Quem Criou o Mal?
MAL
1. Deus não criou o Mal
Esdras Costa Bentho, Norman L. Geisler, Paul Copan.
2. Deus criou o Mal
W.Gary Crampton, R.K.McGregor Wright, Kyle Baker,
Vincent Cheung
Estudo realizado na Igreja PorTuaCasa, ano 2017.
Pr Ronaldo José Vicente
“O pecado já existia antes mesmo de se tornar uma realidade na experiência humana. O mal moral já havia afetado parte da hoste angélica. A Bíblia não diz quando, mas afirma que ocorreu no princípio: “...porque o diabo vem pecando desde o princípio...” (1Jo 3.8).
Os Decretos Divinos e a Origem do Mal[1]
Esdras Costa Bentho
Terminologia
O termo decreto pulsa, sem conotações teológicas, por toda a Escritura. Neste aspecto é sinônimo de lei ou edito. O sentido primário é de uma determinação escrita ou ordenação, perfazendo também o sentido de desígnio ou vontade superior.
Pelo menos três vocábulos hebraicos são usados com o sentido primário, referindo-se a alguma lei ou edito emanado de uma autoridade qualquer, senão vejamos:
a) Esar. Literalmente “laço”. É um termo aramaico usado por sete vezes em Daniel (6.7-9, 12, 13, 15). A ARC traduz o vocábulo por edito real, a ARA por decreto e a TEB por interdito. Esar no v. 8 é uma lei “que se não pode revogar”.
b) Gzerah. Literalmente “coisa decidida”. Outro termo aramaico usado por duas vezes em Daniel (4.17, 24), com o sentido de uma sentença decretada ou decidida: “este é o decreto do Altíssimo”, ou “isto é o que o Altíssimo decidiu”. Deus na qualidade de Rei de toda a terra, segundo afirma o AT, baixa decretos (Sl 2.7). Assim é dito de um decreto para a chuva (Jó 28.26) e outro para o mar (Pv 8.29), os quais naturalmente são as leis impingidas na natureza. Geralmente, distingui-se entre decreto e preceito divino. O preceito refere-se aos mandamentos e às leis que Deus estabelece para as Suas criaturas, mandamentos estes que exigem obediência mas que frequentemente são transgredidos. O decreto, por outro lado, refere-se ao plano eterno, abrangente, imutável e eficaz de Deus, que é levado a efeito na história.[1]
c) Dath. Literalmente “lei, decisão baixada”. Termo hebraico usado por vinte e duas vezes nas Escrituras e que não difere dos sentidos anteriores (Et 2.8; 3.15; 9.1, 13, 14; Dn 2.9, 13, 15).
Na língua de Homero, o termo dogma é traduzido por decreto por cinco vezes. Em Lucas 2.1 para referir-se ao “decreto da parte de César Augusto”, em Atos 16.4 a ARA traduz por decisões, enquanto a ARC por “decretos que haviam sido estabelecidos” (ver 17.7). Em Efésios 2.15 é traduzido por ordenança, que naturalmente, subjaz o sentido básico de decreto, visto estar referindo-se a Lei promulgada aos israelitas no Monte Sinai (cf Cl 2.14). Por fim, Colossenses 2.20 usa o verbo no indicativo presente da segunda pessoa do plural “dogmatizesthe”, traduzido por “vos sujeitais a ordenanças”.
O uso destes termos nas Escrituras, excetuando aqueles que se referem a Lei, no entanto, não aparecem com matizes teológicas, ao contrário, para indicar as decisões oficiais dos soberanos, os decretos do concílio de Jerusalém e para indicar a Lei mosaica, nunca para afirmar qualquer plano eterno da Divindade.
No desenvolvimento do nosso estudo, verificaremos que a expressão “decretos de Deus ou decretos divinos” é termo mais teológico do que bíblico, visto que nas Escrituras o vocábulo não estatui qualquer sentido doutrinário importante. Ao usarmos a expressão estamos de acordo com a tradição teológica que usa deliberadamente o termo sem qualquer hesitação.
Terminologia Teológica
Os teólogos costumam definir os decretos de Deus como:
a) A doutrina do Decreto de Deus é definida pelo Breve Catecismo de Westminster como:
“o Seu [Deus] eterno propósito, segundo o conselho da Sua vontade, pelo qual, para a Sua própria glória, Ele predestinou tudo o que acontece”.
b) Thiessen refere-se aos decretos de Deus nesses termos:
“Os decretos são o eterno propósito de Deus. Ele não faz ou altera Seus planos à medida que a história humana vai se desenvolvendo; Ele faz esses planos na eternidade e eles permanecem inalterados. Os decretos são baseados em Seu mui sábio e santo desígnio.”[2]
c) Alfredo Teixeira, teólogo presbiteriano, trata da obra da criação com base nos decretos divinos. Ele afirma:
“Se um engenheiro não inicia a construção de um edifício sem um projeto em que toda obra é prevista, e o mesmo acontece com todo artista sensato em seus empreendimentos, quanto mais necessário não seria que, na criação do universo, o seu Autor não tivesse um Plano. É inconcebível que Deus iniciasse a obra sem saber o que dela ia sair.”[3]
d) Bancroft define os decretos de Deus como:
“O conselho de Deus é o plano eterno para a totalidade das coisas, adotado pelo desígnio de Deus e que abrange todos os Seus primitivos propósitos, inclusive todo Seu programa criador e remidor e levando em conta ou aproveitando a livre atuação dos homens.”[4]
e) O teólogo Fred H. Klooster, define os decretos de Deus como:
“O ‘decreto’ de Deus é um termo teológico correspondente ao planos abrangentes que Deus estabeleceu de modo soberano na eternidade, com relação ao mundo e à sua história.”[5]
f) Segundo Champlin, os decretos divinos cumprem cinco propósitos específicos:
“Essa é a expressão usada na teologia para indicar aqueles atos da vontade de Deus que: (1) representam o seu propósito; (2) estavam presentes com ele desde a eternidade passada; (3) são cumpridos por ele dentro do tempo e do contexto humano; (4) determinam o curso da história, coletiva ou individualmente; (5) determinam o destino espiritual dos homens e dos anjos”.[6]
g) O teólogo e pastor assistente da Assembleia de Deus West End, em Richmond, define os decretos de Deus como:
“Os decretos divinos são o seu plano eterno que, em virtude de suas características, faz parte de um só plano, que é imutável e eterno (Ef 3.11; Tg 1.17). São independentes e não podem ser condicionados de nenhuma maneira (Sl 135.6). Têm a ver com as ações de Deus e não com a sua natureza (Rm 3.26). Dentro desses decretos, há as ações praticadas por Deus, pelas quais Ele, embora permita que aconteçam, não é responsável. Baseado nessa distinção, torna-se possível concluir que Deus nem é o autor do mal... nem é a causa do pecado.”[7]
h) Segundo o teólogo Lewis Sperry Chafer:
“O termo decreto divino é uma tentativa de reunir em uma única designação aquilo a que as Escrituras se referem por diversas designações: o propósito divino (Ef 1.11), o determinado desígnio (At 2.23), a presciência (1Pd 1.2, comp. 1.20), a eleição (1Ts 1.4), a predestinação (Rm 8.30), a vontade divina (Ef 1.11) e o beneplacito divino (Ef 1.9).[8]
Terminologia Bíblica para os Decretos de Deus
Apesar de não encontrarmos nas Sagradas Escrituras a expressão “decretos de Deus”, a doutrina e sua sistematização não deixa de ser correlativo a elas. Seguindo a teologia de Berkhof, “Não são descritas abstratamente na Escritura, mas são colocadas diante de nós em sua concretização histórica”.[9] Os decretos divinos são observados em conluio com a revelação progressiva de Deus na história, e não independente dela. Só podemos saber, portanto, através de uma revelação especial de Deus na historicidade humana.
Termos Bíblicos
A Escritura vetero e neotestamentária emprega diversos vocábulos que traduzem corretamente o sentido doutrinário e teológico dos decretos de Deus.
No Antigo Testamento
Os vocábulos no AT são usados em dois sentidos básicos: os que acentuam o elemento intelectual do decreto e os termos que salientam o elemento volitivo.[10]
Etsah, de ya’ats, lit. aconselhar, dar aviso. O lexema é usado em Jó 38.2, é traduzido na ARA por desígnio, na ARC por conselho e na TEB por providência. Desígnio refere-se ao plano, providência de Deus ou ao conselho dado por um sábio.[11] Em Isaías 46.11 o Senhor afirma: “O que eu disse, eu o cumprirei; formei o plano, e o executarei” (ECR).
Sod, de yasad, lit. sentar-se junto para deliberação. Particularmente, Jeremias 23.18, 22 fala-se de decisões tomadas na corte celestial ignoradas pelos falsos profetas.
Mezimmah, de zamam, lit. meditar, ter em mente, propor-se a. É o que ocorre em Jeremias 4.28 “...porque falei, resolvi e não me arrependo, nem me retrato” (cf. 51.12).
Hõq, lit. mandamentos, decretos. É um dos termos mais próximos na Bíblia àquilo que os teólogos chamam de “decretos divinos”. O termo aparece em diversos textos das Escrituras das quais as mais importantes estão no Salmo acróstico 119.5, 8, 12,: “Tu ordenaste os teus mandamentos, para que os cumpramos à risca”; “Cumprirei os teus decretos”; “ensina-me os teus preceitos”.
Cada um dos termos acima acentuam o elemento intelectual do decreto divino. A seguir observaremos os que salientam o elemento volitivo.
Shophet, lit. inclinação, vontade, beneplácito. Em Isaías 53.10 o termo é usado para designar o ato da vontade permissiva de Deus que permitiu que Cristo sofresse a favor dos pecadores: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo”. A ideia corrente por trás desse texto é que ao sofrer, o servo sofredor e seus carrascos estavam cumprindo um propósito determinado anteriormente por Deus (vide v. 6).
Ratson, lit. agradar, deleitar-se. Deus só pode se satisfazer com aquilo mesmo que ele determinou para seu deleite. Isto denota vontade soberana, deleite ou beneplácito (Sl 51.19).
Novo Testamento
O texto grego do Novo Testamento contém numerosos e significativos vocábulos, entre eles:
Boule. Este termo ocorre em diversos textos neotestamentários significativos ao estudo em apreço. O significado primário deste lexema é conselho, resolução, desígnio, propósito e projeto. O vocábulo é usado principalmente para referir-se à crucificação como parte do plano divino relativo ao Messias.
Em Atos 2.23, Pedro afirma: “Sendo este entregue pelo determinado desígnio (boule) e presciência (prognosei) de Deus”. A ARC traduz por “determinado conselho”, a NVI por “propósito determinado e pré-conhecimento de Deus”, a TEB por “plano bem-determinado da presciência de Deus”.
Neste texto o desígnio ou propósito de Deus está associado com a sua presciência. A presciência de Deus é o conhecimento prévio que Deus possui de todas as coisas, tanto finitas quanto eternas, de modo que nada do que ocorre acontece sem o conhecimento d’Ele. Pela sua presciência, ele determinou e projetou a redenção humana. Pedro usa o termo prognoseimais uma vez em 1Pd 1.2 referindo à eleição dos santos.
Tanto boule quanto prognosei aludem ao eterno propósito divino (Is 53.10) de entregar Jesus à crucificação. A crucificação de Jesus era, ao mesmo tempo, parte necessária do destino do Messias e parte do plano divino de Deus; porém, paralelamente a isso, aqueles que agiram de conformidade com o plano divino fizeram-no por impulso de sua própria vontade maliciosa. No entanto, os personagens que assim o crucificaram, estavam, mesmo sem saber, cumprindo um projeto arquitetado por Deus desde a eternidade. A oração do crentes primitivos (At 4.27, 28) testificava que Herodes, Pôncio Pilatos, os gentios e os povos de Israel fizeram “...tudo o que a tua mão e o teu conselho predeterminaram que se fizesse”.
O apóstolo Paulo, em Efésios 1.11, usa o termo boule, ao contrário, para referir-se ao projeto salvífico, elegendo, predestinando, filiando e redimindo aos que creem (vs. 4, 5, 7); “nele fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade” (NVI).
Rinaldo Fabris traduz o texto grego como se segue: “Nele, também nós participamos da salvação. Deus, que tudo realiza segundo sua decisão, nos integrou gratuitamente em seu projeto”.[12] Aqui o projeto ou plano de Deus está relacionado às “bênçãos espirituais em Cristo” (Ef 1.3) concedida gratuitamente aos eleitos. Assim como boule aparece com o termo prognosei, clareando e ratificando o “desígnio de Deus”, no texto de Atos também aparece com outros dois termos significativos no texto de Efésios. O primeiro deles é mystêrion, v. 9, e o segundo é predestinar, proorízo, vs. 5, 11.
Mysterion
Fabris traduz mysterion por “projeto secreto”.[13] Este projeto oculto é especificado em Colossenses pelo genitivo “mistério de Deus, Cristo” (2.2) e “mistério de Cristo” (4.3). Em 1.27, Paulo explica esta fórmula técnica dizendo: “isto é, Cristo em vós, a esperança da glória”. Segundo Paulo (Cl 1.26), esse mistério esteve “oculto dos séculos e das gerações”, mas sempre existiu no plano divino. A esse projeto existente, anterior à criação do próprio tempo é que chamamos de decreto divino, pois “vindo, porém, a plenitude do tempo (ou seja, cumprindo-se o tempo determinado por Deus), Deus enviou seu Filho” (Gl 4.4), “o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos” (Cl 1.26).
Os protagonistas do mistério são: Deus, que tem a iniciativa de projetar ou decretar o plano salvífico; o Messias que está no centro do mistério revelado, constituindo ele mesmo, o “mistério oculto-revelado”; os cristãos aos quais é revelado o mistério, ou que dele devem tomar “conhecimento”; e o apóstolo Paulo como mediador histórico encarregado por Deus de revelar e proclamar o mistério.[14] O mysterion, de fato, está associado a duas áreas semânticas bem definidas: a da “revelação”, delimitada pelos verbos afins – “manifestar” (ephanerothe – Cl 1.26); “dar a conhecer” (gnorísai – 1.27) – e a do “anúncio ou proclamação”, delimitada pelos verbos “anunciar” (katangelo – 1.28 [4.3]), e “falar, proclamar” (laleo – 4.3, 4).
Isto posto, o decreto divino foi auto-revelado na pessoa de Cristo, anunciado aos homens, e registrado nas Escrituras, ao cumprir-se o tempo determinado, isto é, “a plenitude dos tempos”.
Proorizo
O semantema[15] do vocábulo proorizo (pro), significa “prévio”; o verbo proorao quer dizer “ver previamente” (At 21.29), “prever” (At 2.31;Gl 3.8), “ver adiante de si; ter à frente dos olhos” (At 2.25). Proorizo traduz-se literalmente por “decidir previamente”, ou ainda, “predestinar” (At 4.28; Rm 8.29s; 1Co 2.7; Ef 1.5, 11).[16]
Fabris traduz a expressão de Ef 1.5 por “Ele tinha estabelecido tornar-nos seus filhos”.[17] O vocábulo indica uma atividade ou um plano que foi feito antes de sua execução. Deus, por um ato livre de sua incomensurável bondade, determinou previamente que todos os que foram eleitos em Cristo participassem da co-filiação com o Filho (Ef 1.5).[18] Essa participação depende da posição do indivíduo em Cristo, e não independente dEle, pois a preposição genitiva diá, isto é, “por meio de” subordina o acusativo “adoção” ao genitivo Jesus Cristo.
Portanto, em Cristo, fomos:
a) Escolhidos ou eleitos, “antes da fundação do mundo” – que equivale a dizer que a eleição se alicerça sobre a vontade divina, ou seja, é estabelecida segundo o projeto divino e não sobre o mérito humano, pois a escolha foi feita antes do tempo, na eternidade, a fim de sermos “santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1.4);
b) Predestinados para sermos filhos de adoção (adoção, filiação, herdeiro) – Deus estabeleceu previamente que todos os eleitos em Cristo seriam também filhos, gozando da mesma relação filial que possui o Primogênito, “modelo e fonte da filiação de todos os demais filhos” (Ef 1.5). Esta “predestinação filial” não se baseia em qualquer ato e mérito humano, ao contrário, “segundo o beneplácito de sua [Deus] vontade”. Dois termos sinonímicos são combinados a fim de reforçar a posição de que a “predestinação filial” baseia-se unicamente num ato soberano de Deus: beneplácito (eudokian) pode ser traduzido por “boa vontade” (Fp 1.15; 2.13) ou “favor” (Mt 11.26; Lc 10.21; Ef 1.5), ethelêmatos, que significa “vontade” (Mt 6.10; Ef 1.9) ou “desejo” (1Co 7.37). O vocábulo boule é termo geral para designar os decretos de Deus, indicando o fato de que baseiam-se no propósito e desígnio do próprio Deus, isto é, ato deliberativo (At 2.23; 4.28). O termo thelema, entretanto, aplicado aos decretos de Deus, dá ênfase ao elemento volitivo em vez do deliberativo. O vocábulo eudokia, por outro lado, acentua, segundo Berkhof, “mais particularmente a liberdade do propósito de Deus”.[19] Por conseguinte, a predestinação consiste no estabelecimento do propósito do próprio Deus. Origina-se do amor divino, sendo mediada pelo Senhor Jesus, e sua aplicação recai sobre aqueles que estão em Cristo. Somos, então, predestinados gratuitamente para o Senhor através de Cristo, segundo a vontade do próprio Deus e louvor da sua glória.
c) Redimidos e remidos dos nossos pecados. A terceira bênção concedida pela iniciativa de Deus em nos eleger em Cristo é a redenção através do sangue de Cristo.
Natureza e Alcance dos Decretos Divinos
Os atributos de Deus classificam-se em transcendentes e imanentes. Os transcendentes pertencem a Deus como Espírito Infinito e Eterno, enquanto os imanentes, chamados também de morais, revelam-se no mundo moral e existencial. Enquanto os transcendentes caracterizam-se, em essência, naquilo que Deus é internamente e, por isso, incomunicáveis – apesar da obra da criação vir à existência através da ação de alguns destes – os imanentes manifestam-se externamente no trato com as obras da criação, sobretudo, o homem. No que diz respeito à obra geral da criação, os decretos divinos estão relacionados com essa segunda ordem de atributos.
A Natureza dos Decretos Divinos
Antes de verificarmos o alcance dos decretos divinos é necessário compreendermos a estreita relação entre os decretos e a natureza de Deus. Os decretos são:
Imutáveis, pois baseiam-se na onisciência, presciência, sabedoria e imutabilidade divina: “que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as cousas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Is 46.10; 14.26-27; Sl 33.11). O Senhor não muda o seu plano, pois é fiel e verdadeiro. De acordo com Agostinho:
“Deus não deseja uma coisa agora e outra daqui a pouco; mas de uma vez só, e imediatamente, e sempre, Ele deseja todas as coisas que Ele deseja; não repetidas vezes, agora isto, depois aquilo; nem deseja depois o que antes não queria; nem não deseja o que antes desejava; porque tal tipo de vontade é mutável; e nenhuma coisa mutável é eterna”.[20]
Exequíveis, pois tudo o que Deus, no seu eterno conselho decretou, é factível: “Eu o disse, eu também o cumprirei; tomei este propósito, também o executarei.” (Is 46.11b; 14.26-27).
Inquestionáveis, “Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes.” (Dn 4.35).
