Atanásio - Um Homem contra o Mundo




Atanásio – Um Homem contra o Mundo

Apraz ao Senhor, o Rei da Igreja, em momentos cruciais na história da igreja, levantar homens de coragem destemida que estão dispostos a sacrificar tudo pela causa da verdade. Lutero foi um destes homens; Calvino foi um destes homens; assim como eles foram os líderes da "Secessão" ou "Separação" na Holanda em 1834; o Senhor abençoou as Protestant Reformed Churches13 com tais pais espirituais. Atanásio também foi um homem como estes. Em um dos momentos mais cruciais, ele foi levantado por Deus para defender a verdade da divindade de nosso Senhor Jesus Cristo contra todos os homens na igreja de seu tempo. O epitáfio anexado ao seu nome por todas as eras expressa o lugar de honra que Atanásio ocupa: Atanásio contra mundum - Atanásio contra o mundo. É notável que em tempos como estes, frequentemente apenas um homem é que se põe na brecha em defesa da causa de Cristo. Um homem, contra mundum.

Início da Sua Vida

Atanásio nasceu em Alexandria, no Egito, a cidade onde encontrava-se um dos primeiros seminários da história da igreja, mas também uma cidade que era um caldeirão fervendo de filosofias que competiam entre si. Por causa de sua posição geográfica estratégica, Alexandria era um centro agitado de negócios e comércio, onde o Ocidente e o Oriente se encontravam. A filosofia grega, o misticismo oriental e a religião cristã colidiam e lutavam pela supremacia nesta cidade portuária do Egito, no Delta do Nilo.

Pouco se sabe sobre o início da vida de Atanásio. Ele nasceu em 296 d.C., era filho de pais de classe alta e de grande riqueza. Mantendo o status social de sua família, ele recebeu educação clássica e liberal e tornou-se bem versado na filosofia grega.

Logo cedo em sua vida, ele veio a conhecer e amar a fé cristã. Diz a história, talvez apócrifa, que alguns bispos da igreja de Alexandria enquanto encontravam-se na casa de seu bispo primaz, viram pela janela um grupo de meninos na rua imitando certos ritos da igreja, como elas costumam fazer. Observando, enquanto um dos meninos prosseguia o culto de batismo de seus colegas, os bispos decidiram que a brincadeira tinha ido longe demais. Depois de chamar os meninos para a sua casa e interrogá-los, eles descobriram que o "bispo batizador" era o jovem Atanásio. O bispo primaz de Alexandria, que foi nomeado Alexandre, de acordo com o nome da cidade, tomou Atanásio como seu protegido e o instruiu mais cuidadosamente sobre a fé cristã. Este foi o início de um longo período de uma grande amizade entre Alexandre e Atanásio, tornando-se este maior que seu mentor, tanto teologicamente quanto espiritualmente. Logo, Atanásio tornou-se o secretário privado de Alexandre e diácono da igreja de Alexandria.

A Grande Controvérsia

A história de Atanásio é tecida na trama de uma das maiores controvérsias que já perturbaram a igreja cristã, uma controvérsia sobre a doutrina da divindade de Cristo.

O grande inimigo da igreja, Satã, o príncipe dos demônios, tem muitas armas poderosas em seu arsenal, que ele usa repetidamente para atacar as fortalezas da Igreja de Cristo. Perseguição é uma destas armas, mas Satã falhou nos seus esforços para destruir a igreja com esta arma, pois "o sangue dos mártires é a semente da igreja."

Naquele momento, Satã resolveu usar a falsa doutrina. Sua arma estava apontada para o ponto vital da fé cristã: a verdade da divindade de Cristo. Se Satã pudesse roubar a igreja desta doutrina, a igreja seria destruída para sempre. O próprio Senhor disse a seus discípulos que sobre a pedra desta confissão Ele edificaria a Sua Igreja, e que as portas do Hades não poderiam vencê-la (v. Mt 16:13-19). O apóstolo João avisou à igreja que todo aquele que nega que Jesus Cristo veio em carne é do Anticrito (v. 1Jo 4:3).

Pelo fato da igreja ser ainda muito jovem, nenhuma formulação desta doutrina tinha sido feita; de fato, havia muita confusão sobre este assunto. Como Deus poderia ser o único Deus vivo e verdadeiro, enquanto ao mesmo tempo tanto o Pai como o Filho eram Deus? Esta era a questão com a qual a igreja lutava. Várias soluções para o problema tinham sido propostas, mas todas tinham sido rejeitadas pela igreja como sendo contrárias às claras afirmações da Escritura. Mas a igreja não estava preparada para dizer aquilo que a Escritura realmente ensinava sobre o assunto.

