William Farel - O Elias da Reforma
Nós, que somos da Reforma
de Calvino, devidamente honramos João Calvino como o grande reformador de
Genebra e o pai espiritual das igrejas calvinistas ao redor do mundo. Contudo,
não é exagero dizer que o trabalho de Calvino não seria possível sem os
intrépidos labores de outro reformador, William Farel, que ceifou a superstição
católica romana e lavrou a terra da Suíça para que as sementes de Calvino
pudessem ser semeadas e dar os seus frutos.
Schaff escreve
sobre ele:
"O trabalho de Farel foi mais
destrutivo do que construtivo. Ele podia demolir, mas não construir. Ele era um
conquistador, mas não um organizador de suas conquistas; um homem de ação, não
um homem de erudição; um pregador intrépido, não um teólogo. Ele sentia por
suas falhas, e entregou seu trabalho para o poderoso talento de seu jovem amigo
Calvino. Em espírito de verdadeira humildade e renúncia, ele estava disposto a
diminuir para que Calvino pudesse crescer. Este é o melhor traço de seu
caráter."
O caráter que Deus deu a
ele, forte e guerreiro, admiravelmente preparou Farel para a obra da Reforma e
o lugar único nela, o qual ele ocupou. O trabalho foi importante, pois sem ele
outros reformadores não poderiam ter feito o que fizeram.
Início de Sua Vida
William Farel nasceu em
meados de 1439, próximo à cidade de Gap, em Dauphiny, uma região montanhosa dos
Alpes, no sudeste da França. Essa região do país havia estado, por um tempo,
sob a influência dos waldenses, mas eles tinham sido quase que totalmente
aniquilados na França pelos horrores da inquisição. Farel era o mais velho de
sete crianças e nasceu em uma família que pertencia à nobreza, mas que tivera
declinado em tempos não favoráveis e estava agora muito pobre. Ele foi batizado
com o nome de Guillaume, o equivalente aproximado em francês de William ou
Guilherme. Ele nasceu cinco anos antes de Lutero e Zwinglio e vinte anos antes
de João Calvino. Portanto, ele pertence à primeira geração de reformadores.
Paris, o centro de estudos
católicos romanos, atraiu-o e nos seus estudos ali ele se concentrou em
filosofia, teologia, e línguas antigas, incluindo hebraico. Ele tinha, nesse
tempo, pouca convicção religiosa, embora fosse zeloso por Roma e era, em suas
próprias palavras, "mais papista do
que o papado".
Mas Deus usou esses mesmos
estudos para trazê-lo à fé nas verdades da Escritura como estabelecidas pela
Reforma. Mesmo em Paris os pensamentos de Lutero estavam circulando e sendo
discutidos e Farel foi influenciado por Jacques Lefèvre d' Étaples. Lefèvre era
uma daquelas figuras sombrias da Reforma, que em si mesmo estava convencido da
grande verdade da justificação pela fé, mas que nunca teve coragem de romper
com Roma e participar da causa protestante. Foi Lefèvre que disse ao jovem
Farel: "Meu filho, Deus vai renovar
o mundo e você irá testemunhar isso".
Dali em diante Farel se
aprofundou na Escritura e logo - em 1521 - foi enviado para Meaux, na França,
onde recebeu autoridade para pregar. Foi em sua pregação que seu caráter começou
a tornar-se aparente.
É nos dito pelos seus
contemporâneos que ele era relativamente baixo, sempre com uma aparência
esquelética, e possuía uma barba vermelha e um pouco despenteada. Ele lembrava,
para aqueles que o viam, a aparência aproximada de um Elias. Ele era ardente e cheio de força, não dado a muito tato,
impulsivo em suas ações e pregações e um homem que rugia contra os abusos
papais. Assim como uma vez ele havia sido zeloso pelas práticas papistas, assim
zeloso e violento, ele se tornou como um promotor da causa da Reforma. Ele foi
um homem que preparou o caminho para outros, porque podia destruir, mas lhe
faltavam os dons para construir. Ele não foi um teólogo, e não deixou obras
significantes que contribuíram para o pensamento da reforma; ao contrário, ele
foi o homem que, com golpes poderosos, derrubou a imponente estrutura do
catolicismo romano.
