A presença dos anjos no culto
Após haver enumerado os atos poderosos de Deus em prol do mundo e sua
salvação, a assembleia litúrgica entoa o Sanctus[1] “com os
anjos e todos os poderes celestiais”. Feito isso, ela afirma participar da doxologia[2] dos
seres celestiais descrita pelo apocalipse (4.8
–“E os quatro seres viventes, tendo cada
um deles, respectivamente, seis asas, estão cheios de olhos, ao redor e por
dentro; não têm descanso, nem de dia nem de noite, proclamando: Santo, Santo,
Santo é o Senhor Deus, o Todo- Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir”),
e chega a Jerusalém celestial “e a incontáveis hostes de anjos” (Hb.12.22 –“Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém
celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembléia”).
A) Mas quem são os anjos?
Devemos dizer, com Karl Barth, que os anjos, para a fé cristã, são
“essencialmente seres marginais”. Protegem e obedecem, mas não têm iniciativa.
São secundários, embora reais, seres criados, espíritos celestes de quem, para
ir ao limite extremo do definível, se pode dizer que “neles a liberdade do eu e
a necessidade do ser se coincidem”. Nesse sentido, são criaturas perfeitas já
detentoras da inalterabilidade que está reservada aos ressuscitados. Eles são,
portanto, no céu uma imagem do que o homem é vocacionado a tornar-se – e não
somente o homem, mas toda a criação.
B) No livro de Apocalipse, há um vínculo entre os anjos
e o culto da Igreja. Tal vínculo é de dupla natureza. De um lado significa que
o culto terreno da Igreja é uma participação na adoração que os anjos prestam
no santuário celeste, adoração essa que “já constituí o culto perfeito das
criaturas”. O culto da Igreja terrena não passa, no que diz respeito à
intensidade, pureza e plenitude, de um reflexo pobre e fraco do que acontece no
céu. O culto dos anjos e da Igreja não se acham separados por uma impenetrável
cortina de ferro; porque têm ambos o mesmo ponto focal, a saber, o Cordeiro.
Vale dizer que a Igreja terrena já está convocada a juntar-se ao louvor
angélico e a suplicar que Deus lhe permita unir-se ao sanctus entoado pelos
anjos no céu. Isso possibilita percebermos que o culto da Igreja terrena não é
algo de fechado sobre si mesmo ou que se justifica por si mesmo. Porque o culto
dos anjos é o protótipo, não tanto da adoração da Igreja, mas muito mais do
culto do mundo, celebrado, por enquanto, vicariamente pela Igreja (Ap.5.11-14).
Os anjos também participam do nosso ato de adoração. Eles estão
presentes. Quando a Igreja se reúne para celebrar o culto ela está “na presença
de Deus e de seus anjos”, nas palavras de Calvino. Essa é a razão por que a
mulher deve “trazer véu na cabeça” (ICo
11.10 –“Portanto, deve a mulher, por
causa dos anjos, trazer véu na cabeça, como sinal de autoridade”). Caberia
mesmo perguntar se cada comunidade local – à semelhança de cada indivíduo (Mt.18.10 –“Vede, não desprezeis a qualquer destes pequeninos; porque eu vos afirmo
que os seus anjos nos céus vêem incessantemente a face de meu Pai celeste”),
não tem um anjo especialmente comissionado por Deus para guardá-la e guiá-la (At.12.15 –“Eles lhe disseram: Estás louca. Ela, porém, persistia em afirmar que
assim era. Então, disseram: É o seu anjo”).
Para Larry Hurtado os “santos” de Deus acreditavam que suas
reuniões de adoração eram frequentadas por “santos”
celestiais, anjos, cuja presença apontava para o significado celestial de suas
humildes assembleias reunidas na igreja domiciliar. É nesse sentido que a
adoração cristã coletiva participa do culto celestial. Portanto, a ideia de que
suas reuniões eram uma extensão da adoração por excelência das hostes
celestiais da qual participavam, e por acreditarem que seus encontros eram
agraciados com a presença dos santos anjos de Deus, participar dessas ocasiões
revestia-se para aqueles crentes de uma relevância transcendente e muito viva[3].
Os anjos desempenham um ministério peculiar no momentos das orações um
ministério peculiar no momento das orações, a saber, apresentá-las diante de
Deus (Ap.5.8; 8.3). Cremos, contudo, não nos ver vedado imaginar não só a
presença dos anjos – que é constante – mas a sua intervenção especifica nos
momentos da confissão de fé e das aclamações doxológicas[4].
Como a verdadeira assembleia de Deus está no céu, ela aparece de muitas
formas aqui na terra: em igrejas domésticas, em igrejas urbanas e na igreja
universal. Até mesmo dois ou três reunidos em seu nome podem reivindicar seu
poder, porque ele está ali[5].
[1] O Sanctus (Latim: Sanctus,
"Santo") é um hino usado na liturgia católica. É um canto que faz
parte do ordinário da missa sendo a continuação e conclusão do prefácio da
oração eucarística. Nunca deve portanto ser rezado ou substituído por outro
canto.
[2] A doxologia (Do grego δόξα [doxa]
"glória" + λογία [logia], "palavra") foi uma fórmula de
louvor e glorificação frequente no Antigo Testamento aplicada a heróis e heroínas (p.ex.Judite) e principalmente a Deus. No Novo Testamento, embora apareça referida a pessoas
humanas (especialmente a Maria e Isabel), dirige-se habitualmente a Deus.

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