Nesta situação um homem chamado Ário propôs suas soluções. Ele não era um homem de pouca habilidade, mas também era frívolo e arrogante. Ele propôs que o Filho, só porque Ele era o Filho, não poderia ser Deus. Embora ele talvez fosse eterno, Ele tinha contudo de ser criado. E se Ele fosse criado, houve um tempo em que Ele não era. Assim, Ário ensinava que nosso Senhor Jesus Cristo não era Deus, mas uma criatura, mesmo que a mais elevada de todas as criaturas.

Por causa da influência de Ário na igreja, suas opiniões foram amplamente aceitas e muitos começaram a defender o que ele ensinava. O resultado foi que toda a igreja foi dividida por confusão, controvérsia, cisma e amargura. O alvoroço alcançou também a cidade de Alexandria. Ali, Alexandre e seus bispos viram o mal destes ensinos de Ário e resolveram fazer tudo que estava ao seu alcance para combatê-los. Atanásio, o diácono e secretário de Alexandre, era o homem de Deus para dar suporte nesta nobre causa.

            Constantino era o imperador do Império Romano e pensava que por abraçar e dar suporte a fé cristã, e fazer desta a fé do império, ele daria nova vida e unidade a um império decadente. Quando viu suas esperanças mais queridas prestes a serem despedaçadas por conflitos internos na igreja, ele resolveu convocar um concílio ecumênico no qual estariam presentes delegados da igreja de todas as partes do império para que se tentasse chegar a uma conclusão.

O Grande Concílio


        O concílio é o famoso e venerado Concílio de Nicéia que aconteceu em 325, cujas decisões estão incorporadas no Credo Niceno.

O concílio se reuniu na cidade de Nicéia, na parte noroeste da Ásia Menor, perto do Bósforo. Mais de duzentos e cinquenta bispos de todas as partes da Igreja Oriental estavam lá; o imperador estava presente; uma delegação do Ocidente, enviados pelo bispo de Roma, estava presente; Alexandre e seu jovem secretário também estavam lá. Alguns dos membros do conselho vieram, marcados com cicatrizes e feridos pela perseguição de Diocleciano, que havia terminado a pouco mais de dez anos.

O concílio foi divido em aproximadamente três grupos: um grupo de homens que estavam determinados a dar suporte a Ário e estabelecer suas ideias na igreja; um grupo ortodoxo muito pequeno, no qual Alexandre e Atanásio estavam, com mais ou menos vinte homens, que estavam prontos para lutar até o fim pela verdade da divindade de Cristo; e a maioria restante, que estava de algum modo entre estes dois grupos.

O grupo ortodoxo era de longe o mais capaz; e pela sua firme defesa bíblica da verdade, no final, prevaleceu sobre a maioria ao adotar a sólida posição ortodoxa: que Cristo é o "verdadeiro Deus, gerado, não feito, de uma só substância com o Pai". Na formulação deste credo, Atanásio teve um papel central e surgiu do concílio como o mais hábil defensor da verdade da divindade de Cristo. Ele foi reconhecido como um homem de proeminente "zelo, intelecto, e eloquência."

Poderia se pensar que a decisão do conselho tivesse chego a uma conclusão em relação ao assunto; pois a verdade foi exposta, Ário condenado, e a posição que ele defendia foi considerada herética. Mas isso estava longe de ser o caso. A controvérsia continuou a crescer na igreja; na verdade, ela se tornou ainda mais amarga, mais cruel e mais divisiva até que a igreja foi praticamente despedaçada pela disputa. Enquanto, generalizadamente falando, os que eram completamente arianos declinaram em influência, outro partido surgiu, essencialmente ariano, mas tomando a posição que enquanto Cristo era verdadeiramente divino, Ele tinha "essência semelhante" a de Deus e não a "mesma essência". Esta diferença era expressada por duas palavras-chave: os ortodoxos mantinham a verdade que Cristo era homo ousios - da mesma essência - com o Pai; os semiarianos, como eram conhecidos, mantinham a ideia que Cristo era homoi ousios - ou essência similar - com o Pai. Sempre divirto-me com o fato de que as pessoas ficam entusiasmadas com o que percebem ser meras chatices fúteis em controvérsias doutrinárias na igreja, enquanto as grandes verdades da divindade de Cristo dependiam, nesta controvérsia, se a pequena letra "i" seria ou não incluída nesta palavra-chave.

