Eleição Incondicional

 


Segue a aula em audio. 




Calvinismo

Eleição Incondicional - Romanos 9:6-26

Bruce A. McDowell[1]

6 E não pensemos que a palavra de Deus haja falhado, porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas;7 nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. 8 Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa. 9 Porque a palavra da promessa é esta: Por esse tempo, virei, e Sara terá um filho. 10 E não ela somente, mas também Rebeca, ao conceber de um só, Isaque, nosso pai. 11 E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), 12 já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. 13 Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú. 14 Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! 15 Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão.16 Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. 17 Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra. 18 Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz.19 Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade? 20 Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? 21 Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?22 Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, 23 a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão, 24 os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios? 25 Assim como também diz em Oséias: Chamarei povo meu ao que não era meu povo; e amada, à que não era amada;
26 e no lugar em que se lhes disse: Vós não sois meu povo, ali mesmo serão chamados filhos do Deus vivo.

Alguns cristãos se perguntam: por que é importante entender a nossa eleição por Deus? Não deveríamos ficar satisfeitos simplesmente em saber que fomos salvos? A eleição de Deus de certas pessoas para a salvação e não outras é um ensino difícil para muitas pessoas aceitar. Elas pensam que devem ter alguma parte em determinar se são salvas ou não. Embora muitos cristãos lerão na Bíblia sobre a eleição e escolha de Deus de pessoas particulares para a salvação, os tais ignorarão ou tentarão interpretar isso de uma forma que redefina o seu significado. Não obstante a eleição de Deus ser um ensino difícil, visto que é ensinada em centenas de páginas da Bíblia, não deve ser ignorada. Ela nos dá um entendimento correto de Deus com respeito a sua misericórdia, graça e onipotência e de seu plano eterno para a nossa salvação. Ter um entendimento correto da eleição é determinante para se entender corretamente outras doutrinas relacionadas, tais como a natureza e extensão do nosso pecado, a escravidão da nossa vontade, a graça de Deus na nossa salvação e a nossa apresentação do evangelho aos perdidos.

I. Eleição Incondicional Definida


O que se quer dizer por “eleição incondicional”? 

Antes de definirmos isso, é útil entender primeiro alguns termos relacionados.

Pré-ordenação

O ensino da Escritura sobre a eleição é uma parte de uma doutrina mais ampla da soberania absoluta de Deus. Não somente nossa eleição para a salvação, mas tudo o que acontece no universo é parte do decreto eterno de Deus. Pré-ordenação é o plano soberano de Deus no qual ele decide tudo o que acontecerá no universo. Nada acontece por acaso. Deus conhece todas as coisas antes que aconteçam, e isso porque as planejou e faz acontecer. Paulo escreve: “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade...” (Ef. 1:11). Vemos no relato da vida de José como embora seus irmãos o tenham vendido para ser escravo no Egito, Deus usou isso para o bem, para salvar a eles e aos egípcios da fome. José diz aos seus irmãos: “Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como regente em toda a terra do Egito” (Gn. 45:8). Tudo está debaixo do controle de Deus. Assim, não precisamos ficar ansiosos. O salmista diz: “Mas o nosso Deus está nos céus e faz tudo o que lhe apraz” (Sl. 115:3).

Predestinação


Predestinação é uma parte da pré-ordenação no fato de ser o plano de Deus para o destino eterno do homem: céu ou inferno. Paulo explica aos efésios como Deus nos predestinou em amor. “Assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado” (Ef. 1:4-6).
Paulo fala aos romanos dos mistérios do que Deus fez por nós em Cristo. “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm. 8:29-30). O pré-conhecimento (presciência) de Deus sobre nós significa que ele nos amou de antemão. Na linguagem bíblica “conhecer” significa “amar”. Assim, aqueles a quem Deus “de antemão amou”, também os predestinou para serem conformes à imagem de Jesus. Sua pré-ordenação dos crentes é baseada em seu amor eterno. Isso leva a uma cadeia contínua de salvação de ser chamado, justificado e glorificado. Aqueles que crêem em Jesus podem louvar a Deus pela segurança dessa promessa.

