ELE salva nossas emoções para o amarmos intensamente mais.





Introdução

Mt 22.34-40, “Entretanto, os fariseus, sabendo que ele fizera calar os saduceus, reuniram-se em conselho. E um deles, intérprete da Lei, experimentando-o, lhe perguntou: Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento". Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo". Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”.

Quando lemos este texto onde o Senhor Jesus é testado por um intérprete da lei, descobrimos uma intensa devoção. Todos aqueles que são servos de Deus, o amam verdadeiramente de todo coração, alma e entendimento. Porém, todo “evangélico” nascido e educado para reprimir suas emoções, tende a interpretar o texto focando apenas no entendimento. Crendo que a obra de Cristo resume-se apenas ao entendimento.
Uma grande parte da nossa teologia reprime os sentimentos humanos. Alguns argumentam que eles devem se submeter ao intelecto. Outros, que são totalmente insaciáveis, por isso devem ser levados a cruz e aniquilados. Em nosso meio, há grande ênfase na nossa intelectualidade, frisando a regeneração dos nossos pensamentos e assim domínio próprio sobre nossas emoções.


Será mesmo que nossas emoções devem ser aniquiladas? 

Será mesmo que devemos ignorar nossos desejos? 

Será mesmo que devemos usar domínio sobre elas, reprimindo-as com nosso intelecto? 

Conseguiremos domar nossas emoções? 

Através de muita educação, conseguiremos agir em todas as circunstancias racionalmente sem nenhum tipo de influencia emocional? 

Será que realmente Jesus muda nosso intelecto, para que através disso, coloquemos nossas emoções como escravas das nossas decisões racionais?   


Todas essas perguntas devem ser analisadas na nossa prática: Mesmo Cristo regenerando nossa mente, ainda sim, estamos procurando alguém que nos ame, nos reconheça, nos valorize e nos entenda. As emoções estão vivas, não há como negá-las. O desafio atual é entendermos que Cristo reina sobre nosso entendimento e da mesma forma, exerce seu Senhorio em nossas emoções.

Jesus é um mestre que não apenas instrui nosso intelecto, ele forma nossos próprios amores (SMITH. 2017, p.20)   

Meu peso é meu amor. Para onde quer que eu seja levado, é ele quem me leva (Agostinho. Confissões).

O que significa amar o Senhor de todo coração, toda alma e todo entendimento? Alguns definiram como obediência a Ele, entretanto, sabemos que é possível acatar as ordens de alguém sem amar essa pessoa. Logo, não basta ter obediência isenta de paixão por Deus, é preciso tê-la, ou não será amor, e sim uma mera instrução...Um indivíduo apaixonado, contudo, jamais desiste (Jack Deere, 2016).  

Como amar a Deus de todo o coração, alma e entendimento?



    
Observe que o próprio texto descreve um amor racional, uma mente transformada para pensar em Deus. Entretanto, o texto também nos diz para amá-lo com todo o nosso coração e com toda a nossa alma; ou seja, com todas as nossas emoções. Jesus não está trazendo um novo mandamento. Ele está relembrando o que já foi dito na Torá - תּוֹרָה[1]. Cristo responde o Shemá - שָׁמַע[2] do povo escolhido:

Ouve (שָׁמַע), Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força (Dt 6.4,5).  

Stern confirma ao comentar que, “percebe-se que Yeshua citou também Deuteronômio 6.4, a afirmação central do judaísmo, “sh`ma Israel, Adonai Eloheynu, Adonai echad”ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (STERN. 2014. p.92).     
Ao observarmos as palavras usadas no hebraico como “coração, alma e força”. Atentamos ao significado que nos oferece uma maior compreensão. A primeira palavra é “Lebab” (לֵבָב)[3], traduzido como “coração”, pois enriquece nosso entendimento ao notar seu significado de palavras como:

Homem interior, mente, vontade, coração, alma, inteligência, parte interior, conhecimento, razão, reflexão, memória, inclinação, resolução, determinação, coração (referindo-se ao caráter moral), como lugar dos desejos, ou como lugar das emoções e paixões, como lugar da coragem.

O termo Lebab” (לֵבָב), traduzido como coração, e em alguns casos comomente, peito ou consciência”, possui o uso que refere-se ao centro da vida física e espiritual humana, ou seja, todo o interior da vida de uma pessoa. Ao analisarmos as ocorrências no Pentateuco, encontramos o relato de Gênesis 6.5, “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração”. Nesta descrição, a contínua maldade do coração do homem foi a base do severo julgamento de Deus, o Dilúvio. Na sequencia, lemos que o próprio coração de Deus está aborrecido com a situação (6.6). Alex Luc comenta que a “justaposição dos “corações” mostra que a decisão de Deus está baseada na vida interior das pessoas e, ao mesmo tempo, está fora do coração aflito dele[4].
Ao relermos sobre as pragas lançadas no Egito, encontramos no relato Bíblico que essas, foram lançadas no coração de Faraó: “...Pois esta vez enviarei todas as minhas pragas sobre o teu coração...” (Ex 9.14). A Escritura mostra que existe uma atenção de YHWH (יְהוָֹה)[5] sobre o coração do homem. Desta maneira, atentamos para o peitoral do juízo que estava sobre o peito de Arão, simbolizando estar em seu coração: “Assim, Arão levará os nomes dos filhos de Israel no peitoral do juízo sobre o seu coração, quando entrar no santuário, para memória diante do SENHOR continuamente” (Ex 28.29). Os filhos de Deus representados por Arão, deveriam se apresentar de todo o coração ao Único Deus.

Arão era o representante de Israel diante de Deus...As palavras “sobre o seu coração” aparecem por três vezes, não mera­mente para fornecer-nos uma localização, mas também um sentimento. Arão de­veria fazer seu trabalho de todo o coração. Os sacerdotes operavam como intermediários (CHAMPLIN. 2001, p.432)

Ele os traz sobre o seu coração, como diz a expressão aqui (v. 29), mas também os leva no seu regaço (Is 40.11) com o mais terno afeto. Como deve o nome de Cristo ficar próximo dos nossos corações, uma vez que Ele se alegra em trazer nossos nomes tão próximos do dele! E que conforto é para nós, sempre que nos dirigimos a Deus, o fato de que o grande sumo sacerdote da nossa profissão tenha os nomes de toda a sua Israel sobre o seu peito, diante do Senhor, como um memorial, apresentando-os a Deus como o povo da sua escolha, que devem ser aceitos entre os amados! (HENRY. 2010, p.318)

Desta maneira entendemos que no AT - todo o aspecto de emoções é atribuído ao coração. Andrew Bowling cita o exemplo de Ana que regozija-se no Senhor pelo milagre ao ter o menino Samuel (ISm 2.1), assim deve ocorrer com os corações daqueles que buscam ao Senhor: “...alegre-se o coração dos que buscam o SENHOR” (1Cr 16.10)[6].   
Sendo assim, obtemos maior regozijo ao saber que o próprio YHWH (יְהוָֹה) indica-nos um caminho seguro de intimidade. Davi descobriu esse caminho. Ele é considerado um homem que tem um coração que cativa a Deus: “...um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás” (Sl 51.17). Deus procurou um homem segundo o Seu coração. Deus procurou um homem que cativasse o Seu coração e achou a Davi: “Encontrei Davi...” (Sl 89.20). Amar a Deus de todo o coração é o amor que Ele espera de todo cristão.

Davi tinha muitas responsabilidades como o grande rei guerreiro de Israel; entretanto, o salmista afirmou que sua prioridade era procurar encontrar e entender a beleza do Senhor (Sl 27.4). Essa realidade motivava sua obediência. O rei tinha um desejo extraordinário de entender as emoções do Altíssimo, e, como resultado, adquiriu um entendimento singular das paixões do coração do Senhor. Ele se tornou o maior estudioso dos sentimentos e afeições do Criador no Antigo Testamento, sendo esse seu propósito na vida (BICKLE. Mike, 2016, p.14,15)   
 
Carson comenta:

Kaiser observa corretamente que essa passagem (Mt.22.34-40) está em concordância com a tradição do Antigo Testamento, que também exige um relacionamento com Deus (Dt 10.12; ISm 15.22; Is 1.11-18; 43.22-24; Os 6.6; Am 5.21-24; Mq 6.6-8; Pv 15.8; 21.27; 28.9)...Esses dois mandamentos são os maiores porque todas as Escrituras “dependem” deles; ou seja, nada nas Escrituras pode harmonizar ou ser verdadeiramente obedecido a menos que esses dois mandamentos sejam observados. Toda a revelação bíblica exige religião do fundo do coração marcada pela entrega total a Deus e o amor a ele e ao próximo (CARSON. 2014, p.540-541)

A segunda palavra é “nephesh” (נֶפֶשׁ)[7], traduzido como “alma”, que possui significados como:

Alma, ser, vida, criatura, pessoa, apetite, mente, ser vivo, desejo, emoção, paixão, aquele que respira, a substância ou ser que respira, o ser interior do homem; lugar das emoções e paixões, atividade da vontade.

