OS MANSOS




Mt.5.5 –“Bem- aventurados os mansos (πραυς, praus; gentileza, bondade de espírito, humildade), porque herdarão a terra

O Pensamento do Mundo

O direcionamento do mundo é levar as pessoas à serem fortes, conquistadoras e agressivas. Observe a história e você notará como os homens buscavam conquistar por meio da força, com guerras - construindo seus reinos. Ao pensarmos sobre os Judeus, notaremos pela história que eles tinham uma ideia errada sobre o Messias. Esperavam O libertador, mas ao mesmo tempo, um vingador. Aquele que iria restaurar Israel, vingar os inimigos com força, guerra e justiça.
O cristão deve caminhar por um estilo de vida diferente, ele é ensinado à seguir pelo sentido oposto, pois sua força está no Senhor. As ações são movimentos debaixo da ordem de Deus. O Cristão possui força, mas ela deve se submeter ao desejo e a vontade de Deus, pois segue no mesmo princípio que Cristo ensinou: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma[1]”.
É importante compreender o verdadeiro sentido da mansidão, pois ela é uma posição em Cristo - onde o cristão adquire controle sobre suas emoções. Ele não as expulsa ou as ignora, pois prossegue em um caminho onde tudo o que existe em sua vida, é direcionado à vontade de Deus. Wesley possui uma ótima definição sobre isso:

“Os mansos não querem extinguir nenhuma das paixões que Deus implantou em sua natureza para seus sábios fins. Eles têm o controle de todas as suas paixões e as mantêm em sujeição, empregando-as apenas em subserviência aos fins divinos. Assim, mesmo as paxiões mais pungentes e desagradáveis podem ser aplicados aos maiores propósitos. Por conseguinte, a ira, o ódio e o medo podem ser usados contra o pecado e regulados pela fé e amor[2]”.         

Como é revelador este ponto, e deve ser enraizado em nossa realidade cristã. Deus produz um caminho de controle e direcionamento, Ele nos leva ao domínio de nossas paixões - ilumina-nos para redirecionar nossa força à Cristo e contra o pecado. Mike coloca da seguinte forma: “Mansidão é ter poder sobre nosso egoísmo[3]”. Lloyd Jones expõe: “A mansidão não consiste meramente em uma questão externa; pelo contrário, consiste em uma atitude interior[4]”.     

Mansidão e Humildade de coração



Como entender essas duas questões focando a mansidão e a humildade em Cristo: pois Ele é descrito como manso e humilde de coração. Ele é manso, mas não é não covarde, nem omisso e muito menos medroso. Ele é humilde e não é miserável. Ele é manso, porém corajoso, destemido, justo e valente. Ele é humilde, porém rico, ousado, forte e autentico. Não podemos confundir as palavras e o que elas realmente significam, pois criou-se a ideia do manso ser uma pessoa frágil, fraca e lenta. Entretanto, o sentido dela é totalmente diferente. Mas palavra em si mostra um aspecto gentil, bondoso e humilde, e neste ponto devemos ter uma atenção maior, pois mansidão se relaciona com a humildade.    

 Os mártires foram mansos e não débeis” (fraco, frouxo, frágil)
(D. Martyn Lloyd Jones)

A mansidão e a humildade de Jesus se relaciona com sua forma de caminhar, agir, responder, interagir e se relacionar com as pessoas. Observe atentamente: uma pessoa mansa tem dois pontos fundamentais em sua vida. Usando o exemplo de Cristo, observamos: Primeiro, Jesus sabia quem Ele era. Consciente da sua identidade. Ele sabia qual era sua origem. Os seus inimigos, tentavam gerar duvidas sobre a identidade de Jesus - falando que não era O Filho de Deus, mas sim, o filho de uma prostituta, com um pai desconhecido - Porém, Jesus sabia que era filho de Deus, observe alguns textos:  

Jo. 8.25 –“Então, lhe perguntaram: Quem és tu? Respondeu- lhes Jesus:Que é que desde o princípio vos tenho dito? Muitas coisas tenho para dizer a vosso respeito e vos julgar; porém aquele que me enviou é verdadeiro, de modo que as coisas que dele tenho ouvido, essas digo ao mundo. Eles, porém, não atinaram que lhes falava do Pai. Disse- lhes, pois, Jesus:Quando levantardes o Filho do Homem, então, sabereis que EU SOU e que nada faço por mim mesmo; mas falo como o Pai me ensinou”