Farel era um homem de
energia inigualável que viajou incessantemente até que, idoso e exausto,
morreu; ele estava sempre avançando, cheio de fogo e coragem, destemido assim
como Lutero, porém mais radical que o reformador de Wittenberg. Seu chegado
amigo e companheiro, o reformador Oecolampadius, escreveu a ele: "Sua missão é evangelizar, e não amaldiçoar.
Prove que és um evangelista, não um legislador tirânico". E Zwinglio,
pouco tempo antes de sua morte, admoestou Farel a não trabalhar
imprudentemente, mas para se conservar pela obra de Deus.
Farel odiava o papa e
desprezava todas as cerimônias papais. Sua missão em vida, assim como ele mesmo
a concebia, era destruir cada vestígio do papado em imagens, cerimônias e
rituais, o qual eram o regime padrão daqueles mantidos nas cadeias de Roma.
Sua força estava em sua
pregação. Sua força não estava tanto no seu cuidado na preparação dos sermões,
porque ele pregava a maioria deles sem preparação e nenhum dos seus sermões
chegou até nós. Sua força estava na sua comunicação poderosa. Schaff escreve:
"Ele transformava cada pedaço de
pau e pedra num púlpito, cada casa, rua e praça do mercado em uma igreja,
provocava a ira dos monges, sacerdotes e mulheres fanáticas; foi injuriado,
chamado de "herege" e "diabo", insultado, cuspido, e mais
de uma vez ameaçado de morte [...]. Onde quer que fosse, ele despertava todas
as forças do povo e os fazia tomar partido, a favor ou contra o novo
Evangelho."
Mas Schaff
também escreve: "Ninguém podia escutar seus trovões sem
tremer, ou ouvir suas mais ferventes orações sem ser quase carregado para o
céu".
O Evangelista
Para compreender essa parte
dos labores de Farel, devemos tentar colocá-lo no contexto da sua época. Embora
as ideias de Lutero - assim como aquelas dos teólogos suíços - estivessem
circulando, sendo lidas e estudadas em muitos lugares, as pessoas comuns não
tinham sequer ouvido falar delas. A escuridão ainda cobria as terras em que
Farel trabalhava. A Reforma estava apenas começando na França, no sudeste da
Alemanha e na Suíça. As pessoas ainda estavam hipnotizadas pelos padres, bispos
e monges que com zelo promoviam as superstições de Roma. A escuridão da
corrupção do domínio católico romano mantinha as pessoas em escravidão.
Influenciado por Lefèvre,
Farel passou a amar as verdades da Reforma e tinha devotado sua vida a
promovê-las através de sua ardente pregação. William Farel nunca foi oficialmente
ordenado ao ministério, apesar de ter sido licenciado para pregar quando veio
pela primeira vez para Meaux. Ele acreditava que seu chamado veio de Deus,
assim como aquele chamado tinha vindo para os profetas na antiga dispensação.
Também nunca ficou muito tempo em um lugar, mas viajava pela Suíça, leste da
França e para o sul da Alemanha, levando sua palavra poderosa. Ninguém tem sido
capaz de calcular as milhas que ele viajou. Em todos os tipos de clima, em meio
aos dos perigos de salteadores, bandoleiros e clérigos papistas que o odiavam,
ele montava seu cavalo ou viajava a pé para áreas onde o verdadeiro Evangelho
ainda não tinha sido ouvido.