Absolutos, o decreto não depende, em nenhuma de suas particularidades, de qualquer coisa que lhe seja externa, como, por exemplo, das ações livres das criaturas morais e racionais, da desobediência ou fé previstas. Deus não só determinou o que vai acontecer, mas também em que condições será realizado (At 2.23; Ef 2.8; 1 Pe 1. 2).[21]
Fundamentados na sabedoria divina, “...segundo o propósito daquele que faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11; cf 3.10, 11). Embora o estudo dos decretos divinos leve-nos a muitos labirintos, é certo que Deus elaborou Seu plano com sabedoria. O poeta entoa no Salmo 104.24: “Que variedade, Senhor, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas”.[22]
Eternos, isto é, Deus criou o seu decreto na eternidade, embora a sua execução seja no tempo. Sendo o decreto eterno, todas as suas partes são, na mente de Deus, uma única intuição, embora na sua realização haja sucessão. É assim que o decreto aparece sempre no singular, uma vez que Deus tem apenas um único plano todo inclusivo. O decreto é antes do princípio do tempo, mas sua realização acontece no curso da historicidade humana. É nessa projeção que Pedro vê a efetuação do plano salvífico em Cristo: “Conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (1Pd 1.20). No entanto, o decreto não é eterno no sentido em que Deus é eterno, pois resulta da livre e soberana vontade de Deus. Tudo o que transpirou no tempo foi decretado desde a eternidade por Deus. Alguns eventos decretados ocorrem mediante a agência divina, tais como a eleição, a criação, a regeneração e a encarnação do Verbo. Outros são realizados na história mediante a atuação direta do homem, como por exemplo, na crucificação de Jesus Cristo.
Livres, as Escrituras asseveram: “Quem guiou o Espírito do Senhor? Ou, como o seu conselheiro, o ensinou? Com quem tomou conselho, para que lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho do entendimento?” (Is 40.13, 14). Suas determinações não foram influenciadas por nenhum outro ser.
Permissivos no campo moral e espiritual. Podemos afirmar que o decreto divino – considerando aquilo que é bom em oposição àquilo que é mal – pode ser dividido em dois aspectos: por designação e permissão divina. É a segunda categoria que trata do chamado decreto permissivo. O decreto de Deus com relação ao pecado é chamado de permissivo, porque não podemos admitir:
Que Deus tenha desejado o mal para suas criaturas. O ato de Deus saber que o homem pecaria não o faz responsável pelo pecado oumal moral. Se Deus não é o autor do pecado, então de onde procede o mal? Na verdade, o ato de você saber que uma pessoa vai errar não lhe faz responsável pelo erro. Suponhamos que você observa um indivíduo que constantemente atravessa uma rodovia movimentada sem respeitar a sinalização de trânsito. Você sabe que isso é errado, mas, se num desses dias, ele atravessar e sofrer um acidente, você se sentiria culpado por isso? Ou você dirá: “eu sabia que isto, um dia ou outro, iria acontecer”. O ato de Deus saber que o homem iria pecar não o faz responsável pelo pecado, visto que o pecado é anterior à criatura humana, mas não à criação. Não é parte da criação perfeita de Deus, mas uma realidade introduzida na criação pela própria criatura. É a rebelião voluntária da criatura contra a vontade revelada de Deus (Tg 1.13, 14). Assim mesmo, como poderia ser Deus o autor do pecado e daí condenar o homem a um inferno sem fim por fazer aquilo que Ele o havia induzido? A filosofia de que Deus é o autor do pecado porque sabia que o homem haveria de pecar é antibíblica e repugna a perfeição dos atributos divinos. Mas como afirma Thiessen:
“Baseado em Seu sábio e santo conselho, Ele decretou permitir que o pecado viesse. Isto Ele fez à luz do que sabia que a natureza do pecado viria a ser; do que sabia que o pecado faria à criatura; e do que sabia que teria que fazer para salvar quem quer que fosse”.[23]
Se é correto o decreto permissivo acerca do pecado, também o é da derrota do pecado. Ele decretou permiti-lo, mas também derrotá-lo pelo bem (Gn 50.20; Sl 33.10, 11; Sl 76.10; Dn 3.19-30; Fp 1.19, 20). Em cada um destes textos, o pecado é derrotado pelo bem. Conforme Berkhof:
“O decreto de Deus com referência ao pecado é comumente chamado decreto permissivo. Torna o ato pecaminoso futuro absolutamente certo, mas não significa que Deus, por Seu próprio ato, o fará acontecer. Deus decretou não impedir o ato pecaminoso da auto-determinação da criatura, mas regular e controlar os seus resultados (Sl 78.29; 105.15; At 14.16; 17.30)”.[24]
Para abordarmos o tema sobre a origem do pecado e o problema do mal é necessário percorremos os corredores lexicográficos das Escrituras.
Entre os vários vocábulos hebraicos que correspondem ao termo mal em português encontramos:
a) ‘Āsôn, literalmente “dano”, “mal”, “prejuízo”, “ferimento”. O termo é traduzido por “desastre” (Gn 42.2, 8) e “dano” (Êx 21.22, 23), e refere-se não ao dano físico-congênito, mas ao provocado ou procedente das catástrofes naturais.
b) Chāmās, literalmente “violência”, “mal”, “injustiça”. Embora o vocábulo seja usado cerca de 67 vezes, o contexto sempre refere-se a violência. Esta palavra tem sido assinalada com o sentido de “violência pecaminosa”. Chāmās não se refere à violência das catástrofes naturais, muito menos às ocasionadas por desastres, mas à extrema impiedade. Essa forma de violência foi responsável pela destruição do povo pré-diluviano (Gn 6.11, 13).[25] E sem dúvida prenuncia a destruição da geração presente.
Nossa geração no mesmo instante em que está febril se decompõe moral, social e espiritualmente na violência extrema e impiedosa. Por todos os lados ouve-se, através da mídia, a respeito da violência praticada na sociedade. Lembro-me que, ao evangelizar em uma comunidade (favela) no Rio de Janeiro, entreguei um folheto para um jovem que estava bebendo cerveja com os companheiros em um botequim. Enquanto o evangelizava, fui interrompido e o evangelizando disse-me: “Você salvou uma vida, e o preço que eu cobrei para tirá-la foi essa cerveja que estou bebendo”! Esses sintomas são o megafone divino que anuncia a aproximação da parousia.
A expressão cunhada pela filósofa política Hannah Arendt, “a banalidade do mal”, mais uma vez reveste-se de contemporaneidade! Após discutir a respeito da complexidade da natureza humana, a mais importante aluna de Heidegger, abismada com as violentas mortes de seus compatriotas israelitas na Segunda Guerra, alerta para a necessidade de que cada homem evite e esteja atento à “banalidade do mal”. Pessoas normais, assevera Arendt, à semelhança de Adolf Eichmann, são capazes de agirem com extrema crueldade!
c) Ra’. Segundo William White, a raiz deste termo tem conotação tanto passiva quanto ativa: “infortúnio”, “calamidade”, de um lado, e “perversidade” do outro. Pode ocorrer em contextos profanos, “ruim”, “repulsivo”, e em contextos morais, “mal”, “impiedade”.[26] O termo, em seus diversos usos, designa as atividades contrárias à vontade de Deus. O Senhor rejeita o mal em qualquer sentido, seja ele físico, filosófico, moral ou metafísico. Nesse aspecto a fórmula técnica “fez o que é mal aos olhos do Senhor” (literalmente, “fazer mal aos olhos de Iavé”) está basicamente associada às deficiências morais dos indivíduos: “Os olhos do Senhor estão em todo lugar contemplando os maus e os bons” (Pv 15.3). Embora o mal moral seja inato ao indivíduo, ele não é a única opção. O bem contrasta com o mal, e mesmo que a natureza humana vil procure sempre aquilo que é mal “aos olhos do Senhor”, o bem deve ser o ideal pelo qual o homem aspira. Deus exortou ao povo de Israel a se desviar do mal; não somente isto, mas uma vez “entrado” nele, ordena ao povo que “saia” do turbilhão de maldade e regresse ao supremo bem: “Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois que haveis de morrer, ó casa de Israel?” (Ez 33.11, cf. Dt 13.12; 2Rs 17.13; 2Cr 7.14; Zc 1.4).
De onde procede o pecado? Qual a sua origem?
Ao tratarmos o tema “A Origem do Pecado” se faz necessário considerar algumas proposições pertinentes ao tema ao mesmo tempo em que somos conduzidos por essas considerações dogmáticas em nossas perquirições a respeito desse tema controverso.
1. Deus não é o autor do pecado
Ao considerar o surgimento do pecado no cenário das criaturas espirituais e humanas perguntamos “Como Deus pôde permitir o pecado?” Devemos considerar essa pergunta e outras correlatas com duas respostas básicas: a primeira que trata da natureza de Deus e a segunda com base nos decretos ou planos divinos.
1.1. A Natureza de Deus
A primeira resposta a respeito da origem do pecado afirma que Deus não é o responsável ou autor do mal. Esta proposição está de conformidade com as santas e verossímeis doutrinas das Escrituras. A Bíblia ensina que Deus é:
Santo: “Ser-me-eis santos, porque eu, o SENHOR, sou SANTO e separei-vos dos povos, para serdes meus” (Lv 20.26); “Fala a toda a congregação dos filhos de Israel e dize-lhes: Santos sereis, porque eu, o SENHOR, vosso Deus, sou SANTO” (Lv 19.2 cf. 1Pd 1.16).
Justo: “Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é JUSTO e reto” (Dt 32.4); “Porque o SENHOR É JUSTO, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face” (Sl 11.7; 1Jo 1.5; Tg 1.17).
Deus a ninguém tenta: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1.13).
Não se agrada do mal: “Pois tu não és Deus que se agrade com a iniquidade, e contigo não subsiste o mal. Os arrogantes não permanecerão à tua vista; aborreces a todos os que praticam a iniquidade. Tu destrois os que proferem mentira; o SENHOR abomina ao sanguinário e ao fraudulento”. (Sl 5.4-6; cf. 7.11; Rm 1.18).
O pecado tem sua origem no mundo angélico
O pecado já existia antes mesmo de se tornar uma realidade na experiência humana. O mal moral já havia afetado parte da hoste angélica. A Bíblia não diz quando, mas afirma que ocorreu no princípio: “...porque o diabo vem pecando desde o princípio...” (1Jo 3.8). A expressão ap’arkhês ho diábolos hamartánei, traduzido por “o Diabo vem pecando desde o princípio” (NVI), “o diabo é pecador desde o princípio” (TEB) ou “o diabo vive pecando desde o princípio” (ARA), denota que o pecado tem sua origem no plano metafísico.
O termo “princípio” (arkhês) não deve ser entendido como o “princípio da criação” ou a partir da queda do homem; trata-se da antiguidade do pecado, ou a partir do seu surgimento no mundo espiritual. Deus criou os anjos como seres pessoais e livres. Foram criados justos e santos até o dia em que se achou iniquidade neles: “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniquidade em ti” (Ez 28.15).
O tempo do termo grego hamartánei (presente do indicativo ativo) indica ação contínua, habitual ou costumeira, como se fizesse parte da natureza do ser. Logo, o diabo não só pecou (passado), ele peca (presente) e continuará a pecar (futuro). É provável que o apóstolo amado, João, esteja fazendo eco às palavras de Jesus registrada pelo próprio apóstolo em Jo 8.44: “...diabo... Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade... porque é mentiroso e pai da mentira”. Este, querubim, anteriormente justo e bom, degenerou-se tornando-se o pai da maldade e do caos. João em sua primeira epístola (2.13) refere-se ao diabo pela epítome “Maligno” (Cf. 1Jo 3.12). Em 1Jo 5. 18 o presbítero o chama de “ho poneros”, que é determinado pelo artigo masculino, não identificando apenas um ser qualquer que pratica a maldade, mas um ser pessoal já conhecido pela comunidade, sendo conhecido como “o Maligno” (Cf. Mt 13.19; Jo 17.15; Ef 6.16).
À luz destes textos compreendemos que o mal deve ser entendido não apenas no sentido natural, físico e moral, mas também como uma entidade pessoal. Esse título “Maligno” não se refere apenas ao caráter de Satanás, mas também à sua própria natureza maligna. O que provém dele não presta. O termo correspondente no hebraico (ra‘) quer dizer “maldade”, “mal”. O termo é usado em Gênesis 37.20 para designar um animal feroz ou perigoso. João usa o equivalente grego “poneros” para afirmar que Satanás, a besta fera (Ap 13.2-4), não nos toca (1Jo 5.18).
Entre os seus atos malignos encontramos: lança dardos inflamados contra os fieis (Ef 6.16); enche os homens de sua maldade (Rm 1.29); introduz seus filhos entre os fieis (Mt 13.18); e envia seus mensageiros para atormentar os homens (Lc 8.29; 9.39, 42).
O pecado neste ser foi o orgulho: “subirei ao Céu, acima das estrelas de Deus” e “serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14.13, 14). A raiz “lh” (“subir ou ascender” – adjetivo superlativo derivado do verbo subir) usada na declaração altiva de Satanás é a mesma para referir-se a‘Elyôn (Altíssimo). Cada uma das afirmações “subirei, assentar-me-ei, subirei acima” é um trocadilho com o nome do Altíssimo. A criatura afirmava arrogantemente o desejo de ser semelhante ao seu Criador, através de um jogo de palavras (Is 14. 12-15).
O Problema do Mal
O problema atual no estudo sobre o pecado prende-se em seu aspecto mais radical – a sua origem. Esboçar uma distinção entre algumas formas de mal pode ser útil ao estudo em apreço. Há diferenças essenciais entre o mal natural e físico, o mal moral, e o malcomo entidade pessoal. Este último já analisamos sinteticamente no tópico anterior.
O Mal Natural e o Mal Físico
O mal natural são os males ocorridos por causa da desordem física e decadência do Universo que assolam a humanidade através das calamidades naturais (terremotos, furacões, vulcões), das pandemias (Aids, Ebola) que afetam a existência humana, das enfermidades tanto curáveis quanto incuráveis, dos desastres acidentais, e por fim, o mais doloroso de todos eles – a morte física.[27]
O mal natural está ligado à maldição que Deus pronunciou contra a terra (Gn 3.17, 18), como consequência da desobediência humana. Embora a humanidade racionalista e afastada de Deus encontre explicações científicas para os diversos tipos de catástrofes naturais, a Bíblia, contudo, declara que o surgimento desses males está ligado diretamente ao pecado original. O Universo deixa a sua ordem original em direção ao caos.
Esta desordem é usada por Deus para afetar o pecado dos homens. É assim que diversas cidades bíblicas foram afetadas por elementos físicos como forma de punição divina, como por exemplo, Sodoma e Gomorra (fogo e enxofre), o mundo pré-diluviano (dilúvio), as dez pragas do Egito, e a morte da família de Coré.[28]
Essas ações demonstram que Deus possui total controle sobre a desordem física do Universo ou mal natural, e desse modo devemos entender o texto de Isaías 45.7: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas”. O texto cuja estrutura é um paralelismo que emprega a antítese[29] entre os vocábulos principais de cada linha e o sinonismo entre as duas linhas, faz contraste entre luz e trevas, paz e mal, e dentro da direção que o texto conduz, “mal” deve ser entendido como o mal provocado pela guerra, catástrofes, etc., e não aquele que induz o homem ao pecado.[30]
É assim que Jó responde a sua mulher: “Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2.9, 10). Jó atribui a Deus todos os seus infortúnios, como sendo ele aquele que permitiu cada uma das suas agruras, embora saibamos que Deus permitiu, mas não o causou.
Aliado ao mal natural está o mal físico. Este é involuntário, resultante da finitude das criaturas. É uma penalidade que o homem sofre como consequência do pecado original. Este mal ocorre involuntariamente como um infortúnio à criatura. Pode estar relacionado desde a um mal ou doença congênita até aquele adquirido pelos acidentes ou doenças transmissíveis. Este mal também tem estreita relação com o pecado original, sendo consequência deste embora seja distinto. Deus criou o homem em estado de integridade, não apenas espiritual e moral, mas também fisicamente. A morte física é, entre outros males, uma das punições mais severas resultantes do pecado original. É ummal que assola o homem e o mesmo que foi dito a respeito das doenças e infortúnios cabe igualmente nessa proposição. Deste modo entendemos, pois, que toda criação está sujeita à vaidade e à escravidão da corrupção, até que se realize a redenção completa dos filhos de Deus (Rm 8.20-23).
O Mal Moral
O pecado ou mal moral, embora fosse anterior à criação do homem, entretanto, teve seu início na história da humanidade através da tentação. A Bíblia intitula o mal moral de pecado, fracasso, erro, iniquidade, injustiça, impiedade, transgressão e contravenção. Esse é o problema que assola o mundo e dele resultam as outras tragédias descritas no mal natural e físico. Podemos observar essas formas de maloperando na experiência humana de modo insofismável.
O sofrimento de Jó e o mal. A Escritura também descreve a ocorrência deles simultaneamente. No prefácio do livro de Jó encontramos o mal como uma entidade pessoal (Satanás 1.7-12), o mal moral (a violência cometida pelos sabeus, 1.13-15, 17 (caldeus), omal natural (v.16, 18-19, fogo do céu; grande vento), o mal físico (tumores malignos).
O contexto do livro deixa muito claro que, embora o homem possa ser tentado pelo mal pessoal, assolado pelo mal natural e físico, pode ele mesmo manter-se íntegro e evitar o mal moral: “Então, sua mulher lhe disse: Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoas a Deus e morre. Mas ele lhe respondeu: Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2.9, 10).
O estudo do mal moral nos dirige à origem do pecado na história da humanidade. A Escritura ensina que o mal moral teve início com a transgressão de Adão, e que esse ato foi inteiramente voluntário, como escolha pessoal de Adão e sua esposa Eva. Pelo primeiro pecado o homem tornou-se “escravo do pecado”. Adão pecou não somente como pai da raça humana, mas também como cabeça representativa de todos os seus descendentes. Logo, todos são pecadores e destituídos estão da glória e graça de Deus. É necessário que o homem aceite a Jesus como seu único suficiente Salvador e Senhor pessoal. Cristo é a solução para o mal moral, físico, natural e espiritual.
Referência Bibliográfica
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[1] Fred H. KLOOSTER, Decretos de Deus, in Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, ed. W. A. Elwell, p. 400.
[5] Fred H. KLOOSTER, Decretos de Deus, Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, ed. W. A. Elwell, p. 400.
[7] Russell E. JOINER, O Deus Único e Verdadeiro, in Teologia Sistemática, Stanley M. Horton (ed.), p. 153.
[25] Cf. HARRIS, R. Laird (et all). Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 485.
[26] Cf. WHITE, William. Ra’, mal, aflição; mau, ruim. In HARRIS, R. Laird (et.all). Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1441.
[27] BENTHO, Esdras Costa. Decreto divino: para os que não creem nenhuma explicação é possível, para os que creem nenhuma explicação é preciso. Joinville: Verbum Editora, 2000, p.21
[28] Este evento em especial narrado em Números 16.30-34 é significativo. Gordon J. Wenhan, declara que “é possível que as tendas de Coré, Datã e Abirão estavam armadas sobre um Kewir, ou seja, uma placa de lama endurecida na superfície, mas pantanosa por baixo. Se a costa de um Kewir se rompe, as pessoas que estiverem sobre ele são tragadas da forma como descreve Números 16.30-34. Kewis como este se encontram no Arabá, que se estende na direção sul do Mar Morto até o Mar Vermelho”. WENHAN, Gordon J. Números: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão e Vida Nova, 1985, p. 144-5.
[29] É aquele em que o segundo elemento faz agudo contraste com o primeiro. Embora encontremos relação contrastante dentro de cada linha do verso, permanece a sinonímia entre as duas primeiras linhas do discurso.
[30] Uma análise minuciosa do capítulo revelará tratar-se da libertação do povo do cativeiro através da instrumentalidade de Ciro, assim o Senhor foi tanto o responsável pelo mal do cativeiro judaico quanto pela sua libertação (o bem).
Deus Criou o Mal?
Norman L. Geisler
Gênese, Ocorrência e Finalidade do Problema
“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” (Is 45.7).