8.39-45, “Então, lhe responderam: Nosso pai é Abraão. Disse- lhes Jesus:Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão. Mas agora procurais matar- me, a mim que vos tenho falado a verdade que ouvi de Deus; assim não procedeu Abraão. Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram- lhe eles:Nós não somos bastardos; temos um pai, que é Deus. Replicou- lhes Jesus:Se Deus fosse, de fato, vosso pai, certamente, me havíeis de amar; porque eu vim de Deus e aqui estou; pois não vim de mim mesmo, mas ele me enviou. Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer- lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. Mas, porque eu digo a verdade, não me credes

Atente aos textos e observe como os Judeus experimentam a Jesus, tentando criar duvidas com suas palavras. O ponto mais tenso da conversa, é quando levantam acusações sobre a linhagem de Cristo. Eles expõem de maneira diabólica que o Filho de Deus não tinha pai. Porém, Cristo permanece forte em sua posição. A ênfase de seu discurso é a certeza de Sua origem. 

Outro episódio interessante é quando Felipe pergunta sobre o Deus PaiJesus responde com essa afirmação, enfatizando Sua total relação com o Pai. Vejamos:

Jo.14.9-15, “Disse- lhe Jesus:Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu:Mostra- nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. Crede- me que estou no Pai, e o Pai, em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras. Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai. E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. Se me amais, guardareis os meus mandamentos”.

Este acontecimento apenas reafirma aquilo que estamos trabalhando neste artigo. Cristo sabe Sua origem, e esta firme em Sua identidade. Sua expressão não causa desequilíbrio em afirmações como essa - Ele pode dizer que quem deseja ver ao Pai, basta apenas olhar para o Filho. 
O segundo ponto que gostaria de levantar é a compreensão exata de Sua missão. É fundamental que o manso, deva saber para onde está prosseguindo, pois seu objetivo; será um dos pontos fortes, em que sua força será usada, ou seja, submetida a um propósito maior. Cristo sabia de Sua missão e nada poderia impedi-lo. É neste momento que obtemos maior clareza da mansidão de Jesus, pois mostrava toda a Sua força para qualquer um que experimentasse atrapalhar Seu caminho. O episódio de Pedro tratava-se disso. Ao tentar entrar no caminho da missão de Cristo, é repreendido:

Mt.16.21-23, “Jesus prediz a sua morte e ressurreição Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia. E Pedro, chamando- o à parte, começou a reprová- lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá. Mas Jesus, voltando- se, disse a Pedro:Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens”.

O Doutror Lloyd Jones adverte sobre essa determinação do manso e seu empenho ao defende-la, observe: “O homem manso é alguém que acredita em defender com tal empenho a verdade, que se dispõe até a morrer por ela, se for necessário[5]”. Com este entendimento conseguimos compreender o motivo que as Escrituras nomeia Moisés como um homem manso. Ele tinha um alvo e o defendia com todas as suas forças. Pentecost Dwight diz: “O mundo jamais teria chamado a Moisés de homem manso, mas Deus o chamou de o homem mais manso que havia sobre a terra[6]”.
Existe uma relação forte entre a mansidão e a humildadeBickle explora a relação das duas bem-aventuranças de uma maneira bem explicada - o humilde caminha pela compreensão de própria deficiência espiritual, enquanto que o manso, relaciona-se com as pessoas a sua volta. Vejamos:

“Humildade de espírito e mansidão estão relacionadas, porém possuem diferenças importantes. Humildade de espírito começa com o conhecimento de nossa deficiência espiritual diante de Deus e grande necessidade de Seus recursos. Mansidão envolve o conhecimento de nossa deficiência diante das pessoas e nossa dívida com Deus pelos recursos que Ele nos dá e por Sua propriedade sobre eles[7]  