A terceira palavra que fortifica a ideia da ordem, “meod” (מְאֹד), traduzido como força, abrange palavras como:

Extremamente, poder, força, abundância, grande quantidade, grandemente, em grau elevado, excessivamente e com grande quantidade (Dt 6.3 e Rs 23.25) (GUSSO. 2008. p.285)

Através dessas definições enraizadas nas palavras do original, podemos entender que a ordem de Deus é para que; usemos todas as nossas forças internas, para direcionar todo o nosso amor, nossa paixão, nossos desejos, nossa intensidade, nossa fidelidade e nossas emoções somente ao único Deus – Nosso Senhor Jesus.   

Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome (Sl 103.1).
  
O desejo de Cristo



Jo 17.24-26, “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo. Pai justo, o mundo não te conheceu; eu, porém, te conheci, e também estes compreenderam que tu me enviaste. Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja”.

Como temos trabalhado em nosso artigo, não podemos definitivamente considerar-nos somente por aquilo que pensamos. Não somos apenas o que pensamos, fazemos parte também daquilo que amamos, ou seja, somos aquilo que ansiamos ou desejamos. Neste texto de João, descobrimos através da oração de Cristo seu grande desejo. Cristo é amado pelo Pai (Mt 3.17; 17.5). Esse amor sempre existiu. O amor de Deus no inicio de tudo. O amor de Deus pelo cosmos. O amor do Pai pelo Filho, gerando uma extraordinária revelação nas Escrituras. Cristo apresenta aos discípulos que sua vontade é que conheçam esse amor.

Deus criou o cosmos e se revelou porque, desse modo, ele expressou uma característica básica e profunda da personalidade divina. Em face do que o Novo Testamento declara, que “Deus é amor” (I Jo 4.8), pode se inferir que Deus foi verdadeiro para consigo mesmo como um Deus de amor. No ato de criar, Deus fez aquilo que ele poderia amar e iria amar, como de fato amou (Jo 3.16). É da essência do amor mover-se para fora de si, dar, compartilhar. Deus, exercitando o amor, estava se revelando como bom (GRONINGEN. 2017. p. 27)     

Este amor que devemos conhecer, é a exata expressão de quem Cristo é na Terra. Submetemos nossas emoções para que n`Ele sejamos saciados, ou seja, “alinhando nossos amores e anseios aos d`Ele”[8]. Como Bickle explica: “Existem desejos intensos no interior de cada coração humano dos quais não se pode escapar. Esses desejos não podem ser ignorados, negados ou apaziguados; eles precisam ser satisfeitos[9]”.
Quem é fã de cinema se recordará de uma série que se chama Star Trek. Nela observamos a figura de um personagem chamado Spock. Um sujeito que não possui emoções, na verdade, desde infância é ensinado a suprimi-las, para ser totalmente um líder que toma decisões racionais. Porém, no decorrer da série, observamos que Spock é afetado nos relacionamentos com os humanos. Suas emoções são despertadas. Isso ocorre na suposta morte do seu amigo, capitão Kirk. As emoções sempre estiveram nele, porém, ao se relacionar, surgiram de modo incontrolável.   
Cristo se relaciona conosco para despertar, vencer e moldar nossas emoções. Assim, o Senhor Jesus deseja nos discipular. Quando Ele diz: segue-me! Ele simplesmente está dizendo: Venha! EU quero o seu coração: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14.23). Lembre-se! “Eu não conheço para amar; em vez disso: amo para conhecer[10]”. Seja honesto. Você não conheceu primeiramente toda a história de Jesus; leu, criticou, analisou, pesou em uma balança e então decidiu, se iria amá-lo ou não. Você simplesmente não O resistiu, quando Ele se revelou. A partir disso, seu coração o impulsionou para conhecê-Lo, desejá-Lo, amá-Lo, segui-Lo e reverenciá-Lo.

“Quem é este Homem, que conquistou o meu coração?”.
“Quem é este Homem que salvou a minha vida?”.
“Quem é este Homem que mudou a minha história?”
“Quem é este Homem que arrebatou o meu coração?”
“Quem é este Homem que me deixou apaixonado?”.

Este Homem é Jesus.

Perguntas assim são levantadas pelo amor que Ele despertou em nós. O amor por Ele nos motiva a continuar perseguindo-o. O Salmo de Davi nos dá uma ideia de como nossa alma necessita saciar-se totalmente n`Ele.  

Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e me verei perante a face de Deus? As minhas lágrimas têm sido o meu alimento dia e noite, enquanto me dizem continuamente: O teu Deus, onde está? (Sl 42.1-3)

Todo ser humano possui um coração, ou seja, ama. Entretanto, a pergunta que devemos fazer a nós mesmos não é se amamos algo acima de tudo, mas o que exatamente amamos acima de tudo. O desejo de Cristo apenas reacende no homem um convite milenar. O próprio YHWH (יְהוָֹה) deseja um homem extremamente próximo:

Ao SENHOR, teu Deus, temerás; a ele servirás, a ele te chegarás (dabaq, דָּבַק) e, pelo seu nome, jurarás (Dt 10.20).   

A palavra dabaq (דָּבַק) pode ser entendida com mais sinônimos, observe: grudar-se, colar, permanecer junto, unir-se, manter-se próximo, juntar-se, permanecer, seguir de perto, alcançar, pegar, perseguir de perto, alcançar, ser levado a unir-se[11]. O convite para achegar-se (dabaq, דָּבַק) ao Senhor significa uma correta relação íntima, próxima, crescente e exclusiva. O Deus que criou os céus e a terra convida-nos para uma relação de entrega e única. Este termo é usado com frequência no AT para designar coisas físicas, por exemplo: Quando Jó afirma que seus ossos apegam-se à sua pele (19.20). Entretanto, dabaq (דָּבַק), tem o sentido também de apegar-se por afeto e lealdade. Vejamos o que Earl Kalland comenta:

O homem deve apegar-se à sua esposa (Gn 2.24). Rute apegou-se a Noemi (Rt 1.14). Os homens de Judá apegaram-se ao seu rei, Davi, durante a revolta de Seba (2 Sm 20.2). Siquém amou Diná e apegou-se a ela (Gn 34.3), e Salomão apegou-se às suas esposas por amor (I Rs 11.2). (2012, p.291).   
     
Nos textos usados por Earl observamos uma relação de afeto. Textos usados para mostrar a relação entre pessoas que se apegam por amor e afinidade. Porém, há textos nas Escrituras que mostram o enorme desejo de Deus de gerar essa mesma intimidade com Ele. Vamos atentar para algumas passagens magnificas, porém com outras palavras mas que remetem o mesmo sentido:

Nesta passagem notamos o desejo de Deus relevado ao profeta Jeremias:

Porque, como o cinto se apega (dabaq, דָּבַק) aos lombos do homem, assim eu fiz apegar-se (dabaq, דָּבַק) a mim toda a casa de Israel e toda a casa de Judá, diz o SENHOR, para me serem por povo, e nome, e louvor, e glória; mas não deram ouvidos (Jer 13.11).   

Nesta passagem apreciamos o querer de Deus sobre seu povo, manifestado ao profeta Oséias:

Portanto, eis que eu a atrairei (pathah, פָּתָה[12]), e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração (Os 2.14)            

Nesta passagem do NT vemos Cristo amar nos atrair para sermos dele:

E eu, quando for levantado da terra, atrairei (helkuo, ἕλκύω[13]) todos a mim mesmo (Jo 12.32).

