A Ceia do Senhor




Larry W. Hurtado/Joel R. Beeke/ Mark Jones

Não é necessário abordar aqui questões sobre as várias formas de refeição e a possível evolução de práticas e fórmulas de refeição sagrada nos primeiros grupos cristãos. Como Klauck observou, as primeiras celebrações cristãs de suas refeições sagradas “experimentaram um desenvolvimento rápido e tempestuoso com tendências para várias direções nas primeiras décadas após a Páscoa”. Não obstante, é comumente aceito que uma refeição sagrada que representa a comunhão religiosa dos participantes foi um aspecto característico dos círculos cristãos desde seus primeiros anos. Assim como acontece com vários outros temas, as referências mais antigas a uma refeição sagrada cristã encontram-se nas cartas de Paulo. 

Respondendo a relatos de comportamento impróprio na refeição sagrada, em 1 Coríntios 11.17-34:

“Nisto, porém, que vos prescrevo, não vos louvo, porquanto vos ajuntais não para melhor, e sim para pior. Porque, antes de tudo, estou informado haver divisões entre vós quando vos reunis na igreja; e eu, em parte, o creio. Porque até mesmo importa que haja partidos entre vós, para que também os aprovados se tornem conhecidos em vosso meio. Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis. Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague. Não tendes, porventura, casas onde comer e beber? Ou menosprezais a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto, certamente, não vos louvo. Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha. Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice; pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem. Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo. Assim, pois, irmãos meus, quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em casa, a fim de não vos reunirdes para juízo. Quanto às demais coisas, eu as ordenarei quando for ter convosco”.      

Paulo reitera uma tradição que ele próprio recebeu “do Senhor”, o que quer dizer provavelmente a recebeu através de predecessores na fé cristã. Em 1 Coríntios 10.14-22:

“Portanto, meus amados, fugi da idolatria. Falo como a criteriosos; julgai vós mesmos o que digo. Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão. Considerai o Israel segundo a carne; não é certo que aqueles que se alimentam dos sacrifícios são participantes do altar? Que digo, pois? Que o sacrificado ao ídolo é alguma coisa? Ou que o próprio ídolo tem algum valor? Antes, digo que as coisas que eles sacrificam, é a demônios que as sacrificam e não a Deus; e eu não quero que vos torneis associados aos demônios. Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Ou provocaremos zelos no Senhor? Somos, acaso, mais fortes do que ele?”

Ele comprara e contrasta a refeição sagrada cristã com as refeições cúlticas das deidades pagãs. Meus principais interesses aqui estão na conexão da refeição cristã com o Jesus glorioso.
O primeiro fato que devemos observar é que a refeição é claramente uma ocasião “cúltica” que era uma parte importante da vida devocional/litúrgica de grupos cristãos primitivos. Os cristãos comiam essas refeições comuns para expressar sua comunhão mútua e também em referência direta a Jesus. Paulo se refere à refeição como a “ceia do Senhor(Kyriakon deipnon):

“Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis” 
(I Co 11.20).

O que claramente relaciona a refeição com Jesus como o Kyrios do grupo cristão. Em 1Coríntios 11.27 e 10.21, ele fala do “cálice do Senhor” e da “mesa do Senhor”, o que reflete a mesma associação explícita:

“Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor... Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios”.

Na tradição que Paulo recita em 1 Coríntios 11.23-26, ele associa o pão e o vinho da refeição diretamente com a morte redentora de Jesus, que é constitutiva da “nova aliança”; Paulo também caracteriza a contínua prática da refeição cúltica como uma proclamação da morte “do Senhor” até a sua volta escatológica.

“Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha”.

A discussão paulina de questões acerca da participação cristã nas refeições cúlticas dos deuses pagãos (1 Cor 10.14-22) coloca essas festas e a ceia do Senhor diretamente como alternativas excludentes. Aqui ele chama o cálice e o pão uma “participação” (koinõnia) no sangue e no corpo de Cristo (v.16) e traça uma comparação direta entre a refeição cristã e o comer de alimentos sacrificados no templo de Jerusalém (v.18). Também alerta quanto a “provocar zelos no Senhor” (v.22), expressão bíblica originalmente atribuída a Deus e aqui apropriado para se referir a Jesus como o Kyrios, cujo poder divino deve ser levado a sério. Isso se reflete também em 1Cor 11.29-34, onde Paulo alerta sobre as sérias consequências de ser julgado pelo “Senhor” (Jesus) por causa de comportamentos inapropriados durante a refeição sagrada cristã.  

“pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem. Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo. Assim, pois, irmãos meus, quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em casa, a fim de não vos reunirdes para juízo. Quanto às demais coisas, eu as ordenarei quando for ter convosco”.

