus, pois somos pecadores, sob a santa ira de Deus, e nada merecemos além do juízo de Deus. Nada temos a oferecer, nada a reivindicar, nada com que comprar o favor dos céus (STOTT. 2008, p. 28)   

O Evangelho e o esvaziamento


Encontramos neste princípio a primeira força radical do evangelho. Ele é um impacto contra toda força independente. O evangelho leva-nos ao arrependimento e submissão ao Senhorio de Cristo; por isso destrói-nos: “Eis que este menino está destinado tanto para ruína (πτωσις [grego]), (ptosis [transliteração]), (queda, caída [tradução]), como para levantamento (αναστασις [grego], (anastasis [transliteração]), (ressurreição dos mortos [tradução]) de muitos em Israel e para ser alvo de contradição[3].
O aniquilamento vem antes da salvação. O evangelho condena antes de libertar. O arrependimento vem antes da certeza da salvação. Primeiro Deus nos leva a queda, ou seja; a queda do velho homem. Depois, nos traz a certeza e a compreensão da salvação: “Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á” (Mt.16.25). Vejamos  o exemplo de Pedro e como reconheceu ser um pecador diante de Cristo: “Vendo isto, Simão Pedro prostrou- se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, retira- te de mim, porque sou pecador” (Lc 5.8).

Precisamos reconhecer o que os pagãos nem mesmo conseguiam expressar. Precisamos despertar para o fato do nosso pecado. Precisamos tomar conhecimento do nosso verdadeiro estado espiritual. Precisamos saber e reconhecer que somos filhos da desobediência, filhos da ira, tendo vivido nas paixões da nossa carne. Durante toda a vida, viemos colhendo pecado sobre pecado, desde que somos capazes de distinguir entre o bem e o mal. Precisamos estar dispostos a nos submeter à mão poderosa de Deus, sabendo que somos culpados de morte eterna. Para sermos pobres em espírito, precisamos lançar fora, renunciar e abominar todas as ideias de que algum dia seremos capazes de nos salvar. Precisamos chegar ao conhecimento de que seremos purificados e perdoados pela graça de Deus dada em Jesus. Quando fazemos isso, podemos receber a promessa. Podemos testificar: “Felizes são os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus” (WESLEY. 2012. pg.72)

Humildade X pobreza


Não podemos confundir a condição de humildade com o estado de pobreza, ou a humildade com determinados votos de pobreza. Desejar uma vida simples, acreditando que esta vida proporcionará santidade, poderá não ser tão eficaz. O estado de pobreza pode estar relacionado a várias situações; falta de trabalho, falta de oportunidades, preguiça, vagabundagem, escolhas erradas e por último, soberania de Deus. Alguém pode ser pobre e avarento, orgulhoso, soberbo e não ter nenhuma humildade em seu coração.
Não podemos acreditar também que o abandono das riquezas pelo simples voluntariado, de alcançar santidade e permanecer em uma vida simples, nos faz estar aptos como humildes no reino de Deus. Neste discurso deve haver equilíbrio, pois quando não entendemos a questão da renuncia e o desapego das coisas terrenas, podemos caminhar para a ganancia espiritual, e aos apegos nas coisas terrenas. O equilíbrio deve ser mantido no relacionamento vivo com Deus, independente das coisas que conquistamos. Ao mesmo tempo administrando de forma humilde o que Ele está confiando para cada um de nós.  
Havemos de ser “pobres” em espírito no sentido de não estarmos apegados a nada. Não O trocarmos. Não O substituirmos. Ele deve ser tudo para nós: “Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes: Bem- aventurados vós, os pobres porque vosso é o reino de Deus[4]”.