Por último, desejamos ser aqueles que seguem o Cordeiro por onde quer que vá:

São estes os que não se macularam com mulheres, porque são castos. São eles os seguidores (akoloutheo, ακολουθεω[14]) do Cordeiro por onde quer que vá. São os que foram redimidos dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro (Ap 14.4).
  
O que você tem amado acima de tudo?
Ídolos camuflados.



“Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias. São estas as coisas que contaminam o homem; mas o comer sem lavar as mãos não o contamina”.  (Mt 15.19)

Jesus muda a visão do mundo quando convida o homem à olhar o seu próprio coração. Até aquele momento, os ídolos eram fáceis de apontar. Aquilo que era feito por mãos humanas, recebia oferendas, sendo declarado um deus, era considerado um ídolo. Lamentavelmente, as ações exigidas pela religião feitas de maneira exemplar, titulavam os líderes como exemplos de santidade (Mt 6.1,“Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste”). Esta é a denuncia profética em todo o livro de Mateus. Observe atentamente alguns pontos da mensagem no capítulo 23:        

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança! Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo! Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade (23.25-28).   

Havia uma ênfase no exterior ignorando o interior. Os homens eram fiéis nas ordenanças exteriores, porém, suas intenções estavam repletas de maldade. No destaque da mensagem de Cristo para voltar-se ao coração, compreendemos que o Filho, na verdade, está apenas reacendendo o que o Pai decretou no decálogo[15]: “Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20.3). O primeiro mandamento, não alertava apenas para qualquer ídolo feito exteriormente, o preceito apontava também para dentro do coração dos homens:

Assim diz o SENHOR Deus: Qualquer homem da casa de Israel que levantar os seus ídolos dentro do seu coração, e tem tal tropeço para a sua iniquidade, e vier ao profeta, eu, o SENHOR, vindo ele, lhe responderei segundo a multidão dos seus ídolos; para que eu possa apanhar a casa de Israel no seu próprio coração, porquanto todos se apartaram de mim para seguirem os seus ídolos (Ez 14.4,5).      

Não havia como reverenciar um deus exteriormente sem amá-lo internamente. Os ídolos venerados estavam no coração dos homens, ou seja, eles roubavam a paixão do povo de Deus. Israel é considerada uma prostituta que se deita com outros povos e gera filhos imundos: “Mas vocês, aproximem-se, vocês, filhos de adivinhas, vocês, prole de adúlteros e de prostitutas!” (Is 57.3). Timothy Keller comenta que o alerta do primeiro mandamento inclui tudo no mundo. Pois, a maioria sabe que é possível fazer do dinheiro ou do sexo um deus. Então, qualquer coisa que absorva o coração do homem ou a sua imaginação mais do que Deus é um ídolo. Keller prossegue:

Um falso deus é qualquer coisa que seja tão central e essencial em sua vida que, caso você a perca, achará difícil continuar vivendo. Um ídolo tem uma posição de controle tão grande em seu coração que você é capaz de gastar com ele a maior parte da sua paixão e energia, seus recursos financeiros e emocionais, sem pensar duas vezes. Podem ser a família e os filhos, a carreira e o dinheiro, conquistas e aclamação da crítica, respeito e reconhecimento social. Pode ser um relacionamento amoroso, aprovação dos colegas, competência e habilidade, circunstâncias seguras e confortáveis, beleza ou inteligência, uma grande causa política ou social, moralidade ou virtude, ou até sucesso no ministério cristão. Quando o sentido de sua vida reside em consertar a vida de alguém, podemos chamar isso de “codependência”, mas na verdade é idolatria. Um ídolo é qualquer coisa que você olhe e diga, no fundo de seu coração: “Se eu tiver isto, sentirei que minha vida tem um sentido, e então saberei que tenho valor, estarei seguro e em posição de importância”. Existem muitas formas de descrever esse tipo de relação com algo, mas talvez a melhor descrição seja a palavra adoração (KELLER. 2016, p.15,16)                        

Observe na explicação de Keller, pois os ídolos nos fornecem uma falsa sensação de estabilidade espiritual. Nisso, adquirimos também uma falsa estabilidade emocional. Tudo o que gastamos tempo, e neste tempo investido, lançamos nossas energias. Só continuamos este processo de serviço, porque estamos recebendo um certo conforto emocional. Existe um agrado, um riso momentâneo, um prazer disfarçado e até uma missão egoísta. Entretanto, Platt vai mais fundo na questão dos ídolos. Sua explanação revela que nós mesmos somos o ídolo que tanto servimos:

Colocamos em primeiro lugar a nós mesmos, depois os outros (muitas vezes na tentativa de usá-los em proveito próprio) e Deus em algum lugar (se tanto) bem distante. Deixamos de adorar a Deus para adorar a nós mesmos. Ora, provavelmente não colocaríamos as coisas dessa forma. A maioria das pessoas não confessa publicamente “eu adoro a mim mesmo” (PLATT. 2016. p.26,27) 

Desta maneira compreendemos porque a Escritura foca o coração humano. Nele está o centro que motiva o homem naquilo que acredita. Deus frisa as emoções humanas para limpar o homem dos ídolos que seu próprio coração cria. Jesus diz: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mt 5.8). A palavra “limpo” no grego é “katharos” (καθαρος), que significa ser “purificado pelo fogo”. Deus é fogo consumidor (Hb 12.29). Os olhos de Jesus são como chamas de fogo (Ap 1.14). O propósito de Cristo é olhar para dentro do nosso coração com um olhar de fogo para purificá-lo. Assim, cumprir aquilo que o Pai prometeu que faria. Calvino comenta que Deus deve ser o único a ter preeminência em nosso coração:

Deus enuncia o primeiro mandamento, a saber: que não tenhamos deuses estranhos diante de sua face [Ex 20.3]. O fim deste mandamento é que Deus quer ser o único a ter a preeminência em seu povo e nele exercer seu direito em plena medida. Para que isso aconteça, ordena que estejam longe de nós a impiedade e toda e qualquer superstição, em virtude da qual ou se diminui ou se obscurece a glória de sua divindade. E, pela mesma razão, prescreve que o cultuemos e o adoremos com o verdadeiro zelo da piedade. E a própria simplicidade das palavras soa quase que isto, porquanto não podemos ter Deus sem que, ao mesmo tempo, abracemos as coisas que lhe são próprias. Portanto, o fato de proibir que tenhamos deuses estranhos, com isto significa que não devemos transferir para outrem o que lhe é exclusivo (CALVINO. 2007. p. 362).

Ao observarmos todas as promessas da nova aliança, relacionadas ao coração do homem, reveladas ao povo através do profeta Jeremias. Nelas, encontramos YHWH (יְהוָֹה) sondando o coração dos homens, para limpá-los:     

1. Primeiramente YHWH (יְהוָֹה) convida o povo a se arrependerem e limparem seus corações. O Senhor não deseja derramar a sua ira, porém, não permitirá que o mal prossiga entre os seus escolhidos:  

Circuncidai-vos para o SENHOR, circuncidai o vosso coração, ó homens de Judá e moradores de Jerusalém, para que o meu furor não saia como fogo e arda, e não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras... Lava o teu coração da malícia, ó Jerusalém, para que sejas salva! Até quando hospedarás contigo os teus maus pensamentos?... O teu proceder e as tuas obras fizeram vir sobre ti estas coisas; a tua calamidade, que é amarga, atinge até o próprio coração. (4.4,14,18)

2. YHWH (יְהוָֹה) esquadrinha o coração do povo e revela seus ídolos. Como um marido que pressiona sua esposa e descobre que em seu coração ela ama outros. O próprio coração é um engano. Israel está vivendo em engano.  

Mas, ó SENHOR dos Exércitos, justo Juiz, que provas o mais íntimo do coração, veja eu a tua vingança sobre eles; pois a ti revelei a minha causa...Plantaste-os, e eles deitaram raízes; crescem, dão fruto; têm-te nos lábios, mas longe do coração...O pecado de Judá está escrito com um ponteiro de ferro e com diamante pontiagudo, gravado na tábua do seu coração e nas pontas dos seus altares...Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações. (11.20; 12.2; 17.1,9,10)

3. Os líderes estão fingindo. Praticam maldades, profetizam e se dizem representantes de Deus. Eles não querem tratar o coração da noiva. Estão enganados.

Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Não deis ouvidos às palavras dos profetas que entre vós profetizam e vos enchem de vãs esperanças; falam as visões do seu coração, não o que vem da boca do SENHOR. Dizem continuamente aos que me desprezam: O SENHOR disse: Paz tereis; e a qualquer que anda segundo a dureza do seu coração dizem: Não virá mal sobre vós...Até quando sucederá isso no coração dos profetas que proclamam mentiras, que proclamam só o engano do próprio coração? (23.16,17,26)

4. Entretanto, apesar da insistência de YHWH (יְהוָֹה), o homem é rebelde, falso e não quer mudança. Tenta enganar a Deus e continuar com os ídolos no coração. O homem deseja partilhar sua paixão com outros amores, colocando o Senhor como mais uma opção:

Apesar de tudo isso, não voltou de todo o coração para mim a sua falsa irmã Judá, mas fingidamente, diz o SENHOR...Mas este povo é de coração rebelde e contumaz; rebelaram-se e foram-se...Mas não deram ouvidos, nem atenderam, porém andaram nos seus próprios conselhos e na dureza do seu coração maligno; andaram para trás e não para diante...Antes, andaram na dureza do seu coração e seguiram os baalins, como lhes ensinaram os seus pais... Este povo maligno, que se recusa a ouvir as minhas palavras, que caminha segundo a dureza do seu coração e anda após outros deuses para os servir e adorar, será tal como este cinto, que para nada presta... Vós fizestes pior do que vossos pais; pois eis que cada um de vós anda segundo a dureza do seu coração maligno, para não me dar ouvidos a mim... Mas eles dizem: Não há esperança, porque andaremos consoante os nossos projetos, e cada um fará segundo a dureza do seu coração maligno (3.10; 5.23; 7.24; 9.14; 13.10; 16.12; 18.12)

5. YHWH (יְהוָֹה) está furioso. Ele irá revelar sua ira contra as atitudes dos homens.

Mas não atenderam, nem inclinaram o seu ouvido; antes, andaram, cada um, segundo a dureza do seu coração maligno; pelo que fiz cair sobre eles todas as ameaças desta aliança, a qual lhes ordenei que cumprissem, mas não cumpriram...Mas tu, ó SENHOR, me conheces, tu me vês e provas o que sente o meu coração para contigo. Arranca-os como as ovelhas para o matadouro e destina-os para o dia da matança...Disse-me, porém, o SENHOR: Ainda que Moisés e Samuel se pusessem diante de mim, meu coração não se inclinaria para este povo; lança-os de diante de mim, e saiam. (11.8; 12.3; 15.1)

6. YHWH (יְהוָֹה) ama o seu povo. Mesmo havendo rebeldia, o Senhor trará cura para limpar os seus corações:  

Naquele tempo, chamarão a Jerusalém de Trono do SENHOR; nela se reunirão todas as nações em nome do SENHOR e já não andarão segundo a dureza do seu coração maligno...Dar-lhes-ei coração para que me conheçam que eu sou o SENHOR; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus; porque se voltarão para mim de todo o seu coração...Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração... Não é Efraim meu precioso filho, filho das minhas delícias? Pois tantas vezes quantas falo contra ele, tantas vezes ternamente me lembro dele; comove-se por ele o meu coração, deveras me compadecerei dele, diz o SENHOR...Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo...Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que me temam todos os dias, para seu bem e bem de seus filhos. Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim. Alegrar-me-ei por causa deles e lhes farei bem; plantá-los-ei firmemente nesta terra, de todo o meu coração e de toda a minha alma. (3.17; 24.7; 29.13; 31.20,33; 32.39-41).
       
Para finalizarmos este ponto, notaremos as palavras de John Wesley. Uma declaração genuína e um coração totalmente entregue ao nosso Senhor:

Num sentido, [a Perfeição Cristã] é a pureza de intenções, a entrega de toda a vida a Deus. É entregar a Deus todo o nosso coração; é ter um só desejo e um só desígnio a governar todos os nossos sentimentos. É consagrar não apenas uma parte, mas todo o nosso coração, corpo e substância a Deus. Num outro sentido, é ter toda a mente de Cristo capacitando-nos a andar como Cristo andou. É a circuncisão do coração de toda a sujeira, toda a poluição tanto interna como externa. É a renovação do coração na inteira imagem de Deus, a plena semelhança dAquele que o criou. E ainda noutro sentido, é amar a Deus com todo o nosso coração, e ao próximo como a nós mesmos[16].

Se o mundo for contra Deus, seja contra o mundo (RJV).

Amar a Deus intensamente é um hábito contínuo.



Para Smith ser um humano é ser um amante e amar algo acima de tudo. E esse amor é um tipo de desejo subconsciente que opera sem que pensemos a respeito. O amor é menos uma escolha consciente e mais uma espécie de inclinação básica, uma orientação padrão que produz as escolhas que fazemos[17]. Obviamente, o início deste amor por Ele só foi possível através do Seu amor por nós antes: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (IJo 4.19). Ele quis despertar-nos para O amarmos: “...não acordeis, nem desperteis o amor, até que este o queira. Ouço a voz do meu amado...”(Ct 2.7,8). Tudo iniciou-se n`Ele, através d`Ele e para Ele: “...Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar...” (Fp 2.13).

Quando lemos a passagem do profeta Oséias que diz: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR...” (Os 6.3), devemos nos atentar que após haver o primeiro passo de Cristo em nos despertar, há em nós agora, direcionados pelo amor, uma missão de descobrir tudo sobre o nosso Amado. No texto de Oséias há uma resposta humana. O homem é incentivado à correr intensamente atrás do Senhor. Usar todas as suas forças para descobrir os segredos de Deus. Observe que a palavra “conhecer” no hebraico, “yada” (יָדַע), quer dizer; aprender a conhecer, perceber, ver, e descobrir. Esta palavra pode ser usada para expressar familiaridade entre parentes e conhecidos (Gn 29.5; Ex 1.8; 2Sm 3.25). Entretanto, é usado também para relacionamentos mais íntimos. Por exemplo: Deus conhece Moisés pelo nome e face a face (Ex 33.17; Dt 34.10). Ele também conhece o sentar e o levantar do salmista (Sl 139.2). (LEWIS. 2012. p.597)
Ao observarmos a segunda palavra “prosseguir”, no hebraico éradaph” (רָדַף) que pode ser entendido também como: estar atrás, seguir, perseguir, correr atrás, seguir no encalço de, acompanhar, procurar obter, buscar ardentemente, ou procurar alcançar ardentemente. William White comenta:

Em geral o termo se refere a um homem ou a um grupo de pessoas que persegue alguém com o objetivo de combater ou se vingar. Em uma oportunidade o verbo descreve o ato de caçar uma perdiz (ISm 26.20). Num contexto mais teológico, diz-se que Deus persegue os ímpios (Jr 29.18). Em outros contextos é o fiel quem persegue os seus inimigos (Sl 18.38). Numa passagem especialmente poética e bela (Na 1.8), o Senhor livra aquele que lhe é fiel, mas provoca uma inundação e com trevas persegue os seus inimigos (2012. p.1404 )  
              
Em outras palavras, se formos reescrever de forma mais clara aquilo que o profeta está falando, faríamos assim: YHWH (יְהוָֹה), está nos convidando para conhece-lO intensamente e não apenas superficialmente. Ele nos despertou para que sejamos intensamente apaixonados por Ele. O Senhor quer que usemos todas as nossas forças para persegui-lO, alcançá-lO e caçá-lO (no bom sentido). Sermos homens escravos do amor que sentimos por Ele. Sermos servos impulsionados pela paixão que temos somente por Ele. Assim, Ele deseja que prossigamos em conhece-lO.

Paulo, escravo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus (Rm 1.1).   

“...se encontrares o meu Amado, diga-lhe; estou enferma de amor” (Ct 5.8).

Prefira a morte do que não amá-lO intensamente! (RJV). 
  
O ciúmes de um Deus zeloso



Ao relembrarmos o primeiro mandamento, notamos a exigência de exclusividade somente a YHWH (יְהוָֹה).

Então, falou Deus todas estas palavras: Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso (qanna - קַנָּא), que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos (Ex 20.1-6).