 Os Mansos e os Humildes Bíblicos



Abraão: Vamos observar um episódio de sua vida. Sendo mais velho que seu sobrinho Ló, em um determinado momento da peregrinação. Ocorre entre eles uma separação. Então, Abraão permite que Ló escolha por primeiro a direção que deseja ir, para haver paz entre os dois: (Gn.13.8-10, “Disse Abrão a Ló :Não haja contenda entre mim e ti e entre os meus pastores e os teus pastores, porque somos parentes chegados. Acaso, não está diante de ti toda a terra? Peço- te que te apartes de mim; se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores para a direita, irei para a esquerda. Levantou Ló os olhos e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada (antes de haver o SENHOR destruído Sodoma e Gomorra), como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito, como quem vai para Zoar”). Essa atitude não envolvia apenas uma simples separação. Obviamente, a escolha deveria ser de Abraão, porém, encontramos uma formidável postura. Alguns anos depois, Ló sofre com sua escolha, sendo capturado (Gn.14.1-17). Abrão com trezentos e dezoito homens, livra seu sobrinho – Assim é um homem manso. Ele possui direitos, entretanto, abre mão por uma visão maior, e no momento de agir, o faz de maneira correta.   



Moisés: Um homem forte. Com momentos de ira. Porém, considerado pelas Escrituras um homem manso. (Nm.12.3 –“Era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra”). Encontramos na vida de Moisés a forma que Deus trabalha em um homem. Assim, para que houvesse mansidão, Deus o venceu. Todo processo que ocorreu em sua vida, foi um trabalho Divino para implantar-lhe mansidão. Só há homens mansos, quando estes são primeiramente derrotados por Deus. O homem que não é manso, está descontrolado nas suas emoções. É escravo de seus desejos. Assim era Moisés antes de ser vencido por Deus – pois ao irar-se, matou dois soldados Egípicios (Ex.2.11,12). Entretanto, após ser vencido por Deus, encontramos outro Moisés: que também se ira, porém, agora, suas emoções estão controladas por Deus. Sua ira passa a ser a Ira de Deus (Ex.32.19-20). Não podemos pensar que um homem manso não erra, ou que não pode voltar a se descontrolar novamente, pois o próprio Moisés acabou errando ao ferir a rocha (Nm.20.8-13). Nisso, aprendemos uma boa lição: um homem manso é vencido por Deus, agora suas emoções se submetem a vontade Divina, entretanto, este homem não está imune, ele precisa constantemente vigiar-se, para não cair novamente.         
Lloyd Jones fala sobre Moisés da seguinte maneira: “Ele se tinha em pouca monta, não impunha a própria vontade aos outros, mas antes, rebaixava-se e humilhava-se[8]”.



Davi: Um homem forte, um terrível guerreiro, um soldado de Deus, mesmo assim, com toda a sua força se submete a um Rei que era mais fraco, Saul (ISm.26.9-12, “Davi, porém, respondeu a Abisai: Não o mates, pois quem haverá que estenda a mão contra o ungido do SENHOR e fique inocente? Acrescentou Davi:Tão certo como vive o SENHOR, este o ferirá, ou o seu dia chegará em que morra, ou em que, descendo à batalha, seja morto. O SENHOR me guarde de que eu estenda a mão contra o seu ungido; agora, porém, toma a lança que está à sua cabeceira e a bilha da água, e vamo- nos. Tomou, pois, Davi a lança e a bilha da água da cabeceira de Saul, e foram- se; ninguém o viu, nem o soube, nem se despertou, pois todos dormiam, porquanto, da parte do SENHOR, lhes havia caído profundo sono”). É espetacular encontrar em um homem este controle, mas devemos entender, Deus controlava as emoções de Davi. Nenhum homem natural conseguiria agir como Davi - diante daquele que o perseguia, reteve sua espada e honrou a vida de Saul. O homem manso, tem suas emoções submetidas a Deus, ele passa a obedecê-las, porque foram vencidas por Ele.   

