Eleição Condicional - Arminianismo Clássico



Segue a aula em audio: 



A visão arminiana da eleição

Visto que seguimos o princípio Sola Scriptura, cremos, como arminianos, na doutrina da eleição, haja vista que, somos eleitos segundo a presciência de Deus Pai” (1 Pe 1.2). Obviamente que, não da mesma forma como os calvinistas, os quais pudemos ver, creem que Deus elegeu pessoalmente cada indivíduo que será salvo ou condenado.
O arminianismo não nega a doutrina da predestinação, apenas a interpreta de forma diferente. Enquanto o entendimento calvinista parte da escolha pessoal de Deus, em nosso sistema, cremos numa eleição corporativa, ou seja, de que Deus não escolheu as pessoas, mas a Igreja. Não os israelitas, mas Israel. Não os salvos, mas a salvação. Não os redimidos, mas a redenção.
A predestinação foi definida por Armínio como o “decreto eterno e gracioso de Deus em Cristo, pelo qual ele determina justificar e adotar crentes, e os dotar com vida eterna, mas condenar os descrentes e impenitentes.” Contudo, “tal decreto, (...) não é que Deus resolve salvar certas pessoas e, para que Ele possa fazer isso, resolve dota-las com fé, mas que, para condenar outros, ele não os dota com fé”. O Dr. Wiley explica que, “a eleição difere da predestinação nisto, que a eleição implica uma escolha, enquanto a predestinação não”. A predestinação, por sua vez, é conceituada por Wiley como “o propósito gracioso de Deus de salvar da ruína toda a humanidade”. Em outras palavras, trata-se do plano corporativo e condicional de Deus para toda a humanidade. Ele complementa o aspecto condicional da eleição, mostrando que, os eleitos são os escolhidos, “não por decreto absoluto, mas por aceitação das condições da chamada.” 
Como vimos no primeiro artigo da remonstrância, cremos no decreto de que Deus “por um eterno e imutável plano em jesus Cristo, seu Filho, antes que fossem postos os fundamentos do mundo, determinou salvar, de entre a raça humana que tinha caído no pecado”. Todavia, esse plano de redenção é condicionado à fé daqueles que, “pela graça do Santo Espírito”, isto é, não por uma fé própria, mas gerada por Deus mediante sua graça preveniente (cf Hb 12.2), “crerem neste seu Filho e que, pela mesma graça, perseverarem na mesma fé e obediência de fé até o fim”.
Em contrapartida, a condenação faz parte do plano de Deus que deixará “sob o pecado e a ira os contumazes e descrentes, condenando-os como alheios a Cristo, segundo a palavra do Evangelho de jo 3.36 e outras passagens da Escritura.”
John Wesley classificou a eleição sob dois pontos de vista: um deles, específico, visando o cumprimento de determinado propósito de Deus e outro macro ou corporativo, como são a salvação e a condenação:



“Creio que a eleição signifique comumente uma destas duas coisas: primeiro, um chamado divino para determinados homens para que realizem uma obra especial no mundo. Creio que esta eleição não seja pessoal, mas absoluta e incondicional. Deste modo, Ciro foi eleito para reconstruir o templo, S. Paulo e os doze para pregarem o evangelho. Mas não vejo nisto qualquer conexão necessária com a felicidade [eterna]. Certamente não existe tal conexão, pois, aquele que é eleito neste sentido ainda poderá perder-se eternamente (...) Em segundo lugar, creio que esta eleição signifique um chamado divino a certos homens à felicidade eterna. Mas creio que esta eleição seja condicional tanto quanto a condenação. Creio que o decreto eterno concernente a ambas esteja expresso nestas palavras: “Aquele que crê será salvo, aquele que não crê será condenado". Sem dúvida, Deus não pode mudar e o homem não pode resistir a este decreto. De acordo com isto, todos os verdadeiros crentes são chamados eleitos nas Escrituras e os descrentes são propriamente condenados, isto é, não aprovados por Deus e sem discernimento das coisas espirituais.”[1]

Concluindo essa seção, podemos citar os teólogos metodistas Klaiber e Marquardt: “a vontade salvífica de Deus não abrange pessoas cuja reação ao Evangelho Deus sabe de antemão. Deus não predetermina, pois, para ele, o mais importante é a experiência com o caminho da salvação”[2].

Considerações finais



Cremos nos decretos eternos de Deus e que em Sua presciência predestinou o homem para a salvação, “porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29).
Cremos, coadunando e complementando o pensamento anterior, que essa eleição foi corporativa, isto é, Ele elegeu a Igreja, visto que, “nos elegeu [a Igreja] nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1.5).
E cremos que através da fé, operada no sinergismo entre a graça preveniente de Deus e o livre-arbítrio do homem, o ser humano é salvo, pois “aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a es­ tes também glorificou” (Rm 8.30).
Todavia, nossa discussão está apenas começando. Será que é possível resistir ao chamado de Deus? Será que Jesus morreu apenas pelos salvos ou pela humanidade? Será que o homem têm livre-arbítrio ou livre agência? Será que o cristão, verdadeiramente convertido, pode cair da graça? Estes serão assuntos para nossos próximos capítulos. Até lá...[3]



[1] BURTNER, Robert W.; CHILES, Robert. E. (org.). Op. Cit., pp. 51-52.
[2] KLAIBER, Walter; MARQUARDT, Manfred. Viver a Graça de Deus: um compêndio de teologia metodista. 1999, Editeo, p. 238.
[3] Retirado do livro Introdução a Teologia Armínio – Wesleyana, Vinicius Couto, Editora Reflexão, São Paulo, 2014.




Obs; Este texto é do livro "O Profeta em Israel e a Justiça Social", lançado pela editora Reflexão. Pr. Ronaldo José Vicente. (ronjvicente@gmail.com)   - Adquira o livro clicando:  http://www.editorareflexao.com.br/o-profeta-em-israel-e-a-justica-social/p/576




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