Os Waldenses - Heróis que o mundo não conheceu.
Sobre o antigo massacre em Piedmont, Soneto n° 18.
"Vingues, ó Senhor, a morte dos
Teus santos,
cujos ossos jazem espalhados nos gélidos alpes; mesmo estes, que
conservaram a Tua tão pura e antiga verdade, enquanto nossos pais adoravam
pedaços de pau e pedras; não Te esqueças: no Teu livro registres o lamento
destes, que eram Tuas ovelhas, e estando no seu antigo curral foram dizimadas
pelos sanguinários piemonteses,
que rolaram mães com seus infantes penhasco
abaixo. Suas lamentações, dos vales ecoam para as colinas,
e destas até o céu.
O sangue e as cinzas dos mártires, semeadas sobre todos os campos da
Itália,
onde continuam a fazer o tríplice tirano [o papa] tremer:
Que destas
possam florescer cem vezes mais,
quem tendo aprendido o Teu caminho possa
escapar
da aflição da Babilônia sem demora."
Com as palavras deste
soneto, o cego poeta, John Milton, celebrou o terrível massacre dos waldenses
pela igreja romanista.
Mesmo na Idade Média,
quando a Igreja Católica Romana governava toda a Europa de forma suprema e
invencível, ela nem sempre tinha tudo do seu jeito. Durante este período das
trevas, quase sempre indivíduos e grupos ergueram suas vozes em protesto contra
a tirania e corrupção de Roma.
A única explicação para a
presença de tais dissidentes dos ensinos romanistas, é a grande obra de Deus na
preservação de Sua Igreja.
Uma evidência de que Deus
preserva a Sua Igreja é a existência, durante a maior parte da Idade Média, de
um grupo chamado "Os Waldenses".
Eles certamente são os mais fiéis de todos os dissidentes da Idade Média. Eles
são um dos meus grupos de santos preferido.
Sua Origem
Embora haja algumas
controvérsias sobre a origem dos waldenses,
a maioria dos historiadores considera que Pedro Waldo, de quem eles receberam o
nome mais tarde, seja o fundador do movimento.
Embora não se saiba quase
nada sobre o início da vida de Pedro, é sabido que ele era filho de um
comerciante rico de Lyon, na França, e que herdou a riqueza de seu pai. Ninguém
sabe a data de seu nascimento, mas sua morte foi em 1218, o que o coloca muito
cedo na Idade Média, uma criança do século XII.
Incomodado com sua riqueza,
pelo fato de que ela tinha crescido através da ganância e o evidente mundanismo
de sua vida, Pedro perguntou ao seu padre a respeito do melhor caminho para se
achegar a Deus. Foi-lhe dito, como era comum naqueles dias, que o caminho para
Deus era vender tudo que tinha, dar aos pobres e seguir a Cristo.
Pedro não hesitou em seguir
o que para ele era um claro mandamento de seu Senhor. Pelo fato dele ser
casado, ele providenciou dinheiro suficiente para sua esposa; colocou suas
filhas em um convento para serem cuidadas, pagou de volta todos aqueles de quem
ele tinha tirado proveito e deu todo o resto que tinha aos pobres.
Pedro Waldo reuniu ao seu
redor um pequeno grupo de homens que iniciaram a tradução da Escritura para a
língua vernácula, e começaram a assumir as responsabilidades da pregação. Eles
foram conhecidos por diferentes nomes: Os Irmãos em Cristo, Os Pobres em
Cristo, Os Pobres em Espírito, mas finalmente eles ficaram conhecidos pelo nome
de seu fundador, Pedro Waldo. Eles viveram vidas de total pobreza e dedicação a
Deus.
Ensinos
Em 1179, Pedro Waldo pediu
para seu arcebispo a permissão para que fossem reconhecidos como um movimento
independente e aprovado, e pediu a permissão para serem estabelecidos como uma
fraternidade de pregação. O requerimento foi repassado para o papa Alexandre
III, que recusou o pedido. O grupo recorreu ao Terceiro Concílio de Latrão em
1179, mas este concílio também recusou seu pedido.
Convencidos de que estavam
fazendo apenas aquilo que era bíblico, eles continuaram a pregar da mesma
forma, e assim provocaram a ira da igreja, que os excomungou no Concílio de
Verona em 1184.
O que é particularmente
interessante sobre os waldenses, é o
ponto de vista deles. Eu duvido que qualquer grupo de pessoas em toda a Europa,
antes da Reforma, entendeu as verdades da Escritura tão claramente como estes
simples homens. Mesmo Philip Schaff os chama de "a seita estritamente bíblica da Idade Média". É quase que
impossível imaginar como este singelo grupo poderia ter vindo a um conhecimento
tão excelente da verdade, na época em que viveram. Eles eram humildes e leigos,
eram desprezados e perseguidos, tinham sido criados nas cadeias da heresia
católica romana, e mesmo assim foram muito claros sobre pontos
importantíssimos. Eles foram os precursores da Reforma, tanto que quando a
Reforma de Calvino amanheceu, a maioria deles logo uniu-se a ela, era como se a
Reforma de Calvino fosse exatamente o que eles tinham esperado por todos
aqueles séculos. Somente o fato de que Deus preservou Sua Igreja, pode
adequadamente explicar a existência deles.