Mansidão: Controle nas emoções



Precisamos compreender que a mansidão não é algo natural, ela é um processo de Deus em nossa natureza, fazendo-nos parecidos com Ele, e nessa caminhada, nos tornamos como Ele deseja. Vamos observar algumas palavras no português, explorando a rica observação do Doutor Lloyd Jones, e aprofundando um pouco mais sobre as Bem-aventuranças.
        Ser manso não é ser indolente (Que não tem a capacidade de sentir dor física. Que não causa dor, indolor. Que não se deixa afetar, sem sensibilidade, insensível. Sem vigor, que não possui força para fazer alguma coisa, que age com preguiça, preguiçoso), pois devemos considerar a figura do manso Bíblico e não segundo o rótulo popular - o manso desclassificado pela sociedade, que o expõe de maneira fraca. O manso das Escrituras, não pode ser indolente, pois há muita força em suas emoções, e elas foram vencidas por Deus para que sejam direcionadas a vencer.  
Ser manso não é ter tibieza (Condição ou qualidade de fragilidade, abatimento: tibieza de espírito. Ausência de entusiasmo, tibieza de sensibilidade), desfazendo a sua humanidade, ele é um ser que manifesta, como Jesus, chorou por Lázaro e ao ver Jerusalém (Jo.11.35; Lc.19.41), se irou contra os mercadores no Templo (Lc.19.45) e passou por agônias no Getsêmane (Mt.26.38).  
Mansidão é um controle interno, retendo o golpe iracundo (O iracundo é aquele que tem a ira dentro de si e pode levar outros a senti-la), neste aspecto, o manso se controla para não gerar em outras pessoas ira, a sua função não é descontrolar os outros, mas é ajudá-los neste mesmo caminho. Wesley menciona que: “A mansidão não refreia apenas o ato exterior[9]”, este é o princípio que Cristo ensinou, o mansos são submetidos a Cristo exteriormente e interiormente.     
A mansidão é ter controle e não ser irascível (Alguém cujo humor se altera facilmente; quem tem o gênio difícil ou se enraivece com facilidade. Personalidade irascível. Característica de quem se irrita com facilidade), pois isso coopera para algo determinante na vida do cristão, ele é responsável com sua palavra, com testemunho diante de Deus e na sociedade. Ele é alguém estável, confiável, constante e equilibrado.        A mansidão é a vida interna se manifestando e controlando a externa. A mansidão está ligada a humildade e nos torna livres da autocomiseração (uma vergonha de dizer sua falha, ou sua deficiência), pois o manso, não tem vergonha ou orgulho para pedir ajuda. O manso caminha para uma anulação particular, de seus direitos, de sua própria proteção e de sua própria defesa. Lloyd Jones coloca da seguinte forma: “Ser verdadeiramente manso significa que não mais ficamos a proteger-nos, porquanto já temos compreendido que nada existe a ser defendido[10]”.
A mansidão está relacionado a esse controle interno, de não retribuir com o mal, naqueles que nos prejudicam, afrontando ou através de uma defesa própria. A defesa de si pode ser um ataque, porque você deseja humilhar a outra pessoa se defendendo, tentando desmascará-la segundo uma acusação levantada. O manso sabe entregar a injustiça Naquele que faz toda a justiça, observe o que Pedro diz: –“pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje (λοιδορεω loidoreo, maltratar, insultar), quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava- se àquele que julga retamente[11]). Lloyd Jones comenta que o manso segue este pensamento, vejamos: “Quando alguém vê verdadeiramente a si mesmo, sabe que ninguém pode dizer algo a seu respeito que seja exageradamente mau[12]”.

O Manso e a Ira de Deus



Observaremos agora um ponto extremamente forte sobre a vida do homem manso, pois ao ser vencido por Deus, caminha lado a lado às emoções do Senhor, ou seja, ele agora se submete à essas emoções.
Como podemos compreender atitudes de Deus no Velho Testamento e atitudes de Jesus no Novo Testamento? Ao lermos a Bíblia, pecamos na leitura, se imaginarmos que Deus tomaria determinada ação, e nos sentimos pegos de surpresa, ao ver o Altíssimo, tanto Pai como Filho, agirem totalmente diferentes. Pessoas que praticaram atrocidades, não teriam a menor chance, segundo nossa justiça, mas foram supridas por uma misericórdia excelente – enquanto que outros, passaram uma pequena linha, e foram terrivelmente pegos. Posso citar uma das histórias menos citadas nos púlpitos, sobre o Profeta de Judá, levantado por Deus para ir contra o altar onde o Rei Jeroboão estava queimando incenso; (IRs.13.1-34). Este Profeta cumpre a palavra de Deus e não aceita o convite do Rei, para ficar em sua casa, pois Deus assim ordenou; mas peca e morre, ao aceitar um convite, sendo levado pela mentira de um Profeta velho, não houve misericórdia para este homem de Deus. Agora, compare este homem com a figura de outro profeta, chamado Balaão, interesseiro, vendeu-se a ganancia, aceitando a riqueza de Balaque para ir contra o povo de Deus. Balaão teve livramento de morte, pois o Anjo do Senhor o esperava para matá-lo, mas sua jumenta o salva (Nm.22-24) – Quem você acha que fez a jumenta falar para livrar este homem? Aqui encontramos a explicação do valor em ser tratado por Deus e caminhar na Sua mansidão, pois o homem que possui este aspecto, está mais confiante em saber como Deus irá agir diante de situações como essa.
O Manso dá lugar as emoções de Deus, sabendo discernir quando a ira do seu coração pode estar tentando ser rebelde, levando-o a justiça própria. O homem manso percorre o caminho do discernimento e do controle. Observe o que Paulo diz: “se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor[13], e da mesma forma, o apóstolo coloca uma observação para que haja discernimento com essa ira, vejamos:

Cl.3.8 –“Agora, porém, despojai- vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar”.

ITm.2.8 –“ Quero, portanto, que os varões orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira e sem animosidade (disputa)”.

Wesley possui uma abordagem interessante a esse respeito, coloca que a ira do manso, deve ser direcionada apenas contra o pecado, pois a força do Cristão é totalmente contra a força do pecado, vejamos:

“A ira contra o pecado é permitida. Nesse sentido, podemos ficar irados e não pecar. Nesse sentido, registra-se que até mesmo Jesus ficou irado. Está escrito: Irado, olhou para os que estavam à sua volta e, profundamente entristecido por causa do coração endurecido deles...(Mc.3.5), Jesus se afligiu por causa dos pecadores e ao mesmo tempo irou-se contra o pecado. Sem dúvida, essa é uma reação correta diante de Deus[14]”. 

Qual a consequência dessa Mansidão?



O caminho do manso é a herança, ele herda a terra, e herdar significa viver aqui as bênçãos de Deus de forma completa (Rm.5.17 – “Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo”).
Somos obrigados como Cristãos à pensar quem somos, nossos direitos como Filhos e o que precisamos para viver. Pensar dessa forma, não nos faz ser interesseiros, mas conscientes, que Deus é o nosso Pai e deseja que vivamos bem.
Primeiramente o Senhor nos ensina que tudo o que queremos está n`Ele, não precisamos de mais nada, Ele é o que temos e necessitamos, (leia meu artigo sobre o Salmos 23 e você entenderá melhor este ponto). Ao compreender isso, podemos receber do Senhor aquilo que Ele tem para oferecer, uma abundância na terra. Paulo coloca este ponto de maneira simples, mas rica em entendimento: “seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus[15]”. Somos co-herdeiros de Cristo (Rm.8.17 –“Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados”).
Existem promessas preciosas para os mansos, eles reinarão com Cristo (2Tm.2.11-13Fiel é esta palavra: Se já morremos com ele, também viveremos com ele; se perseveramos, também com ele reinaremos; se o negamos, ele, por sua vez, nos negará; se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar- se a si mesmo”), os mansos julgarão o mundo e os anjos  (ICor.6.1-3Aventura- se algum de vós, tendo questão contra outro, a submetê-lo a juízo perante os injustos e não perante os santos? Ou não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deverá ser julgado por vós, sois, acaso, indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos? Quanto mais as coisas desta vida!)”. Stott explora este ponto estabelecendo uma esperança vindoura, ele coloca que: “Os Mansos, por outro lado, embora sejam despojados, e privados dos seus direitos pelos homens, sabem o que é viver e reinar com Cristo, e podem desfrutar e até mesmo possuir a terra, a qual pertence a Cristo[16]”, por isso, ser um Cristão manso, é ser alguém que caminha agora, em vida, e para a eternidade, uma história de luta, recompensa, responsabilidade e eterna glória ao lado de Cristo – que sejamos mansos no Senhor.

Vejamos algumas observações de Wesley e Lloyd Jones sobre os Mansos, com certeza, isso irá nos ajudar a compreender mais sobre essa bem-aventurança.