Sempre que se debate o assunto do mal, a tendência é apontar um responsável. Aliás, este é um comportamento intrínseco à natureza humana: colocar a culpa em alguém para se inocentar. No versículo que introduz esta matéria vemos claramente que o Senhor reclama ser o criador de todas as coisas, inclusive do mal. Destarte, o próprio texto bíblico já se incumbiu de responder a nossa pergunta. Todavia, a questão é mais complexa do que isso e não pode ser reduzida à objetividade desta resposta. Há considerações que não podem ser desconsideradas nesta resposta. O que podemos entender da afirmação de que Deus criou o mal? O que é o mal? Em quais sentidos Deus seria o responsável pelo mal? Por que Deus não aniquila o mal? Por que Deus criou este mundo?
Neste artigo, propomos uma rápida reflexão sobre esta “culpa” que tanto massageia o ego dos céticos, e faremos isto retomando alguns aspectos da matéria “O problema do mal”, escrita por Greg Bahsen e publicada nesta edição de Defesa da Fé como texto de capa.
A gênese do mal
Deus é bom, e criou criaturas boas com uma qualidade denominada livre-arbítrio. Infelizmente, as criaturas de Deus usaram este poder, que é bom, para trazer o mal ao Universo. E como fizeram isso? Ao se rebelarem contra o Criador. Então, o mal surgiu do bem, não direta, mas indiretamente, pelo mau uso do poder bom chamado liberdade.
Desta forma, Deus é responsável por tornar o mal possível, mas as criaturas livres são responsáveis por torná-lo real.
Diante disso, conclui-se que, de alguma forma, o mal se relaciona a Deus, porém, se o crente prega que o mal não é algo separado de Deus e, ao mesmo tempo, não pode proceder de seu interior, então o que é o mal? O problema da criação não pode ser simplificado nas seguintes premissas:
1. Deus é o Autor de tudo o que existe
2. O mal é algo que existe
3. Logo, Deus é o Autor do mal
Concordar que Deus não criou todas as coisas é negar sua soberania. Todavia, admitir que Ele causou todas as coisas e que o mal faz parte dessas coisas é reconhecer que Deus causou o mal. Entretanto, os crentes respondem que o mal não é uma coisa ou substância, antes, é a falta ou a privação de algo bom que Deus fez. Assim, o mal é a corrupção das substâncias boas que Deus criou. É como a ferrugem em um carro ou a podridão em uma árvore. O mal não é algo em si só. Existe somente em companhia de outra coisa, mas nunca sozinho.
Dizer que o mal não é algo, mas uma falta nas coisas, não é o mesmo que afirmar que ele não é real. Temos de entender que privação não é o mesmo que simples ausência. A visão está ausente na pedra assim como no cego, mas a ausência de visão na pedra não é privação, pois a privação é a ausência de algo que deveria estar ali. Já que a pedra, por natureza, não deveria ver, ela não está privada de visão. Logo, o mal é a falta real nas coisas boas, como o cego pode testemunhar. O mal não é uma entidade real, mas a corrupção real em uma entidade real.
Esta corrupção que atinge o homem para que possa transformar a possibilidade do mal em realidade se chama ação. Mas é preciso tomar cuidado para não levar a depravação humana tão longe a ponto de destruir a habilidade de pecar. Um ser totalmente corrompido nem existiria. Não pode haver o mal supremo, pois, apesar de o mal reduzir o bem, jamais poderá destrui-lo completamente, porque se o bem fosse totalmente destruído o próprio mal desapareceria, já que seu sujeito, ou seja, o bem, não existiria mais.
A ocorrência do mal
Por que Deus, na sua onipotência, não destrói o mal?
Mesmo um ser onipotente como Deus não é capaz de fazer qualquer coisa para mudar esta tendência humana. Explicando. Deus jamais forçaria as pessoas a escolher livremente o bem, porque a liberdade forçada seria uma contradição à sua Palavra. Logo, Deus não pode destruir literalmente todo o mal sem aniquilar o livre-arbítrio. A única maneira de destruir o mal seria destruindo o bem do livre-arbítrio. Logo, se Deus destruísse todo o mal, teria de destruir também todo o bem do livre-arbítrio. Mas, apesar de Deus não aniquilar o mal, Ele pode (e irá!) derrotá-lo e, ao mesmo tempo, preservar o livre-arbítrio. Assim, ainda que o mal não possa ser destruído sem destruir o livre arbítrio, ele pode ser derrotado.
A finalidade do mal
Deus tem uma determinação para tudo e, por conta disso, nos permite conhecer um bom propósito para a maior parte do mal. Por exemplo, a habilidade que temos de sentir dor possui um bom propósito. C. S. Lewis declarou que “a dor é o megafone de Deus para advertir o mundo moralmente surdo”.
Além disso, temos de ponderar que parte do mal é produto do bem e que Deus é capaz de extrair coisas boas do mal. Também, temos de entender que nem todo evento específico no mundo precisa ter um bom propósito. Apenas o propósito geral precisa ser bom. Certamente, Deus tinha um bom propósito para criar a água (sustentar a vida), mas afogamentos são um dos subprodutos malignos. Assim, nem todo afogamento específico precisa ter um bom propósito, apesar de a criação da água ter tido. A bem da verdade, muitas coisas boas seriam perdidas se Deus não tivesse permitido que o mal existisse.
Isso não significa que este mundo seja o melhor mundo possível, mas que Deus o criou como a melhor maneira de atingir seu objetivo supremo do bem maior.
O mal como um problema que pode ser evitado
Se Deus, por sua onisciência, sabia que o mal ocorreria no mundo, então, por que criou este mundo? O Senhor poderia não ter criado nada; ou ter criado um mundo onde o pecado não pudesse ocorrer. Ou, ainda, criar um mundo onde o pecado ocorresse, mas que todos fossem salvos no final. Logo, segundo os descrentes, Deus não fez o melhor.
Entretanto, é necessário ter em mente que Deus não precisa fazer o melhor, mas apenas fazer o que é bom. Mas será que outra alternativa seria realmente melhor que este mundo? Absolutamente.
A ausência de mundo não pode ser melhor que o mundo. “Nada” não pode ser melhor que “algo”.
Um mundo livre, onde ninguém peca, ou mesmo um mundo livre, onde todos pecam e depois são salvos é concebível, mas não é atingível. Enquanto todos forem realmente livres, sempre será possível que alguém se recuse a fazer o bem. Se Deus não permitisse o mal, então as virtudes mais elevadas não poderiam ser atingidas. Não há como experimentar a alegria do perdão sem permitir a queda no pecado.
O cristão sabe da realidade do mal e, dentro de sua limitação, se esmera por evitá-lo. Ninguém pode demonstrar um mundo alternativo melhor que o mundo proposto pelo cristianismo. Não podemos nos esquecer que Deus ainda não terminou a sua obra, e muitos menos que as Escrituras prometem que algo melhor será alcançado. A fé do crente é que este mundo é o melhor caminho para o melhor mundo atingível.
Fonte: Baker Encyclopedia of Christian Apologetics: Baker, 1999.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Os irmãos Karamazovi. Coleção Os Imortais da Literatura Universal.Vol. 1 Abril Cultural: Rio de Janeiro,1970, liv.V,cap.IV,p.181-4.
HUME, David.Diálogos sobre a religião natural. [Tradução José Oscar de Almeida Marques] São Paulo: Martins Fontes,1992,p.136.
Buffalo, New York: Prometheus Books,1979.
Tradução: Elvis Brassaroto
Em seu livro Almighty Over All (Baker, 1999), R. C. Sproul Jr. faz algumas afirmações controversas que parecem ser sub-bíblicas. Tomei conhecimento disso ouvindo uma apresentação em uma conferência em Nova Orleans em abril. R. C. Sproul Jr. estava sendo citado e eu fiquei chocado com o que ouvi. Embora a apresentação vinha de uma fonte confiável (o Dr. Ken Keathley do Seminário do Sudeste em Wake Forest), eu quis ser como os bereanos de Atos 17 e verificar a obra de Sproul Jr. por mim mesmo – especialmente se eu quisesse oferecer algumas reflexões sobre este assunto.
Como supunha, com mais investigação, a afirmação de Keathley estava correta: Sproul Jr. simplesmente tem levado o Calvinismo longe demais. Seu pai R. C. Sproul Sr., também calvinista, tem sido bem mais hesitante e despretensioso sobre a questão da origem do pecado; ele basicamente conclui que esta é uma questão misteriosa, parando um pouco antes de atribuir a origem do mal a Deus:
Nisto está o problema. Antes que a pessoa possa cometer um ato de pecado, ela precisa primeiro ter um desejo de realizar aquele ato. A Bíblia nos conta que as más ações provêm de maus desejos. Mas a presença de um mau desejo já é pecado. Pecamos porque somos pecadores. Nascemos com uma natureza pecaminosa. Somos criaturas decaídas. Mas Adão e Eva não foram criados decaídos. Eles não tinham natureza pecaminosa. Eram boas criaturas com uma vontade livre. Ainda assim, escolheram pecar. Por quê? Não sei. Nem encontrei ninguém ainda que saiba (Eleitos de Deus [2002], p. 21).
Sproul Sr. admite um entendimento libertário do livre-arbítrio no Éden, o que configura um afastamento do Calvinismo propriamente dito. Mas deixemos isso para lá.
Sproul Jr., entretanto, quer ir ao fundo da questão e dizer abertamente o que ele presume ser a fonte do mal: Deus! Ficou chocado? Espero evidentemente que sim. Sproul Jr. lista um círculo de possíveis “suspeitos” em seu terceiro capítulo, intitulado “Quem fez isso?”. Ele traça e discute as únicas cinco possíveis alternativas: Adão, Eva, Satanás, o ambiente e Deus. Deus criou um bom ambiente (“ele era muito bom”), e Adão, Eva e Satanás foram originalmente criados bons; então seu desejo ou inclinação mais forte (que dita como escolhemos, alega Sproul Jr.) deve também ter sido originalmente bom. Isto, então, significa que nenhum dos primeiros quatro candidatos pode ser a origem do pecado. O “culpado” (o termo que Sproul Jr. usa) é o próprio Deus, que “introduziu o mal neste mundo” (p. 51). De fato, Deus agiu de acordo com sua inclinação mais forte; ele agiu motivado pelo que ele mais queria que acontecesse – como ele sempre faz (p. 54).
A razão dele ter desejado que Adão e Eva caíssem em pecado era por causa do atributo eterno da ira de Deus – e “Deus sente tanto prazer com sua ira como com todos os seus atributos” (p. 52). Assim, à luz deste eterno atributo da ira, Deus deve criar objetos de ira: “O que eu farei será criar algo digno de minha ira, algo sobre o qual eu possa exibir a glória da minha ira” (p. 52-53). Não criando seres humanos (e vamos incluir os seres angélicos caídos aqui também), ele não teria tido a oportunidade de demonstrar sua glória desta forma. Então, Sproul Jr. afirma algo bastante surpreendente: “Era o desejo [de Deus] tornar sua ira conhecida. Ele precisava, então, algo sobre o qual estar irado. Ele precisava ter criaturas pecadoras” (p. 57).
Antecipando uma réplica, Sproul Jr. pergunta: “Não é impossível para Deus fazer o mal?” Ele reconhece que Deus não pode pecar. Isto não é exatamente um consolo, já que Sproul Jr. continua e diz: “Eu não estou acusando Deus de pecar; estou sugerindo que ele criou o pecado” (p. 54). Sproul Jr. não acredita que passou dos limites fazendo esta afirmação. Aludindo à definição de pecado na Confissão de Westminster como “qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou qualquer transgressão desta lei,” ele diz que isto não exclui a possibilidade de Deus criar o mal. Parece que Sproul Jr. não está somente usando um argumento a partir do silêncio da Confissão, mas está ignorando uma importante ênfase na Escritura – que Deus não pode ser o autor do mal. Vamos entrar em mais detalhes sobre algumas áreas problemáticas na teologia de Sproul Jr.
1. “Deus pode fazer o que ele quiser.” Sproul Jr. apela a Romanos 9 para justificar seu ponto (p. 53, 56). Se Deus é acusado de fazer omal, Sproul Jr. diz de forma rude o equivalente ao que Paulo está dizendo: “Cale a boca! Ele é Deus e faz o que ele quer” (p. 56). Sim, Deus pode fazer o que ele quiser, mas o que Deus faz (e o que ele quer) será bom e justo e irá refletir seu amor e sua santidade. Não podemos corretamente dizer, “Deus pode quebrar sua promessa ou mentir porque ‘ele é Deus e faz o que ele quer’.” Não, o que separa Deus de nós, seres humanos caídos, racionalistas, infieis é que ele apenas é verdadeiro (Rm 3.4). Somos informados que é “impossível que Deus minta” (Hb 6.18; cp. Tt 1.2).
Tiago 1 não apenas nos diz que Deus não pode fazer o mal; ele também nos diz que toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto; isto é, Deus não deveria ser acusado como sendo a fonte do mal. Deus é intrinsecamente bom e, sendo assim, não pode “criar o mal.” Isto faz lembrar o que Jesus diz sobre a natureza de Deus – em contraste com os seres humanos caídos, que ainda busca o bem de seus filhos: “Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?” (Mt 7.9-11). De fato, anteriormente, conta-se que Deus não ama simplesmente aqueles que o amam, mas ele ama os perversos e os injustos também, assim mostrando um amor perfeito (Mt 5.48).
2. O erro maniqueísta: Sproul Jr., parece, ultrapassou os limites da ortodoxia ao dizer que Deus é o autor ou criador do mal. Isto viola o que 1Tm 4.4 nos diz: “Pois tudo que Deus criou é bom.” Obviamente, Agostinho lutou contra a heresia maniqueísta, que considera o malcomo algo ao invés de ausência ou corrupção da bondade, mas Sproul Jr. parece estar escorregando para alguma versão do Maniqueísmo.
Uma nota marginal aqui: A Versão King James pode ser enganosa neste ponto. A tradução às vezes dá a impressão de que Deus é o criador ou a origem do bem e do mal: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas.” (Is 45.7); “Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande? Acaso, não procede do Altíssimo tanto o mal como o bem?” (Lm 3.37-38); “Tocar-se-á a trombeta na cidade, sem que o povo se estremeça? Sucederá algum mal à cidade, sem que o SENHOR o tenha feito?” (Am 3.6). Esta tradução é imprecisa. A palavra para “mal” (ra´ah) pode também ser traduzida “problema,” “desastre,” ou “calamidade.”
3. Um Deus com necessidade não é um Deus de verdade: É muito surpreendente ler um convicto calvinista que diz que Deus precisa de alguma coisa fora de si mesmo – neste caso, de pecadores sobre quem derramar a sua ira! As Escrituras estão repletas de lembretes da auto-suficiência de Deus e que ele não precisa de nada fora de si mesmo. Por exemplo, “Se eu tivesse fome, não to diria, pois o mundo é meu e quanto nele se contém” (Sl 50.12). Novamente, “Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.34-36).
O Cristianismo ortodoxo afirma que Deus não precisava criar. Ele poderia ter escolhido não criar. A doutrina da criação do nada afirma que Deus não necessita de, digamos, matéria pré-existente ou de seres humanos. O Deus trino está contente e satisfeito dentro de si mesmo. Sua criação dos seres humanos é resultado da escolha graciosa de Deus de estender aos outros a sua alegria, seu amor e sua comunidade. O ponto de vista de Sproul Jr. da necessidade de Deus de criar os seres humanos diminui ao invés de exaltar a Deus. De acordo com Sproul Jr., Deus não poderia deixar de criar os seres humanos sobre quem derramar sua ira. (Tenha em mente a insistência de Sproul Jr. que Deus sempre age conforme seu desejo mais forte.) Se a ira é um atributo que é um aspecto eterno e necessário a Deus, então isto significa que Deus necessariamente tinha que criar; ele não poderia deixar de criar. Tudo isto parece muito perturbador para a minha mente.
Numa tentativa de consistência filosófica, Sproul Jr., parece, levou seu determinismo causal a algumas conclusões teológicas problemáticas – uma direção que seu pai, aparentemente, temia ir
Tradução: Paulo Cesar Antunes
2. Deus Criou o Mal
“Se, de acordo com a Bíblia, Deus, que é onipotente e oni-benevolente, tem eternamente decretado tudo o que acontece, e se ele soberana e providencialmente controla todas as coisas em seu universo criado, como ele não é o autor do mal? Como o mal pode existir no mundo? Como justificamos as ações de Deus no meio do mal, sofrimento e dor? Essa é a questão da “teodicéia”. Ela tem a ver com a justificação da bondade e justiça de Deus à luz do mal no mundo”.
W. Gary Crampton, Th.D.
Deus e o Mal:
O Problema Resolvido, de Clark[3]
W. Gary Crampton, Th.D.
Em 1961, a primeira edição do livro Religion, Reason and Revelation,1 de Gordon Clark, foi publicado. Ele era naquela época, e ainda é, um clássico no campo da apologética cristã. Entre aqueles assuntos que Clark trata nesse tratado, estão: a unicidade do Cristianismo, o lugar da lógica na filosofia e na teologia, a definição de fé, a utilidade e importância da linguagem, a inerrância da Escritura, os padrões de ética e o problema do mal. Uma apologética bíblica deve ser capaz de “dar uma defesa a todo aquele que pedir uma explicação racional” com respeito a cada uma dessas questões (1 Pedro 3:15). E o Dr. Clark o faz de uma maneira admirável.
Dos assuntos mencionados acima, talvez nenhum seja tão difícil como o problema do mal. Thomas Warren, por exemplo, escreveu que “provavelmente seja o caso que nenhuma acusação tem sido feita com maior freqüência ou com força mais significativa contra o teísmo da tradição (bíblica) judaico-cristã” do que a complicação da existência do mal. Até mesmo os escritores bíblicos trataram do assunto Deus e o mal. O profeta Habacuque se queixou: “Tu [Deus] que és tão puro de olhos que não podes ver o mal, e que não podes contemplar a perversidade. Por que olhas pára os que procedem aleivosamente, e te calas enquanto o ímpio devora aquele que e mais justo do que ele?” (1:13). E Gideão ponderou: “Ai, senhor meu, se o Senhor é conosco, por que tudo isso [adversidade] nos sobreveio?” (Juízes 6:13).
Se, de acordo com a Bíblia, Deus, que é onipotente e oni-benevolente, tem eternamente decretado tudo o que acontece, e se ele soberana e providencialmente controla todas as coisas em seu universo criado, como ele não é o autor do mal? Como o mal pode existir no mundo? Como justificamos as ações de Deus no meio do mal, sofrimento e dor? Essa é a questão da “teodicéia”. Ela tem a ver com a justificação da bondade e justiça de Deus à luz do mal no mundo.
Em seu livro God and Evil: The Problem Solved,3 que era originalmente o capítulo cinco do Religion, Reason and Revelation, Gordon Clark realiza o que muitos teólogos e filósofos têm tentado e falhado em fazer, isto é, explica o problema do mal. Como Clark disse: “enquanto várias outras visões se desintegrem nesse ponto, o sistema conhecido como Calvinismo, e expresso na Confissão de Fé de Westminster, oferece uma resposta satisfatória e completamente lógica” (7). A resposta, como veremos, descansa em nosso ponto de partida epistemológico: a Palavra de Deus.
No decorrer dos séculos, tem havido inúmeras tentativas não-cristãs de tratar com o assunto da teodicéia (7-12). Alguns, tais como Mary Baker Eddy, têm simplesmente negado que o mal existe, isto é, ele é ilusório. Outros, tais como John Stuart e William Pepperell Montague, têm optado por um Deus finito, um que é limitado em poder. Por conseguinte, ele não pode ser culpado pela existência do mal no mundo.
Platão e Zoroastrianos, por um lado, apresentam uma forma de dualismo último. O bem e o mal co-existem independentemente, explicando assim a mistura de bem e mal no mundo. Aristóteles concebeu deus como a Máquina Motriz Imóvel, que não estava realmente preocupado com as coisas deste mundo. Esse sendo o caso, a relação do deus de Aristóteles para com o mal e os esforços morais dos homens é irrelevante.