Observamos também que Deus não esconde ser ciumento. A palavra zeloso é “qanna” (קַנָּא), indicando um sentido de emoção muito intensa onde o sujeito deseja alguma qualidade ou a posse do objeto. Note como Davi usa o verbo para mostrar um sentimento consumidor em seu coração: “Pois o zelo da tua casa me consumiu...” (Sl 69.9). O ciúmes de YHWH (יְהוָֹה) requer que os homens sejam fiéis a aliança feita no Sinai (Ciynay, סִינַי[18]). Os dez mandamentos são chamados nas Escrituras de; “As Dez Palavras, e eles estão no cerne do código da Aliança. Na sua raiz, Dez Palavras podem ser vistos como fazer Adonai o ponto fundamental de referência, o absoluto” (OLIVEIRA. 2012 p.70). Oliveira prossegue: “Sempre verifique que Adonay D`US é seu absoluto final, o eixo em torno do qual tudo gira, a raiz de todos os seus valores e decisões”. O propósito da Lei é que o Senhor desejava que seu povo tivesse uma relação mais íntima com ele. O real motivo de cumprir a Lei deveria ser motivado pelo o amor e a gratidão a Deus, por havê-los redimido e feito filhos seus (HOFF. 2007. p.130).           
A traição por outros deuses despertaria a ira, pois Deus é descrito como marido de Israel. Encontramos um episódio no Pentateuco[19] ocorrido com o sacerdote Finéias. Israel estava se prostituindo com as filhas dos moabitas. Eles estavam participando dos sacrifícios à outros deuses, comendo dos rituais e se curvando a eles. A ira de um Deus ciumento se acende contra Israel. A ordem é enforcar os líderes para que a ira se retire do arraial. Então Moisés ordena: “...Cada um mate os homens da sua tribo que se juntaram a Baal-Peor” (Nm 25.5). Porém, enquanto Moisés e toda a congregação chorava diante do Senhor sobre a infidelidade do povo, um príncipe (Nm 25.14) desafia a todos trazendo uma midianita para praticar imoralidade, junto com seus irmãos diante de YHWH (יְהוָֹה). Neste momento, um homem chamado Finéias, pega uma lança e mata os dois no leito da perversão. Note atentamente o que o texto diz:

Finéias, filho de Eleazar, filho de Arão, o sacerdote, desviou a minha ira de sobre os filhos de Israel, pois estava animado (“qanna”, קַנָּא) com o meu zelo (“qanna”, קַנָּא) entre eles; de sorte que, no meu zelo, não consumi os filhos de Israel (Nm 25.11).

A Escritura diz que Finéias estava enciumado igual ao ciúmes de Deus em relação a infidelidade do povo. Este homem desempenhou o papel do cônjuge fiel, ao matar o casal que profanava a aliança. Bois comenta que de modo ágil, avaliando o grau de seriedade da situação, o sacerdote o resolveu: “por causa da sua agilidade, zelo (ciúmes), perspicácia espiritual e pronta intervenção a favor de Israel, Deus recompensou Finéias com o concerto do sacerdócio perpétuo” (BOIS. 2005, p.381). O sacerdócio de Finéias é entregue porque ele teve ciúmes igual a Deus:“...porquanto teve ciúmes (qanna”, קַנָּא), pelo seu Deus e fez expiação pelos filhos de Israel” (Nm 25.13). Observe o que Lou Engle diz sobre nosso Deus Zeloso e como devemos queimar de paixão por Ele:   

Ó, Eu amo o Deus cujo nome é Zeloso! Os seus olhos são uma chama ardente, queimando tudo o que tenta competir com as afeições do meu coração. Aí, no santuário do meu coração, Ele não tolera nenhum rival. É nesse lugar que o santo amor de Deus se encontra com a minha santa resposta de nazireu. Aí, um santo ardor ocorre, e o supremo prazer da intimidade com Deus é vivenciado no altar do meu coração – uma experiência que é muito mais gratificante do que os prazeres seculares e efêmeros da concupiscência sexual e dos entretenimentos. Eu fui criado para queimar (ENGLE. p.20)

Da mesma forma um homem chamado João Batista, queimava por Ele através de sua mensagem: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3.2). Este homem estava ardendo em fidelidade diante de uma geração infiel: “Ele era a lâmpada que ardia e alumiava...” (Jo 5.35). A palavra arder no grego é “kaio” (καίω) que significa “queimar, consumir com fogo”; e a palavra “alumiava” é “phaino” (φαίνω), que significa “brilhar, tornar visível”. João queimou incessantemente para que a mensagem sobre a vinda do Messias fosse iluminada. Todos os cristãos devem almejar uma vida totalmente entregue ao Senhor Jesus. Não deveríamos amar incondicionalmente um sucesso profissional, ou uma felicidade familiar, ou até uma gratificação honrosa de reconhecimento por algum trabalho. Nada pode tomar nosso tempo e dedicação que devem ser exclusivamente ao nosso Deus. Deseje ser o mais apaixonado nesta geração. Observe Edwards:

Supondo que nunca existiu nenhum indivíduo neste mundo, em nenhuma época do tempo, que nunca haja vivido uma vida cristã perfeita em todos os níveis e possibilidades, tendo o Cristianismo sempre brilhante em todo o seu esplendor, e parecendo excelente e amável, mesmo sendo essa vida observada de qualquer ângulo possível e sob qualquer pressão, eu resolvi agir como se pudesse viver essa mesma vida, mesmo que tenha de me esforçar no máximo de todas as minhas capacidades inerentes e mesmo que fosse o único em meu tempo (EDWARDS. 14 De Janeiro e 3 de Julho de 1723. Resolução 63).

Podemos definir que devemos alcançar o nível de amar somente à Deus. Podemos também entender que não há como amar somente à Deus e ainda estivermos flertando com outros deuses. Assim Josué relembra o povo:

Não podereis servir ao SENHOR, porquanto é Deus santo, Deus zeloso, que não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados. Se deixardes o SENHOR e servirdes a deuses estranhos, então, se voltará, e vos fará mal, e vos consumirá, depois de vos ter feito bem. Então, disse o povo a Josué: Não; antes, serviremos ao SENHOR (Js 24.19-21) 

Para Coppes, Deus espera que o homem retribua ao seu amor. Pois, amar a Deus é obedecer-lhe. O zelo apaixonado e ardente por Deus, resulta em fazer a sua vontade e defender a sua honra em face dos atos ímpios (COPPES. 2012. p.1350). Note como Davi expõe este sentido: “O meu zelo me consome, porque os meus adversários se esquecem da tua palavra” (Sl 119.139). YHWH (יְהוָֹה) tem zelo pelo seu nome: “...terei zelo pelo meu santo nome” (Ez 39.25), por isso, vindica respeito para que assim observem sua Lei no coração: “ninguém que, ouvindo as palavras desta maldição, se abençoe no seu íntimo, dizendo: Terei paz, ainda que ande na perversidade do meu coração, para acrescentar à sede a bebedice. O SENHOR não lhe quererá perdoar; antes, fumegará a ira do SENHOR e o seu zelo sobre tal homem...” (Dt 29.19,20).

Deus é descrito como “marido” de Israel. Ele é um Deus zeloso (Ex 20.5). Josué reafirmou de que Deus é um Deus zeloso (ciumento) que não toleraria a idolatria e o povo se colocou debaixo do governo de Deus (Js 24.19) (OLIVEIRA. 2017. p.11)

   YHWH (יְהוָֹה) disse que exterminaria a casa de Acabe (IRs 21.19), e para isso, um homem chamado Jeú[20] foi levantado. Na cidade de Jezreel, setenta filhos de Acabe são mortos e suas cabeças colocadas em cestos na entrada da cidade (IIRs 10.1-17). Ao continuar sua perseguição contra os filhos de Acabe, Jeú encontra-se com Jonadabe[21], convida-o e diz porque está fazendo isso: “...Vem comigo e verás o meu zelo (qin'ah, קִנְאָה) para com o SENHOR...” (IIRs 10.16).  
Carson comenta que o Zelo de Deus visava o bem do povo. Pois, se Deus dissesse: “Vocês podem fazer o que quiserem”, eles simplesmente cairiam em incessante autojustificação, amor próprio e egoísmo. Consequentemente, ofereceriam seus filhos ao deus Moloque. Ele continua: “A insistência na centralidade em Deus visava o bem dos israelitas. Era um ato de amor e de grande generosidade” (CARSON. 2013. p.85). Para finalizarmos este ponto, vamos atentar para um relato de Edwards onde expõe como este grande Deus é extremamente melhor do que qualquer criação sua.    
          
