João Crisóstomo - O Pregador Boca de Ouro
"Deus Todo-Poderoso, que tens nos dado graça neste momento, para que estando de acordo apresentemos nossas súplicas comuns diante de Ti, e prometes que quando dois ou três estão reunidos em Teu nome, Tu atenderás seus pedidos. Cumpra agora Senhor, os desejos e petições de Teus servos, como lhes for mais oportuno, concedendo-nos neste mundo o conhecimento de Tua verdade, e no mundo vindouro a vida eterna. Amém."
Esta bela oração, tão apropriada para adoração, foi tirada da liturgia de Crisóstomo. Ela era utilizada nos cultos de adoração a qual ele, como o mais famoso pregador da igreja primitiva, usava para conduzir o povo de Deus em adoração ao seu Senhor.
A pregação sempre foi vital para a igreja. Desde a pregação dos apóstolos da igreja primitiva, até os púlpitos das atuais Igrejas de Deus, a pregação sempre ocupou um lugar central e importante. Somente quando Roma introduziu na igreja práticas ímpias e sem sentido, é que a pregação começou a declinar e quase desapareceu do culto dos santos. A Reforma foi, acima de tudo, provocada por meio da pregação - uma pregação simples, bíblica e expositiva. E assim tem sido nestes quatrocentos anos desde a Reforma. Quando a igreja era forte, o púlpito era forte. Quando a igreja estava infiltrada com falsas doutrinas e mundanismo, era porque o púlpito tinha falhado. Quando a Reforma entrou na igreja, ela veio nas asas da pregação.
Portanto, não é errado considerar como o maior pregador da igreja antiga, João Crisóstomo. Seu nome não se tornou apenas sinônimo de pregação, mas a última parte de seu nome, "Crisóstomo" foi lhe dado pois o nome significa "boca de ouro", e era um indicativo do elevado respeito concedido a ele como um ministro do Evangelho.
Início da Vida
João nasceu na Antioquia da Síria no ano de 347 d.C. Ele era filho de Secundus, um oficial militar pagão, e Anthusa, uma mulher piedosa de grande vigor moral e caráter. Sua mãe tinha casado jovem e ficou viúva com a idade de vinte anos. Quando Secundus morreu, João era um bebê, e seu alimento espiritual veio de sua mãe. Ela era tão cuidadosa na instrução religiosa de João, que um proeminente pagão da época, maravilhado com a sua devoção, disse: "Minha nossa! Que mulheres estes cristãos têm."
A Antioquia, onde os crentes foram primeiramente chamados cristãos, tornou-se uma cidade mundana e ímpia. Um escritor expressou isto desta maneira - o que nos dá uma ideia do ambiente no qual João foi criado:
"O calor do clima induziu os nativos ao prazer mais imoderado de tranquilidade e luxo; a vigorosa libertinagem dos gregos foi misturada com a simplicidade hereditária dos sírios. A moda era a única lei, prazer a única busca e o esplendor da vestimenta e mobília era a única distinção dos cidadãos de Antioquia. As artes da luxúria eram homenageadas, as relevantes e preciosas virtudes eram objetos de escárnio e o menosprezo pela modéstia feminina e pela reverência à idade anunciavam a corrupção universal da capital do Oriente."
João recebeu uma excelente educação nas melhores escolas da Antioquia, estudando especialmente filosofia e retórica, em preparação para uma carreira em direito. Ele não foi imediatamente batizado por sua mãe, principalmente por causa de algumas visões errôneas sobre o batismo, as quais prevaleciam na igreja daquela época. Estas visões, sustentadas por alguns na igreja, consistiam sobretudo na noção que o batismo lavava todos os pecados anteriores. Portanto, era considerado sábio postergar o batismo, de maneira a ser liberto de tantos pecados quanto fosse possível. Com a idade de vinte e três anos João foi batizado por Mileto, o bispo da igreja em sua cidade. Mais tarde o próprio João iria protestar esta prática de retardar o batismo, porém ele realmente definiu sua própria conversão como tendo ocorrido em seu vigésimo ano.
Após sua conversão, ele abandonou seus estudos de direito e uma carreira secular, e dedicou-se exclusivamente ao trabalho da igreja. Como preparação para este trabalho, ele estudou sob Diodore, que tinha fundado uma escola monástica e também foi influente no estabelecimento de um seminário em Antioquia.