Essas teorias, certamente, ficam longe de uma teodicéia bíblica. A Escritura claramente ensina que o pecado não é ilusório (Gênesis 3). Além disso, o Deus da Escritura não é uma deidade finita. Ele é o Criador e Sustentador ex nihilo do céu e da terra (Gênesis 1:1; Hebreus 1:1-3), que está muito preocupado com seu universo e com as questões morais dos homens (Êxodo 20). Demais, o Deus da Escritura não está em nenhuma competição (Jó 33:13), de forma que não há nenhuma forma de dualismo último.
O grande filósofo cristão Agostinho também ponderou sobre a questão da teodicéia. Ele ensinou que, visto que Deus criou todas as coisas como boas, então o mal não pode ter uma existência separada e independente. O mal é a ausência do bem, assim como a escuridão é a ausência da luz. O mal é parasita, no sentido de que ele não pode existir aparte do bem. O mal é o resultado da criatura se afastar dos mandamentos de Deus para buscar um bem menor: a vontade da criatura, do homem. É o homem, não Deus, quem é o autor do pecado. Isso, de qualquer forma, não é uma solução para o problema. Como Clark declara: “Causas deficientes, se é que existem tais coisas, não explicam o porquê um Deus bom não abole o pecado e garante que os homens sempre escolham o bem mais elevado” (9).
O Arminianismo, como um sistema cristão ostensivo, também falha em nos dar uma teodicéia bíblica (12-19). Os teólogos arminianos atribuem o problema do mal ao livre-arbítrio do homem. Em sua liberdade, Adão escolheu pecar, aparte da vontade de Deus. Adão tinha uma “liberdade de indiferença” em relação à vontade de Deus. Deus meramente permitiu que o homem pecasse.
A idéia de Deus meramente “permitir” o homem pecar, contudo, é totalmente anti-bíblica e não nos dá uma solução (17-19). Clark explica:
De certo modo a idéia de Deus permitindo o mal, sem decretá-lo, parece absolvê-lo da acusação de ser o autor do pecado, mas deve-se ser cuidadoso, tanto em relação à lógica do argumento, como em relação ao conteúdo das Escrituras. Deus ‘permitiu’ Satã afligir Jó; mas, uma vez que Satã não poderia ter agido sem a sua aprovação, a idéia de permissão dificilmente exonera Deus. Afinal, a santidade perfeita é mais compatível com a aprovação ou a permissão do mal satânico? Se Deus pudesse ter evitado, não apenas a provação de Jó, mas todos os outros pecados e tentações a que a humanidade está sujeita – se ele os previu e decidiu deixá-los ocorrer – seria ele menos repreensível do que se positivamente os decretasse? Se um homem pudesse salvar um bebê de uma casa em chamas, mas decidisse ‘permitir’ que o bebê morresse queimado, quem se atreveria a dizer que ele fora moralmente perfeito na sua decisão?
Tal visão de permissão e livre-arbítrio não pode co-existir com a onipotência de Deus. Nem a visão arminiana do livre-arbítrio é compatível com a onisciência de Deus, pois a onisciência torna o futuro certo (31,32). Se Deus prevê todas as coisas, então necessariamente elas ocorrerão; de outro modo, elas não poderiam ser “previstas”. Deus previu, e até mesmo pré-ordenou, a crucificação de seu Filho pelas mãos de pecadores. Todavia, de acordo com a Escritura, os ímpios que levaram a cabo o ato são responsáveis (Atos 2:22,23; 4:27-28). Poderiam eles ter agido diferentemente? Poderia Judas Iscariotes não ter traído Jesus Cristo? Perguntar essas questões é respondê-las; certamente não (41). O Deus da Bíblia, escreve Clark, “determina ou decreta toda ação” (20). Por conseguinte, a tentativa do Arminianismo de se refugiar no livre-arbítrio é tanto “fútil” como “falsa; pois a Bíblia consistentemente nega [a visão arminiana] o livre-abítrio” (19).
A teologia Reformada não repudia o fato de que Adão (e todos os homens após ele) tinha um “livre-arbítrio” no sentido de “livre agência moral” (13-16).5 Todos os homens têm liberdade de escolha no sentido do termo. Os homens necessariamente escolham fazer o que eles querem fazer; de fato, eles não podem agir de outra forma. O que a teologia Reformada nega é a “liberdade de indiferença”. Sua liberdade para escolha sempre é governada por fatores: suas próprias intenções, hábitos, e assim por diante. Certamente, todas as escolhas estão sujeitas aos decretos eternos de Deus.
Como mencionado, isso não é somente verdade com relação ao homem pós-queda. É verdade também em relação ao Adão anterior a Gênesis 3. A maior diferença é que o homem pós-queda, que ainda mantém sua livre agência moral, perdeu o que Adão possuía originalmente: a capacidade de escolher o que Deus requer. O homem caído, em seu estado de “depravação total”, sempre escolhe fazer o que ele deseja, mas sua natureza pecaminosa faz com que ele sempre escolha o mal (Romanos 3:9-18; 8:7,8; Efésios 4:17-19). Essa “capacidade” de escolher o bem só é restaurada através da regeneração.
Assim, o homem nunca se encontra indiferente na sua vontade de fazer alguma coisa. Deus determinou todas as coisas que venham a ocorrer. Contudo, a soberania de Deus não mina a responsabilidade do homem. Não há disjunção aqui. A Confissão de Fé de Westminster (3:1, 5:2, 4), corretamente declara que (26-28):
Desde toda a eternidade, Deus, pelo conselho sábio e santo de Sua própria vontade, livre e imutavelmente, ordenou tudo o que venha a ocorrer: ainda assim, nem Deus é o autor do pecado, nem a vontade das criaturas é violentada, nem a liberdade ou contingência das causas secundárias deixa de existir, sendo, ao invés, estabelecida. Apesar de que, pela presciência e pelo decreto de Deus – a primeira causa –, todas as coisas venham a ocorrer de modo imutável e infalível; ainda assim, pela mesma providência, Ele ordena que elas aconteçam de acordo com a natureza das causas secundárias, seja de modo obrigatório, ou livre, ou contingencial. O poder ilimitado, a sabedoria insondável e a bondade infinita de Deus, manifestam-se na Sua providência, que inclui até mesmo a primeira Queda e todos os outros pecados de anjos e homens, não como uma simples permissão, mas de modo tal que reúne a sabedoria e o poder limitante de Deus, que os ordena e governa para os Seus objetivos sagrados; e ainda assim, a pecaminosidade do ato procede apenas da criatura e não de Deus, que, sendo o mais santo e justo, nem é nem pode ser o autor ou aprovador do pecado.
Deus, diz a Confissão, é a causa soberana primeira de todas as coisas, muitas das quais ocorrem através das ações livres dos homens, que são causas secundárias. O fim decretado por Deus nunca deve ser separado dos meios que ele também decretou, como causas secundárias. Deus, escreve Clark, “não dispõe as coisas nem controla a história aparte das causas secundárias... Deus não decreta [o fim] aparte dos meios. Ele decreta que o fim será realizado por meio dos meios”.
E essa é a razão, de acordo com a Confissão, para Deus não ser considerado “o autor ou aprovador do pecado”. Deus é a causa soberana primeira do pecado, mas não é o seu autor. Apenas as causas secundárias pecam (51).
A visão ensinada pelos teólogos de Westminster é o conceito calvinista de “determinismo” (19-21). A palavra determinismo geralmente carrega uma conotação ruim, mas não deveria ser assim. Na realidade, determinismo expressa uma visão de Deus bastante bíblica e elevada, além de oferecer a única teodicéia plausível. Deus determina ou decreta cada acontecimento da história e cada ação do homem.
Mais ainda, o que Deus decreta é correto, simplesmente porque Deus decreta; Deus nunca pode errar (48,53). Deus, diz a Escritura, não se justifica perante ninguém (Jó 33:13). Ele é o legislador (Isaías 33:22); o homem está sob a lei. Deus não tem que prestar contas a ninguém; ele está ex lex (“acima da lei”). Os Dez Mandamentos são obrigação para o homem, não para Deus. E a única pré- condição para a responsabilidade é que haja um legislador – nesse caso, Deus. Nas palavras do Dr. Clark “O homem é responsável porque Deus o chama para prestar contas; o homem é responsável porque o poder supremo pode puni-lo por desobediência” (54). Assim, o homem é necessariamente responsável pelo seu pecado, e Deus é completamente absolvido de ser o autor do pecado.
O determinismo ensinado na Confissão de Fé de Westminster não é a mesma coisa que o fatalismo (36-42). No fatalismo, deus, ou os deuses, ou o Destino, determina todas as coisas, enquanto que o homem permanece completamente passivo. Por conseguinte, o homem logicamente não pode ser responsável pelas suas ações pecaminosas. No determinismo bíblico, por outro lado, Deus soberanamente determina todas as coisas, mas ele também mantém o homem responsável, pois o homem e suas ações ‘livremente escolhidas’ são as causas secundárias através das quais as coisas são determinadas a ocorrerem.
Mas alguém poderá perguntar: “Assassinar não é pecado e contra a vontade de Deus? Então, como pode Deus desejar isto?” A resposta, diz Clark (35,36), é encontrada em Deuterononômio 29:29: “As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, mas as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que observemos todas as palavras desta lei”. Aqui, Moisés distingue entre a vontade decretiva de Deus (“coisas encobertas”) e sua vontade preceptiva (“aquelas coisas que são reveladas”). A vontade preceptiva de Deus é encontrada na Escritura. Nela nós aprendemos o que Deus requer do homem. A vontade decretiva de Deus, por outro lado, é a causa de todo evento. O homem é responsável pela sua desobediência à vontade preceptiva de Deus, não à sua vontade decretiva. No exemplo usado no começo, Deus, desde toda a eternidade, decretou a crucificação de Cristo, e, ainda assim, quando levada a cabo pelas mãos de pecadores, ela foi contrária à lei moral, isto é, à vontade preceptiva de Deus.
Conclusão
Na opinião desse revisor, no livro God and Evil: The Problem Solved de Gordon Clark, temos a melhor obra disponível sobre o assunto em questão. O autor nos mostra que, permanecendo sobre o firme fundamento da Palavra de Deus (Mateus 7:24,25), temos uma resposta para a questão da teodicéia. Ela é totalmente uma questão de base epistemológica. Com a Bíblia como o ponto de partida axiomático, a existência do mal não é realmente o problema no qual as pessoas o tornaram. Deus, que é totalmente santo e não pode fazer nada errado, soberanamente decretou que coisas más ocorressem para os seus próprios bons propósitos (Isaías 45:7). E justamente porque ele as decretou, elas são corretas. Como declarado pelo reformador Jerônimo Zanchius:
“A vontade de Deus é de tal modo a causa de todas as coisas, quanto ela própria não tem causa, uma vez que não há nada que possa ser a causa daquilo que causa todas as coisas. Assim, nós encontramos todo assunto resolvido, em última instância, na simples satisfação soberana de Deus. Ele não tem outro motivo para aquilo que faz, além da ipsa voluntas, sua mera vontade – vontade esta tão longe de ser injusta, que ela é a própria justiça”.
É bom, então, que o pecado exista. Deus o decretou e ele [o pecado] está trabalhando para o objetivo final: a glória de Deus.
R. K. McGregor Wright
A doutrina da criação em si mesma exige um alto grau de determinismo. Consistentemente a Bíblia apóia isso com abundantes preceitos e exemplos. Já observamos que Deus reivindica controlar as decisões humanas, desde as decisões de um rei até o arremesso de um dado. Um exemplo disso no Novo Testamento é encontrado em João 19. O salmista havia dito dez séculos antes que o Messias teria as suas roupas repartidas pelo lançar da sorte, em conexão com a sua morte (Salmo 22.18). Os soldados responsáveis pela execução de Jesus Cristo observaram que uma de suas vestes era sem costura, sendo tecida de alto a baixo, o que a tornava uma peça bastante cara e que havia sido deixada intacta. Assim, eles decidiram lançar sortes sobre ela, ao invés de rasgá-la para dividirem-na entre si “para se cumprir a Escritura: Repartiram entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica lançaram sortes”.
Numerosas decisões do livre-arbítrio contribuíram para esse cumprimento, desde a confecção amorosa que alguém fez daquela túnica para que Jesus a usasse, até o fato de Jesus usá-la naquele dia para que os soldados lançassem sortes sobre ela. Inúmeras outras escolhas humanas foram necessárias para que esses detalhes estivessem juntos. A predição também contém muitos outros elementos distinguíveis. Como uma predição, ela exigiu um conhecimento detalhado anterior de um simples momento histórico que se daria num futuro distante. Ou Deus viu uma cópia roubada do filme, ou seu conhecimento detalhado foi realmente um conhecimento de seus próprios planos, incluindo necessariamente todas as decisões do livre-arbítrio que compuseram o evento. Tivesse qualquer uma daquelas escolhas humanas sido diferente naquele dia, a predição teria sido invalidada e todos os anjos, olhando por sobre a beira das nuvens, teriam ficado desapontados (1Pe 1.12).
O arminianismo parece estar apegado à idéia de que as predições de Deus são simplesmente meras adivinhações que, de algum modo, sempre tornam-se certas na Bíblia. Mas isso é ou puro acaso ou predeterminação sem a palavra determinismo. Ninguém escapa de alguma espécie de determinismo, e postular o livre-arbítrio não ajuda em nada.
Para terminar essa consideração da negação humanista da determinação divina, voltaremos às duas narrativas da morte de Jesus em Atos 2.22-36 e 4.27-28. Na primeira passagem, Pedro diz: “sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (v.23). De fato, “não era possível que ele fosse retido pela morte” (v.24), porque Deus predisse que ele ressuscitaria dos mortos nos Salmos. Em outras palavras, porque foi predito, não era possível acontecer de outra forma a ele. Na segunda passagem, Pedro e João afirmam numa oração que os inimigos de Jesus “se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo servo Jesus... para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram”.
A Bíblia ensina que, longe de ser uma espécie de acaso, dependente das vontades livres dos pecadores, a crucificação, o assassinato judicial mais repugnante e injusto da História, foi expressamente planejado e levado a efeito de acordo com a explícita predestinação de Deus, mesmo em todos os seus microscópicos detalhes envolvidos, (não se esqueça da túnica sem costura) e cumprido exatamente como ele quis. Devemos nos lembrar de que Isaías 53, como parte do grande argumento para o monoteísmo em Isaías 40-5 5, afirma que “ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar” (v. 10). Mas se o maior de todos os males foi predestinado, o que podemos dizer dos numerosos, mas sérios males menores?
Jó diz que Deus pode fazer qualquer coisa que ele quiser; Isaías diz que Deus realmente faz tudo que ele pretende fazer, e Paulo diz, em Efésios 1.11, que ele “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade”. Podemos unicamente concluir que “a mente do Espírito” neste assunto é totalmente uniforme por toda a Bíblia (ver 1 Coríntios 2.6-16).
Quando Jesus quis enfatizar que o controle de Deus sobre os detalhes é total, ele escolheu ilustrações retiradas dos eventos pequenos e triviais de nossa experiência comum. Ele disse que Deus conta todos os cabelos de nossa cabeça (Mateus 10.30) e que nenhum pardal cai do céu sem que o ser de Deus esteja envolvido (Lucas 12.6-7). Tivesse o Senhor vivido no século XX, ele poderia ter dito: “A soberania exaustiva de Deus se estende, à posição e à velocidade de cada partícula subatômica desde o último elétron na unha do seu dedo, até a menor partícula do pó cósmico sobre a extremidade mais longínqua da mais distante galáxia; ‘Eu, o Senhor, faço todas estas coisas’ (Is 45.7), Mas você vale mais para mim do que qualquer número de partículas subatômicas”.
A Bíblia não poupa esforços para incluir no controle de Deus as funções decisórias da mente humana. Em 2 Tessalonicenses 2.11 Paulo diz que Deus manda para os ímpios “a operação do erro” a fim de prepará-los para o juízo. Em 1 Samuel 16, Deus envia um espírito mau para atormentar o ímpio Saul e para levá-lo à beira da loucura. Em 1 Reis 22, Deus convida um espírito maligno (ou é apenas um ser angélico perfeitamente bom que concorda em obedecer a Deus?) para enganar o rei Acabe por mentir-lhe por meio de seus profetas. O resultado desse engano é a ferida mortal de Acabe em Ramote Gileade. O escritor observa laconicamente que algum soldado desconhecido atirou com seu arco “por acaso”, e a flecha achou um buraco na armadura de Acabe. O soldado não estava nem mesmo mirando diretamente, mas Acabe sangrou até a morte naquela tarde, como predito.
Seu último ato político havia sido a preocupação de perseguir Micaías, o profeta de Deus. Os ímpios, ao que parece, morrem do modo que eles vivem.
Falando de um modo mais categórico, Paulo nos diz que à medida que o cristão cresce em graça, Deus faz as duas coisas: induz o crente às decisões corretas e causa a feitura delas, uma vez que elas foram induzidas (Fp 2.13). Sem esse grau de controle e de interferência, nunca seríamos santificados.
Paulo também diz que a ausência de revelação pode produzir certos efeitos que Deus quer (1 Coríntios 2.6-8). Ele diz aqui que, se as pessoas que fizeram os arranjos para a execução de Cristo tivessem tido qualquer noção das revelações feitas a Paulo, “eles nunca teriam crucificado o Senhor da glória”. Isto é, Deus teria evitado muitos males simplesmente por fazer revelações diretas, como o próprio Jesus disse em Mateus 11.21 a respeito das cidades de Tiro e Sidom.
Nossa conclusão de tão pequena seleção de evidências é que não há qualquer evento físico ou mental na criação que não seja controlado por Deus. Versos adicionais para serem considerados incluem Daniel 4.35; Salmos 147.5; Eclesiastes 3.11; João 6.64; Efésios 3.9 e Apocalipse 1.18.
Deus Controla o Mal
Kyle Baker
Tradução: Rogério Portella
A Escritura afirma que Deus é justo e não há mal nele. João diz que Deus é luz e nele não há treva alguma (1Jo 1.5). Entretanto, esta maravilhosa verdade não infere que Deus tenha criado o mal. Mesmo não sendo mau, ele criou o mal (Is 45.7). Deus não apenas criou o mal, como também decretou as ações de sua criação de forma tal que o mal cumpra seu bom propósito. Deus, em seu plano providencial, usa o mal para dar glória a si mesmo por meio do Senhor Jesus Cristo; ele usa o mal para apresentar seus atributos; ele usa o mal para condenar os réprobos; ele usa o mal para cumular os eleitos de riquezas da graça.
O que significa o fato de Deus ter criado o mal? É o mal uma substância palpável? É um objeto auto-existente? De acordo com a Escritura, o mal procede do coração. Do bom coração procedem coisas boas e do coração mau procedem coisas más. A afirmação “Deus criou o mal” implica ter Deus trazido à existência um coração mau, porque um inexiste sem o outro. O coração mau é de onde o mal flui. O mal não subsiste à parte da prática do que é mau — objetos inanimados como rochas ou árvores não podem ser moralmente maus da mesma forma que não podem ser moralmente bons; o mal pode provir apenas de indivíduos que pensam e agem, como homens ou anjos.
Não há árvore boa que dê mau fruto; nem tampouco árvore má que dê bom fruto. Pois cada árvore se conhece pelo seu fruto. Os homens não colhem figos dos espinheiros, nem dos abrolhos vindimam uvas. O homem bom do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau do mau tesouro tira o mal; porque a sua boca fala o de que está cheio o coração (Lc 6.43-45).1
Esta é uma distinção importante. Examinemos mais de perto as palavras do Senhor. Ele declara que a árvore é boa ou má, e é a árvore que dá fruto mau ou bom. Se imaginarmos esse cenário com árvores e frutos literais, físicos, ficará claro que a árvore deve existir antes de o fruto ser produzido. Como a macieira produz maçãs, a árvore má dá frutos maus. Semelhantemente, a laranjeira produz laranjas, e a boa árvore produz bons frutos. Primeiro a árvore, depois o fruto — primeiro o coração, e então o fruto do coração. O bom coração produz boas obras, e o coração mau produz maus atos. Afirma-se em Provérbios que o coração do ímpio “sempre maquina o mal” (6.14).