O gozo de Deus é a única felicidade com a qual nossa alma pode satisfazer-se. Ir ao céu, desfrutar plenamente de Deus, é infinitamente melhor do que as mais agradáveis comodidades deste mundo. Pais e mães, maridos, mulheres, filhos ou a companhia de amigos terrenos são apenas sombras; mas, Deus é a substância. Eles são apenas raios de luz, Deus é o sol. Eles são as correntes de água, Deus é a fonte. Eles são gotas, Deus é oceano[22].

Ou supondes que em vão afirma a Escritura: É com ciúme que por nós anseia o Espírito, que ele fez habitar em nós? (Tg 4.5).

Andamos na Lei para desenvolvermos virtudes.



O significado de virtude é de alguém que expressa boa conduta, em conformidade com o correto, algo aceitável e esperado[23]. Para Smith, virtudes são bons hábitos morais. Uma disposição interna para o bem. Traços de caráter que passam a fazer parte de quem você é, de modo que você é o tipo de pessoa inclinada a ser compassiva, pronta a perdoar e assim por diante. Quanto mais virtuosa uma pessoa é, menor será a necessidade de uma força ou lei externa que o obrigue a fazer o bem[24]. Assim é um homem virtuoso. Lembremos de Jó: “Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (1.1).   
Quando pensamos na lei devemos atentar que elas são regras exteriores direcionadas a frear um mal interior. Elas também obrigam o modo exterior a realizar algo bom, mesmo que o interior não queira. Na lei Torá (תּוֹרָה) encontramos explícito essa ênfase. Pois, se qualquer hebreu tivesse um inimigo, alguém que o odiasse, e no dia, encontrasse seu animal, deveria levá-lo até sua casa. Se fosse o contrário, alguém o odiasse e ao passar por um caminho e visse o animal deste, sobrecarregado, ele não poderia passar sem o ajudar, tinha que parar sua viagem e levantar o animal (Ex 23.1-7; Dt 22.1-4)[25]. Jensen comenta:

Claramente, o que se pretende aqui é a promoção de uma atitude que vai bem além de simplesmente ajudar um amigo em necessidade. Assim também, a proibição de seguir a maioria para fazer o mal (Ex 23.2) visa a nos impedir de cometer um erro muito frequente, em vez de apresentar uma lei aplicável (JENSEN, 2006. p48). 

De maneira clara, temos a lei que freia nossos males internos de se manifestarem. Também, temos a lei que nos obriga a agir de modo reto para com o nosso próximo. Aprofundando mais este ponto, compreendemos que quanto mais internalizarmos a lei de Deus em nosso coração, mais propensos serão nossas ações em praticar a vontade de Deus que é boa: “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite” (Sl 1.1,2). Um homem justo se afasta do mal porque assim a lei determina. Este homem, medita na lei dia e noite, internalizando-a em seu coração. Assim, agirá de forma justa tornando-se um hábito.

Tornar-se virtuoso é internalizar a lei (e o bem para onde a lei aponta), de modo que você a siga de forma mais ou menos automática. Como menciona Aristóteles, uma vez que você adquire um hábito moral, ele se torna sua segunda natureza (SMITH. 2017. p.38) 

Não podemos ver a lei apenas no seu aspecto negativo; condenando, refreando, reprimindo e segurando a maldade humana. A apresentação negativa da lei existe, porém, o aspecto positivo também. A pratica da lei internaliza em nós aquilo que ela mesmo expressa: “...tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé...”(Mt 23.23). Somos justos porque um JUSTO nos justificou (Gl 2.16). Porém, os justos praticam justiça através daquilo que a lei determina. Mas, devemos ressaltar que antes, os justos, encontram graça aos olhos de Deus. Neste ponto Calvino comenta:

Concluímos, pois, como algo fora de dúvida, o que deve ser conhecidíssimo por todos aqueles medianamente versados na Escritura: que todas as obras que procedem dos homens que ainda não foram santificados pelo Espírito de Deus, por mais excelentes que sejam em aparência, estão longe de ser consideradas como justiça perante Deus, e são julgadas como pecados. Portanto, falaram a verdade aqueles que ensinaram que as obras não outorgam graça à pessoa, mas que, pelo contrário, as obras agradam a Deus quando a pessoa tiver antes encontrado a graça aos olhos dele...Moisés escreve que “O Senhor olhou com agrado a Abel e a sua oferenda” (Gn 4.4). Vês como demonstra que o Senhor foi propício aos homens antes de olhar as obras deles? Por essa razão, é preciso que a purificação do coração venha antes, para Deus receber com amor as obras que procedem de nós, porque estará sempre em vigor o que Jeremias disse: “Os olhos do Senhor olham a verdade” (Jr 5.3). Além disso, o Espírito Santo afirmou pela boca de Pedro que é somente pela fé que os corações dos homens são purificados (At 15.9). Daqui se conclui que o primeiro fundamento consiste na fé verdadeira e viva (CALVINO. 2007. Tomo II. p.237,238).       
      
Desta forma, compreendemos o que as Escrituras mencionam como “boas obras” de cada cristão: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras...” (Ef 2.10); sermos o sal da terra e a luz do mundo, significam termos boas obras diante dos homens para glorificar ao nosso Deus: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.16). Vejamos o que os cristãos Stott, Agostinho, Wesley, Bickle, Spurgeon e Lloyd-Jones tem a dizer sobre as “boas obras”:

Parece que “boas obras” é uma expressão generalizada, que abrange tudo o que o cristão diz e faz porque é cristão, toda e qualquer manifestação externa e visível de sua fé cristã (STOTT. 2008. p.52)  

O Senhor não se contentou, pois, com dizer: “Brilhe do mesmo modo a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras”, mas acrescentou: “para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus”. Isto é, mesmo sendo agradável aos homens pelas boas obras, o cristãos se propõe outro fim: a glória a Deus. O motivo de agradar aos homens seja para que eles glorifiquem a Deus (AGOSTINHO. 2017. p.43)    

Deixemos que a nossa luz brilhe diante dos homens para que vejam as nossas boas obras...Que o nosso único alvo seja que todos os que virem as nossas boas obras possam glorificar ao nosso Pai que está no céu. Que esse seja o nosso fim maior em todas as coisas...Que o nosso amor não seja dissimulado...Que não haja engano em nossa boca. Que as nossas palavras sejam o retrato genuíno do nosso coração. Que não haja trevas nem restrições nas nossas conversas...Sejamos naturais e simples com todos. Que todos possam ver, por meio desse comportamento, a graça de Deus que está em nós...Pelo nosso exemplo, eles retornarão para o Senhor Jesus. Isso então glorificará o nosso Pai que está no céu. Que o nosso propósito seja que todos os homens possam glorificar a Deus em nós....Que a luz que está no nosso coração brilhe em todas as boas obras, tanto nas obras de piedade como nas obras de misericórdia. E, para aumentar a nossa capacidade de fazer o bem, renunciemos a tudo o que é supérfluo. Cortemos toda despesa desnecessária em comida, móveis e roupas. Sejamos bons mordomos de cada dom de Deus, mesmo dos menores dons. Eliminemos todo dispêndio desnecessário e todo emprego dispensável e inútil do nosso tempo. Tudo o que fizermos, façamos com todo o esforço. Em suma, sejamos plenos de fé e amor (WESLEY. 2012 p.125)       
   
Se nós perguntarmos ao Espírito Santo, Ele nos dará ideias para servir e expressar a verdade. Desta forma, Ele “acende nossa lâmpada”. Nós devemos seguir essas ideias e posicionar por essas verdades. Ele às vezes nos dará trabalhos bem simples para ajudar outros de forma prática, ou iniciar um estudo da Bíblia, ou alcançar nosso vizinhos. Deixar nossa lâmpada brilhar significa agir nas diretrizes do Espírito. Muitos as recusam porque alcançam poucas pessoas e são rotineiras e “mundanas” (BICKLE. p.12).