A palavra ptôchos (“pobre” – no grego clássico, “mendigo, pedinte”) tem uma força diferente na LXX e no Novo Testamento. Traduz diversas palavras hebraicas, mais importante (no pl.) ‘a nâwîm (“os pobres”), isto é, os que, por causa continuada privação econômica e infortúnio social, confiam apenas em Deus (Sl 37.14; 4017; 69. 28,2932,33; Pv 16.19 [NVI, “os oprimidos”; ARA, “os humildes”]; 29.23; Is 61.1; Sl 5.2,11; 10.7). Assim, junta-se as passagens afirmando o favor de Deus para o humilde e contrito em espírito (Is 57.15; 66.2). Isso não quer dizer que não haja preocupação com o materialmente pobre, mas que a pobreza em si mesma não é a principal coisa (a pobreza “causada por ele mesmo” do filho pródigo). A riqueza e o privilégio, longe de conferir vantagem espiritual, impõem grande perigo espiritual. Contudo, embora a pobreza não seja uma benção nem garantia de recompensas espirituais, ela pode se transformar em vantagem se encorajar a humildade diante de Deus (CARSON. 2010. p. 165)       

Podemos descobrir um sentido mais profundo nas Escrituras para a palavra humilde: J. Dwight coloca a seguinte questão:

A palavra "humilde", que nosso Senhor empregou em Mateus 5:3, é uma palavra muito interessante e descritiva. Para entender seu emprego, veja Lucas 16:19-22: “Ora, havia certo homem rico, que se vestia de púrpura e de linho finíssimo, e que todos os dias se regalava esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão”. A palavra que nos versículos 20 e 22 é traduzida por "mendigo" é a mesma que em Mateus 5:3 se traduz por "humildes". O mendigo era destituído de tudo, batido pela pobreza, sem recursos de nenhuma espécie. Humilde e mendigo derivam de uma raiz que significa "cobrir" ou "encolher". Era tão humilhante ao indivíduo confessar que nada tinha, e que por isso dependia de outrem, que o próprio ato de mendigar o rebaixava. Por isso é que o mendigo cobria o rosto, encolhia-se, acovardava-se quando estendia a mão para pedir uma esmola. Ele tinha vergonha de ser reconhecido – então poderíamos dizer. "Bem-aventurados os mendigos de espírito, bem-aventurados os paupérrimos espirituais, bem-aventurados os espiritualmente destituídos, bem-aventurados os falidos espiritualmente que se encolhem e se humilham por causa de seu total desamparo; porque deles é o reino dos céus (DWIGHT. 1984. p. 18)

O Contraste: O Mundo X Cristianismo.


O mundo cria uma imagem forte, mas na verdade necessita-se ter essa imagem para poder sobreviver, conquistar ou ser respeitado. Quando as pessoas se submetem a essa realidade, favorecem seu ego de independência, ou seja, nunca mostram-se fracos; sempre aparecem com o poder de ultrapassar. Estes aparentemente fortes nunca reconhecem maioridade em Deus e, manifestam poder sobre os aparentemente fracos.  
O cristianismo caminha para o lado oposto, a história Bíblica está repleta de homens fracos, sujos, pecadores, abandonados. Contudo, compreenderam serem incapazes de chegarem à altura que Deus determina.  
Ao relembrarmos os dois momentos de vida de Moises, em seus primeiros 40 anos, muita força foi demonstrada. Era um homem impulsionado pelo Egito, com conhecimento, força, aptidão e valentia, matando até um soldado. Porém, podemos observar nos anos seguintes; ele está velho, resistindo ao confronto, com problemas de fala e, não se sentia apto ou capaz de fazer a vontade de Deus. Moisés não se vê mais com potencial para ir e cumprir a missão de Deus

Então, disse Moisés ao SENHOR: Ah! Senhor! Eu nunca fui eloquente, nem outrora, nem depois que falaste a teu servo; pois sou pesado de boca e pesado de língua. Respondeu- lhe o SENHOR: Quem fez a boca do homem? Ou quem faz o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o SENHOR? Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar. Ele, porém, respondeu: Ah! Senhor! Envia aquele que hás de enviar, menos a mim. Então, se acendeu a ira do SENHOR contra Moisés, e disse: Não é Arão, o levita, teu irmão? Eu sei que ele fala fluentemente; e eis que ele sai ao teu encontro e, vendo- te, se alegrará em seu coração. Tu, pois, lhe falarás e lhe porás na boca as palavras; eu serei com a tua boca e com a dele e vos ensinarei o que deveis fazer. Ele falará por ti ao povo; ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus. Toma, pois, este bordão na mão, com o qual hás de fazer os sinais (Ex.4.10-17).      