Claramente, a ceia do Senhor aqui é a refeição cristã cúltica na qual o Senhor Jesus desempenha um papel que é explicitamente assemelhado ao das divindades dos cultos pagãos e, ainda mais surpreendentemente, ao papel de Deus! Não se trata meramente de uma festa em homenagem a uma herói morto. Jesus é percebido como o Kyrios vivo e poderoso que é o dono da refeição e preside nela, e com quem os crentes têm comunhão como com um deus.
Não há nenhuma analogia de tal papel cúltico para qualquer figura além de Deus nos círculos religiosos judaicos da era romana. Por exemplo, nenhuma das figuras tão importantes nas expectativas escatológicas de Qumran teve uma função equivalente em suas refeições comunitárias. Ainda assim, o explícito descaso de Paulo em relação ao politeísmo do ambiente religioso romano e seu uso de analogias e categorias bíblicas para expor o significado da ceia do Senhor combinam para deixar claro que a tematização exaltada de Jesus refletida na refeição não pretendia um abandono da tradição monoteísta do culto judaico. Além disso, a recitação paulina da tradição primitiva em 1 Coríntios 11.23-26 indica que o significado cúltico de Jesus na refeição não foi uma inovação de Paulo, mas provinha de círculos cristãos mais antigos.     

A presença de Cristo na ceia do Senhor[2]


“Um motivo pelo qual damos tão pouco valor à ordenança (da ceia do Senhor) e nos beneficiamos tão pouco dela é talvez que entendemos tão pouco da natureza daquela comunhão especial que por meio daquela ordenança temos com Cristo[3]”.

Edward Reynolds (1599-1676) afirmou existir “uma presença real, verdadeira e perfeita de Cristo” na ceia do Senhor. Ele assegurou que isso não era somente a onipresença divina de Cristo nem era a presença física de seu corpo humano. Cristo está presente “mediante a operação poderosa de seu Santo Espírito”, da mesma maneira que o sol está presente na terra por meio do brilho de seus raios cálidos. Reynolds escreveu: “A principal finalidade do sacramento [...] é unir o fiel a Cristo”. Visto que nossa união com Cristo não é física, mas mística, sua presença não é física, mas mística. É, de fato, uma união com o “corpo sagrado” de Cristo no céu, mas isso não exige a presença física de seu corpo no pão para os comungantes receberem as graças de sua humanidade glorificada.
Perkins afirmou que há uma “união sacramental” entre os símbolos e as realidades para as quais eles apontam, o que explica como nas Escrituras o símbolo e a realidade são com frequência tomados um pelo outro (Gn 17.10; Êx 12.11; Dt 10.16; Mt 26.28; Lc 22.20; Jo 6.51,53; At 7.8; ICo 5.7; 10.17; 11.24; Tt 3.5). A união sacramental não é uma união natural nem uma “transformação do símbolo na coisa simbolizada”, mas uma união “respectiva” – ou união por meio de analogia – de modo a levar a alma do cristão a considerar a realidade espiritual e aplicá-la. Como consequência, pessoas não convertidas “recebem somente os símbolos sem as coisas simbolizadas”, enquanto os convertidos “recebem para sua salvação tanto o símbolo quanto a coisa simbolizada”.

Matthew Henry (1662-1714) explicou:

“Vivemos em um mundo sensorial, ainda não no mundo dos espíritos. E, como por causa disso achamos difícil olhar além das coisas que são vistas, somos em um sacramento dirigidos a olhar por meio delas [das coisas vistas] para aquelas coisas que não são vistas, as quais são por elas representadas”.

Matthew Poole (1624-1679) escreveu: “Quando diz Tomai, comei, ele quer tão somente dizer que os crentes verdadeiros devem apanhar o pão com sua mão corpórea e comê-lo com sua boca física, e ao mesmo tempo devem, com a mão e a boca da fé, receber e aplicar à sua alma todos os benefícios de sua morte e paixão”. Thomas Doolittle (1630-1707) concordava, afirmando que o crente come o pão e bebe o vinho para simbolizar “minha união com Cristo e minha alegria nele; é o alimentar-me de Cristo pela fé para o fortalecimento das graças do Espírito de Deus em minha alma”.
Alguns estudiosos afirmam que os puritanos se tornaram demasiadamente escolásticos em seu ponto de vista sobre a ceia do Senhor. Por exemplo, Holifield afirma que os pastores puritanos realizavam atos sacramentais “na esperança de que a cerimônia transmitisse informação doutrinaria”. Contrastando a abordagem puritana com a de Calvino, ele assevera: “Calvino tinha tido o cuidado de não dar excessiva ênfase às possibilidades apenas didáticas da adoração sacramental, mas em círculos puritanos a ceia do Senhor era abertamente um espetáculo marcante que trazia à lembrança as verdades salvadoras do evangelho”. O resultado dessa distorção foi que “o mistério calvinista desabou sob o peso da explicação psicológica [dos puritanos]”.
Nisso Holifield subestima o papel que a verdade desempenhava no coração puritano e inventa uma dicotomia que os puritanos teriam considerado antibíblica. Para os puritanos, a informação doutrinária não era a antítese do envolvimento emocional e da adoração dirigida pelo Espírito. Conforme Edwards escreveu acerca de sua própria pregação, “Devo pensar [...] que meu dever é elevar o mais alto possível as afeições de meus ouvintes, desde que sejam influenciados por nada mais do que a verdade e com afeições que não estejam em desacordo com a natureza daquilo com que são influenciados”. O Pai busca crentes que adorem em espírito e em verdade, e a terceira pessoa da Trindade é o Espírito da verdade, que guia os crentes à verdade. (Jo 16.13).        