As Bem-aventuranças marcam um aprofundamento na humilhação e uma crescente exaltação. Na proporção em que os homens elevam-se na recepção da benção divina, mas se afundam em sua própria estima, e consideram uma honra fazer as obras mais humildes (SPURGEON.2014. p.21)

Não somente o crente deve glorificar a seu Pai celeste; mas também deve fazê-lo de maneira tal que outras pessoas também queiram glorificá-lo. Isso por sua vez, conduz-nos ao fato que, em vista de sermos crentes autênticos, devemos sentir no coração profunda tristeza por essas outras pessoas...Em outras palavras, em todo o nosso trabalho, em todo o nosso viver cristão, esses três fatores sempre deveriam ocupar lugar de primazia. Sempre devemos fazer tudo visando à causa e a glória do Senhor. Cumpre-nos conduzir os homens aos Seus pés, para que O glorifiquem. E devemos alicerçar todos os nossos atos no amor e na compaixão pelos perdidos. Assim, pois, nosso Senhor exortou-nos a demonstrar o que Ele tem feito e está fazendo de nós. Precisamos funcionar como homens e mulheres que receberam da parte dEle a vida divina...Ele pôs diante dos nossos olhos esse admirável quadro da possibilidade de nos tornarmos semelhantes a Ele, ainda neste mundo (LLOYD-JONES. 2013. p.167) 

   Cristo realizou boas obras diante dos homens. Essas obras eram feitas em nome de Deus, testificando sua autenticidade: “As obras que eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito... Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte do Pai; por qual delas me apedrejais?” (Jo 10.25,32). A serva Tabita, conhecida como Dorcas, era conhecida nos céus como uma mulher que praticava boas obras: “...era ela notável pelas boas obras e esmolas que fazia” (At 9.36). Tito[26] é aconselhado por Paulo para ser diante dos homens padrão de boas obras: “Torna-te, pessoalmente, padrão de boas obras...”(Tt 2.7). Platt comenta:

Deus nos criou para boas obras. Se você é seguidor de Cristo, então é livre para descansar na obra consumada por ele a seu favor e, ao mesmo tempo, é livre para fazer boas obras de acordo com a vontade dele. E essa vontade é clara. Ele quer tonar sua glória – a plenitude do seu caráter – conhecida por todos os povos do mundo todo. Ele quer mostrar ao mundo que é “misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e cheio de bondade e de fidelidade” (Ex 34.6); que ele “levanta o pobre do pó” e “ergue o necessitado do monte de cinzas” (ISm 2.8); que “defende os oprimidos” e “dá alimento aos famintos” (Sl 146.7); que é “defesa para os indefesos” e “para o necessitado em sua angústia” (Is 25.4). Essas características de Deus são reveladas de forma suprema em Cristo, que veio “para anunciar boas novas aos pobres” e “para pôr em liberdade os oprimidos” (Lc 4.18) (PLATT. 2016. p.51).       

Para os cristão de hebreus, o conselho é para que todos estimulem uns aos outros na pratica das boas obras: “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Hb 10.24). O apóstolo Pedro orienta a importância das boas obras como testemunho, para que o ímpio glorifique a Deus ao presenciá-las: “Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma, mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação” (IPd 2.11,12). No entanto, por essas obras justas compareceremos diante do Senhor Jesus para sermos reconhecidos. Cerfaux comenta:

De fato as boas obras são identificadas com a submissão à “verdade” e as obras más são a iniquidade (Rm 2.8). No nível religioso, revelação da “verdade” e vontade de Deus são equivalentes. Deus não faz acepção de pessoas: “Todos os que pecaram sem a Lei perecerão também sem a Lei e todos os que pecaram sob a Lei, serão julgados pela Lei” (Rm 2.12). Pois a consciência pagã também está submetida à lei natural (Rm 2.14,15). Segundo esses princípios, Deus julgará as obras ocultas dos homens por Jesus Cristo. Assim, pois, os cristãos não podem ficar isentos do exame final pelo fogo do “dia” do Senhor (ICo 3.13). Paulo repete-lhes com frequência a advertência de Rm 2 quanto ao julgamento segundo as obras: “Nós todos compareceremos diante do tribunal de Deus...cada um de nós prestará contas de si próprio” (Rm 14.10-12); “É necessário que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo” (2Co 5.10) (CERFAUX. 2012. p.223).

Para Calvino, não podemos rejeitar as Duas Tábuas da Lei, pois Moisés ensinou com muita propriedade que a lei, entre os santos, tem um uso melhor e superior. Pois, assim Moisés diz: “Aplicai o coração a todas as palavras que, hoje, testifico entre vós, para que ordeneis a vossos filhos que cuidem de cumprir todas as palavras desta lei. Porque esta palavra não é para vós outros coisa vã; antes, é a vossa vida; e, por esta mesma palavra, prolongareis os dias na terra à qual, passando o Jordão, ides para a possuir” (Dt 32.46,47). Este aplicar da lei não se deve entender como a referência a uma só era, pois é muitíssimo aplicável a todas as épocas, uma a uma, até o fim do mundo (CALVINO. Livro II. 2007. p. 124). Calvino considerava a lei mais como um guia para o cristão, um meio para apegar-se a Deus com fervor. O cristão tinha que seguir a lei de Deus com um coração grato. Pois assim, o Espírito Santo o ajudaria a expressar sua gratidão, sendo fiel a lei (BEEKE. 2016. p.32).  
O caminho de tornar-se um virtuoso não é adquirido nas longas horas debruçado em uma mesa de biblioteca. Não há como obter virtude por meio do pensamento. Smith diz que essa é a diferença. Pois, leis, regras e mandamentos determinam e anunciam o que é bom; elas me informam sobre o que devo fazer. Já a virtude é diferente: não é algo adquirido intelectualmente, mas efetivamente (SMITH.2017.p.39). Você não lê um livro sobre todas as regras do amor e em seguida, passa a amar alguém que você nunca viu. Podemos concordar que você pode saber muitas coisas sobre relacionamento, através da leitura, onde outros casais citam exemplos de suas vidas. Porém, isso é insuficiente para haver o desenvolver de um sentimento. A afetividade ocorrerá quando houver outra pessoa, com o inicio de uma conversa e um desenvolvimento de amizade, risos, olhares e afetividade. Assim, o amor de Deus cresce em nosso coração, quando desenvolvemos afetividade com Ele em nossa caminhada cristã. Nos tornamos virtuosos pelo amor que Ele nos ensina.  

Eu amo, SENHOR, a habitação de tua casa e o lugar onde tua glória assiste (Sl 26.8).

Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si (Gn 5.24).

Não me deixe só estudá-lO. Eu quero amá-lO (RJV).



Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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Bibliografia

AGOSTINHO. Patrística. O Sermão da Montanha e Escritos sobre Fé. Paulus. São Paulo: 2017.
BEEKE. Joel. R. Vivendo para a Glória de Deus. Fiel. São Paulo: 2016.
BICKLE. Mike. Sete anseios do coração humano. FhopBooks. Florianópolis: 2017.
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CARSON. D.A. O Deus presente. Fiel. São Paulo: 2013.
CARSON. D.A. O Comentário de Mateus. Shedd. São Paulo: 2014.  
CERFAUX. Lucien. O Cristão na Teologia de Paulo. Academia cristã. Paulus. Santo André – SP: 2012.
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ENGLE. Lou. O DNA do Nazireu. Curutiba: 2012.
GRONINGEN. Gerard Van. O Reino, a Aliança e o Mediador. Volume 1. Cultura. São Paulo: 2017.
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LEWIS. Jack P. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Vida Nova. São Paulo: 2012.
LLOYD-JONES. Martyn. Estudos no Sermão do Monte. Fiel. São Paulo: 2013.  
LUC. Alex. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese. Volume 2. Cultura: São Paulo: 2011
OLIVEIRA. Marcelo. A Fascinante Cultura Judaica. 2012.
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PLATT. David. Contra Cultura. Vida Nova. São Paulo: 2016.
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VICENTE. Ronaldo Jose. O Profeta em Israel e a Justiça Social. Reflexão. São Paulo: 2015.
KALLAND. Earl. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Vida Nova. São Paulo: 2012.
KELLER. Timothy. Deuses Falsos. Thomas Nelson. Rio de Janeiro: 2016.
WESLEY. John. O Sermão do Monte. Vida. São Paulo: 2012.
WHITE. William. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Vida Nova. São Paulo: 2012.