No início do movimento, os
waldenses não se afastaram dos ensinamentos católicos romanos. Eles não
rejeitaram a autoridade do papa, todo o sistema sacramental do catolicismo
romano ou a própria igreja como a mãe dos fiéis. Eles foram, na verdade, muito
parecidos com uma ordem religiosa. Eles exigiam votos de pobreza, pureza e
obediência para a membresia integral, e insistiam em um tempo de aprendizagem
antes de permitir que os adeptos se tornassem membros integrais.
Desde o princípio, sua
principal ênfase era a pregação. Foi a pregação que os levou a terem
complicações com a igreja, pois pregavam sem permissão. Eles continuaram até
mesmo diante da excomunhão, pois estavam convencidos de que a pregação é
decisiva para a salvação - doutrina da reformada que estava no coração da
Reforma da igreja, tanto na luterana como na calvinista. Roma ensinava que os
sacramentos eram essenciais para a salvação e que a pregação estava subordinada
aos sacramentos. Os waldenses viam o erro disto e insistiam que o Senhor tinha
adicionado os sacramentos à pregação e portanto, Deus salvava Seu povo através
da pregação da Palavra. Era especialmente esta doutrina que Roma odiava, pois
os sacramentos estavam no próprio coração de todo o sistema sacerdotal do
papado, do qual Roma era tão orgulhoso.
Realmente não deveria nos
surpreender que, à luz dos tempos, os waldenses tivessem ido longe demais com
sua ideia de pregação. Eles eram opostos ao clericalismo católico romano, e
logo vieram a enxergar a relevância do que Lutero mais tarde chamou de o
sacerdócio de todos os crentes. Com sua ênfase no sacerdócio de todos os
crentes, e falhando em distinguir entre os deveres especiais dentro da igreja,
do dever universal dos crentes, eles deram aos leigos, incluindo mulheres, o
direito de pregar. Todo o povo de Deus era pregador, e não o eram por mérito da
ordenação, mas pelo mérito de uma vida piedosa e espiritual a qual demonstrava
que eles eram crentes.
No entanto, uma vantagem
deste errôneo ponto de vista, foi o fato de que eles viam a necessidade de todo
o povo de Deus possuir a Escritura. Por consequência, eles traduziram a
Escritura para a língua vernacular e até mesmo insistiram na autoridade final e
absoluta da Escritura para a vida, doutrina e pregação. A pregação deveria ser
a exposição da Palavra de Deus.
Após a perseguição e a
excomunhão, o ponto de vista deles se desenvolveu. Eles viram as
inconsistências na posição que tinham tomado e dos outros ensinamentos de Roma.
Pouco a pouco, eles rejeitaram o juramento, purgatório, orações pelos mortos, a
missa e a transubstanciação.
Perseguição
Tais ensinamentos atraíram
imensas multidões aos waldenses e o
movimento se espalhou rapidamente pela França, Itália, Suíça e até mesmo em
partes da Europa Oriental. Era exatamente por causa da ameaça ao poder
romanista e a popularidade do movimento, que atraía a fúria de Roma sobre os waldenses. Para suprimir a heresia, a
força total desta instituição cruel, injusta e assustadora - a Inquisição - foi
colocada para ir contra eles.
As histórias de sofrimento
e tortura que este grupo enfrentou, fazem qualquer um chorar até mesmo nos dias
de hoje. Seus pais e mães foram dilacerados nas cremalheiras e queimados em
estacas. Suas crianças eram queimadas com ferros a fim de forçá-las a denunciar
as más ações de seus pais. Homens, mulheres e crianças que tinham fugido para
uma caverna na montanha para escapar, foram sufocados por causa da fumaça de um
enorme incêndio feito na entrada da caverna. Assim como o poema de Milton
revela, mães com seus bebês em seus braços eram arremessados da beira dos
penhascos.
Sob as pressões da
perseguição, os waldenses fugiram para os vales alpinos e planaltos da Suiça e
lá sobreviveram.
Eles foram tratados tão
cruelmente por fazer o mal? Um próprio inquisitor disse sobre eles:
"Eles são modestos e bem
comportados, não têm nenhuma vaidade na sua vestimenta, a qual é limpa, mas não
extravagante. Evitando comércio, por causa de suas inevitáveis mentiras,
juramentos e fraudes, vivem do trabalho como artesãos, como sapateiros, assim
como seus professores. Contentes com as necessidades básicas, eles não acumulam
riquezas. Puros em seus costumes, moderados no comer e beber, eles se mantém
afastados de tavernas, danças e outras vaidades. Eles se abstêm da ira e estão
sempre ativos. Podem ser reconhecidos por sua modéstia e precisão na fala."
A piedade dos wandenses era
reconhecida tão amplamente que um homem, sob suspeita de ser um dos waldenses,
era capaz de provar em seu julgamento que ele não o era e não poderia ser um
waldense, mas tinha de ser um bom católico - pois mentia, praguejava e bebia.
Estes santos de Deus que
mancharam os Alpes com seu sangue, avidamente abraçaram a Reforma. Mas e quanto
a Roma? Até hoje Roma não confessou nenhuma transgressão por derramar o sangue
dos santos. Como também Roma não mudou seu coração. Estou convencido que ela
faria o mesmo hoje em dia, se tivesse a oportunidade. Mas, as almas dos waldenses clamam sob o altar. E o Senhor
responderá suas orações.




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