Vale a pena mencionar que o Seminário de Antioquia era devoto aos princípios de interpretação bíblica, que insistia que o significado literal da Escritura era o correto.
Eles tomaram uma posição contrária ao Seminário de Alexandria, Egito, que promovia um método alegórico de interpretação. Entretanto, a tradição do Seminário de Antioquia, era a tradição da igreja durante aquele período se a pregação fosse forte, e ainda continua sendo o método ensinado em todos os seminários ortodoxos de hoje em dia. Deus usou esta educação para preparar João para seu trabalho como pregador. Um de seus colegas de classe era Theodore, mais tarde um bispo da igreja em Mopsuéstia, sendo ele mesmo um importante pai da igreja.
João tinha fortes tendências à vida monástica, mas privou-se de entrar em um monastério por causa dos desejos de sua mãe. Somente depois que ela morreu, ele de fato retirou-se por dez anos para viver a vida de um eremita nas colinas além da Antioquia. Como eremita, ele causou danos irreparáveis a sua saúde e carregou estas aflições corporais para seu leito de morte.
Deus tinha um trabalho mais importante para João. Ele foi convocado a voltar para Antioquia onde primeiramente se tornou um leitor - leitor da Escritura no culto de adoração - depois um diácono em 381 e em seguida um ministro da igreja. Foi durante este período que ele escreveu um livro sobre a educação de filhos e um outro sobre o ministério, intitulado “O Sacerdócio”. Os dois livros lhe deram uma reputação de excelência, pois eram cheios de profunda sabedoria.
Acima de tudo, Crisóstomo era um pregador. Já enquanto estava estudando para direito, seus dons de oratória eram notáveis, mas Deus os deu para serem usados no serviço do ministério da Palavra.
Por doze anos Crisóstomo ocupou o púlpito na igreja de Antioquia. Era seu costume, como tem sido em nossa própria tradição reformada, pregar séries sobre um determinado livro da Bíblia ou um tema. Muitos de seus sermões ainda existem. Ele pregou sessenta e sete sermões em Gênesis, noventa em Mateus, oitenta e oito em João, trinta e dois em Romanos, setenta e quatro em 1 e 2 Coríntios, como também séries em outros livros. Ele não pregava apenas no dia do Senhor, mas também durante a semana, as vezes cinco dias consecutivos. Seu auditório estava sempre lotado e as vezes a congregação, que apreciava sua pregação, rompia em aplausos - os quais ele severamente censurava.
Um episódio digno de nota, demonstra o poder da pregação de Crisóstomo. Durante a quaresma do ano de 387, o povo de Antioquia rebelou-se contra as novas taxas que lhes foram impostas pelo imperador Theodosius, e queimaram uma porção de estátuas do imperador e de sua família. Theodosius em sua raiva, ameaçou destruir a cidade e enviou tropas para acabar com o tumulto e juízes para julgar os mandantes. João aproveitou a situação para pregar vinte sermões chamados “Sobre os Estatutos”, nos quais ele lembrou o povo de suas responsabilidades para com aqueles que Deus colocou sobre eles, e lembrou o imperador dos males da crueldade indevida. Estes sermões serviram para trazer tranquilidade à cidade e o perdão do imperador. Um escritor da época comentou sobre estes sermões: “Embora uma multidão estivesse reunida, o silêncio era tão intenso como se nenhuma pessoa estivesse presente”. Lembramos dos sermões de Lutero, os quais sufocaram as desordens de Wittenberg, trazidas pelos profetas rebeldes de Zwickau.
Por causa da grande influência de sua pregação, Crisóstomo foi nomeado pelo agente do imperador para ser ministro em Constantinopla. Ele teve que ser escoltado de Antioquia por tropas, por causa da grande devoção de seu povo, no meio de quem labutou por doze anos. O púlpito em Constantinopla era o mais prestigiado em toda a igreja do Oriente, e talvez em toda a igreja. A cidade era, depois do tempo de Constantino o grande, a capital do império. Localizada nas margens do Bósforo na Grécia, esta igreja era a igreja mais influente de sua época.