Seus Sofrimentos pela Verdade

Foi durante este período de confusão e caos eclesiástico que a luz de Atanásio brilhou vividamente. Em 328, depois da morte de Alexandre, ele se tornou o bispo da igreja de Alexandria. Quase todo mundo estava seduzido pela heresia ariana, Atanásio se manteve firme como uma rocha pela verdade da Escritura e a ortodoxia nicena.

Por causa dos problemas que causou, ele foi exilado não menos que cinco vezes. Dos quarenta e seis anos de seu ministério como bispo de Alexandria, ele passou vinte anos em exílio.

Seu primeiro exílio começou com sua condenação no Sínodo de Tiro e Constatinopla. Ele foi exilado para Tréveris, na Gália - hoje França -, uma das distantes fronteiras do império, onde seus inimigos pensaram que ele não poderia causar dano. Ele foi exilado pelo imperador por rejeitar que homens arianos partilhassem da Santa Ceia. Ele foi acusado de ter perturbado a paz e causado problemas em Israel. De fato, o ódio de seus inimigos era tão intenso que acusações de assassinato e fornicação foram lançadas contra ele. Ele provou que a primeira acusação era falsa apresentando ao concílio o próprio homem que ele foi acusado de matar. Seus acusadores ficaram por um momento sem palavras, mas continuaram seus ataques amargos, e Atanásio foi separado de sua amada congregação.

O êxito do partido ortodoxo ascendeu e assentou-se com o mesmo imperador, que acabou por ocupar o trono do império. Quando o novo imperador veio ao poder, Atanásio foi chamado de volta do exílio no ano de 338, e retornou à sua congregação. Seus inimigos continuaram sendo cruéis e implacáveis, contudo no próximo ano ele foi exilado novamente. Desta vez, ele fugiu para Roma para encontrar segurança com o bispo de Roma, chamado Júlio. O Ocidente era muito mais ortodoxo que o Oriente, e Atanásio encontrou uma audiência favorável às suas opiniões. O tempo neste exílio foi gasto reestabelecendo a posição ortodoxa no Ocidente.

Em 346 ele foi chamado novamente, mas seus trabalhos na congregação foram interrompidos mais uma vez. Depois de dez anos, um novo imperador tentou acolher os arianos, e os inimigos de Atanásio viram outra oportunidade para livrarem-se de seu oponente. Em 356, enquanto Atanásio estava conduzindo um culto com sua congregação, cinco mil soldados armados invadiram o prédio da igreja. Com calma, ele começou a ler o Salmo 136 e pediu que sua congregação o respondesse. Foi um momento comovente. Quando ele leu: "Deem graças ao Senhor, porque ele é bom," sua congregação respondeu: "O seu amor dura para sempre!"

Desta vez, ele foi para o deserto para passar um tempo com os monges que tinham se afastado da igreja para buscar a Deus de suas próprias formas peculiares. Este tempo no deserto foi gasto escrevendo, e o conteúdo de seus escritos era a defesa da grande verdade que Cristo é completamente Deus. Os arianos eram idólatras que adoravam deuses estranhos e não eram diferentes dos pagãos.

Novamente - em 362 -, Atanásio foi chamado mais uma vez para o seu rebanho, mas quase imediatamente aqueles que foram feridos pelos seus ataques forçaram-no a ir embora. Enquanto ele deixava sua congregação aos prantos, ele os confortava com as palavras: "Tenham ânimo; isto é apenas uma nuvem que logo passará". Ele escapou dos assassinos contratados em um navio imperial no Nilo e novamente encontrou refúgio no deserto.

Mais uma vez ele pôde retornar. Mais uma vez ele foi forçado a se afastar de seu rebanho, desta última vez para encontrar refúgio por quatro meses no túmulo de seu pai. Nesta época, ele era um homem idoso e ansiava por gastar os últimos anos de sua vida com suas ovelhas amadas. O Senhor respondeu esta oração, e ele pôde retornar e gastar uns poucos anos que ainda restavam em sua peregrinação com aqueles a quem ele tinha servido fielmente por tanto tempo. Ele morreu no segundo ou terceiro dia de maio em Alexandria no ano de 373.