Eleição Incondicional


Eleição pode ser definida como “o propósito eterno de Deus de salvar alguns da raça humana em e por Jesus Cristo”. Pedro escreveu sua primeira epístola “aos eleitos de Deus... segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1Pe. 1:1-2).
Toda eleição que é feita é uma eleição condicional. Quando votamos num candidato em determinada eleição, assim fazemos baseados em suas promessas, sua posição política, sua boa aparência, sua raça ou etnia ou algum outro fator. Mas a nossa escolha por Deus, para sermos filhos de Deus que foram adotados em sua família, é puramente incondicional. Ela não depende de algo que pensamos, dizemos, fazemos ou somos. Não há como saber o porquê Deus escolhe salvar certas pessoas. Mas com certeza não é baseado em algo presente nessa pessoa.
Realmente, esse é um pensamento maravilhoso. Pois quem poderia permanecer diante de Deus para fazer qualquer alegação de que era bom o suficiente para Deus o escolher? Todos estávamos igualmente mortos no pecado, e não tínhamos feito sequer alguma coisa “boa” que nos fizesse aceitáveis a Deus. Se nossa eleição fosse baseada em algo que fazemos, ninguém seria capaz de ir para o céu. Todos seríamos condenados ao inferno, pois ninguém é bom. Assim, podemos louvar a Deus por sua eleição incondicional.

II. A Escolha Soberana de Deus


          Eleição é um fato diário. Pois se cremos que Deus tem algum controle sobre a história e as nossas vidas, devemos crer em algum tipo de eleição. Jesus escolheu dozes discípulos com os quais gastou três anos. Ele poderia ter escolhido mais ou diferentes discípulos. Então, Jesus enviou seus discípulos para pregar o evangelho. Ao serem guiados por Deus para ir numa ou noutra direção, houve eleição. Ir para oeste, e não leste, significa necessariamente que certas pessoas não ouvirão a mensagem do evangelho. Se você decide compartilhar o evangelho com um amigo, mas não com outro conhecido distante, você estará experimentando uma forma de eleição. Então, necessariamente milhões de outros não estarão tendo a oportunidade de ouvir as boas novas das quais você está falando.
Em nossa salvação, Deus faz sua escolha soberana quanto a quem salvará. Não há nada num homem ou no que ele faz que faça Deus escolhê-lo. Nem é a vontade do homem escolher a Deus (Jo. 1:13). “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm. 9:16), Paulo argumenta. Ele prova isso quando fala da escolha de Jacó sobre Esaú por Deus. “...Rebeca, ao conceber de um só, Isaque, nosso pai. E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú” (Rm. 9:10-13). Aqui somos claramente informados que Deus já tinha decidido antes dos gêmeos nasceram quem era eleito. Deus disse, “Amei Jacó...”.

III. Liberdade do Homem


Se Deus escolheu soberanamente quem ele salvará e determinou o que acontecerá em cada detalhe da história, por que deveríamos ser responsáveis? Cada pessoa faz todas as suas ações livremente, de acordo com a sua vontade. Mas essas ações “também são a obra do propósito eterno e pré-ordenação de Deus”. [2]É difícil para nós, a partir da nossa perspectiva humana limitada, entender como Deus pode pré-ordenar tudo o que acontecerá, e ainda nos manter plenamente responsáveis por nossas ações. Todavia, isso é consistente com o ensino da Escritura. Veja o sermão de Pedro no dia de Pentecoste. “Sendo este [Jesus] entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (At. 2:23). Pedro reconhece que, embora estivesse no plano de Deus que Jesus fosse morto, os judeus que condenaram Jesus e o entregaram aos romanos que o crucificaram, foram culpados por suas ações. “Deus ordena os meios bem como os fins dos eventos humanos, sem violar a liberdade e responsabilidade humana”.3 Isso é adicionalmente ensinado na oração dos discípulos após Pedro e João terem sido soltos do Sinédrio, o tribunal judeu, quando disseram: “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” (At. 4:27-28).


Aqui vemos que nada, nem mesmo a morte ofensiva do Filho de Deus, acontece à parte do propósito fixado por Deus. Deus assegura soberanamente que sua mão forte acompanha sua vontade. Todavia, aqueles que praticaram esse assassinato maligno de Jesus eram agentes plenamente responsáveis diante de Deus por suas ações.
O calvinista crê que todo o mundo é totalmente livre, livre para fazer o que quer. Deus não coage alguém a fazer algo contra a sua vontade. Mas todo o mundo é escravo do pecado. Assim, nessa escravidão o homem não pode escolher o bem em vez do mal. Você poderia comparar isso com um alcoólico que tecnicamente pode fazer uma escolha de beber ou não beber. Mas ele não pode parar de beber. Está escravizado ao álcool. Todavia, ele é livre para escolher seguir a Cristo ou rejeitá-lo. Mas ele faz exatamente o que seu coração deseja. Ele segue o desejo do seu coração, que é continuamente para o mal e ódio para com Deus. Ele entrega-se livremente ao pecado que ama. Mas o homem não tem um livre-arbítrio para escolher a Cristo ou rejeitá-lo. A vontade do homem está presa às cadeias do pecado.
O cristão também não tem um livre-arbítrio, pois o Espírito de Deus muda a vontade daquele escravizado pelo pecado para escolher seguir a Cristo. Como Jesus disse: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim...” (Jo. 6:37). Ele continua mais tarde para dizer: “...ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido” (Jo. 6:65). Então, daqueles que vêem, Jesus disse: “...o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”. “... eu não perderei nenhum de todos os que me deu...” (Jo. 6:37b, 39; versão do autor). Deus assim captura nossa vontade para que nunca o rejeitemos totalmente, se somos realmente seus. Que pensamento encorajador!