Farel despertava o ódio dos
prelados romanistas onde quer que fosse, mas chamava grandes multidões pelo fogo
de sua oratória. Para traçarmos as frequentes viagens de Farel teríamos de nos
envolver em longas lições de geografia. Mas onde quer que fosse, sua pregação
não permitia que aquela região, vila ou cidade permanecesse a mesma. Nós só
podemos falar de algumas de suas obras e recordar com admiração as dificuldades
das quais, com a mão providencial de Deus, ele escapou.
Já em Meaux, onde Farel
começou sua pregação, ele rapidamente se envolveu em problemas por sua
proclamação zelosa da doutrina bíblica. Esse foi um tempo na França em que a
perseguição aos protestantes estava começando e aqueles que haviam lhe dado
permissão para pregar ficaram perplexos por sua proclamação súbita da verdade
bíblica. Logo ele foi forçado a fugir para salvar sua vida, escapando por
pouco, daqueles que o odiavam.
Em Basiléia, na Suíça,
Farel foi fundamental na conversão do grande Pelican, que mais tarde foi
professor de grego e hebraico na Universidade de Zurique, e tornou-se um
estudioso brilhante da Reforma. Foi nesta cidade que ele visitou os grandes
reformadores suíços: Oecolampadius, Myconius, Haller e Zwinglio.
E foi também em Basiléia
que ele entrou em conflito com Erasmo, o humanista, o qual ainda tinha
influência suficiente para colocar Farel para fora da cidade. Parece que Farel,
de forma bastante típica, chamava Erasmo de "Balaão", algo que o erudito Erasmo não poderia perdoar. Erasmo
escreveu para o concílio: "Vocês têm
em sua vizinhança o novo evangelista, Farel, nunca vi um homem mais falso, mais
mordaz, mais rebelde".
Depois de uma curta estadia
em Estrasburgo, onde fez amizade com Martin Bucer, Farel se encontrava
novamente em Montéliard, na França, em 1525, onde pregou à sua maneira violenta
usual. Num dia de procissão ele pegou uma imagem de santo Antônio das mãos dos
padres e jogou pela ponte, rio abaixo. Por pouco, ele escapou de ser feito em
pedaços pela multidão enfurecida.
Farel não era apenas
destemido, mas ele recusava ser seduzido pela aprovação dos homens. Em
Neuchâtel, na Suíça, ele repreendeu publicamente uma mulher nobre por ter
deixado seu marido. Quando ela se recusou a voltar para ele, Farel de púlpito,
bramou contra ela e aqueles que a defendiam e criou tamanha desordem que ele
apenas foi salvo por um voto do concílio que foi impulsionado por sua imensa
energia.
Uma vez Farel interrompeu
um padre que estava incitando o povo a adorar Maria mais zelosamente e foi
vítima de uma multidão de mulheres que estavam dispostas a fazê-lo em pedaços.
Em Metz ele pregou em um
cemitério dominicano, trovejando sua mensagem mais forte do que o toque dos
sinos do convento que estavam sendo tocados furiosamente em uma tentativa de
abafar sua voz.
Enquanto celebrava a Ceia
do Senhor na Páscoa, ele e os que estavam com ele foram atacados por um bando
armado. Muitos foram mortos e feridos. O próprio Farel, embora machucado,
encontrou refúgio num castelo e escapou da cidade partindo sob disfarce. Com
setenta e dois anos, enquanto ainda pregava, ele foi lançado numa prisão, e
depois resgatado por amigos e, assim como Paulo, foi salvo em uma cesta
colocada para fora dos muros.
Na escuridão do papado
Farel irrompeu, rugindo como um leão, espalhando as grandes verdades da
Escritura que ele tinha aprendido a amar; sem levar em conta sua segurança
pessoal. Ele apareceu em cena como um meteoro, esmagando - através de sua
oratória e pregação - todo o meticuloso estilo de práticas da falsa igreja com
a qual havia rompido.