Seu Caráter

Esse extraordinário servo de Deus sofreu como poucos são chamados a sofrer. Contudo, nenhuma vez ele se desviou de sua defesa da grande verdade da divindade de Cristo. Ele era um homem de pequena estatura, um pouco encurvado, emagrecido por jejuns e diversas aflições, mas de boa aparência, possuindo um olhar profundo e postura muito influente. Mesmo que em idade avançada ele tenha se tornado cada vez mais cansado das batalhas e cuidados da igreja, ele nunca hesitou em sua posição. Atanásio não viveu o suficiente para ver sua posição finalmente reivindicada no grande Concílio de Constantinopla em 381, que enfaticamente reafirmou o credo de Nicéia.

O amor de Atanásio pela verdade não estava enraizado em um mero amor por especulação doutrinária. Ele estava resolvido a manter sua posição porque acreditava que a salvação da igreja dependia da verdade da divindade absoluta de Cristo. Como ele expressou: a divindade de Cristo é necessária para a redenção porque apenas Deus pode fazer o impossível; em outras palavras, apenas Deus pode salvar miseráveis pecadores como nós.

Outros grandes feitos marcaram a atribulada vida de Atanásio. Em 367, enquanto desfrutava de um período de paz em sua congregação, ele escreveu uma carta pastoral para todas as igrejas. Esta é uma importante nota de rodapé da história. As igrejas eram, naquele tempo, acostumadas a celebrar a ressurreição de Cristo no primeiro domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio da primavera - assim como nós o fazemos. O bispo de Alexandria foi instruído a determinar esta data para cada ano e a informar as igrejas sobre a data. Isto era devido ao fato que os melhores astrônomos se encontravam em Alexandria. Os bispos de Alexandria também aproveitaram esta oportunidade para escrever uma carta pastoral para todas as igrejas sobre alguns pontos doutrinários importantes. Quando a vez de Atanásio chegou, em 367, ele utilizou a oportunidade para instruir as igrejas sobre o cânon da Escritura e enumerar os livros que corretamente eram a regra de fé e prática da igreja. A lista de Atanásio continha os sessenta e seis livros da Bíblia como nós os temos hoje, e excluiu os livros apócrifos.

Atanásio escreveu extensivamente sobre vários assuntos, mas concentrou-se na defesa da grande verdade da divindade de nosso Senhor. Junto a estes muitos livros, estava um que continha uma biografia do venerado monge, Antônio. Este, ainda hoje, permanece sendo um clássico da vida solitária. O próprio Atanásio viveu uma vida ascética e foi bastante influenciado pelos monges do deserto que se entregaram a isolação do deserto para viver perto de Deus.

Atanásio provou sua grandeza "em sofrimento e através de anos de luta contra erros poderosos e contra a corte imperial". A expressão "Atanásio contra mundum" é a que melhor descreve "sua independência destemida e fidelidade imutável às Escrituras."

"A paixão e a obra de toda a vida de Atanásio era vindicar a deidade de Cristo, que ele corretamente considerava como a pedra de esquina do edifício da fé cristã, e sem a qual ele não poderia conceber redenção. Por esta verdade ele gastou todo o seu tempo e força; por isto ele sofreu deposição e vinte anos de exílio; por esta causa, ele teria ficado satisfeito em derramar seu sangue a qualquer momento. Por esta vindicação da verdade ele foi muito odiado, muito amado, sempre respeitado ou temido. Na inabalável convicção de que ele tinha o consentimento e proteção de Deus ao seu lado, ele constantemente desdenhava da possibilidade de clamar ao poder secular para seus fins eclesiásticos e de dirigir-se a um tribunal imperial, como seus opositores frequentemente faziam."

Gregório de Nazianzo, um contemporâneo de Atanásio, o descreveu com estas palavras:
"Ele era alguém que administrava tanto a si mesmo que sua vida supria o lugar de sermões [...]. Ele era um protetor às viúvas, um pai aos órfãos, um amigo aos pobres, um refúgio aos estrangeiros, um companheiro aos irmãos, um médico aos doentes, alguém zeloso pelos saudáveis, alguém que 'se tornou tudo para com todos, para que de alguma forma salvasse alguns'."

Que Deus se agrade em levantar homens como estes na igreja de nossos tempos.

Retirado do livro: Retratos de Santos Fiéis, Herman Hanko, Fireland, 2013. 









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