Bonifácio - O Apóstolo aos Alemães
No início da história da
igreja da Nova Dispensação, quando Deus se agradou em levar o Evangelho à
Europa, o continente estava tomado por tribos bárbaras diferentes, as quais
estavam no mais sombrio paganismo e em constante movimento. Eles eram incivilizados,
guerreiros, adoradores de ídolos e estavam continuamente lutando entre si. Eles
eram uma ameaça para o Império Romano, e por fim, no quinto século, destruíram
o império no oeste. Todas as instituições da sociedade do mundo romano foram
destruídas, com exceção da igreja. Somente a igreja permaneceu até o fim de
todo o tumulto e destruição desta época tenebrosa.
A igreja estava
profundamente consciente de seu chamado missionário e imediatamente enviou seus
servos para levar o Evangelho a estas tribos bárbaras. Isto requereu dos homens
auto sacrifício, coragem e convicção para se aventurarem nas solitárias
florestas e montanhas da Europa, a fim de cumprir o mandamento de Cristo. Os
perigos eram diversos, o menor deles era a constante ameaça das tribos
perversas que não conheciam nada de Cristo, e que desprezavam todos os que
pertenciam a cultura romana.
Deus se agradou em levar o
Evangelho a estas tribos bárbaras de tal forma, que a Europa foi
“cristianizada”. Por este termo eu quero dizer que o Evangelho, ao longo de
muitos anos, entrou no fundamento da vida destes bárbaros, e que não somente os
bárbaros foram trazidos à igreja, mas que o próprio cristianismo se entrelaçou
em todas as instituições da sociedade. A sociedade como um todo tornou-se
cristã. O trabalho missionário da igreja produziu nações cristãs. Nós na
América somos herdeiros desta herança.
Isto não estava,
obviamente, fora do propósito de Deus. Estas mesmas nações cristãs da Europa e
América têm, ao longo dos anos, enquanto preservam uma forma externa de
cristianismo, se tornado anticristãs e irão, no tempo de Deus, trazer à cena a
grande besta de Apocalipse 13. Mas a partir destas nações o Evangelho foi
enviado aos confins da terra, Evangelho pelo qual a Igreja é arrebanhada.
Início da Sua Vida
Um dos grandes missionários
que levou o Evangelho às tribos bárbaras na Europa foi um homem com o nome de
Bonifácio. Ele nasceu em Crediton, perto de Exeter, no pequeno Reino de Wessex,
na terra da Inglaterra, por volta de 675. Foi-lhe dado o nome de Winfrith por
seus pais, que pertenciam à nobreza. Pelo fato do sangue real correr em suas
veias, ele teve a oportunidade de dedicar-se aos estudos, e recebeu a melhor
educação disponível. Em seus primeiros anos, ele provou ser um hábil estudioso
e logo avançou em sua carreira. Ele entrou em um monastério onde esteve ativo
até o quadragésimo ano de sua vida. No monastério ele foi professor, poeta,
gramático e teólogo. Suas habilidades gramaticais eram tão magníficas que ele
preparou uma gramática do Latim para o uso na escola. Era como se uma vida
pacata de ensino e aprendizagem fossem para ser a sua vocação.
Sua Preparação para a
Obra Missionária
Mas então Deus chamou
Winfrith para outros labores. Rumores de uma catástrofe que havia ocorrido nos
Países Baixos, agora Holanda, atingiram a tranquilidade de seu monastério. Um
missionário chamado Willibrord havia trabalhado nestes países. Este fiel servo
de Cristo teve algum sucesso em seu trabalho entre as tribos bárbaras que
habitavam a terra do extremo oeste da Europa. Mas seu trabalho foi
completamente destruído por um feroz rei frísio chamado Radbob, que erradicou
todo o cristianismo de suas terras.
