CRISTO - O Juiz que julgará a Terra
1. O Juízo de Cristo
O
primeiro texto cristológico do “corpus”
paulino apresenta-se em 1Ts 1.9,10. No momento em que, relembrando as
circunstancias da conversão de seus correspondentes, Paulo recorda-lhes como
responderam a sua pregação. Tal foi, portanto, a resposta dos tessalonicenses à
mensagem de Paulo – pois dos ídolos vos convertestes a Deus, para servirdes ao
Deus vivo e verdadeiro, e aguardardes o seu Filho lá dos céus, ao qual
ressuscitou dos mortos; Jesus, que nos salva da ira vindoura. Paulo anuncia o
julgamento que ameaça o paganismo (por
causa da idolatria e imoralidade), e acrescentou a mensagem propriamente
cristã: Jesus constituído por sua ressurreição juiz escatológico, oferecido
como salvador aos homens que nele creem.
Temos
diante de nós as grandes linhas deste discurso de propagação paulina que
podemos reconstituir com o auxilio dos dois discursos aos gentios do Livro de
Atos (o discurso inacabado de Listra, At 14.15-17, e o do Areópago, 17.22-31),
e graças ao começo da Epístola aos romanos (Rm 1.14-32; 2.1-16; 3.21-26) e da
primeira aos Coríntios (1 Co 1.21).
Deus,
passando por cima desses tempos (pagãos) de ignorância, a todos os homens, de
todas as nações – estabeleceu um dia em que julgará a terra segundo a sua
justiça, por meio de um Homem que Ele designou e acreditou junto de todos
tendo-o ressuscitado dos mortos (At 17.30,31). O próprio Pedro, na casa de
Cornélio, introduz bruscamente, em meio da exposição ordinária dos fatos de que
foi testemunha, o “Kerygma”[1] cristão
do discurso aos gentios: “e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é
quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos” (At 10.42).
Perfeitamente
nítida é a concordância geral com a mensagem aos gentios; judeus e gentios
devem esperar a aparição de Cristo ressuscitado e exaltado no céu. Para os
pagãos, todavia, a mensagem se une à ameaça do juízo; para os judeus, o reinado
do Messias é a felicidade esperada (segundo
a tradição profética) e a aceitação da mensagem cristã determinará o grande
advento de Cristo e o restabelecimento de todas as coisas (Jo 5.25-29).
Há,
pois, uma tradição cristã na maneira de apresentar Cristo Jesus como juiz ou o
salvador dos últimos dias (At 3.20 e I Ts 1.10), designado e já entronizado por
sua ressurreição, e que deve descer do céu para o julgamento. Nesta tradição, a
ressurreição está relacionada com o juízo; ela foi, da parte de Deus, a
designação do juiz escatológico.
O
caráter primitivo desta passagem ressalta do lugar que ocupa na literatura
paulina e no Livro dos Atos. Trata-se de uma tradição judeu-cristã, supérstite[2] nas confissões
de fé sob a forma que ela reveste na mensagem aos gentios, mostrando Jesus como
o Juiz dos vivos e dos mortos (At 10.42; 2Tm 4.1; 1Pd 4.5; Fp 2.1).
. Retirado do livro: Cristo na teologia de Paulo, Lucien Cerfaux.
Academia Cristã, Paulus, 2012.
2. O Juízo Final
“A causa do
problema é que os homens e mulheres não sabem que estão num universo moral,
cujo rei é Deus, e que Deus é o Juiz de todo o mundo e o julgará com justiça”[3]
Vivemos
num mundo marcado por valores contraditórios e ambivalentes: O secularismo, em
que os valores limitam-se apenas a este século (mundo), nutrindo profundo menosprezo ou simples desinteresse
condenatório pelo transcendente; e a mistificação da fé, que faz com que o
homem projete a sua “fé” de forma
enganosa, infantil e irracional, falando candidamente de “energia”, “fluidos”, “pensamento positivo”, “energia das pirâmides”
e de outras crendices semelhantes. Ambos os conceitos parecem ter em comum a
ideia de não haver um juízo final de Deus. O primeiro, por negar o
transcendente ou simplesmente não se importar com isso; o segundo, por crer de
alguma forma, num tipo de “purificação da alma” ou, na “bondade opcional do ser humano”. Assim, todos serão de alguma forma
“salvos” de uma condenação que na prática
não existe.
Uma
outra ideia que amiúde caminha de mãos dadas com estas, é a de que o juízo
final se realiza todos os dias (A. Camus), conforme a escolha voluntária do
homem, que é senhor dos seus atos, sendo o tempo (“Tribunal do Tempo”, Solon),
ou a historia do tribunal do mundo (F.Schiller). De fato, o juízo de Deus
também se realiza na história (Dilúvio, Sodoma e Gomorra, exílio assírio e
babilônico); todavia, a Bíblia também nos fala de um juízo Final, quando haverá
a consumação da história, tendo todos os homens que prestar contas a Deus de
seus atos, palavras e pensamentos.