[1] Apesar de o termo Torá abranger todos os fundamentos, leis e ensinamentos do judaísmo, literalmente refere-se aos 5 livros que nos foram transmitidos por D’us – letra por letra – a Moisés no Monte Sinai. Os cinco livros de Moisés – Bereshit (Gênese), Shemot (Êxodo), Vayikra (Levítico), Bamidbar (Números), Devarim (Deuteronômio) – compõem o que conhecemos como a Torá Escrita, ou Torah she-Bichtav. Retirado do site: http://www.morasha.com.br/leis-costumes-e-tradicoes/a-tora-oral.html
[2] Shemá Israel Adonai Elokenu Adonai Ehad. Ouve Israel, Adonai é nosso D’us, Adonai é Um. Ouve, atentamente, ó Israel, preste atenção, abre totalmente sua percepção, silenciando completamente a mente, medite sobre o que estiver pronunciando, interiorize e absorva a mensagem de tal forma que se torne parte de sua própria essência... D’us é Um e é Único, e Ele é nosso D’us. Este versículo que inicia uma das mais antigas e importantes orações do judaísmo, o Shemá, é nossa declaração de fé. Nesta é proclamada a própria essência do judaísmo, o que sempre diferenciou os judeus de outros povos: a crença na Unidade e Unicidade de D’us e a lealdade eterna de Israel para com seu D’us. Shemá Israel foi o que o patriarca Jacob ouviu dos filhos em seu leito de morte. Foram as palavras usadas por Moisés para se dirigir aos judeus em seu último discurso, no deserto. O versículo resume o primeiro e o segundo mandamento do Decálogo; é a primeira oração que a mãe ensina a seu filho; são as últimas palavras pronunciadas por um judeu antes da morte. Retirado do site: http://www.morasha.com.br/leis-costumes-e-tradicoes/shema-israel.html

[3] Bible Study. Dicionário Strong`s.
[4] Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese. Volume 2. Cultura: São Paulo: 2011, P.749
[5] Aquele que existe. o nome próprio do único Deus verdadeiro. Nome impronunciável.
[6] BOWLING. Andrew. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Vida Nova. São Paulo: 2012. p.766
[7] Bible Study. Dicionário Strong`s.
[8] SMITH. 2017.p.41.
[9] BICKLE. 2017. p.7
[10] SMITH. 2017.p.26
[11] Bible Study. Dicionário Strong`s.
[12] Persuadir, seduzir.
[13] Puxar por um poder interno, arrastar, impelir.
[14] Seguir a alguém que precede, juntar-se a ele como seu assistente, acompanhá-lo, juntar-se a alguém como um discípulo, tornar-se ou ser seu discípulo.
[15] “Decálogo” é o termo grego usado para definir aquelas “dez palavras” fundamentais que regem a moral bíblica, mas que contêm também os valores éticos gerais e naturais. Claro que o fato que essas “palavras” sejam Palavra de Deus comunicada sobre o Sinai, o monte da aliança entre o Senhor e Israel, dá ao decálogo uma qualidade religiosa radical, confirmada sobretudo pelo primeiro mandamento que tem três fórmulas: teológica (Não terás outros deuses…), pastoral (Não farás para ti ídolos nem alguma imagem…) e litúrgica (Não ti prostrarás diante deles e nem lhes servirás). Retirado do site; http://www.abiblia.org/ver.php?id=1236&id_autor=47&id_utente=&caso=artigos / por Gianfranco Ravasi; http://www.abiblia.org/index.php?a=2&id=47 .
[16] John Wesley: Deles Wesley derivou importantes elementos do seu conceito da natureza da perfeição, como por exemplo, a possibilidade real de praticar a pureza de intenções, a necessidade de imitar Cristo como modelo de vida santa, e o amor por Deus e pelo próximo como a “perfeição” definitiva e normativa. Esta citação vem da sua obra Uma Explicação Clara da Perfeição Cristã, e serve de Kempis, Taylor, e Law. Retirado do site: https://arminianismo.wordpress.com/2012/01/09/a-teologia-de-john-wesley/
[17] SMITH. 2017.p.36,37.
[18] A montanha onde Moisés recebeu a lei de Javé; localizada no extremo sul da península do Sinai, entre as pontas do mar Vermelho; localização exata desconhecida.
[19] O nome Pentateuco vem da versão grega que remonta ao século III antes de Cristo. Significa “O livro em cinco volumes”. Os judeus lhe chamavam “A lei” ou “A lei de Moisés”, porque a legislação de Moisés constitui parte importante do Pentateuco (HOFF. 2007. p.15,16).  
[20] יֵהוּא. Sig. Javé é Ele. O monarca do reino do norte, Israel, que destronou a dinastia de Onri.
[21] יְהוֹנָדָב. Sig. Javé está disposto. Um filho de Recabe, líder dos recabitas, na época de Jeú e Acabe.
[22] Jonathan Edwards, “The Christian Pilgrim”, em Edwards Hickman (ed), The works of Jonathan Edwards, vol.2 (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1974), p. 244.
[24] SMITH. 2017.p.38.
[25] Ronaldo José Vicente. Retirado do livro; O profeta em Israel e a Justiça Social. 2015.p 24,25. 
[26] Cristão gentio e companheiro de Paulo em algumas de suas viagens.






 "O Profeta em Israel e a Justiça Social", lançado pela editora Reflexão. Pr. Ronaldo José Vicente. (ronjvicente@gmail.com)   - Adquira o livro clicando:  http://www.editorareflexao.com.br/o-profeta-em-israel-e-a-justica-social/p/576 

Banda Templo (ICor 3.17) de Fogo (Hb 12.29)

CD – O VIDENTE

Este CD tem como característica fundamental a vida e a mensagem dos profetas do AT. Todas as músicas estão baseadas em textos das Escrituras. A música “o Vidente” baseia-se em uma linha de profetas do Antigo Israel chamados de Nabiy’, Chozeh e Ra’ah, Is 6.1-3; ISm 9.9; 16.1-13; Dn 7.1-8; Zc 3.1-10. (ver: http://lagrimasportuacausa.blogspot.com.br/…/o-profeta-e-o-…). A música “Terra Especial” e “Alguém” conta a trajetória de Moisés com o povo de Israel rumo a Terra prometida (Ex 12.1-51; 14.1-31). A música “Jeremias 7” baseia-se nas advertências do profeta contra as perversidades dos religiosos (Jr 7.1-34). “Oséias, o profeta do amor” é poetizado com o intenso amor de Javé pelo seu povo (Os 1.2,9; 2.1; 11.1; 14.1,4). A música “Elias”, retratará o episódio no monte Carmelo, onde Javé responde com fogo no desafio entre Elias e os profetas de Baal (IRs 18.1-40). A música “Teu Querer” é uma balada baseada na doutrina da Eleição Incondicional – homens como (Paulo) e outros, impactados pela escolha soberana de Deus (At 9.3; Rm 8.29,30). A música “Confiar nos profetas” baseia-se neste texto das Escrituras: “...Crede no SENHOR, vosso Deus, e estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis...” – A música relata o contexto deste pronunciamento contando a história do Rei Josafá (2Cr 20.20). Por fim, temos a música do profeta “Joel”, especificamente com uma mensagem sobre “O Dia do Senhor”. Essa música fecha o CD com a profecia da volta de JESUS!
I. Você pode adquirir o CD no valor de 20,00 + custo de correios 8,00, total = 28,00
Você também pode adquirir o livro “o Profeta em Israel e a Justiça Social”. Este livro é do Pr Ronaldo José Vicente, baterista da banda. O livro foi a ideia inicial para o trabalho que se desenvolveu no CD (ver: http://lagrimasportuacausa.blogspot.com.br/…/o-profeta-e-pr…)
II. Você pode adquirir o livro no valor de 30,00 + custo de correios 8,00, total = 38,00
III. Você pode adquirir o livro e + CD no valor de 50,00 + custo de correios 8,00, total = 58,00
Transferindo ou fazendo o depósito nas contas:
Banco Itaú. Ag 1664 Conta Corrente 28767-7 /Ronaldo José Vicente ou Clarissa Alster Vicente. Banco Santander: Ag 0201 Conta Corrente 01062968-1/ Ronaldo José Vicente ou Clarissa Alster Vicente.
(envie o comprovante em in box para enviarmos o pedido).


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