Quando Winfrith -
Bonifácio, como ele era chamado -, ouviu estes rumores, ele decidiu viajar para
os Países Baixos a fim de tentar restabelecer o trabalho. Ele abandonou sua
vida de conforto, sua casa e sua terra natal para viajar as florestas e
pântanos sombrios do noroeste da Europa, para levar o Evangelho aos ferozes
bárbaros frísios. Com dois ou três companheiros, ele partiu e logo desembarcou
na costa. Mas seu trabalho teve pouco sucesso, e ele decidiu prosseguir para o
interior - no que agora é a Alemanha - para levar o Evangelho.
No entanto, antes de viajar
para a Alemanha, Bonifácio decidiu que ele tentaria ganhar o apoio do homem
mais poderoso da Europa, com a esperança de que isso o ajudasse em seu
empreendimento missionário. Viajando primeiro para o que hoje é a França, ele
garantiu o aval de Pepin, o governante dos francos, e em seguida foi para Roma
para garantir a aprovação do papa.
Esta última tentativa foi
repleta de consideráveis consequências no trabalho de Bonifácio. A fim de
compreendermos, nós precisamos saber um pouco sobre o que estava acontecendo ao
redor da Europa naquele tempo. As próprias tribos bárbaras estavam
constantemente em guerras entre si a fim de expandir seus territórios. Entre os
francos um forte governo centralizado estava gradualmente surgindo, e os reis
dos francos estavam tentando estender seu império para dentro da Alemanha
através da conquista dos saxãos. Um aval do rei dos francos iria, na opinião de
Bonifácio, auxiliá-lo no trabalho. Por outro lado, o bispo de Roma estava
tentando ampliar sua influência e dominar sob toda a Europa, ele viu o trabalho
missionário como um instrumento para conseguir isto. Entre os francos e o papa
uma aliança foi estabelecida a qual duraria por séculos. Logo, Bonifácio foi
convencido de que receber as credenciais tanto do rei franco quanto do papa de
Roma, avançaria seu trabalho grandemente.
Tendo recebido uma recomendação do papa, Bonifácio tornou-se um filho leal da igreja, que lutou com grande energia para avançar a causa do papado na Europa. Ele não toleraria nenhum tipo de oposição a igreja de Roma. Isto o envolveu em contendas com outros missionários que tinham vindo das Ilhas Britânicas ao continente, e que desejavam estabelecer uma igreja muito mais independente de Roma, do que o papa ou Bonifácio desejassem. Estes missionários escoceses e irlandeses se tornaram adversários de Bonifácio.
Seu Sucesso na Obra
Missionária
A própria Alemanha ainda
estava sob o domínio dos bárbaros. Alguns trabalhos missionários tinham sido
feitos lá, mas as constantes guerras entre as tribos, o paganismo em geral e a
superstição do povo resultou na destruição, quase que completa, da influência
missionária anterior.
Rumo a isso, Bonifácio
partiu para pregar o Evangelho. Ele possuía um raro dom de pregação e logo
estabeleceu igrejas e monastérios em vários locais diferentes, assim também
milhares foram conduzidos à igreja através de seu trabalho. O monastério mais
famoso que ele estabeleceu foi em Fulda.
Ele se deparou com uma
oposição feroz e sua vida estava constantemente em perigo. Possivelmente a
maior vitória de Bonifácio foi marcada no início de seu trabalho na Alemanha.
Os saxãos veneravam um grande carvalho como sendo a árvore sagrada de seu deus
Thor, o deus do trovão. O povo não somente adorava a firme e gigantesca árvore,
mas mantinham suas reuniões tribais sob a proteção "divina" de seus
ramos. Quando Bonifácio viu que o carvalho era um obstáculo para seu trabalho e
que era uma barreira para o recebimento do Evangelho, ele pegou um machado e na
presença de uma trêmula multidão de idólatras, ele começou a cortar fora o seu
tronco. Enquanto as pessoas ofegantes estavam convencidas que Thor iria vir com
julgamento sobre este presunçoso missionário, a árvore foi cortada sem nenhuma
intervenção do ídolo pagão. Diz a lenda que um poderoso vento de uma tempestade
surgiu no momento em que Bonifácio estava cortando e ajudou-o soprando a árvore
e dividindo o carvalho em quatro pedaços de madeira de tamanhos iguais. De
qualquer forma, Bonifácio corajosamente usou a madeira de carvalho para
construir uma capela no local, para a adoração de Deus.