Embora possamos, se
quisermos, criticar Farel por sua veemência e falta de tato - como seus contemporâneos
muitas vezes fizeram -, nos questionamos se os tempos em que vivemos não
requerem pregadores de igual coragem. Sua confiança estava em seu Deus e ele
tinha a intenção de fazer a obra do Senhor sem respeito por si mesmo.
O Contato com os
Waldenses
Observamos anteriormente
que Farel nasceu em uma região que tinha sido a fortaleza do pensamento dos
waldenses. Seu contato com os waldenses deve ter deixado marcas nele, pois ele
manteve contato com eles durante todo o seu ministério.
Na verdade, em 1531, Farel
foi enviado com Anthony Saunier ao Sínodo dos Waldenses que estava sendo
realizado em Chanforans. Ali ele explicou a essas pessoas as verdades da
Reforma, e ali convenceu muitos sobre a grande obra de Deus que estava sendo
feita em nome do puro Evangelho. Ele nunca perdeu essa influência com os
waldenses. Se Farel for lembrado por nada mais do que por seu trabalho entre
essas pessoas, isso seria o suficiente para gravar seu nome para sempre na
memória de todos aqueles que amam a Reforma.
O Trabalho com Calvino
Nós precisamos voltar para
Genebra. Neste tempo, Genebra estava sob o domínio de Berna, um pequeno
distrito vizinho na Suíça. Era uma cidade completamente católica romana, onde
todos os vícios eram abertamente praticados e onde os rituais sujos de Roma
eram fundamentais na dieta espiritual dos cidadãos.
A primeira estadia de Farel
em Genebra não foi longa. Ele veio em 1532, quando tinha cerca de quarenta e
três anos. A cidade estava cheia de discórdias religiosas e cambaleava à beira
do caos. Dentro dessa cidade, no entanto, eram poucos os que tinham sido
tocados pelas verdades da Reforma e Farel limitou sua pregação ao culto privado
nas casas destes poucos fiéis. Mas sua pregação foi muito bem-sucedida para ser
mantida em segredo e logo foi forçado pelas circunstâncias a começar a
proclamação pública do Evangelho.
Esta prática não pôde durar
muito tempo nesta cidadela de pensamento papista. Ele logo foi convocado
perante a um conselho episcopal furioso, que viu sua pregação como uma ameaça à
autoridade de Roma. Farel apresentou suas credenciais de Berna, e, embora eles
expressaram alguma consideração, ele foi tratado com desrespeito. Um dos clérigos presentes gritou para ele:
"Vens tu, demônio imundo. És tu
batizado? Quem chamou-te aqui? Quem deu a ti autoridade para pregar?"
A
resposta de Farel foi:
"Eu fui batizado em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo, e não sou um demônio. Eu sigo pregando a Cristo, que morreu por
nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação. Quem nele crê será salvo;
os incrédulos estarão perdidos. Eu sou enviado por Deus como um mensageiro de
Cristo e estou comprometido a anunciá-lo a todos os que me ouvirem. Estou
pronto para debater com você, e dar-te conta da minha fé e ministério. Elias
disse ao rei Acabe: 'És tu, e não eu, que perturbas a Israel'. Deste modo eu
digo, é você e os seus, que perturbam o mundo pelas suas tradições, suas
invenções humanas e suas vidas dissolutas ".
Ao tempo em que outro gritou:
"Ele
blasfemou; não precisamos de mais provas, ele merece morrer".
Farel respondeu:
"Fale as
palavras de Deus, e não as de Caifás".
Em resposta a isso, o
concílio já não podia conter sua raiva. Eles zombaram dele, cuspiram nele,
perseguiram-no com porretes e, quando ele estava indo embora, um membro atirou
nele. Até mesmo aquilo não foi capaz de assustar o destemido reformador. Ele se
virou para a pessoa que tentou assassiná-lo com as palavras: "Seus tiros não me assustam". Porém
por pouco ele não escapou, e seus primeiros trabalhos em Genebra chegaram ao
fim.