Retirado dos livros:

. Senhor Jesus Cristo. Larry W. Hurtado. Paulus, Academia Cristã. São Paulo.  
. Teologia Puritana. Joel R. Beeke e Mark Jones. Vida Nova. São Paulo.




[1] Retirado do livro: Senhor Jesus Cristo. Devoção a Jesus no cristianismo primitivo.
[2] Retirado do Livro: Teologia puritana, p.1056-1058
[3] John Owen


Ronaldo José Vicente. É casado com Clarissa Alster Vicente e tem uma filha chamada Esther Alster Vicente. É Pastor da Igreja PorTuaCasa, localizada em São Paulo. É teólogo formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente, faz mestrado em Antigo Testamento pelo Andrew Jumper. Escritor, lançou um livro que se chama: “O Profeta em Israel e a Justiça Social”, lançado pela Editora Reflexão. Desenvolve seus artigos no blog:www.lagrimasportuacausa.blogspot.com.br. É músico (baterista), autor de várias composições. Exerce seu trabalho com sua banda chamada Templo de Fogo. 


Igreja PorTuaCasa. Localizada na Rua Almeria, 58 - Vila Granada - SP - CEP 03654-000 (Perto do metro Guilhermina - Esperança - Linha Vermelha).
Facebook: https://www.facebook.com/groups/374908422689555/ 


 "O Profeta em Israel e a Justiça Social", lançado pela editora Reflexão. Pr. Ronaldo José Vicente. (ronjvicente@gmail.com)   - Adquira o livro clicando:  http://www.editorareflexao.com.br/o-profeta-em-israel-e-a-justica-social/p/576 


Banda Templo (ICor 3.17) de Fogo (Hb 12.29)


CD – O VIDENTE


Este CD tem como característica fundamental a vida e a mensagem dos profetas do AT. Todas as músicas estão baseadas em textos das Escrituras. A música “o Vidente” baseia-se em uma linha de profetas do Antigo Israel chamados de Nabiy’, Chozeh e Ra’ah, Is 6.1-3; ISm 9.9; 16.1-13; Dn 7.1-8; Zc 3.1-10. (ver: http://lagrimasportuacausa.blogspot.com.br/…/o-profeta-e-o-…). A música “Terra Especial” e “Alguém” conta a trajetória de Moisés com o povo de Israel rumo a Terra prometida (Ex 12.1-51; 14.1-31). A música “Jeremias 7” baseia-se nas advertências do profeta contra as perversidades dos religiosos (Jr 7.1-34). “Oséias, o profeta do amor” é poetizado com o intenso amor de Javé pelo seu povo (Os 1.2,9; 2.1; 11.1; 14.1,4). A música “Elias”, retratará o episódio no monte Carmelo, onde Javé responde com fogo no desafio entre Elias e os profetas de Baal (IRs 18.1-40). A música “Teu Querer” é uma balada baseada na doutrina da Eleição Incondicional – homens como (Paulo) e outros, impactados pela escolha soberana de Deus (At 9.3; Rm 8.29,30). A música “Confiar nos profetas” baseia-se neste texto das Escrituras: “...Crede no SENHOR, vosso Deus, e estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis...” – A música relata o contexto deste pronunciamento contando a história do Rei Josafá (2Cr 20.20). Por fim, temos a música do profeta “Joel”, especificamente com uma mensagem sobre “O Dia do Senhor”. Essa música fecha o CD com a profecia da volta de JESUS!

I. Você pode adquirir o CD no valor de 20,00 + custo de correios 8,00, total = 28,00
Você também pode adquirir o livro “o Profeta em Israel e a Justiça Social”. Este livro é do Pr Ronaldo José Vicente, baterista da banda. O livro foi a ideia inicial para o trabalho que se desenvolveu no CD (ver: http://lagrimasportuacausa.blogspot.com.br/…/o-profeta-e-pr…)
II. Você pode adquirir o livro no valor de 30,00 + custo de correios 8,00, total = 38,00
III. Você pode adquirir o livro e + CD no valor de 50,00 + custo de correios 8,00, total = 58,00
Transferindo ou fazendo o depósito nas contas:

Banco Itaú. Ag 1664 Conta Corrente 28767-7 /Ronaldo José Vicente ou Clarissa Alster Vicente.
Banco Santander: Ag 0201 Conta Corrente 01062968-1/ Ronaldo José Vicente ou Clarissa Alster Vicente.
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