Como seu sucesso entre os
saxãos cresceu, Bonifácio subiu na estima do papa, que o nomeou bispo em 722 e
arcebispo em 732. Nesse meio tempo, ele aplicou suas consideráveis habilidades
para a organização das igrejas na Saxônia e para a destruição de males. Ele
viajou e pregou, presidiu sínodos denominados para corrigir abusos e resolver
contendas. Ele foi implacável em seu trabalho de erradicar as superstições e
imoralidades que afligiam este povo, e foi totalmente intolerante aos
missionários escoceses e irlandeses que desejavam trabalhar com ele, mas que
não eram, em seu julgamento, tão leais à igreja de Roma como deveriam ser. Ele
extirpou os costumes pagãos, estabeleceu regras de conduta e puniu os homens
hereges e ímpios.
Quando Bonifácio já era
idoso, o barco dos Países Baixos veio mais uma vez e ele resolveu retornar para
o lugar de seus fracassos anteriores. Ele viajou por lá em 754 levando sua
mortalha com ele, aparentemente consciente do fato que ele morreria e seria
enterrado nos Países Baixos. Ele labutou neste lugar com algum sucesso nas
matas e pântanos os quais são hoje a Frísia na Holanda. Mas seu trabalho logo
foi interrompido. Os inimigos da fé estavam cientes de seu trabalho e decidiram
destruí-lo. Enquanto ele estava perto da vila de Dokkum para batizar um número
de convertidos, um bando de ferozes frísios atacou o grupo. Quando os cristãos
desejaram resistir e proteger seu líder, ele os advertiu: "Meus filhos,
não briguem; sigamos o exemplo de nosso Senhor no Getsêmani. Logo nós O veremos
em Sua glória. Eu tenho ansiado por vê-Lo e estar com Ele. Oremos."
Enquanto os cristãos se ajoelharam em oração, bradando e clamando o bando os
atacou, e mataram Bonifácio e mais cinquenta e uma das pessoas. Ele morreu dia
cinco de junho de 754.
Avaliação
Nós certamente gostaríamos
de criticar Bonifácio por seus enérgicos esforços para estabelecer igrejas
leais ao papado, e ele deve ser criticado por isto. Porém, ele era um fiel
pregador do Evangelho e estava disposto a viver uma vida de dificuldades e auto
negação pela causa de missões. No andamento de seu trabalho ele mesmo definiu
seus labores:
"Morramos pelas santas leis de nossos pais. Não
sejamos cães mudos, espectadores silenciosos, mercenários que fogem do mundo,
mas fiéis pastores, atentos para com o rebanho de Cristo. Preguemos todo o
conselho de Deus para o alto e para o baixo, para o rico e para o pobre, para
todas as classes e idades, seja em tempo ou a fora de tempo, na medida em que
Deus nos der forças."
Bonifácio com certeza foi um exemplo daquela mistura
de santidade e fraqueza que caracteriza todos os filhos de Deus. Um de seus
biógrafos diz:
"Ele tinha uma inquieta, insegura e complexa
natureza, perigosamente devastada pelo negro humor do desespero, e era
extremamente discreto e tímido; embora tenha realizado um imenso trabalho, este
foi feito quase com relutância, e ele jamais teve a menor vontade de
incentivar-se a continuar. Ele era guiado apenas pelos interesses supremos da
igreja, mas quando estes estavam em jogo, este tímido homem era levado por seu
entusiasmo, e sua ousadia não tinha limites [...]."
Hoje em dia uma estátua na cidade frísia de Dokkum
homenageia o trabalho de Bonifácio. A Holanda não apenas se tornou cristã, mas
após a Reforma, o berço da fé reformada.
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Deus usa os meios mais fracos para realizar Sua
vontade.
Retirado do livro: Retratos de Santos Fiéis, Herman Hanko, Fireland, 2013.


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