O Senhor diz ainda mais: “a boca fala do que está cheio o coração”. Podemos imaginar o volume do coração sendo preenchido até o limite com pensamentos maus e ímpios. O transbordamento dessa maldade procede da boca e das ações. O mal invisível, residente no coração, torna-se visível na boca e nos atos pecaminosos. Percebemos novamente a preponderância da maldade no coração, e só depois de o mal existir no coração surge sua manifestação. O pecado realizado é resultado do pecado existente no interior. O mal exterior resulta do mal interior.
Portanto, para Deus ter criado o mal, segundo este ensino, vislumbramos uma ordem lógica necessária:
1) A criação do coração mau do qual o pecado procede;
2) A procedência do pecado a partir do coração mau em conformidade com o plano de Deus.
O mal não brota simplesmente do nada, tomando Deus de surpresa — ele foi planejado e proposto por Deus a fim de cumprir seu propósito. Alguns acreditam que o coração humano atua à revelia do controle divino. Muitos calvinistas argumentarão acertadamente contra a liberdade da vontade em relação à tomada da decisão para crer no Senhor Jesus Cristo, ou para realizar algum bem. Eles chamam isso negação total do livre arbítrio. Na mesma medida em que eles negam o livre arbítrio, acabam por afirmá-lo com a mesma intensidade no que diz respeito ao pecado. Eles dirão que em relação ao que é bom o homem não possui liberdade, mas em relação ao que é mau, o homem é livre. Em outras palavras, Deus causa todo o bem, mas o homem causa todo o mal. A vontade com certeza não é livre para o bem, mas é livre para fazer o mal?
Paulo declara que o homem é escravo do pecado ou da justiça (Rm 6.17,18). Dessa forma, o homem não é livre para praticar o bem, nem para praticar o mal, por ser sempre escravo. Precisamos perguntar-nos: é o pecado, por sua vez, escravo de Deus? A justiça também é serva de Deus? A Escritura ensina que todas as coisas são servas de Deus — ele é soberano sobre tudo, incluindo os pecados dos seres humanos. Vários exemplos podem ser, e serão, mostrados acerca de Deus incitar ativamente sua criação a pecar. Todas essas passagens da Escrituras mostram que Deus criou o mal e, depois de fazê-lo, não relegou o controle do mal às suas criaturas. Ele detém plenamente o controle soberano sobre todas as criaturas para que elas realizem todos os propósitos por ele estabelecidos.
Deus não espera que o homem decida pecar de forma a cumprir sua vontade — ele faz o homem pecar da forma exata por ele planejada! Dois grandes exemplos disso são a morte do Senhor Jesus Cristo na cruz, e a venda de José aos ismaelitas. Todo o plano de Deus a respeito da salvação poderia ter sido frustrado se os assassinos do Messias não o tivessem matado exatamente da forma ordenada por Deus. O propósito divino teria sido completamente arruinado se o Messias não tivesse sido pregado à cruz, sendo “entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus”. Deus predestinou exatamente a ocorrência de sua morte (At 2.23; 4.28). Essa predeterminação deveria incluir cada um e todos os pecados específicos da totalidade das pessoas que tomaram parte nesse ato. Deus não só abandonou essas pessoas ao pecado para fazerem o que melhor lhes conviesse, mas ele controlou-lhes os pecados para que pudessem realizar tudo o que fora preordenado.
Também nesse sentido José foi vendido por seus irmãos a mercadores midianitas por vinte moedas porque Deus ordenara exatamente os pecados que conduziriam à realização desse acontecimento. Deus deixaria ao livre arbítrio humano a possibilidade de vender José? O que aconteceria se eles tivessem preferido não pecar dessa forma — vendendo-o? Todo o plano de Deus a respeito da salvação teria sido arruinado pelo fato de José não ter sido levado ao Egito? Poderíamos acrescentar muitos outros exemplos, como o de Judas — o que aconteceria se ele tivesse escolhido beijar outro homem e não Jesus? Qual seria o resultado se Jacó não tivesse iludido seu pai para receber-lhe a bênção no lugar de Esaú? O que aconteceria se os judeus não tivessem dado as costas a Jesus como Senhor? Todos esses pecados aconteceram exatamente dessa forma para que o plano de Deus fosse cumprido, então, Deus deve controlar ativamente o coração conduzindo-o ao pecado a fim de causá-lo exatamente como estabelecera.
Disse Jeová a Moisés: Quando te tornares ao Egito, vê que faças diante de Faraó todas as maravilhas que te hei posto na mão; mas eu endurecerei o seu coração, e ele não deixará ir o povo. Dirás a Faraó: Assim diz Jeová: Israel é meu filho, meu primogênito. Eu te disse: Deixa ir meu filho, para que ele me sirva; mas tu recusaste deixá-lo ir: eis que eu matarei a teu filho, teu primogênito (Êx 4.21- 23).
O Senhor informa a Moisés seu plano para endurecer o coração do Faraó de tal forma que ele pecaria ao não obedecer à ordem divina de deixar os israelitas partir. Em um exame objetivo dessa passagem, e de muitas outras semelhantes a ela, vê-se que Deus é a causa do pecado do Faraó. Alguns farão a distinção entre o envolvimento divino primário e secundário; outros tentarão diferenciar as causas imediatas e indiretas. Esses argumentos podem ser úteis à melhor compreensão sobre como Deus usa os meios para alcançar seus decretos, mas em última instância eles não mudam o fato de que Deus causa e controla o pecado para realizar sua vontade. Quer Deus seja a causa primária, secundária, ou qualquer outra causa, deve-se deixar claro que ele é a última causa controladora.
Paulo, na aplicação do exemplo do Faraó na carta aos Romanos, diz que Deus “endurece a quem ele quer” (Rm 9.18). O verbo “endurecer” é a palavra grega sklērynō, na forma presente do indicativo ativo no versículo 18. O sujeito é Deus; portanto, a voz ativa do verbo “endurecer” aponta para Deus como quem endurece ativamente. Apesar de Paulo usar o Faraó como exemplo, ele não é o único exemplo de alguém com o coração endurecido. Isto também é aplicável a toda a criação de Deus: ele endurece ativamente o coração de quem desejar.
Mas Seom, rei de Hesbom, não nos quis deixar passar por sua terra, porque Jeová teu Deus lhe endureceu o espírito, e lhe fez obstinado o coração, para to entregar nas mãos, como hoje se vê. Disse-me, pois, Jeová: Eis que comecei a entregar-te Seom e a sua terra; entra a desapossá-lo, para que recebas por herança a sua terra. Então Seom nos saiu ao encontro, ele e todo o seu povo, para nos dar batalha em Jaza. Jeová nosso Deus nô-lo entregou, e ferimo-lo a ele, e a seus filhos e a todo o seu povo. (Dt 2.30-33).
O Senhor endureceu o coração do rei de Hesbom para que ele se opusesse a Israel e fosse morto na batalha. Deus endureceu ativamente seu coração para alcançar o resultado desejado da vitória de Israel. Deus não esperou que o rei se opusesse a Israel por conta própria. Ele endureceu ativamente o coração do rei para que este se opusesse a Israel exatamente da forma desejada, para que o rei fosse completamente destruído por causa dele.
Vemos esse mesmo conceito em Josué: Por muito tempo pelejou Josué contra todos esses reis. Não houve cidade que fizesse paz com os filhos de Israel, à exceção dos heveus, habitantes de Gibeom: a todas tomaram à força de armas. Pois de Jeová veio o endurecimento dos seus corações, para saírem à guerra contra Israel, a fim de que fossem destruídos totalmente, e não achassem piedade alguma, porém fossem de todo exterminados, como Jeová ordenou a Moisés (Js 11.18-20).
A destruição das nações que se opuseram à marcha de Israel através da terra prometida foi realizada por Deus — que ativamente endureceu o coração delas para levá-las à batalha. Deus as fez pecar contra a grande nação de Israel para sofrerem a ira e o poder de Deus e serem totalmente destruídas.
Deus não só endurece ativamente o coração para batalhas e destruição. Ele também o faz para que as pessoas não creiam no Evangelho e sejam salvas:
E, embora tivesse feito tantos sinais na sua presença, não creram nele, para se cumprir a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Por isso, não podiam crer, porque Isaías disse ainda: Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados (Jo 12.37-40).
O endurecimento ativo do coração por parte de Deus pode ser visto em escala maior que as batalhas de Israel. Ele pode ser percebido diariamente em toda a história. Existem homens ímpios e incrédulos que nunca acreditarão no Senhor Jesus Cristo porque Deus não lhes permitirá fazê-lo — de fato, Deus faz com que eles não creiam. Deus não só “permite” a incredulidade desses homens, mas ele os controla de modo direto para que sejam mantidos sob juízo até o Senhor vir pela segunda vez em glória. Pedro diz que Deus “reserva aos injustos sob castigo para o dia do juízo” (2Pe 2.9). “Reservar” é o presente infinitivo ativo de tēreō, o qual demonstra que Deus está presente e mantém continuamente os réprobos em um estado que trará a punição no dia do juízo.
Pois quê? O que Israel busca, isso não tem conseguido, mas a eleição o conseguiu; e os mais foram endurecidos, como está escrito: Deu-lhes Deus um espírito de torpor, olhos para não verem e ouvidos para não ouvirem até o dia de hoje (Rm 11.7,8).
Os demais — os não-eleitos — foram endurecidos. Como? Deus lhes deu um espírito de torpor e olhos cegos e ouvidos surdos! Como Deus ousaria fazer uma coisa dessas — impedi-los propositadamente de ver e ouvir o Evangelho mediante o qual poderiam ser salvos? Retrucamos com Deus por causa disso, ou reconhecemos e nos regozijamos no fato de que ele, de forma ativa, age no coração dos réprobos endurecendo-os contra o Evangelho? Este tema se destaca ao longo de toda a Escritura, especialmente nas cartas de Paulo.
É por este motivo, pois, que Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados todos quantos não deram crédito à verdade; antes, pelo contrário, deleitaram-se com a injustiça (2Ts 2.11,12).
Paulo diz de modo específico que Deus faz os homens crer no que é falso, e que ele o faz para que estes sejam julgados e condenados por terem amado o mal, extraindo prazer de sua perversão. Da mesma forma que a Escritura diz que o homem não é livre para fazer o bem, ela também afirma que o homem não está livre do controle de Deus para praticar o mal. Ainda que exista uma aparência de piedade ao tentar extrair o controle divino de sobre o pecado, ao fazê-lo estaríamos negando o claro e reiterado ensino bíblico de que Deus endurece o coração, envia um poder sedutor, e controla ativamente sua criação para que cumpra sua vontade. A soberania de Deus não pára no pecado — seu plano soberano inclui o pecado, ao qual ele controla.
Esse controle sobre o pecado e o mal não se estende apenas aos réprobos, aos quais Deus reserva para o dia do juízo, mas também sobre os eleitos:
Atenta lá do céu, e olha lá da habitação da tua santidade e da tua glória; onde está o teu zelo, e as tuas grandezas? O anelo das tuas entranhas e as tuas misericórdias estancaram para mim. Pois tu és nosso pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, Jeová, és nosso pai; nosso redentor desde a antigüidade é o teu nome. Por que nos fazes, Jeová, errar dos teus caminhos, e endureces o nosso coração para te não temermos? Volta por amor dos teus servos, das tribos da tua herança. (Is 63.15-17)
Por que Deus nos faz desviar de seus caminhos? Por que ele nos endurece o coração para que não o temamos? Ele procede dessa forma para que permaneçamos como vasos de barro, “a fim de que a excelência do poder seja de Deus, e não venha de nós” (2Co 4.7). Por meio do nosso pecado a grandeza de Deus, mediante sua graça e misericórdia, é demonstrada. Isaías diz que Deus faz seu povo santo pecar, por que outro motivo dir-se-ia a respeito do coração mau — que se desvia do caminho de Deus? Tal coração é pecador, dado e controlado por Deus para produzir exatamente o que cumprirá seu perfeito propósito.
O controle do pecado e do mal por meio do endurecimento ou amolecimento do coração não torna Deus pecador ou mau. Ele afirma seu lugar como governante soberano do universo que criou. Afirma que ele tem o propósito de glorificar a si mesmo por meio de cada ação, e também para beneficiar seus eleitos. Paulo diz: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” (Rm 8.28). Ao dizer que Deus faz todas as coisas para o bem, ele inclui o que é pecaminoso e mau. O pecado põe o cristão de joelhos — o lugar próprio de submissão perante o santo Deus. Paulo diz em Efésios 1.11 que Deus “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade”. Devemos entender isso como Deus dizendo que “faz todas as coisas boas conforme o conselho da sua vontade”? Não. O propósito de Deus inclui os pecados dos réprobos bem como os dos eleitos.
A diferença entre os dois grupos é o Senhor Jesus Cristo, e aqueles pelos quais ele derramou seu sangue. Só os pecados do eleito, vencidos na cruz, não serão punidos. Só aquele a quem o Pai elegeu, o Filho redimiu, e o Espírito regenerou terá vida eterna. O cristão não deveria sentir tremor ao saber que nosso Deus justo e santo controla todas as coisas — tendo predestinado cada uma e todas as coisas que acontecem. O cristão deve reconhecer que o bem e o mal possuem um propósito no plano de Deus, e que cada uma dessas partes é necessária para redundar na plena glorificação de Deus.
A Bíblia ensina a soberania absoluta de Deus em relação a todas as coisas, incluindo o bem e o mal. O próprio Deus é totalmente bom em todos os seus caminhos, e ele demonstra sua justiça de várias formas, incluindo os pecados de homens e demônios. O pecado é a tela preta sobre a qual Deus pinta de branco seus atributos — misericórdia, justiça, graça, paciência, ódio e amor. A Escritura ensina que Deus não meramente permite que suas criaturas pequem, mas ele ativamente causa o endurecimento do coração deles contra seus mandamentos a fim de que elas pequem contra o Senhor. Nesses pecados está incluído o ódio contra Deus, particularmente em relação a Jesus Cristo, quando os réprobos rejeitam totalmente o Evangelho e Deus (Jo 12.37-40).
A aceitação da soberania absoluta de Deus sobre todas as coisas é algo impossível para a alma não-regenerada (1Co 2.14). Os réprobos rejeitarão esse ensino porque eles não crêem no Deus santo da Bíblia. Eles temem a Deus, mas por que não lhe confiam a vida para que ele a dirija? O cristão deve aceitar a Deus e regozijar-se nele da forma em que ele se revela na Bíblia. Toda Escritura é inspirada por Deus (2Tm 3.16); portanto, toda a Escritura explica exatamente como Deus é.
Gostaria de dar continuidade a este assunto com mais alguns pontos. A soberania absoluta de Deus impacta todas as doutrinas da Bíblia. Dessa forma, precisamos nos esforçar para aplicá-la corretamente a cada uma delas. Uma das dificuldades é tentar fazer a soberania de Deus e a responsabilidade humana trabalharem juntas ao usar expressões do tipo “isso é um paradoxo”.
Existe uma crença amplamente difundida entre os cristãos de que a responsabilidade pressupõe liberdade. Quando algo é “pressuposto”, ou seja, suposto de antemão, ou presumido por verdadeiro, isso geralmente ocorre sem evidências bíblicas claras. De modo específico, referimo-nos à crença de que para o homem ser responsabilizado por seus pecados, ele precisa ser livre para cometê-los. Os arminianos, de forma especial, ensinam isso, com outras idéias semelhantes de que para amar a Deus, o homem precisa ser livre para amá-lo ou rejeitá-lo. De acordo com os arminianos, ser alcançado de forma irresistível a fim de amar a Deus por sua obra graciosa não constitui verdadeiro amor. Eles afirmam que o verdadeiro amor pressupõe a liberdade para amar. Da mesma forma, também inferem a liberdade para pecar a fim de que alguém seja responsabilizado pelo pecado.
A idéia é que se o homem não é livre para pecar; se Deus tiver predeterminado que o homem pecará, então Deus não pode considerar o homem responsável pelo pecado. Esse raciocínio parece fazer sentido absoluto para a mente humana. O problema é que muitas vezes nossa mente carnal não entra em acordo com a verdade revelada por Deus — nós, como cristãos regenerados, precisamos sempre lutar para perceber que as crenças provenientes do “senso comum” realmente não possuem base bíblica. Ainda que esse pressuposto pareça fazer sentido, ele não é encontrado na Bíblia e não pode ser comprovado como verdade. A idéia de que a responsabilidade pressupõe liberdade do controle divino não é encontrada em nenhuma parte da Bíblia. De fato, tampouco a idéia de que o homem é livre do controle de Deus, em qualquer sentido, é encontrada na Bíblia.
Ora sabemos que tudo o que a Lei diz, aos que estão debaixo da Lei o diz, para que toda a boca fique fechada, e todo o mundo esteja sob o juízo de Deus; porquanto por obras da lei nenhum homem será justificado diante dele, pois, pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. (Rm 3.19,20) Paulo diz aqui, e em outros lugares (Rm 7), que Deus deu a lei para mostrar ao homem seu pecado. A lei traz o conhecimento do pecado — ela não possuía a intenção de ser uma forma para justificar o homem perante Deus. O conhecimento do certo e do errado, do bem e do mal, tem o efeito de tornar o homem responsável pelo pecado. A revelação de Deus do conhecimento do bem e do mal ao homem por meio da lei é exatamente como Deus o torna responsável. Precisamos concluir, então, que se Deus não tivesse revelado sua santa lei à humanidade, o homem não teria sido responsabilizado por ele em relação ao pecado. Paulo não ensina a inclusão de qualquer tipo de liberdade neste ponto.
Deus não só revela sua lei por meio da lei escrita, mas ele a inscreveu no coração de todos os homens, porque quando eles “procedem, por natureza, de conformidade com a lei [...] mostram a norma da lei gravada no seu coração” (Rm 2.14,15). A consciência humana será suficiente para condená-lo perante Deus no dia do juízo. A exigência de que o pecado seja cometido com o uso da liberdade, à parte do controle divino, para poder ser julgado não está presente na Bíblia. A única coisa exigida para que uma pessoa seja considerada responsável é o Juiz para considerá-la responsável. Tudo o que é necessário para considerar uma pessoa responsável é a decisão divina de proceder dessa forma.
Isso faz ecoar novamente o conceito da imputação. Na aliança da graça do eleito com Deus, ele decidiu imputar o pecado do eleito na conta do Senhor Jesus Cristo, em lugar de colocá-lo na conta do eleito (2Co5.18-21). Deus escolheu, sem considerar qualquer princípio predominante, mas inexistente da responsabilidade, imputar o pecado ao Cordeiro inocente — o Messias. Cristo não era livre para cometer o pecado do eleito, tampouco era capaz de cometer esse pecado, todavia, ele foi responsabilizado pelo pecado mediante o decreto divino para que ocorresse dessa forma. Isto também contradiz o conceito carnal de justiça. Por que o Cristo inocente foi responsabilizado pelo pecado do eleito? Porque Deus escolheu fazê-lo responsável. Por que o réprobo é responsável pelo próprio pecado? Porque Deus quis torná-lo responsável. A responsabilidade não pressupõe liberdade; ela pressupõe um Juiz e a revelação da lei pela qual alguém será obrigado a responder.