Mas não demorou muito para que João estivesse em apuros. O grande pregador que ele era, não temia ninguém e pregava a Escritura independente de quem ofendesse. Pelo fato de Constantinopla ser a cidade imperial, ela era cheia de luxo e corrupção, intrigas e depravação. Crisóstomo pregou contra todos estes pecados com veemência e vigor; e sua pregação conseguiu-lhe o eterno ódio da imperatriz Eudoxia. Conivente com os bispos de Alexandria, ela assegurou seu exílio para além do Bósforo, mas este durou pouco tempo. Ele voltou em triunfo para seu púlpito e continuou a condenar os males da cidade. Ele provavelmente, de um ponto de vista terreno, cometeu seu erro fatal quando chamou Eudoxia de mais uma Herodias, que não descansaria até que conseguisse a cabeça de João.
Seu Martírio
Desta vez João tinha ido longe demais. O imperador o depôs, João recusou obedecer o mandato de abdicar o seu púlpito. O imperador enviou tropas à catedral durante uma cerimônia de batismo e misturou o sangue dos fiéis com a água utilizada para o batismo. Crisóstomo foi exilado para Cucresus nas montanhas de Taurus na Armênia. Em uma carta ele descreveu seus sentimentos ao ser exilado:
"Quando fui expulso da cidade, eu não senti nenhuma ansiedade, mas disse a mim mesmo: 'Se a imperatriz deseja banir-me, que ela o faça, 'a terra é do Senhor'. Se ela quer ter-me serrado ao meio, tenho Isaías como exemplo. Se ela quer que eu seja afogado no mar, pensarei em Jonas. Se tiver que ser jogado no fogo, os três homens na fornalha sofreram o mesmo. Se jogado diante de bestas selvagens, eu lembrarei de Daniel na cova dos leões. Se ela quer que eu seja apedrejado, tenho perante mim Estêvão, o primeiro mártir. Se ela exigir minha cabeça, que ela a tenha, João o Batista brilha diante de mim. Nu saí do ventre de minha mãe, nu deixarei este mundo. Paulo me relembra, 'se ainda estivesse procurando agradar a homens, não seria servo de Cristo'."
Em Exílio
Até mesmo em exílio a influência de Crisóstomo permaneceu, pois as pessoas de Antioquia e outras partes do império vinham visitá-lo, e ele continuou a corresponder-se com pessoas em todas as partes do império - ao total duzentos e quarenta e duas cartas.
Então a imperatriz baniu Crisóstomo para outro lugar, tão distante das igrejas que ele não poderia ter nenhuma influência se quer, para o remoto nordeste do Mar Negro chamado Pitys. A caminho, ele foi tratado cruelmente pelos soldados e morreu durante a jornada. Era o ano de 407. Ele foi queimado em uma cova sombria.
Ainda assim a igreja o honrou e muitos anos mais tarde seu corpo foi exumado e mudado para um túmulo em Constantinopla. Ele morreu como um mártir por sua fé, num tempo em que supostamente não existia perseguição.
"A aparência pessoal do orador da boca de ouro não era imponente, mas digna e vencedora. Ele era de pequena estatura - como Davi, Paulo, Atanásio, Melanchthon e outros. Ele tinha uma estrutura magra; uma cabeça grande e careca, uma testa enrugada e alta; olhos profundamente sérios, brilhantes e penetrantes; bochechas pálidas e cavadas; e uma barba curta e cinza."
Crisóstomo era um pregador que enfatizava os aspectos morais da fé cristã. Ele mesmo descreveu seu trabalho desta maneira: "Meu trabalho é como o de um homem que está tentando limpar uma porção de terra onde um fluxo lamacento está constantemente fluindo".
De acordo com sua época, Crisóstomo defendeu alguns pontos de vista que mais tarde foram considerados errôneos pela igreja. Ortodoxo em todas as questões em que a igreja havia se posicionado, ele tomou uma fraca posição sobre a depravação do homem e o poder do pecado na natureza humana. Mas estes assuntos não seriam definidos pela igreja até o trabalho do grande pai da igreja, Agostinho.
João Crisóstomo tem sido lembrado na história como um dos grandes pregadores da igreja. Destemido, não procurava agradar a homens, disposto a sofrer as consequências de seu firme compromisso com a Escritura, ele é um testemunho inabalável da importância da pregação na igreja. Que Deus dê tais pregadores às nossas igrejas atuais.
Retirado do livro: Retratos de Santos Fiéis, Herman Hanko, Fireland, 2013.


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