Alguns pensam que a eleição é uma doutrina dura, que força as pessoas a fazerem o que não querem. Isso é um mal-entendido. Todo o mundo consegue exatamente o que quer. Aqueles destinados a irem para o inferno estão satisfeitos ao irem para lá, pois odeiam a alternativa. Sim, aqueles no inferno estão em contínua agonia. Mas o que eles odeiam ainda mais é se submeter à adoração do Deus triúno. Como Edwin Palmer diz: “O último lugar que eles querem estar é no céu. Eles não podem engolir a idéia de se arrepender dos pecados e amar a Deus e aos outros mais que a si mesmos. Eles não querem estar no inferno, mas quando sabem que a alternativa ao inferno é ir para o céu com um curacao puro, desejarão permanecer no inferno. Assim, é verdade que cada um consegue o que quer: os cristãos estão satisfeitos por estarem com Deus, e os habitantes do inferno estão satisfeitos por não estarem com Deus”.[3]

IV. Reprovação


No caso das muitas pessoas que não estão entre os eleitos, Deus fez uma decisão eterna de não lhes conferir sua misericórdia. João escreve em Apocalipse “[d]aqueles que habitam sobre a terra, cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida desde a fundação do mundo...” (Ap. 17:8). Em vez disso, Deus os punirá com juízo por seus pecados. Chamamos isso de reprovação. É uma doutrina mui claramente descrita por Paulo em Romanos 9. “Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (Rm 9:18). Claramente Deus endureceu o coração de Faraó e dos egípcios quando libertou os israelitas da escravidão, durante o êxodo.
“Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” (Ro. 9:22-24). Sendo Deus um Deus santo, glorioso e maravilhoso, deseja que seja glorificado em tudo o que faz. Assim, ele é glorificado em sua santidade, poder e justiça pela destruição dos ímpios que rejeitam a verdade e desobedecem aos seus mandamentos. O poder e a força soberana de Deus, ao salvar o seu povo de uma das nações mais poderosas da terra e sobrepujar todo o poder dos deuses do Egito, foram feito conhecidos através do endurecimento do coração dos egípcios e no afogamento do exército egípcio.
Está simplesmente no beneplácito de Deus revelar sua verdade ao humilde, mas ocultá-la do orgulhoso. Como disse Jesus: “Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Mt. 11:25-26).
O papel de Deus na reprovação é passive. [4]O ímpio é ignorado ou deixado de lado. Eles são condenados por sua incredulidade. Jesus disse: “... o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo. 3:18). Mas a redenção de Deus dos eleitos é um papel ativo, ao estender a sua misericórdia àqueles que foram ordenados para a vida eterna. Jesus disse: “Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo. 3:17). Deus enviou seu Filho para salvar pecadores.
O fato de Deus deixar de lado alguns pecadores, não lhes concedendo sua misericórdia, é um justo julgamento pelo pecado deles. Como Pedro diz: “São estes [aqueles que não crêem] os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos” (1Pe. 2:8). Aqui novamente vemos a responsabilidade humana e um cumprimento do propósito eterno de Deus.



[1] Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto[1]

[2] R.C. Sproul, editor, New Geneva Study Bible (Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1995), 1487.
[3] Edwin H. Palmer, The Five Points of Calvinism (Grand Rapids: Baker Book House, 1972), 37.
 
[4] Nota do tradutor: Visão infralapsariana, como a defendida por Sproul em Eleitos de Deus (Cultura Cristã). Ler artigo “reprovação”, de Vincent Cheung, disponível no Monergismo.com.

Ronaldo José Vicente, pastor e marido da Clarissa Alster Vicente. A Igreja se reune na Rua Almeria, 58 - Vila Granada - SP - CEP 03654-000 (Perto do metro Guilhermina - Esperança - Linha Vermelha). 

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