Pr. Ronaldo José Vicente – ronjvicente@gmail.com

“Bem – aventurados os mansos...” (Mt.5:5)

“Os mansos não querem extinguir nenhuma das paixões que Deus implantou em sua natureza para seus sábios fins. Eles têm o controle de todas as suas paixões e as mantêm em sujeição, empregando-as apenas em subserviência aos fins divinos. Assim, mesmo as paixões mais pungentes e desagradáveis podem ser aplicadas aos maiores propósitos. Por conseguinte, a ira, o ódio e o medo podem ser usados contra o pecado e regulados pela fé e pelo amor. Quando isso ocorre, são como muros e fortalezas para a alma. Desse modo, protegem a alma de qualquer dano causado pelo perverso, Satanás. É evidente que esse temperamento divino deve não apenas permanecer, mas também crescer em nós a cada dia. Ocasiões para exercitá-lo e aumentá-lo surgirão continuamente enquanto permanecermos na terra”
(Livro – O Sermão do monte, John Wesley, pag.80 )

“Bem – aventurados os mansos...” (Mt.5:5)

“Portanto, no que consiste a mansidão? Penso que poderíamos sumariar a questão da seguinte maneira. A mansidão é, essencialmente, um autêntico ponto de vista que o indivíduo forma de si mesmo, o que é então expresso como uma atitude e uma conduta em relação ao próximo. Por conseguinte, consiste em duas coisas. Trata-se da minha atitude para comigo mesmo; mas também é uma expressão desse fato, em meu relacionamento com outras pessoas. Percebe-se, pois, quão inevitavelmente a mansidão deriva-se das qualidades de “humildade de espírito” e de “lamentação”. Ninguém é capaz de ser manso, a menos que também seja humilde de espírito. E ninguém pode ser manso exceto se já viu como um vil pecador. Essas outras características necessariamente surgem primeiro. Entretanto se eu já percebi o que realmente sou, em termos de humildade de espírito e de atitude lamentosa, em vista de minha pecaminosidade, então sou levado a ver que é necessário que em mim não se manifeste o orgulho. O indivíduo manso não se orgulha se si mesmo; não se vangloria a seu próprio respeito sob hipótese alguma. Pois sente que em si mesmo coisa alguma existe de que ele possa gabar-se. E também deve-se entender que ele não faz valer seu direito. Como você deve estar percebendo, isso é uma negação daquela psicologia popular de nossos dias que nos recomenda “impor-nos aos outros” e expressarmos a nossa personalidade. Aquele que é manso não quer fazer essas coisas; antes, envergonha-se delas. Por semelhante modo, o indivíduo que é manso não exige coisa alguma para si mesmo. Não considera todos os seus legítimos direitos como algo a ser exigido. Nas faz exigências quanto à sua posição, aos seus privilégios, às suas possessões e à sua situação na vida. Não, mas assemelha-se ao homem retratado pelo apóstolo Paulo em Filipenses 2. “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (2.5). Cristo não asseverou o Seu direito de igualdade com Deus; deliberadamente Ele não o fez. E você e eu temos que chegar a esse ponto”
(Livro, Estudos no Sermão do Monte, D.Martyn Lloyd Jones, pag.62)





[1] Mat.11.29, Revista e Atualizada com Strongs, Bible Oilver Tree
[2] WESLEY, John, O Sermão do Monte, Ed. Vida, 2012, pg.80
[3] BICKLE, Mike, Perseguindo o estilo de vida do Reino – Abençoado os Mansos
[4] LLOYD-JONES, D.Martyn, Estudos no Sermão do Monte, Ed. Fiel, 2013, pg.61
[5] LLOYD-JONES, D.Martyn, Estudos no Sermão do Monte, Ed. Fiel, 2013, pg.61
[6] PENTECOST, J. Dwight, O Semão da Montanha, Ed. Vida Nova, 1984, pg.29
[7] BICKLE, Mike, Perseguindo o estilo de vida do Reino – Abençoado os Mansos
[8] LLOYD-JONES, D.Martyn, Estudos no Sermão do Monte, Ed. Fiel, 2013, pg.59
[9]  WESLEY, John, O Sermão do Monte, Ed. Vida, 2012, pg.81
[10] LLOYD-JONES, D.Martyn, Estudos no Sermão do Monte, Ed. Fiel, 2013, pg.62
[11] IPd.2.23 Bíblia Revista e Atualizada, Oliver Tree
[12] LLOYD-JONES, D.Martyn, Estudos no Sermão do Monte, Ed. Fiel, 2013, pg.63
[13] Rm.12.18,19 - Bíblia Revista e Atualizada, Oliver Tree
[14] WESLEY, John, O Sermão do Monte, Ed. Vida, 2012, pg.81
[15] ICor.3.22,23 - Bíblia Revista e Atualizada, Oliver Tree
[16] STOTT, John, A Mensagem do Sermão do Monte, Ed. Abu, 2008, pg.34

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