Os Profetas contra a injustiça social

O profeta percorre o caminho da desaprovação, quando aqueles que deveriam ser fiéis às leis e estão construindo a nação em desacordo com as exigências de Yahweh. Percebemos que a lei protegia o pobre, o escravo, o trabalhador, o estrangeiro, a viúva e o órfão, obviamente tratando-se da categoria de pessoas menos favorecidas. A sobrevivência do mais forte, era totalmente rejeitada na comunidade judaica, pois o mais forte, se submetia a lei que usava de sua força para proteger o mais fraco. Para Brueggemann, o discurso dos profetas caminha com um processo judicial que busca estabelecer o fracasso de Israel em guardar a aliança com Yahweh, pois assegura-se que o reconhecimento do propósito soberano de Yahweh é a única condição para o bem-estar no mundo. O profeta Miqueias é citado como aquele que denunciava a exploração, o suborno e as práticas injustas da liderança (Mq 3:9-12).
Brueggemann (2014, p. 822) define que “o oráculo fala contra a liderança por suas práticas exploradoras de injustiça e por sua atitude complacente para com Javé, que é considerado como indulgente com Jerusalém”.
Devemos lembrar que o contexto social de Israel baseia-se na revolução ocorrida no Egito. Com Moisés, surge uma comunidade instituída por Deus, que mantém o foco em uma realidade prática de justiça. Os profetas caminham no mesmo legado deixado por Moisés, pois mantêm seu discurso profético na ênfase da lei. Davi, o maior rei que Israel teve, é confrontado pelo profeta Natã, ao decidir usar do poder de rei, para tomar a mulher de seu soldado (2Sm 12:9-10). Da mesma forma, seu filho Salomão,  constrói uma política de governo abusivo com trabalhos forçados, impostos e é confrontado pelo profeta Aías (IR 12.6-15).
A prática de abuso de reis que usavam do seu poder, para tomar bens dos pobres, tornou-se descontrolada em Israel. O exemplo mais doentio é o do rei Acabe que deseja a vinha de um homem chamado Nabote. Ao negá-la ao soberano, deixou o rei frustrado. Assim, o rei concedeu autoridade para sua rainha chamada Jezabel que visava utilizar-se da lei para fim egoísta. Portanto, a rainha usou a própria lei de maneira ilícita: inventou uma mentira com duas testemunhas compradas contra Nabote que foi morto pelo povo. Assim o rei Acabe adquiriu a vinha desejada. No momento em que descia para tomar posse, o profeta mais temível da época o confrontou, por usar do seu poder real para praticar injustiça em Israel (IRs 21:1-29). Novamente, a figura do profeta é usada por Yahweh para proteger os fracos e esquecidos, e ir contra os fortes.
Jensen comenta que o fato de Acabe calar-se diante do profeta Elias que o confronta, deixando claro seu reconhecimento do mal que havia sido feito e complementa: “O tipo de Deus que é Yahweh, pelo menos em sua atenção aos fracos, foi revelado a Israel e, é aqui proclamado mais uma vez, por seu profeta” (2006, p. 77).
Vejamos a palavra do profeta Zacarias em outro contexto social de Israel:

Adonai-Tzva’ot
disse no passado: “Administrem a verdadeira justiça. Que todos demonstrem misericórdia e compaixão pelo irmão. Não oprimam as viúvas, os órfãos, os estrangeiros ou os pobres. Não planejem o mal entre si”. No entanto, eles não ouviram; viraram as costas de forma obstinada e fecharam os ouvidos, para não ter de escutar. Sim, eles tornaram o coração duro como o diamante, para não ouvir a Torá e as mensagens enviadas por Adonai-Tzva’ot mediante seu Espírito atuante nos primeiros profetas. Este é o motivo de a grande ira de Adonai-Tzva’ot. - Zc 7:8-12 (STERN, 2012).

Os profetas estavam presentes e contra a propagação da injustiça. Amós levantou-se contra os poderosos que vendiam escravos justos e condenavam os pobres (Am 2:6; 4:1; 5:11,12; 8:4,6), Isaías falou sobre os líderes que enriqueciam em detrimento dos pobres (Is 3:14; 5:8-10), e também denuncia, os líderes que não se importavam com viúvas e órfãos (Is 9:11-17).  O profeta Ezequiel denunciou opressão ao pobre, à prática de roubos, à posse de penhor, os empréstimos com usura e recebimento de juros (Ez 18:12,17). Falou também sobre reis que matam o mais fraco, desprezam o estrangeiro, a viúva, o pobre e trazem desonra aos pais (Ez 22:1-16). O profeta Oseias confrontou a irresponsabilidade dos líderes em Israel, que deveriam estar ensinando ao povo a lei de Yahweh. Obviamente, sem o ensino da Torá, haveria terríveis injustiças com o pobre (Os 4:4-6).

O Profeta Miqueias profetizou contra os governantes que agiram de má fé contra o pobre, e foram comparados a animais selvagens que queriam a carne do pobre (Mq 3:1-4). Neste ponto, Jensen (2006, p. 172) comenta que “o profeta se dirige em uma passagem notável pelo modo como apresenta a violência contra os pobres como um tipo de canibalismo, chegando a ponto de descrever a preparação de sua carne para o caldeirão”.
O profeta Jeremias denunciou o rei tirano Jeoaquim, que usava de seu poder para forçar os pobres a construir ostentações para seu reinado. Além disso, não os pagava e os mantinha com péssimo cuidado (Jr 22:13-19).
Com o profeta Malaquias, encontramos uma frente de proteção à mulher, trocada pelo marido por uma mais nova. Yahweh diz odiar o divórcio, porque os homens estavam se aproveitando da própria lei (Dt 24:1-4) que os possibilitava a isso. Estavam abandonando seus lares e sua companheira, tratando o casamento de forma banal (Ml 2:13-16).
Enfatiza-se o profeta como um crítico social, que percorre o ambiente do direito do necessitado e não tem pudor para colocar sua voz no ouvidos dos poderosos, daqueles que podem fazer justiça, mas praticam a injustiça. Maimônides coloca que a crítica profética caminha, por vezes, aos hebreus (próprio povo do profeta), e por vezes, ao estrangeiro; deixar os mais necessitados de lado, para os profetas era quebrar o pacto da aliança, estabelecido entre Yahweh e seu povo no monte Sinai. Assim, enfatiza-se a crítica social dos profetas, pois criticam o problema, visando o retorno daqueles que estão no poder. Estes são chamados a arrepender-se e voltar-se ao pacto estabelecido, que visava cuidar dos mais necessitados (MAIMÔNIDES, 2003).

Brueggemann (1983, p. 14) denuncia a crítica atual que não tem o objetivo de levar para um passado de aliança que propõe um modelo de justiça, a crítica sem um espírito ativo, não se constrói um modelo justo e firme, ele prossegue: “A função do ministério profético é manter juntos o espírito crítico e o espírito ativo, porque um e outro isolados, não têm correspondido ao melhor da nossa tradição”.

 Ronaldo José Vicente, pastor e marido de Clarissa Alster Vicente. A Igreja se reune na Rua Almeria, 58 - Vila Granada - SP - CEP 03654-000 (Perto do metro Guilhermina - Esperança - Linha Vermelha). 

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Retirado do livro "O Profeta em Israel e a Justiça Social", lançado pela editora Reflexão. Pr. Ronaldo José Vicente. (ronjvicente@gmail.com)   - Adquira o livro clicando:  http://www.editorareflexao.com.br/o-profeta-em-israel-e-a-justica-social/p/576

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