2.1 - O Juiz e a integridade do seu juízo
Jesus
veio a primeira vez para salvar o perdido (Lc 19.10; Jo 12.47). Na segunda vez,
ele virá pessoalmente julgar a todos os homens (Mt 5.21,22; 25.31-33; Jo
5.22,27; At 10.42; 17.31; Rm 2.16; 2Co 5.10; 2Tm 4.1). O juízo de Cristo é o
juízo do Trino Deus: O tribunal de Cristo é o tribunal de Deus (Rm 14.10; 2Co
5.10).
A
Bíblia nos diz que na tarefa de julgar a todos os homens e os anjos rebeldes,
Cristo será auxiliado pelos anjos (Mt 13.41-43; 24.31; 25.31; 2Ts 1.7,8; Ap
14.17) e pelos eleitos glorificados (Mt 12.41,42; 19.28; ICo 6.2,3; Ap 20.4). O
tipo de participação que teremos nesse juízo, é difícil de determinar. “De alguma forma, sua participação será no
sentido de glorificar a Cristo por causa de seus justos juízos”. Seja qual
for a nossa atividade, o fato bíblico que devemos ressaltar, é que o Soberano
Juiz compartilhará conosco de alguma forma, esta responsabilidade. Este
compartilhar de Deus será feito com seus filhos. Por sermos filhos, e não
simplesmente anjos, é que Deus nos incumbirá deste privilégio e
responsabilidade.
2.2 - A integridade do juízo de Cristo
Jesus
é competente para julgar, ou seja, ele está pronto e habilitado para fazê-lo
(IPd 4.5). Apesar de muitos não lhe terem feito justiça na sua primeira vinda
(Is 53.7,8; At 8.32-33), rejeitando-o juntamente com a sua mensagem de
salvação, Cristo julgará integramente, sendo o seu juízo:
1)
Justo: Jo 5.30; At 17.31; Rm 2.5; Ap 16.7;19.2
2)
Verdadeiro: Jo 8.16; Rm 2.2; Ap 16.7; 19.2
3)
Reto: Sl 9.4; 2Ts 1.5; 2Tm 4.8; 1Pd 2.23
4)
Sem acepção de pessoas: 1Pd 1.17
5)
Revelador: ICo 4.5
O
juízo de Cristo será integro devido à sua própria natureza e, também, devido à
sua onisciência: nada ficará oculto diante do seu escrutínio[4]. (Mt
10.26; Lc 8.17; Rm 2.16; ICo 4.5). Todavia, como acentua Bavinck (1854-1921),
“...quando Cristo começar a julgar, nós
sabemos que tipo de julgamento será esse: misericórdia e Graça e ao mesmo tempo
perfeita justiça. Ele conhece a natureza do homem e tudo o que há nela; ele conhece
os lugares secretos do coração e pode detectar nele todo mal e corrupção, mas
ele vê também o menor começo de fé e de amor que estiver presente ali. Ele não
julga de acordo com a aparência, nem de acordo com pessoas, mas de acordo com a
verdade e com a justiça”.
3. A amplitude o julgamento
3.1 –
Todos os homens individualmente
Deus
é o juiz de todos (Hb 12.23). Portanto, todos os homens comparecerão diante de
Cristo e, cada um dará contas de si mesmo; a nossa responsabilidade é pessoal e
intransferível (Mt 12.36,37; Rm 3.6; 14.10-12; 2Co 5.10; 2Tm 4.1; Jd 14-15; Ap
20.12,13). Ninguém escapará (Rm 2.3); o juízo será extremamente meticuloso e
revelador (Rm 2.16; 1Co 4.5). Os eleitos serão julgados não para condenação –
visto que já não há condenação para os que estão em Cristo: os seus pecados
foram perdoados (Rm 8.1, 33,34), mas serão no que se refere ao galardão (Jo
5.24; 1Co 3.10-15; 4.5; Hb 10.30; Ap 11.18).
3.2 – Os anjos réprobos[5]
Todos
os anjos que se rebelaram contra Deus, serão condenados juntamente com o seu
chefe, Satanás. A rigor falando, a sua condenação será apenas executada:
Satanás já foi julgado e condenado (Mt 8.29; Jo 12.31; 16.11; ICo 6.3; 2Pd 2.4;
Jd 6).
Retirado do Livro – Creio. Hermisten Maia. Ed Fiel, 2013, p.419
[1] Kerigma (do grego: κήρυγμα, kérygma) é
uma palavra usada no Novo Testamento com o
significado
de mensagem, pregação, anúncio ou proclamação.
[2] Em uma união conjugal, marido e mulher, é denominado
cada membro, pelo termo "cônjuge". Quando ocorre o falecimento de um
deles, o sobrevivente, é dito supérstite. É ele, o cônjuge sobrevivente
que juntos com os filhos ou herdeiros participará dos procedimentos sucessórios.
É também um termo técnico, jurídico ou cartorial.





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