Farel enviou Froment e
Olivetan, dois companheiros reformadores, a fim de que continuassem o trabalho
que ele tinha iniciado; ele mesmo só retornou em 1533. Ainda debaixo da
proteção de Berna, ele labutou com coragem e zelo em tempos de profundo risco e
perigo.
Aos poucos, a cidade se
desviou de suas superstições e muitos foram levados por Deus à fé. Aos poucos,
os católicos romanos começaram a sair e no dia vinte e sete de agosto de 1535,
o Grande conselho dos Duzentos, em Genebra, aprovou uma decisão formal que
Genebra deveria tornar-se protestante.
A missa foi abolida e
proibida. As pessoas tomaram as imagens e relíquias das igrejas. Os cidadãos se
comprometeram a viver de acordo com o Evangelho e estabeleceram uma escola que
se tornou a precursora da famosa Academia de Calvino. Um hospital foi
construído, financiado pelo rendimento de hospitais mais antigos. O palácio do
bispo, com requintada ironia, tornou-se uma prisão. Ministros, presbíteros e
diáconos foram nomeados. Sermões diários eram pregados. Os sacramentos eram
administrados de acordo com a Escritura. Todas as lojas eram fechadas no dia do
Senhor. Todavia, a cidade estava longe de ser uma cidade reformada. Problemas
continuavam a acontecer e a obra de reforma estava longe de estar concluído.
Foi nessa situação que
Calvino apareceu em um dia ao entardecer. Ele não tinha intenção de ficar na
cidade, mas procurou uma hospedagem a noite durante suas viagens. Quando Farel
soube que Calvino estava na cidade, ele imediatamente procurou este homem a
quem nunca conheceu, para implorá-lo que ficasse em Genebra e ajudasse com o
trabalho. Calvino não estava com isso em mente. Calvino, como ele mesmo nos
diz, era tímido e reservado por natureza e ansiava por uma vida calma e
tranquila de estudo em algum refúgio longe do burburinho das tempestades
criadas pela Reforma. Ele resistiu a todas as propostas de Farel firme e
tenazmente até que, em desespero, Farel rugiu:
"Eu declaro, em nome de Deus, que
se você não nos auxiliar nessa obra do Senhor, o Senhor irá puni-lo por seguir
seu interesse em vez de seguir esse chamado."
Calvino ficou oprimido por
esta ameaça do juízo de Deus e, em resignação à vontade de Deus, concordou em
trabalhar com Farel na difícil tarefa da reforma em Genebra.
Em meio a agitação da vida
da cidade, Farel e Calvino trabalharam dia e noite para trazer uma reforma
completa, até que a cidade, cansada da disciplina rigorosa imposta por eles,
levantaram-se contra eles e os expulsaram. Calvino se retirou para Estrasburgo,
onde passou alguns dos momentos mais felizes de sua vida, apenas retornando
alguns anos mais tarde, quando foi convocado por um conselho inquieto com as
condições caóticas da cidade. Farel continuou com seu trabalho, especialmente
em Neuchâtel, uma cidade onde desordem e confusão também reinavam.
Farel e Calvino fizeram uma
parceria a partir do momento que começaram seus labores em Genebra. De fato,
durante a estadia de Calvino em Estrasburgo, Farel foi quem persuadiu Calvino a
se casar. Em uma carta a Farel, enviada no dia dezenove de maio de 1539, Calvino escreveu:
"Não sou um desses amantes insanos
que, uma vez afetados com a bela figura de uma mulher, também abraçam seus
defeitos. A única beleza que me seduz é, se ela for casta, prestativa, não
exigente, econômica, paciente e cuidadosa para com a minha saúde. Portanto, se
você encontrar estas características, comprometa-se imediatamente, a fim de que
outra pessoa não tome a sua frente. Mas se você encontrar o contrário, deixemos
passar."