Na história de Deus encontramos outros homens desta mesma maneira; Gideão, Isaías, Jeremias e os discípulos. Primeiro o Senhor os destrói. Tornam-se fracos diante d`Ele. Por isso ajoelham-se e o reconhecem, pelo fato d`Ele ser maior e mais poderoso. O reverenciam por demonstrar este poder. Se pensarmos em uma empresa e da forma que concorre o mundo, ao surgir uma vaga de emprego, os candidatos devem mostrar suas aptidões. Nunca devem mostrar as fraquezas de desejam realmente a vaga. A empresa deseja o melhor. Aquele que revelar suas fraquezas será eliminado. Por outro lado, mude a historia e imagine o Senhor abrindo vagas em seu reino. Seus requisitos são as bem-aventuranças: aquele que aparecer por primeiro mostrando todas os seus talentos, mesmo usando alguns pontos essenciais do sermão monte, porém passando por cima da humildade – será radicalmente eliminado. Contudo o aprovado é aquele que olha para o Senhor e reconhece a si mesmo; - “não estou apto para a vaga, não tenho condições de exercer a função!”. Este será contratado pelo Senhor.

Aquele que é pobre em espírito não depende de suas posses materiais. Não consegue dizer: Sou rido e abastado em bens; de nada careço. O pobre em espírito sabe que é desprezível, pobre, miserável, cego e nu. Tem convicção de que é de fato espiritualmente pobre. Sabe que nele não habita nenhum bem espiritual. Ele diz: Nada de bom habita em mim, somente o que é mau e abominável. Possui um profundo senso do pecado repulsivo que o envolve desde o nascimento. Sabe que o pecado recobre sua alma e corrompe totalmente cada poder e faculdade. Ele vê, mais e mais, os maus impulsos que brotam daquela raiz maligna. Tem consciência do seu orgulho e de sua arrogância de espírito. Sabe de sua constante inclinação para pensar de si mesmo mais do que convém. Está convencido de sua vaidade e da sede de estima e honra que vem dos homens. Sabe que possui ódio, inveja, ciúmes, vingança, ira, maldade e amargura. Admite uma inimizade inata, contra Deus e contra os homens, que aparece em milhares de formas. Reconhece que ama o mundo em vez de amar a Deus. Confessa a vontade própria, os desejos tolos e nocivos agarrados ao fundo de sua alma. Está ciente de quanto ofende Deus e os homens com suas palavras. Se não for culpado de palavras profanas, insolentes, mentirosas ou descorteses, é culpado de conversas que não edificam nem glorificam a Deus. Ele sabe que sua fala não tem sido útil na administração da graça aos ouvintes (Wesley. 2012. p. 69 )

Spurgeon continua: 

Nenhum homem se lamenta diante de Deus a menos que seja pobre em espírito, nem tampouco se volta manso para com os outros, se não tiver uma opinião humilde de si mesmo; a fome e a sede de justiça não são possíveis para aqueles que têm uma alta opinião de sua própria excelência, e a misericórdia para com aqueles que ofendem é uma graça muito difícil para aqueles que não são conscientes de sua própria necessidade espiritual. A pobreza de espírito é o átrio do templo das Bem-aventuranças (SPURGEON. 2014. p. 29). 

Aqui encontramos o segredo do evangelho e daqueles que o descobrem. Paulo podia orgulhar-se de tudo o que era; sua inteligência, seu curriculum, suas aptidões. Porém, considerou tudo como lixo ao ser impactado pela força do evangelho:   

Bem que eu poderia confiar também na carne. Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu, quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo (Fp.3.4-8).

Este é o segredo de Deus e que deixa o mundo perplexo. Deus tem sua forma de trabalhar. Essa maneira envolve pessoas fracas, ou seja, indivíduos que Ele mesmo reduz ao pó:  

Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus (ICor.1.26-29).