Como dissemos anteriormente, a Escritura declara de modo específico que Deus endureceu de forma ativa o coração do Faraó diversas vezes, bem como o coração dos egípcios. Esta simples verdade é repetida muitas vezes por todo o livro de Êxodo e também em Romanos por Paulo. Se quem afirma que a responsabilidade preconiza liberdade estiver correto, então, certamente Deus não teria punido Faraó ou os egípcios por terem o coração mau. Porém, lemos que ele procedeu exatamente assim. Na verdade, Paulo antecipa esta objeção ao imaginar a resposta do contraditor: “De que se queixa ele ainda?”, depois de ter declarado que Deus endurece a quem quer (Rm 9.18,19).
Por uma questão de clareza, podemos expandir esta pergunta para algo semelhante a: “Por que Deus ainda responsabiliza o homem pelo coração duro, se Deus é quem faz o coração ficar desse jeito?”, ou: “O homem é incapaz de resistir à vontade de Deus, e a vontade de Deus é que o homem tenha um coração duro; portanto, por que Deus ainda deseja que o homem preste contas de si mesmo?”. Apesar de essas perguntas aparentemente serem corretas, e fazê-las parece ser algo correto e bom para a mente carnal, a Escritura diz que elas não devem ser formuladas (v. 20-23). Não faria qualquer sentido Paulo antecipar essa objeção a menos que houvesse uma razão, e o motivo é que ele está ensinando claramente a soberania de Deus sobre os pecados da humanidade. A objeção a que ele responde é uma óbvia objeção carnal contra essa verdade, e no corpo da réplica está a resposta ao suposto “paradoxo” da soberania de Deus e da responsabilidade humana. Não é mistério como estas duas verdades interagem: simplesmente Deus decidiu que as coisas seriam desse modo. O homem não é livre e tem que prestar contas a Deus.
Este entendimento a respeito do controle soberano de Deus sobre o bem e o mal destrói conceitos típicos do dualismo. Algumas pessoas hoje crêem que Deus está em guerra contra Satanás e seu reino das trevas. Elas desejariam nos fazer acreditar que Deus deseja que toda a humanidade estivesse do seu lado; entretanto, ele tem que consentir com a perda de almas para o diabo quando o homem se recusa a crer em Cristo para salvar-se. Deus não está em nenhuma guerra, ainda que para o ser humano exista uma batalha espiritual subjetiva contra o mal. Paulo diz que devemos nos vestir com a armadura de Deus, e brandir a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, contra nossos adversários (Ef 6.13-17). Desse modo, a batalha entre o bem e o mal está no primeiro plano da experiência de todo cristão. Não podemos tomar essa guerra, como a experimentamos, e colocar Deus na mesma posição ocupada por nós. É claro que ele está acima de todas as criaturas, e que todas elas — boas e más — prestam contas apenas a ele. O exemplo de Satanás pedindo permissão a Deus para agir contra Jó esclarece perfeitamente o ponto (Jó 1.8-12) — Satanás só pode agir contra Deus quando a ação está dentro da vontade de Deus.
O mesmo pode ser afirmado a respeito de Pilatos quando o Senhor Jesus lhe disse: “Não terias sobre mim poder algum, se ele te não fosse dado lá de cima” (Jo 19.11). Não houve luta entre as forças do bem e do mal aos olhos de Deus — ele já predeterminara tudo o que havia de acontecer (At 2.23; 4.28) e dera a Pilatos a autoridade de fazer o mal contra Cristo. Alguém poderia declarar justamente ter Deus determinado que Pilatos fizesse o mal contra Jesus, porque “Como correntes de água é o coração do rei na mão de Jeová, ele o inclina para onde quiser (Pv 21.1). O salmista diz que Deus muda o coração para que “odeiem o seu povo, e usem de enganos para com os seus servos” (Sl 105.25). Claramente o coração não está livre do controle de Deus — ele o muda como quiser! No livro da revelação de Cristo a João, o Apocalipse, lemos que “em seu coração incutiu Deus que realizem o seu pensamento, o executem à uma e dêem à besta o reino que possuem, até que se cumpram as palavras de Deus” (Ap17.17). Aqui, Deus controla o coração dos réprobos de modo tal que eles executarão seu propósito, e este é que eles sigam a besta para serem condenados. O propósito divino inclui o pecado do homem!
Deus controla o coração do homem da mesma forma que controla os passos humanos: “Os passos do homem são dirigidos por Jeová, como, pois, poderá o homem entender o seu caminho?” (Pv 20.24). Cada processo; cada momento; cada ocorrência; todas as coisas debaixo do sol estão sob o controle soberano de Deus e, contudo, Deus considera o homem responsável pelo pecado. Isto não é um “paradoxo”, como muitas pessoas gostam de afirmar. Paradoxo nada mais é que um termo acadêmico para designar uma contradição — coisa inexistente na Bíblia. A resposta ao suposto paradoxo é simplesmente que a liberdade da criatura não é um pré-requisito para a criatura ser responsável perante Deus. A decisão divina de ser Juiz é o pré-requisito para a responsabilidade humana. O paradoxo aparente só surge quando a responsabilidade é atrelada incorretamente à liberdade. A Bíblia não coaduna com essa união; portanto, não devemos fazê-la.
Apesar de ser verdadeiro que Deus controla todas as coisas, também é verdade que nossa jornada diária inclui a luta contra o pecado. Deus não necessita lutar contra o mal, mas ele decretou que nos alistássemos para essa guerra. Paulo diz que sua carne milita contra a mente (Rm 7.14-25). Se não quisermos declarar guerra ao pecado, com certeza não somos filhos regenerados de Deus. Essa guerra é onde podemos aplicar o conhecimento da soberania divina absoluta para nos ajudar na luta. Devemos perceber que é apenas mediante a obra consumada por Cristo na cruz que podemos escapar do pecado. Só por meio do arrependimento outorgado por Deus que nossa mente está sendo sempre purgada da injustiça — experimentando o perdão de nossos pecados. O perdão experimental não é só um acontecimento temporário, ele prosseguirá até sermos revestidos com corpos glorificados (1Jo 1.6-9). A aplicação prática do controle divino soberano sobre o pecado é podermos confiar que mesmo nos piores momentos, Deus está no controle. Quando nos recordamos disso precisamos nos regozijar, independentemente das circunstâncias. Às vezes, um período terrível de pecados é exatamente o que Deus envia para nos trazer de volta ao foco em Cristo, lembrando que “onde aumentou o pecado, transbordou a graça” (Rm 5.20).
O fatalista tomará este ensino a respeito da soberania de Deus e dirá não haver nada que possa fazer, por isso ele pode desistir. O cristão receberá este mesmo ensino e se alegrará pelo fato de a vontade de Deus estar sendo cumprida — o propósito divino é realizado. A diferença entre o fatalista e o crente na Bíblia é que o primeiro opina que não importa o que aconteça, o resultado será o mesmo. O fatalista erra ao não entender que Deus usa meios, e esses meios são o que tornam o objetivo real. Ele dirá coisas semelhantes a: “Mesmo que eu parasse de pecar, Deus me lançaria no inferno, se ele quisesse”. O que ele não percebe é que seu pecado foi planejado, decretado e controlado por Deus para levá-lo ao inferno, da mesma forma que o pecado do eleito foi planejado, decretado e controlado por Deus para levá-lo à tristeza conducente ao arrependimento, “a tristeza segundo Deus produz arrependimento para salvação” (2Co 7.10).
Na nossa aplicação prática do que a Bíblia ensina a respeito da soberania de Deus, não devemos nos tornar fatalistas. Continuemos nossa luta subjetiva contra o pecado na mente: “Peleja a boa peleja da fé” (1Tm6.12), como Paulo instruiu Timóteo, mas ao fazê-lo, confessemos que a luta estaria perdida se Deus não tivesse assegurado nossa vitória por meio da pessoa e obra de Jesus Cristo na cruz. Os decretos foram estabelecidos, a vitória está garantida, e já sabemos como a história acabará; contudo, nossa luta continua até o Senhor vir em glória. Tanto quanto nos foi ordenado, devemos nos “abster de toda a forma do mal.” (1Ts 5.22), crendo que Cristo voltará em breve para nos libertar deste corpo de morte.
Se o apóstolo Paulo lutou tão intensamente contra o pecado, não devemos esperar tratamento diferente. Alguns dizem que Paulo falava de sua vida ainda não regenerada, em Romanos 7, ao afirmar: “Pois não faço o bem que quero; mas o mal que não quero, esse pratico” (v. 19). Com certeza tais pessoas não compreendem a graça e nem entendem o nojo de nosso pecado diário. A luta de Paulo ilustra que devemos nutrir esperanças em relação ao futuro, e precisamos nos esforçar para obedecer a Deus e mortificar-nos em relação ao pecado; entretanto, o conforto está em saber que Deus mantém o controle mesmo após termos pecado. Esperamos ansiosamente pelo tempo glorioso em que não mais haverá pecado, mas também podemos olhar para trás, para nossos muitos pecados, com a capacidade de concordar com Deus que seu plano é muito superior a qualquer alternativa.
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O Problema do Mal
Vincent Cheung
Uma das objeções mais populares, porém sobreestimada, contra o Cristianismo, é o assim chamado “problema do mal”. A objeção reivindica que, o que o Cristianismo afirma sobre Deus é logicamente irreconciliável com a existência do mal. Aqueles que fazem esta objeção reivindicam que eles sabem, com certeza, que o mal existe, e, visto que isto é incompatível com o Deus cristão, então segue‐se que não há Deus, ou isto mostra, no mínimo, que o que o Cristianismo afirma sobre Deus é falso.
Usando o problema do mal, os incrédulos têm conseguido confundir muitos cristãos professos, e parece que muitos daqueles que reivindicam ser cristãos estão, eles mesmos, perturbados pela existência do mal, ou pela quantia de mal neste mundo. Alguns crentes conseguem fornecer respostas plausíveis que não são totalmente convincentes, enquanto muitos outros simplesmente chamam a existência do mal de um mistério. Contudo, até onde a Escritura trata do assunto, visto que que algo foi revelado, os cristãos não têm o direito de chamá‐lo de um mistério no sentido de algo que está oculto. Simplesmente porque não podemos entender tudo sobre a existência do mal, não significa que devemos ignorar o que a Escritura claramente revela sobre ele.
Por outro lado, as respostas meramente plausíveis são insuficientes quando a Bíblia fornece uma resposta infalível e uma defesa invencível. No que se segue, veremos que a existência do mal não apresenta nenhum desafio ao conceito cristão de Deus, ou a qualquer aspecto do Cristianismo. Na verdade, são as cosmovisões não‐cristãs que não podem fazer sentido da existência do mal, se é que elas podem ter um conceito do mal.
O PROBLEMA
Os cristãos afirmam que Deus é onipotente (todo‐poderoso) e oni‐ benevolente (todo‐amoroso). Nossos oponentes argumentam que, se Deus é todo‐poderoso, então Ele possui a capacidade de acabar com o mal, e se Ele é todo‐amoroso, então Ele deseja acabar com o mal; [1] contudo, visto que o mal ainda existe, isto significa que Deus não existe, ou pelo menos significa que as coisas que os cristãos afirmam sobre Ele são falsas. Isto é, mesmo que Deus exista, visto que o mal também existe, Ele não pode ser tanto todo‐poderoso como todo‐amoroso, mas os cristãos insistem que Ele é tanto todo‐poderoso como todo‐amoroso; portanto, o Cristianismo deve ser falso.
Aqueles que usam este argumento contra o Cristianismo podem formulá‐lo de maneiras diferentes, mas, a despeito da forma precisa em que o argumento é tomado, o ponto é que os cristãos não podem afirmar todos os atributos divinos, pois assim fazer seria logicamente incompatível com o problema do mal. E se este é o caso, então, o Cristianismo é falso. Embora os cristãos tenham agonizado com este assim chamado “problema do mal” por séculos, o argumento é extremamente fácil de refutar; ele é uma das objeções mais estúpidas que já vi, e mesmo como criança eu o consideraria um argumento tolo. Muitas pessoas têm inquietações com a existência do mal, não porque o mesmo possua qualquer desafio lógico ao Cristianismo, mas porque eles são sobrepujados pelas emoções que o assunto gera, e estas fortes emoções desqualificam efetivamente o nível mínimo de julgamento e inteligência que eles normalmente exibem.
Agora, visto que os oponentes do Cristianismo reivindicam que o problema do mal é um argumento lógico contra o Cristianismo, em resposta precisamos somente mostrar que a existência do mal não contradiz logicamente o que o Cristianismo ensina sobre Deus. Embora a Escritura também responda suficientemente aos aspectos emocionais deste assunto, não é nossa responsabilidade apresentar e defender estas respostas dentro do contexto do debate lógico. De fato, os problemas emocionais que as pessoas têm com a existência do mal e sua falta de respostas a estes problemas são totalmente consistentes com o que a Escritura ensina. Assim, nos focaremos em responder à existência do mal como um desafio lógico.
LIVRE‐ARBÍTRIO
Muitos cristãos favorecem a “defesa do livre‐arbítrio” ao responder o problema do mal. No contexto das narrativas bíblicas, esta abordagem declara que, quando Deus criou o homem, Ele lhe concedeu o livre‐arbítrio — um poder para fazer decisões independentes, até mesmo se rebelar contra o seu Criador. Certamente Deus estava ciente de que o homem pecaria, mas este foi o preço de conceder ao homem o livre‐arbítrio. Ao criar o homem com o livre‐arbítrio, Deus também criou o potencial para o mal, mas, até onde a defesa do livre‐arbítrio vai, visto que o homem é verdadeiramente livre, a culpa da realização deste potencial para o mal pode ser lançada somente sobre o próprio homem. Aqueles que usam a defesa do livre‐arbítrio adicionariam que o potencial ou até mesmo a realização do mal não é um preço tão alto para se conceder ao homem um livre‐arbítrio genuíno.
Embora muitos cristãos professos usem a defesa do livre‐arbítrio, e a algumas pessoas a explicação possa parecer razoável, esta é uma teodicéia irracional e anti‐bíblica — ela falha em responder o problema do mal, e contradiz a Escritura. Primeiro, esta abordagem somente posterga o tratamento do problema, visto que transforma o debate de porque o mal existe no universo de Deus para porque Deus criou um universo com o potencial para tão grande mal. Segundo, os cristãos afirmam que Deus é onisciente, de forma que Ele não criou o universo e a humanidade apenas estando ciente de que eles tinham o potencial para se tornarem maus; antes, Ele sabia com certeza que eles se tornariam maus. Assim, seja diretamente ou indiretamente, Deus criou o mal. [2]
Nós podemos distinguir entre mal natural e mal moral — mal natural inclui desastres naturais tais como terremotos e enchentes, enquanto que o mal moral refere‐se às ações ímpias que as criaturas racionais cometem. Agora, mesmo se a defesa do livre‐arbítrio fornecer uma explanação satisfatória para o mal moral, ela falha em tratar adequadamente o mal natural. Alguns cristãos podem reivindicar que é o mal moral que leva ao mal natural; contudo, somente Deus tem o poder para criar uma relação entre os dois, visto que os terremotos e as enchentes não têm relações necessárias com os assassinatos e roubos, a menos que Deus o faça — isto é, a menos que Deus decida causar terremotos e enchentes por causa dos assassinatos e roubos cometidos pelas Suas criaturas. Assim, Deus novamente parece ser a causa última do mal, seja natural ou moral.
Mesmo se o pecado de Adão tivesse trazido morte e decadência, não somente à humanidade, mas também aos animais, a Escritura insiste que nenhum pardal pode morrer aparte da vontade de Deus (Mateus 10:29). Isto é, se há qualquer relação entre o mal moral e o mal natural, a relação não é inerente (como se algo fosse inerente aparte da vontade de Deus), mas, antes, é soberanamente imposta por Deus. Mesmo o aparentemente insignificante não pode ocorrer sem, não meramente a permissão, a vontade ativa e o decreto de Deus. Os cristãos não são deístas — nós não cremos que este universo funciona por uma série de leis naturais que são independentes de Deus. A Bíblia nos mostra que Deus está agora ativamente administrando o universo, de forma que nada pode acontecer ou continuar a existir aparte do poder ativo e do decreto de Deus (Colossenses 1:17; Hebreus 1:3). Se devemos usar o termo de alguma forma, o que chamamos “leis naturais” são somente descrições de como Deus age regularmente, embora Ele não esteja, de forma alguma, obrigado a agir dessa maneira.
Os cristãos devem rejeitar a defesa do livre‐arbítrio simplesmente porque a Escritura rejeita o livre‐arbítrio; antes, a Escritura ensina que Deus é o único que possui livre‐arbítrio. Ele diz em Isaías 46:10, “O meu conselho subsistirá, e farei toda a minha vontade”. Por outro lado, a vontade do homem é sempre escrava, ou do pecado ou da justiça: “Mas graças a Deus que, embora tendo sido escravos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E libertos do pecado, fostes feitos escravos da justiça” (Romanos 6:17‐18). O livre‐arbítrio não existe — ele é um conceito assumido por muitos cristãos professos sem uma garantia bíblica.
Outra suposição popular é que a capacidade moral é o pré‐requisito de responsabilidade moral. Em outras palavras, a suposição é que, se uma pessoa é incapaz de obedecer às leis de Deus, então, ela não pode ser moralmente responsável de responder a estas leis, e, portanto, Deus não poderia e não os puniria por desobedecer estas leis. Contudo, assim como a suposição de que o homem tem livre‐arbítrio, esta suposição de que a responsabilidade moral pressupõe a capacidade moral é também anti‐ bíblica e injustificável.
Com referência aos incrédulos, Paulo escreve, “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser” (Romanos 8:7). Se é verdade que a responsabilidade moral pressupõe a capacidade moral, e Paulo declara que o pecador carece desta capacidade, então, segue‐se que nenhum pecador é responsável por seus pecados. Isto é, se um pecador é apenas um pecador, se ele tem a capacidade de obedecer, mas se recusa a obedecer, e, visto que Paulo diz que o pecador realmente carece da capacidade para obedecer, então, segue‐se que um pecador não é um pecador. Contudo, isto é uma contradição, e é uma contradição que a Bíblia nunca ensina.
A Bíblia ensina que o não‐cristão é um pecador, e ao mesmo tempo ensina que ele carece da capacidade para obedecer a Deus. Isto significa que o homem é moralmente responsável, mesmo se lhe falta a capacidade moral; isto é, o homem deve obedecer a Deus mesmo se ele não o pode fazer. É pecaminoso para uma pessoa o desobedecer a Deus, tenha ele ou não a capacidade para agir de outra forma. Assim, a responsabilidade moral não é baseada na capacidade moral ou no livre‐arbítrio; antes, a responsabilidade moral é baseada na soberania de Deus — o homem deve obedecer aos mandamentos de Deus porque Deus diz que o homem deve obedecer, e se ele tem ou não a capacidade para obedecer, é irrelevante.
Em primeiro lugar, o livre‐arbítrio é logicamente impossível. Se descrevermos o exercício do livre‐arbítrio como um movimento da mente em certa direção, a questão que se levanta é: o que move a mente e por que ele move a mente para onde ela é movida? Responder que o “eu” move a mente não responde a pergunta, visto que a mente é o eu, e, portanto, a mesma pergunta permanece.
Por que a mente se move numa direção ao invés de outra? Se pudermos traçar a causa de seus movimentos e direção aos fatores externos à própria mente, fatores que, eles mesmos, influenciam a consciência, e dessa forma, influenciam e determinam a decisão, então, como este movimento da mente é livre? Se pudermos traçar a causa às disposições inatas de uma pessoa, então, este movimento da vontade não é livre ainda, visto que, embora estas disposições inatas influenciem decisivamente a decisão, a própria pessoa não escolheu livremente estas disposições inatas em primeiro lugar.