Embora Farel não retornou a
Genebra quando Calvino foi chamado de volta, os dois permaneceram amigos e a
correspondência entre eles continuou. Calvino passou o resto de seus dias em
Genebra; Farel continuou seus com seus labores evangelísticos.
Quando Calvino estava perto
da morte, Farel - apesar de estar com quase setenta e cinco anos - viajou para
ver seu velho amigo e co-reformador pela última vez. Ciente de idade de Farel e
das dificuldades da viagem, Calvino implorou para que Farel não fosse. Mas
Farel não poderia manter-se longe.
Parte da
carta de Calvino diz:
"Adeus, meu melhor e mais
verdadeiro irmão! E já que é vontade de Deus que você permaneça atrás de mim no
mundo, viva consciente da nossa amizade, como algo que foi útil para a Igreja
de Deus, de maneira que o fruto disso nos aguarda no céu. Eu suplico, não se
fadigue por minha conta. É com dificuldade que consigo respirar, todo momento
penso que será o último. É suficiente que eu viva e morra para Cristo, o qual é
a recompensa de seus seguidores, tanto na vida quanto na morte. Novamente,
adeus aos irmãos."
Dez dias
depois da morte de Calvino, Farel escreveu para um amigo:
"Oh, por que não fui eu levado em
lugar, enquanto ele poderia ter sido poupado por muitos anos de saúde para o
serviço da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo! Graças sejam a Ele que me deu a
imensa graça para conhecer este homem e para segurá-lo em Genebra contra a sua
vontade, onde trabalhou e realizou mais do que se pode dizer. Em nome de Deus,
então eu o pressionei e pressionei novamente para tomar sobre si mesmo um fardo
que lhe pareceu mais difícil do que a morte, de tal modo que às vezes me pedia
pelo amor de Deus para ter piedade dele e para lhe permitir servir a Deus de
uma maneira mais adequada à sua natureza. Mas quando ele reconheceu a vontade
de Deus, ele sacrificou sua própria vontade e realizou mais do que se esperava
dele e superou não só os outros, mas a si mesmo. Ó, que trajetória gloriosa ele
alegremente concluiu!"
Farel se casou sim, mas com
a idade de sessenta e nove anos, para o desgosto de Calvino. Mas Calvino
realmente teve a graça de escrever aos pregadores da cidade em que Farel estava
trabalhando para "suportar com
paciência a tolice do solteirão".
Ainda viajando e pregando
pouco antes de sua morte, ele voltou a Neuchâtel para morrer. Ali, desgastado
por seus muitos labores, cansado d os sofrimentos que vieram com o vitupério de
Cristo, ele morreu tranquilamente enquanto dormia, no dia treze de setembro de
1565.
Bravio
e ardente como era, ele serviu num lugar importante na obra de Deus ao trazer
reforma à igreja. Embora seus métodos poderiam certamente ser analisados e
criticados, ninguém nunca questionou a sua integridade, coragem e fidelidade ao
seu Deus. Seu trabalho era o do lavrador que foi chamado para cortar as
árvores, limpar o matagal e fazer o trabalho duro da lavoura, outros viriam,
mais gentis do que ele e semeariam a semente.
Nem Calvino nem Farel
poderiam fazer o que tinha de ser feito para que reforma acontecesse; Deus usou
ambos - primeiro Farel para destruir, depois Calvino para construir. Do mesmo
modo, assim é sempre na igreja de Cristo: cada membro tem o seu lugar e vocação
e todos juntos são chamados para trabalhar na causa de Cristo.
Especialmente na sua
amizade com Calvino, um aspecto relevante e profundamente espiritual de seu
caráter veio à tona. Com uma humildade sincera, ele estava contente de ficar na
sombra de Calvino, para ficar em segundo plano quando a ocasião exigia e para diminuir
a fim de que Calvino pudesse crescer. Esta foi a sua qualidade mais agradável e
esta é uma virtude registrada nos livros do céu.



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