A este respeito Bickle comenta:

A maneira para sermos humildes de espírito é entendendo o mais alto propósito de Deus para Seu povo. Nós vemos o quanto Deus deseja fazer em e através de nós. Nós somos chamados para caminhar em amor por Jesus e pelas pessoas, e então inspirar outros a este estilo de vida, como definido no Sermão no Monte. Isto inclui ter um espírito vibrante/feliz e fome pela Palavra, por um espírito de oração e pela liberação do poder do Espírito Santo através de nossas palavras, mãos (orando pelos enfermos) e ações. Em outras palavras, Deus deseja manifestar Sua presença em nossas vidas e nos ungir para inspirar outras pessoas a caminhar no estilo de vida do Sermão no Monte (Mike Bickle).

Lloyd-Jone prossegue:

Os humildes de espírito não dependem do fato que pertencem a determinadas famílias; não se vangloriam de pertencer a certas raças ou nacionalidades. Essas pessoas também não edificam as suas vidas sobre o alicerce do seu temperamento natural. Nem acreditam que haja alguma vantagem em sua posição natural na vida, e nem dependem disso ou de quaisquer potencialidades que lhes hajam sido conferidas. A pessoa que é humilde de espírito não depende do dinheiro ou de quaisquer riquezas de que porventura seja possuidora. Se somos humildes de espírito então não dependemos da educação recebida, nem da escola ou faculdade particular que tivemos frequentado. Não, porquanto todas essas coisas serviam a Paulo apenas de empecilhos para maiores realizações, visto que elas tendiam por dominá-lo e controlá-lo. Por semelhante modo, não dependeremos de quaisquer dotes naturais de “personalidade”, de inteligência ou de habilidades gerais ou particulares. Não dependeremos, por igual modo, de nossa própria moralidade, conduta ou bom comportamento. Não apelaremos, em nenhum sentido, para a vida que temos vivido ou que estamos tentando viver. Não, mas consideraremos todas as coisas da mesma maneira como Paulo as considerava. É nisso que consiste a “humildade de espírito”. Precisamos gozar de completa libertação de todas essas coisas, e todas elas precisam estar ausentes de nossas vidas (Lloyd Jones. 1999. p. 45)

Aprendendo com Cristo.

Deus ama os humildes e deseja habitar com eles.


As bem-aventuranças são um ensino de como sermos como Jesus é. Devemos ansiar imitá-lo. Entendendo que só Ele poderá nos fazer subir ao monte de Deus. Devemos aprender com Jesus: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma[5]. Isso é muito importante, porque Deus ama verdadeiramente os humildes. Ele não resiste a um coração humilde: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus”[6]. Ele habita com os humildes: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos[7]. Ele observa atentamente para os humildes: “Assim diz o SENHOR:O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis vós? E qual é o lugar do meu repouso? Porque a minha mão fez todas estas coisas, e todas vieram a existir, diz o SENHOR, mas o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da minha palavra[8].   
Devemos compreender que o sermão do monte está todo envolvido na lei de Deus. Ele não é a lei de Cristo separada da lei de Deus. Na verdade, é uma expressão de Cristo mais clara, humana e relacional com o seu povo. Cristo mostrou que a lei de Deus não é para aprisionar o homem, porém, para libertá-lo. A lei não é para reprimi-lo e sim, para instrui-lo em uma vida mais completa. J. Dwight diz que: - “podemos denominar as Bem-aventuranças de "Fundamentos de uma vida feliz", ou seja, são meios pelos quais os cristãos podem ser muito felizes ao seguir os mandamentos. Eles o fazem não por medo ou obrigação, mas com alegria. Por isso que a tradução de bem-aventurado é muito feliz.


Bibliografia

·      LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. Fiel: São Paulo, 1999.
·      BICKLE, Mike. Perseguindo o Estilo de Vida do Reino. Valores Fundamentais do Reino.
·      STOTT, John. A Mensagem do Sermão do Monte. Abu: São Paulo, 2008.
·      WESLEY, John. O Sermão do Monte. Vida: São Paulo, 2012.
·      CARSON, D. A. O Comentário de Mateus. Shedd: São Paulo, 2010.
·      AGOSTINHO. O Sermão da Montanha e Escritos sobre a fé. Paulus: São Paulo, 2017.
·      DWIGHT, J. Pentecost. O Sermão da Montanha. Vida: São Paulo, 1984.
·      SPURGEON. Charles. As Bem-Aventuranças. Projeto Spurgeon: São Paulo, 2014.