O mesmo problema permanece se dissermos que as decisões de uma pessoa são determinadas por uma mistura de suas disposições inatas com as influências externas. Se a mente toma decisões baseadas em fatores não escolhidos pela mente, então, estas escolhas nunca são livres no sentido em que elas são feitas aparte do controle soberano de Deus — elas não são feitas livres de Deus. A Escritura ensina que Deus não somente exerce controle imediato sobre a mente do homem, mas Deus também determina absolutamente todas as disposições inatas e os fatores externos relacionados com a vontade do homem. É Deus quem forma uma pessoa no ventre, e é Ele quem arranja as circunstâncias externas pela Sua providência.
Portanto, embora possamos afirmar que o homem tem uma vontade como uma função da mente, de forma que a mente faz escolhas, estas nunca são escolhas livres, porque tudo o que tem a ver com cada decisão foi determinado por Deus. Visto que a vontade nunca é livre, nunca deveríamos usar a teodicéia do livre‐arbítrio quando tratando do problema do mal.
A SOBERANIA DE DEUS
Muitos cristãos professos se sentem desconfortáveis com o ensino bíblico de que o homem não tem livre‐arbítrio, visto que o mesmo parece fazer Deus “responsável” pela existência e continuação do mal. Assim, nesta seção, providenciaremos uma breve exposição do que a Escritura ensina sobre o assunto, mostrando que afirmar a Escritura é rejeitar o livre‐ arbítrio.
A Escritura ensina que a vontade de Deus determina todas as coisas. Nada existe ou acontece sem Deus, não meramente permitindo, mas ativamente desejando que exista ou aconteça:
Eu anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; Eu digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade (Isaías 46:10).
Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai (Mateus 10:29).
Deus controla não somente os eventos naturais, mas Ele controla também todos os assuntos e decisões humanas:
Bem‐aventurado aquele a quem tu escolhes, e fazes chegar a ti, para que habite em teus átrios; nós seremos fartos da bondade da tua casa e do teu santo templo (Salmos 65:4).
O SENHOR fez tudo para seus próprios fins; sim, até o ímpio para o dia do mal (Provérbios 16:4).
O coração do homem planeja o seu caminho, mas o SENHOR determina os seus passos (Provérbios 16:9)
Os passos do homem são dirigidos pelo SENHOR; como, pois, entenderá o homem o seu caminho? (Provérbios 20:24).
Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR; Ele o inclina a todo o seu querer (Provérbios 21:1)
Visto que os seus dias estão determinados; tu tens decretado o número dos seus meses; e tu lhe puseste limites, e não passará além deles (Jó 14:5).
E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes? (Daniel 4:35).
Antes se despediu deles, e prometeu: Se Deus quiser, outra vez voltarei a vós. E navegou de Éfeso (Atos 18:21)
Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade (Filipenses 2:13).
Eia agora vós, que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; Digo‐vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo (Tiago 4:13‐15)
Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas (Apocalipse 4:11)
Se Deus realmente determina todos os eventos naturais e assuntos humanos, então, segue‐se que Ele também decretou a existência do mal. Isto é o que a Bíblia explicitamente ensina:
E disse‐lhe o SENHOR: Quem fez a boca do homem? ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o SENHOR? (Êxodo 4:11).
Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande? Porventura da boca do Altíssimo não sai tanto o mal como o bem? (Lamentações 3:37‐38).
Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas (Isaías 45:7).
Tocar‐se‐á a trombeta na cidade, e o povo não estremecerá? Sucederá algum mal na cidade, sem que o SENHOR o tenha feito? (Amós 3:6).
O maior ato de maldade e injustiça moral na história humana é dito ter sido ativamente executado por Deus através dos Seus agentes secundários:
Todavia, foi da vontade do SENHOR esmagá‐lo, fazendo‐o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e a vontade do SENHOR prosperará na sua mão (Isaías 53:10)
Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer (Atos 4:27‐28).
Em todo caso, Deus decretou a morte de Cristo por uma boa razão, a saber, a redenção dos Seus eleitos. Da mesma forma, Seu decreto para a existência do mal é para um propósito digno de Sua glória. Os eleitos e os réprobos são ambos criados para esta razão:
Direi ao norte: Dá; e ao sul: Não retenhas. Trazei meus filhos de longe e minhas filhas das extremidades da terra — a todo aquele que é chamado pelo meu nome, e que criei para minha glória, e que formei e fiz. (Isaías 43:6‐7).
Nele, digo, em quem também fomos escolhidos, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade; Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo (Efésios 1:11‐12).
E eu endurecerei o coração de Faraó, para que os persiga, e serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, e saberão os egípcios que eu sou o SENHOR... (Êxodo 14:4)
Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra... E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou (Romanos 9:17, 22‐23).
Baseados nas passagens acima, chegamos à seguinte conclusão: Deus controla tudo o que existe e tudo o que acontece. Não há nada que aconteça que Ele não tenha ativamente decretado — nem mesmo um simples pensamento na mente do homem. Visto que isto é verdadeiro, segue‐se que Deus decretou a existência do mal; Ele não o permitiu meramente, como se algo pudesse se originar e acontecer aparte de Sua vontade e do Seu poder. Visto que temos mostrado que nenhuma criatura pode fazer decisões completamente independentes, o mal nunca poderia ter começado sem o decreto ativo de Deus, e não poderia continuar nem por um momento aparte da vontade de Deus. Deus decretou o mal, no final das contas, para a Sua própria glória, embora não seja necessário conhecer ou declarar esta razão para defender o Cristianismo do problema do mal.
Todavia, aqueles que vêem que é completamente impossível desassociar Deus da origem e continuação do mal, tentam distanciar Deus do mal dizendo que Deus meramente “permitiu” o mal, e que Ele não causou nada dele. Contudo, visto que a própria Escritura declara que Deus ativamente decretou tudo, e que nada pode acontecer aparte da Sua vontade e do Seu poder, não faz sentido dizer que Ele meramente permite algo — nada acontece por mera permissão de Deus.
Visto que “nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17:28), num nível metafísico, é absolutamente impossível fazer algo em independência de Deus. Sem Ele, uma pessoa não pode nem mesmo pensar ou se mover. Como, então, o mal pode ser tramado e cometido em total independência dEle? Como alguém pode ao menos pensar o mal, aparte da vontade e do propósito de Deus? Ao invés de tentar “proteger” Deus de algo que Ele não precisa ser protegido, deveríamos reconhecer alegremente com a Bíblia que Deus decretou ativamente o mal, e então, tratar com o assunto sobre esta base.
O censo de Israel realizado por Davi fornece um exemplo do mal decretado por Deus e realizado através dos agentes secundários:
E a ira do SENHOR se tornou a acender contra Israel; e incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, numera a Israel e a Judá (2 Samuel 24:1).
Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar Israel (1 Crônicas 21:1).
Os dois versos referem‐se ao mesmo incidente. Não há contradição se a visão que está aqui sendo apresentada é verdadeira. Deus decretou que Davi pecaria fazendo o censo, mas Ele fez com que Satanás realizasse a tentação como um agente secundário. [3] Mais tarde, Deus puniu Davi por cometer este pecado:
E pesou o coração de Davi, depois de haver numerado o povo; e disse Davi ao SENHOR: Muito pequei no que fiz; porém agora ó SENHOR, peço‐te que perdoes a iniqüidade do teu servo; porque tenho procedido mui loucamente. Levantando‐se, pois, Davi pela manhã, veio a palavra do SENHOR ao profeta Gade, vidente de Davi, dizendo: Vai, e dize a Davi: Assim diz o SENHOR: Três coisas te ofereço; escolhe uma delas, para que ta faça. Foi, pois, Gade a Davi, e fez‐lho saber; e disse‐lhe: Queres que sete anos de fome te venham à tua terra; ou que por três meses fujas de teus inimigos, e eles te persigam; ou que por três dias haja peste na tua terra? Delibera agora, e vê que resposta hei de dar ao que me enviou. Então disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias; mas nas mãos dos homens não caia eu (2 Samuel 24:10‐14).
Embora o mal do qual estamos falando seja deveras negativo, o fim último, que é a glória de Deus, é positivo. Deus é o único que possui dignidade intrínseca, e se Ele decide que a existência do mal irá servir, no final das contas, para glorificá‐lo, então, o decreto é, por definição, bom e justificável. Alguém que pensa que a glória de Deus não é digna da morte e sofrimento de bilhões de pessoas tem uma opinião muito alta de si mesmo e da humanidade. A dignidade de uma pessoa pode ser derivada somente do Seu criador ou lhe dada por Ele, e à luz do propósito para o qual o Criador lhe fez. Visto que Deus é o único padrão de medida, se Ele pensa que algo é justificável, então, este é, por definição, justificável. Os cristãos não deveriam ter problemas em afirmar tudo isto, e aqueles que acham difícil aceitar o que a Escritura explicitamente ensina, deveriam reconsiderar seu compromisso espiritual, para ver se eles estão verdadeiramente na fé.
Muitas pessoas contestarão o direito e a justiça de Deus em decretar a existência do mal para a Sua própria glória e propósito. Ao discutir a divina eleição, na qual Deus escolhe alguns para salvação e condena todos os outros, Paulo antecipa uma objeção similar, e escreve:
Dir‐me‐ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? (Romanos 9:19‐21)
Efetivamente, Paulo está dizendo, “Certamente o Criador tem o direito de fazer o que Ele quiser com as Suas criaturas. E, em primeiro lugar, quem é você para fazer tal objeção?” Alguns objetam que o homem é maior do que um “pedaço de barro”; eu até mesmo já vi um escritor cristão professo fazer esta fútil objeção. Primeiro, esta é uma analogia bíblica, e um cristão verdadeiro não irá contestá‐la. Mas se alguém contestá‐la, então, o debate se torna um sobre a infabilidade bíblica, que deve ser resolvido primeiro, antes de se retornar a esta analogia. Visto que eu tenho estabelecido a infabilidade bíblica em outro lugar, a negação da infabilidade bíblica não é uma opção aqui. Segundo, se um homem é mais do que um pedaço de barro, então, Deus também é algo mais do que um oleiro — Ele é infinitamente maior do que um oleiro. A analogia é apropriada quando entendemo‐la dizer o que ela significa, isto é, Deus como Criador tem o direito de fazer o que Ele quiser com as Suas criaturas. “Portanto, Deus tem misericórdia de quem quer, e a quem quer endurece” (Romanos 9:18).
Para uma pessoa ter dificuldade em aceitar que Deus decretou a existência do mal implica que ele encontra algo “errado” em Deus fazer tal decreto. Contudo, qual é o padrão de certo e errado pelo qual esta pessoa julga as ações de Deus? Se há um padrão moral superior a Deus, ao qual o próprio Deus é responsável, e pelo qual o próprio Deus é julgado, então, este “Deus” não é Deus de forma alguma; antes, este padrão maior seria Deus. Contudo, o conceito cristão de Deus refere‐se ao mais alto ser e padrão, assim, não há, por definição, nenhum mais alto. Em outras palavras, se há algo mais alto do que o “Deus” que uma pessoa está argumentando contra, então, esta pessoa não está realmente se referindo ao Deus cristão. Visto que este é o caso, não há padrão mais alto do que Deus, ao qual o próprio Deus seja responsável e pelo qual o próprio Deus seja julgado. Portanto, é logicamente impossível acusar Deus de fazer algo moralmente errado.
Jesus diz que somente Deus é bom (Lucas 18:19), de forma que toda “bondade” em outras coisas pode ser somente derivada. A natureza de Deus define a própria bondade, e visto que nEle “não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17), Ele é o único e constante padrão de bondade. Não importa quão moral eu seja, ninguém pode me considerar o padrão objetivo de bondade, visto que a palavra “moral” não tem sentido, a menos que seja usada com relação ao caráter de Deus. Isto é, quão “moral” uma pessoa é refere‐se ao grau de conformidade de seu caráter com o caráter de Deus. Ao grau em que uma pessoa pensa e age de acordo com natureza e os mandamentos de Deus, ele é moral. Diferentemente, não há diferença moral entre altruísmo e egoísmo; virtude e vício são conceitos sem significados; estrupo e assassinato não são crimes, mas eventos amorais.
Contudo, visto que Deus chama a Si mesmo de bom, e visto que Deus definiu a bondade para nós revelando Sua natureza e bondade, o mal é, dessa forma, definido como algo que é contrário à Sua natureza e aos Seus mandamentos. Visto que Deus é bom, e visto que Ele é a única definição de bondade, é bom também que Ele tenha decretado a existência do mal. Não há padrão de bom e mal pelo qual possamos denunciar Seu decreto como errado ou mal. Não estamos afirmando que o mal é bom — o que seria uma contradição — mas, estamos dizendo que o decreto de Deus para a existência do mal é bom.
Hebreus 6:13 diz, “Quando Deus fez a promessa a Abraão, como não tinha outro maior por quem jurasse, jurou por si mesmo”. Em outras palavras, não há ninguém a quem Deus precise prestar contas, e não há corte a qual alguém possa arrastá‐lo para lançar acusações contra Ele. Ninguém julga Deus; antes, toda pessoa é julgada por Ele. Outras passagens bíblicas relevantes incluem as seguintes:
Se quiser contender com ele, nem a uma de mil coisas lhe poderá responder. Ele é sábio de coração, e forte em poder; quem se endureceu contra ele, e teve paz? Ele é o que remove os montes, sem que o saibam, e o que os transtorna no seu furor. O que sacode a terra do seu lugar, e as suas colunas estremecem. O que fala ao sol, e ele não nasce, e sela as estrelas. O que sozinho estende os céus, e anda sobre os altos do mar. O que fez a Ursa, o Órion, e o Sete‐estrelo, e as recâmaras do sul. O que faz coisas grandes e inescrutáveis; e maravilhas sem número. Eis que ele passa por diante de mim, e não o vejo; e torna a passar perante mim, e não o sinto. Eis que arrebata a presa; quem lha fará restituir? Quem lhe dirá: Que é o que fazes? (Jó 9:3‐12).
Porventura o contender contra o Todo‐Poderoso é sabedoria? Quem argüi assim a Deus, responda por isso. Então Jó respondeu ao SENHOR, dizendo: Eis que sou vil; que te responderia eu? A minha mão ponho à boca. Uma vez tenho falado, e não replicarei; ou ainda duas vezes, porém não prosseguirei. Então o SENHOR respondeu a Jó de um redemoinho, dizendo:
Cinge agora os teus lombos como homem; eu te perguntarei, e tu me explicarás. Cinge agora os teus lombos como homem; eu te perguntarei, e tu me explicarás (Jó 40:2‐8).
Ai daquele que contende com o seu Criador! o caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? ou a tua obra: Não tens mãos? Ai daquele que diz ao pai: Que é o que geras? E à mulher: Que dás tu à luz? Assim diz o SENHOR, o Santo de Israel, aquele que o formou: Perguntai‐me as coisas futuras; demandai‐me acerca de meus filhos, e acerca da obra das minhas mãos (Isaías 45:9‐11).
Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Porque, quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém (Romanos 11:33‐36).
Visto que derivamos nosso próprio conceito e definição de bondade à partir de Deus, acusá‐lo de maldade seria como dizer que o bom é mal, o que é uma contradição.
A SOLUÇÃO
Tendo demolido a popular, porém irracional e anti‐bíblica, defesa do livre‐ arbítrio, examinaremos agora a resposta bíblica ao problema do mal.
Repitamos primeiro o argumento dos incrédulos:
1. O Deus cristão é todo‐poderoso e todo‐amoroso.
2. Se Ele é todo‐poderoso, então Ele é capaz de acabar com todo mal.
3. Se Ele é todo‐amoroso, então Ele deseja acabar com todo mal.
4. Mas o mal ainda existe.
5. Portanto, o Deus cristão não existe. [4]
O argumento encontra um obstáculo insuperável quando chegamos na premissa (3), a saber, o não‐cristão não pode encontrar uma definição de amor que sustente esta premissa sem destruir o argumento. Isto é, por qual definição de amor sabemos que um Deus todo‐amoroso desejaria destruir o mal? Ou, por qual definição de amor sabemos que um Deus todo‐ amoroso já teria destruído o mal?
Se esta definição de amor vem de fora da Bíblia, então, por que a cosmovisão bíblica tem que respondê‐la? Formar um argumento usando uma definição não‐bíblica de amor seria fazer o argumento irrelevante como um desafio ao Cristianismo. Por outro lado, se tomamos a definição de amor da Bíblia, então, aquele que usa este argumento deve mostrar que a própria Bíblia define amor de uma forma que requer um Deus todo‐ amoroso destruir o mal, ou já ter destruído o mal. A menos que o não‐ cristão possa defender com sucesso a premissa (3), o argumento do problema do mal falha antes mesmo de terminarmos de lê‐lo.
Agora, se o não‐cristão usa uma definição não‐bíblica de amor na premissa
(1) , então, o argumento é uma falácia enganadora desde o início. Mas se o não‐cristão usa a definição bíblica de amor na premissa (1), e então substitui por uma definição não‐bíblica de amor na premissa (3), então, ele comete a falácia do equívoco. Se é assim, então o máximo que seu argumento pode fazer é apontar que ele tem uma definição não‐bíblica de amor, mas seria completamente irrelevante como um desafio ao Cristianismo.
Por outro lado, se ele tenta usar a definição bíblica de amor, então, para seu argumento ser relevante, a própria Escritura teria que definir amor de uma maneira que requeira Deus destruir o mal, ou já ter destruído o mal. Contudo, embora a Escritura ensine que Deus é amoroso, ela também ensina que existe mal no mundo, e que este mal está, no final das contas, debaixo do controle completo e soberano de Deus. Portanto, a própria Escritura nega que haja qualquer relação entre o amor de Deus e a existência do mal.
Para o argumento do problema do mal permanecer, o não‐cristão deve estabelecer a premissa, “O amor de Deus contradiz a existência do mal”, ou algo com este efeito. Mas a própria Escritura não afirma esta premissa, e se o não‐cristão tentar argumentar esta premissa com definições de amor e mal encontradas em sua própria cosmovisão não‐bíblica, então, tudo que ele consegue é mostrar que a cosmovisão bíblica é diferente da cosmovisão não‐bíblica. Nós já sabemos isto, mas, o que acontece com o problema do mal? O não‐cristão aponta para o ensino escriturístico sobre o amor de Deus, então, contrabandeia uma definição não‐bíblica de amor que requer que Deus destrua o mal, e depois disto, estupidamente se vanglória da “contradição” que ele produziu.
Se uma pessoa quer desafiar a Bíblia ou sustentar a Bíblia por causa do que ela diz, então ela deve primeiro definir os próprios termos dela; de outra forma, ele pode somente desafiar o que a Bíblia não diz, o que faz a objeção irrelevante. O não‐cristão deve demonstrar porque o amor de Deus necessariamente implica que Ele deve ou que Ele deseje destruir o mal, ou que ele necessariamente implica que Ele deveria ou que Ele desejaria ter já destruído o mal.
Responder algo como, “Porque um Deus amoroso desejaria aliviar o sofrimento”, não ajudaria em nada, visto que esta resposta apenas declara novamente a premissa em diferentes palavras, de forma que a mesma pergunta permanece. Por que um Deus amoroso deseja aliviar o sofrimento? Em primeiro lugar, como alguém define o sofrimento? Se o não‐cristão não pode definir amor ou sofrimento, ou se ele não pode logicamente impor suas definições sobre o cristão, então sua premissa equivale a dizer que um Deus com um atributo indefinido X deve desejar destruir ou ter destruído um Y indefinido. Mas se ele não pode definir nem X e nem Y, então, ele não tem premissa inteligível sobre a qual construir um argumento inteligível contra o Cristianismo.
Outro tipo de resposta pode dizer, “Porque Deus queria triunfar sobre o mal”. Novamente, qual é a definição de “triunfar”? Se o próprio Deus é a causa última do mal, e se Deus exerce total e constante controle sobre ele, então, em que sentido Ele estaria “perdendo” do mal? Assim, seja o que for que um não‐cristão diga, ele encontra o mesmo problema, e é impossível para ele estabelecer que o amor de Deus contradiz a existência do mal.