[1] Bíblia Revista e Atualizada.
[2] Dicionário Bíblico Strong.
[3] Lc 2.24
[4] Lc.6.20
[5] Mt 11.29
[6] Salm 51.17
[7] Is 57.15
[8] Is 66.1-2


Autor: Ronaldo José Vicente. É casado com Clarissa Alster Vicente e tem uma filha chamada Esther Alster Vicente. É Pastor da Igreja PorTuaCasa, localizada em São Paulo. É teólogo formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente, faz mestrado em Antigo Testamento pelo Andrew Jumper. Escritor, lançou um livro que se chama: “O Profeta em Israel e a Justiça Social”, lançado pela Editora Reflexão. Desenvolve seus artigos no blog: www.lagrimasportuacausa.blogspot.com.br. É músico (baterista), autor de várias composições. Exerce seu trabalho com sua banda chamada Templo de Fogo. 


Igreja PorTuaCasa. Localizada na Rua Almeria, 58 - Vila Granada - SP - CEP 03654-000 (Perto do metro Guilhermina - Esperança - Linha Vermelha).
Facebook: https://www.facebook.com/groups/374908422689555/ 


 "O Profeta em Israel e a Justiça Social", lançado pela editora Reflexão. Pr. Ronaldo José Vicente. (ronjvicente@gmail.com)   - Adquira o livro clicando:  http://www.editorareflexao.com.br/o-profeta-em-israel-e-a-justica-social/p/576 


Banda Templo (ICor 3.17) de Fogo (Hb 12.29)


CD – O VIDENTE


Este CD tem como característica fundamental a vida e a mensagem dos profetas do AT. Todas as músicas estão baseadas em textos das Escrituras. A música “o Vidente” baseia-se em uma linha de profetas do Antigo Israel chamados de Nabiy’, Chozeh e Ra’ah, Is 6.1-3; ISm 9.9; 16.1-13; Dn 7.1-8; Zc 3.1-10. (ver: http://lagrimasportuacausa.blogspot.com.br/…/o-profeta-e-o-…). A música “Terra Especial” e “Alguém” conta a trajetória de Moisés com o povo de Israel rumo a Terra prometida (Ex 12.1-51; 14.1-31). A música “Jeremias 7” baseia-se nas advertências do profeta contra as perversidades dos religiosos (Jr 7.1-34). “Oséias, o profeta do amor” é poetizado com o intenso amor de Javé pelo seu povo (Os 1.2,9; 2.1; 11.1; 14.1,4). A música “Elias”, retratará o episódio no monte Carmelo, onde Javé responde com fogo no desafio entre Elias e os profetas de Baal (IRs 18.1-40). A música “Teu Querer” é uma balada baseada na doutrina da Eleição Incondicional – homens como (Paulo) e outros, impactados pela escolha soberana de Deus (At 9.3; Rm 8.29,30). A música “Confiar nos profetas” baseia-se neste texto das Escrituras: “...Crede no SENHOR, vosso Deus, e estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis...” – A música relata o contexto deste pronunciamento contando a história do Rei Josafá (2Cr 20.20). Por fim, temos a música do profeta “Joel”, especificamente com uma mensagem sobre “O Dia do Senhor”. Essa música fecha o CD com a profecia da volta de JESUS!

I. Você pode adquirir o CD no valor de 20,00 + custo de correios 8,00, total = 28,00
Você também pode adquirir o livro “o Profeta em Israel e a Justiça Social”. Este livro é do Pr Ronaldo José Vicente, baterista da banda. O livro foi a ideia inicial para o trabalho que se desenvolveu no CD (ver: http://lagrimasportuacausa.blogspot.com.br/…/o-profeta-e-pr…)
II. Você pode adquirir o livro no valor de 30,00 + custo de correios 8,00, total = 38,00
III. Você pode adquirir o livro e + CD no valor de 50,00 + custo de correios 8,00, total = 58,00
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Banco Itaú. Ag 1664 Conta Corrente 28767-7 /Ronaldo José Vicente ou Clarissa Alster Vicente.
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