Antes, visto que a Bíblia ensina tanto sobre o amor de Deus como sobre a realidade do sofrimento, é legítimo concluir que, da perspectiva bíblica, o amor de Deus não implica necessariamente que Ele deva destruir o mal, ou que Ele deveria já o ter destruído. Certamente, isto não pode ser assim à partir de uma perspectiva não‐bíblica, mas novamente, isto somente mostra que a cosmovisão bíblica diverge das cosmovisões não‐bíblicas, o que já sabemos, e que é a razão do debate. Mas o não‐cristão ainda não nos deu uma objeção real e inteligível.
Enquanto o não‐cristão falhar em estabelecer a premissa (3), que o amor de Deus contradiz a existência do mal, o cristão não está sob a obrigação de tomar seriamente o problema do mal como um argumento contra o Cristianismo. De fato, visto que o não‐cristão falha em definir alguns dos termos‐chave, ninguém pode logicamente sequer entender o argumento — não há argumento, e não há real objeção à resposta.
Se pararmos aqui, já teremos refutado o assim chamado problema do mal, tendo mostrado que não há tal problema de maneira alguma. Contudo, apenas para a discussão continuar, aceitaremos a premissa por ora; isto é, por causa do argumento, assumiremos que o amor de Deus, de alguma forma, contradiz a existência do mal, enquanto guardamos em mente que isto é algo que a Escritura nunca ensina, e que os não‐cristãos nunca estabeleceram.
Agora, os não‐cristãos argumentam que, dado a existência existência do mal, o Deus cristão não pode logicamente existir. Em resposta, já mostramos que o não‐cristão não pode estabelecer a premissa de que um Deus todo‐amoroso deve necessariamente destruir ou desejar destruir o mal.
Tendo dito isto, procedemos agora para apontar que as premissas do argumento não levam necessariamente à conclusão do não‐cristão em primeiro lugar; antes, muitas conclusões diferentes são possíveis:
1. O Deus cristão é todo‐poderoso e todo‐amoroso.
2. Se Ele é todo‐poderoso, então Ele é capaz de acabar com todo mal.
3. Se Ele é todo‐amoroso, então Ele deseja acabar com todo mal.
4. Mas o mal ainda existe.
5. Portanto, Deus tem um bom propósito para o mal.
1. O Deus cristão é todo‐poderoso e todo‐amoroso.
2. Se Ele é todo‐poderoso, então Ele é capaz de acabar com todo mal.
3. Se Ele é todo‐amoroso, então Ele deseja acabar com todo mal.
4. Mas o mal ainda existe.
5. Portanto, Deus eventualmente destruirá o mal.
Sem declarar imediatamente se pensamos que os argumentos acima são validos ou inválidos, o ponto é que num argumento válido, as premissas devem necessária e inevitavelmente conduzir à conclusão. Contudo, no argumento do problema do mal, as premissas, de forma alguma, conduz necessária e inevitavelmente à conclusão. Portanto, o argumento do problema do mal é inválido.
Ao invés de usar a realidade do mal para negar a existência de Deus, as duas versões revisadas acima chegam a duas conclusões diferentes. Novamente, eu não disse se estas duas versões revisadas são bons argumentos, e não disse que as premissas necessária e inevitavelmente levam a estas duas conclusões; antes, tudo que estou tentando mostrar é que as premissas não levam necessária e inevitavelmente à conclusão do não‐cristão, e isto é suficiente para mostrar que seu argumento é inválido.
Alguns não‐cristãos dizem que se os cristãos reivindicam que Deus tem um bom propósito para o mal, então os cristãos devem também declarar e defender este propósito. Contudo, os não‐cristãos nunca foram capazes de mostrar o porque os cristãos devem declarar e defender este propósito. O debate é sobre se as premissas dadas levam, necessária e inevitavelmente, à conclusão do não‐cristão. Se há ou não um bom propósito para o mal, e se os cristãos podem ou não declarar e defender este propósito, é completamente irrelevante. A Escritura deveras explica pelo menos uma parte do propósito de Deus para o mal, mas novamente, ele não é logicamente necessário ou relevante para o debate.
Há mais. Agora, o não‐cristão argumenta que Deus não existe porque o mal existe, e através desde ponto já refutamos o argumento. Contudo, podemos adicionar que a existência do Deu cristão é, de fato, o pré‐ requisito lógico para a existência do mal. Isto é, o mal não tem sentido e é indefinido sem um padrão objetivo e absoluto de certo e errado, de bom e mal, e este padrão pode ser somente o Deus cristão.
Quando o não‐cristão afirma que o mal existe, o que ele quer dizer por “mal”? Ele pode estar se referindo a avareza, ódio, assassinato, estrupo, terremoto, enchentes e coisas semelhantes. Contudo, sobre que base e por qual padrão ele pode chamar estas coisas de males? Ele chama estas coisas de males simplesmente porque ele as desaprova? Qualquer definição ou padrão de mal que ele dê sem apelar ao Deus cristão e a Escritura cristã não serão bem‐sucedidos e será facilmente desmoronado.
Por exemplo, se o não‐cristão reivindica que o assassinato é errado porque ele viola o direito à vida da vítima, precisamos somente perguntar porque a vítima tem algum direito à vida. Quem lhe deu este assim chamado direito? O não‐cristão? Quem disse que há algo como um direito, em primeiro lugar? Os não‐cristãos tentam muitos argumentos, mas todos eles têm sido expostos como tolos e injustificáveis. [5]
Por outro lado, o cristão afirma que o assassinato é errado, imoral e mal, porque Deus proíbe o assassinato: “Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado; porque Deus fez o homem conforme a sua imagem” (Gênesis 9:6); Deus explicitamente o desaprova quando Ele diz, “Não matarás” (Êxodo 20:13). É consistente com a cosmovisão cristã dizer que o assassinato é mal e que o assassino deve ser responsabilizado pelo acontecido, mas o não‐cristão nunca pode justificar a mesma reivindicação. Ele não pode nem mesmo definir autoritariamente o assassinato. [6]
O não‐cristão reivindica que o mal existe, e à partir desta base avalia o que o Cristianismo diz sobre Deus. Ele usa algo que ele reivindica ser óbvio para refutar algo que ele reivindica não ser óbvio. Contudo, a existência do mal não é óbvia, de forma alguma, a menos que haja um padrão moral absoluto, objetivo e universal, e que conheçamos de certo modo este padrão, de forma que possamos fazer avaliações com ele. Visto que o não‐ cristão falha em estabelecer tal padrão, e visto que ele falha em estabelecer como conheceremos tal padrão, suas referências ao mal são sem sentido e ininteligíveis, e seus argumentos à partir do problema do mal não têm efeito contra o Cristianismo. De fato, sobre a base de sua cosmovisão, ele nem sequer sabe o que seus próprios argumentos significam.
Se uma pessoa nega a existência de Deus, ele não tem base racional para afirmar a existência do mal; por necessidade lógica, nosso reconhecimento de Deus precede nosso reconhecimento do mal. A menos que o Deus cristão seja pressuposto de antemão, o mal continua indefinido.
Quando o não‐cristão argumenta contra o Cristianismo usando o problema do mal, ele se torna um terrorista intelectual, de forma que ele seqüestra o absoluto moral do Cristianismo no processo de argumentar contra o Cristianismo. Contudo, ele não pode se referir a qualquer mal natural ou moral sem implicitamente reconhecer um padrão pelo qual julga algo como mal. Se ele reconhece a existência do mal, então, ele deve primeiro reconhecer a existência de Deus, mas se ele já reconhece a existência de Deus, então, o argumento à partir do problema do mal não tem sentido.
Certamente, o não‐cristão não pode se render imediatamente a este ponto; antes, ele provavelmente tentará oferecer alguma definição viável do mal para recuperar seu argumento. Eu não posso providenciar as definições possíveis que ele pode tentar propor, mas eu providenciei informação suficiente aqui, de forma que qualquer pessoa pode refutar qualquer definição não‐cristã proposta. Se o cristão consistentemente demandar justificação para toda reivindicação e definição não‐cristã, ele sempre frustará de forma sucedida qualquer tentativa de construir um argumento contra o Cristianismo à partir da existência do mal. [7]
Alguns não‐cristãos têm chegado a perceber que o argumento à partir do problema do mal não é estritamente válido, de forma que, embora eles continuem desafiando o Cristianismo baseados na existência do mal, eles têm “suavizado” sua reivindicação. Isto é, eles dizem que, embora a existência do mal não contradiga logicamente a existência de Deus, a existência do mal pelo menos provê uma forte evidência contra a existência de Deus, ou a probabilidade da existência de Deus. Assim, ao invés de chamar sua reivindicação de um caso lógico contra a existência de Deus, eles chamam‐no de um caso evidencial contra a existência de Deus. [8]
Mas isto não tem sentido — é apenas um modo enganador de dizer que eles não tem nenhum argumento. De fato, todos os problemas que eu apontei com o caso “lógico” permanecem no caso “evidencial”. O argumento ainda falha em estabelecer que o amor de Deus contradiz a existência do mal, ou que o amor de Deus requer que Ele destrua o mal, ou já ter destruído o mal. Ele ainda falha em definir os termos cruciais. O que é amor? O que é mal? De fato, o argumento levanta questões piores ao adicionar o conceito de “evidência” ao debate, visto que agora eu demando diversas coisas adicionais: uma definição de evidência, um padrão para determinar o que constitui evidência em favor ou contra algo, um padrão para determinar a relevância e a força de qualquer evidência alegada, e uma epistemologia para descobrir as coisas que são usadas como evidência.
Junto com o caso “evidencial”, algumas pessoas incluem a reivindicação de que há muito mal “gratuito”, e que isto é evidência contra a existência de Deus. Mas novamente, o que é evidência? E quem decide o que é “gratuito”? [9] Por qual padrão de necessidade decidimos que um evento mal é desnecessário? E desnecessário para o que? E porque ele deve ser necessário em primeiro lugar? Na cosmovisão bíblica, quando Deus faz algo, isto é justificado, por definição, simplesmente porque Ele decidiu assim fazer. Assim, o não‐cristão não pode argumentar contra Cristianismo apelando aos eventos “injustificáveis”, visto que ele deve primeiro refutar o Cristianismo antes que ele possa mostrar que estes eventos são injustificáveis.
OUTRAS COSMOVISÕES
Não há razão para longas explanações ou repetições inúteis, visto que o assunto é deveras tão simples como parece ser. O argumento à partir do problema do mal, em algumas formas, é um dos argumentos mais irracionais já inventados, mas ele tem enganado e perturbado muitas pessoas por causa de seu apelo emocional. Em resposta, o cristão deve não somente neutralizar o argumento, mas ele deve tomar a posição ofensiva sobre este tópico contra o não‐cristão.
Talvez porque o problema do mal seja mais freqüentemente usado para desafiar o Cristianismo, muitas pessoas esquecem de considerar se as cosmovisões e religiões não‐cristãs têm, adequada e coerentemente, respondido à existência de mal. Os não‐cristãos fornecem uma definição autoritativa do mal? Sua definição de mal contradiz o que eles reivindicam sobre a física (mal natural) e a psicologia (mal moral)? Eles podem explicar como e porque o mal começa e continua? Eles podem sugerir uma solução para o mal, e podem garantir que esta solução será bem sucedida? Nenhuma cosmovisão, exceto a fé cristã, pode sequer começar a responder estas questões.
Da próxima vez que um não‐cristão desafiá‐lo com o problema do mal, ao invés de ser pressionado no canto, você deve ser capaz de dar uma resposta irrefutável, e então tomar a ofensiva e virar o argumento contra o não‐cristão (2 Coríntios 10:5): Eu sou capaz de mostrar que a existência do mal não contradiz o amor de Deus ou a existência de Deus. De fato, o próprio conceito de mal pressupõe a existência do Deus cristão. Este Deus decretou a existência do mal para Sua própria glória, e cada aspecto e ocorrência do mal está debaixo do Seu preciso controle, não há padrão mais alto do que Deus para julgar este decreto como errado. Um dia Ele banirá todos pecadores para os tormentos sem fim no inferno, de forma que cada ocorrência de assassinato, roubo, estrupo e até mesmo cada palavra que um homem tenha proferido, será julgada. Ele então punirá justamente todos pecadores que não creram em Cristo para salvação, mas Seus escolhidos certamente serão salvos.
Mas, como você trata com o mal? Dada sua cosmovisão, como você pode sequer ter um conceito significante e universal do mal? Como você explica sua origem e continuação? Você pode oferecer uma solução eficaz ou até mesmo segura para desmoronar o mal? Você pode apresentar as razões universalmente aplicáveis e obrigatórias contra tais coisas como genocídio e racismo? Como sua cosmovisão faz demandas morais sobre alguém que não a subscreve? Dada sua cosmovisão, há justiça final e perfeita para alguém? Se não, qual é sua solução ou explanação para isso? Como você pode definir justiça em primeiro lugar? Porque uma pessoa de outra nação ou cultura deve reconhecer seus assim chamados direitos?
Se você não pode dar respostas adequadas a estas e milhares de outras perguntas sobre a base de sua cosmovisão e comprometimentos intelectuais sem auto‐contradição, então, é evidente que a existência do mal significa a destruição de sua cosmovisão, enquanto que ela não coloca nenhuma ameaça contra a minha, de forma alguma. Você é um hipócrita se sequer mencionar o problema do mal como uma objeção ao Cristianismo”.
Embora muitas pessoas gostem de desafiar os cristãos com o problema do mal, a verdade é que o Cristianismo é a única cosmovisão na qual a existência do mal não cria um problema lógico. Todavia, muitos cristãos professos são intimidados pelos argumentos não‐cristãos. Isto é parcialmente porque eles não aprenderam as refutações lógicas a estes argumentos, mas também porque eles algumas vezes concordam com os não‐cristãos, pelo menos no nível emocional. Mas certamente, apenas porque algo causa um distúrbio emocional em algumas pessoas, não significa que cause algum desafio à própria fé cristã.
Agora, se o não‐cristão é tão perturbado sobre a existência do mal, ele pode sempre perguntar a um cristão sobre como depender de Cristo para salvação; de outra forma, ele pode se submeter a um departamento de psiquiatria, onde ele pode continuar miserável sob o cuidado profissional. Quanto aos cristãos, a Escritura fornece a solução: “Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti; porque ele confia em ti” (Isaías 26:3). Salmos 73:16‐17 diz, “Quando pensava em entender isto, foi para mim muito doloroso; até que entrei no santuário de Deus; então entendi eu o fim deles”. Somente aceitando a cosmovisão cristã uma pessoa pode chegar a uma posição racional sobre a existência do mal, e somente entrando no “santuário de Deus” o assunto pode parar de ser “opressivo”. Somente aqueles que são trazidos para perto de Deus podem entender suficientemente a realidade do mal e reter a estabilidade emocional. A fé cristã é verdadeira e é o único caminho para Deus e a salvação. Ela é imune aos ataques intelectuais. Ela não pode ser desafiada com sucesso, mas somente estudada e obedecida.
NOTAS:
1 ‐ Às vezes o argumento inclui o fato de que os cristãos afirmam que Deus é também onisciente (conhece tudo) — se Deus conhece tudo, então, Ele sabe como destruir o mal. [voltar]
2 ‐ A doutrina do “livre‐arbítrio” é anti‐bíblica e herética, e alguns têm seguido a doutrina até o seu próximo passo lógico, ao dizer que se o homem é verdadeiramente livre, então Deus não pode realmente saber com certeza o que o homem fará, negando dessa forma a onisciência de Deus. Contudo, ainda assim, Deus saberia que é possível para o livre‐ arbítrio produzir males extremos e horrendos, de forma que o mesmo problema permanece.
3 ‐ O próprio Satanás é uma criatura, e, portanto, não tem livre‐arbítrio. Todas suas ações e decisões são controladas por Deus. [voltar]
4 ‐ Certamente, pessoas diferentes podem apresentar formulações diferentes do problema do mal, mas minha refutação se aplicará a todas elas. [voltar]
5 ‐ Para mais informações, vejam meus escritos sobre apologéticas e éticas. [voltar]
6 ‐ Por exemplo, o não‐cristão nunca justifica, ao definir o assassinato, a inclusão da matança de humanos mas a exclusão da matança de bactérias. Certamente, alguns advogados dos direitos dos animais consideram assassinato o massacrar animais, mas não bactérias; contudo, eles nunca justificam a inclusão dos animais ou a exclusão das bactérias. [voltar]
7 ‐ O argumento se tornará, no final das contas, um amplo debate pressuposicional. Para mais informação sobre isto, veja meu livro Presuppositional Confrontations. [voltar]
8 ‐ Algumas pessoas usam diferentes termos para fazer esta mesma distinção. [voltar]
9 ‐ Sobre este ponto, até mesmo alguns filósofos profissionais inclinam‐se a um apelo à opinião popular. Isto é, eles reivindicam que “todo mundo” sabe que certas coisas são más, e que certas coisas são males gratuitos. Em outro contexto, estes mesmos filósofos criticariam tal apelo à opinião popular para estabelecer uma premissa essencial — que eles se utilizam desta tática aqui, me mostra que eles são estúpidos e desesperados. A resposta mais óbvia é que é falacioso pensar que algo é verdadeiro apenas porque muitos ou mesmo a maioria das pessoas pensam que seja verdadeiro.
Alguns filósofos argumentam que se a maioria das pessoas pensa que há males gratuitos, então, o peso da prova cai sobre o cristão, para o mesmo mostrar que não há males gratuitos. Embora eu discorde que o peso da prova caia sobre mim simplesmente porque eu nego a opinião popular, mesmo se caísse, eu tenho mostrado que qualquer mal que Deus decrete é justificável por definição, de forma que o peso da prova retorna ao não‐ cristão, que deve refutar este ponto particular ou refutar o Cristianismo como um todo, e então o foco do debate de torna um pressuposicional (veja meu livro Presuppositional Confrontations).
Além do mais, mesmo que o apelo à opinião popular fosse legítimo (embora eu negue isto), eu demando provas de que realmente a opinião popular seja a de que existem males gratuitos. Como o não‐cristão pode estabelecer esta reivindicação? Mesmo se ele pudesse realizar uma pesquisa empírica global, eu já refutei o empirismo em outro lugar. Se ele não pode fazer isto, então ele deve mostrar também que, desde a origem da humanidade, tem sido a opinião popular que há males gratuitos. Ele deve provar também que esta continuará a ser a opinião popular em todas as gerações futuras. Se ele falha em fazer isto, então, eu não tenho razão para aceitar sua reivindicação de que “todo mundo sabe” que existe o mal ou o mal gratuito. Ele pensa que “todo mundo sabe”, mas ele não sabe que “todo mundo sabe”; esta é sua opinião pessoal sobre a opinião popular.
Nota sobre o autor: Vincent Cheung é o presidente da Reformation Ministries International [Ministério Reformado Internacional]. Ele é o autor de mais de vinte livros e centenas de palestras sobre uma vasta gama de tópicos na teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmovisão bíblica como um sistema de pensamento compreensivo e coerente, revelado por Deus na Escritura. Ele e sua esposa, Denise, residem em Boston, Massachusetts.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto Cuiabá‐MT, 19 de Fevereiro de 2005.
http://www.monergismo.com/
Estudo realizado na Igreja PorTuaCasa, ano 2017.
Pr Ronaldo José Vicente
[1] Retirado do site: http://www.arminianismo.com/index.php/categorias/diversos/artigos/60-esdras-costa-bentho/98-esdras-costa-bentho-os-decretos-divinos-e-a-origem-do-mal
[3] Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto felipe@monergismo.com
Cuiabá-MT, 01 de Setembro de 2005 Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9). www.monergismo.com
[4] Fonte: Soberania Banida, R. K. McGregor Wright, Cultura Cristã, páginas 210-213. Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9) www.monergismo.com




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