Salmo 23 - O Senhor é o meu Pastor; ELE não me faltará!




Salmo 23.1-6

O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará.
Ele me faz repousar em pastos verdejantes.
Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma.
Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome.
Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte,
não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo;
o teu bordão e o teu cajado me consolam.
Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários,
unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda.
Bondade e misericórdia certamente me seguirão
todos os dias da minha vida;
e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre.


Este Salmo não se acha nem entrelaçado com orações, nem apresenta queixas de misérias com o propósito de se obter alívio. Contém simplesmente uma expressão de gratidão, à luz da qual evidencia-se que foi composto quando Davi granjeou a posse pacífica do reino e vivia em prosperidade e no usufruto de tudo quanto pudesse desejar. Portanto, para que não vivesse, no tempo de sua grande prosperidade, como os homens mundanos, os quais, quando parecem viver afortunadamente, sepultam Deus no esquecimento, e concupiscentemente se precipitam em seus prazeres, Davi se deleita em Deus, o autor de todas as bênçãos de que desfrutava. E não só reconhece que o estado de tranquilidade no qual ora vive, bem como a isenção de toda e qualquer inconveniência e desventura, eram devidos à benevolência divina, mas também confia em que através da divina providência ele continuará feliz mesmo no encerramento de sua vida [terrena], e por isso termina dizendo que poderia gastar-se na prática de seu culto perfeito.

João Calvino. O Livro dos Salmos. CB. 1999. p. 509


O Senhor é o meu pastor. Estas palavras ensinam o crente a experimentar a satisfação através do cuidado do grandioso Pastor do universo, o Redentor e Preservador dos homens. Quando sente alegria, sabe que tem um Pastor e este Pastor é Jeová.

Matthew Henry. Comentário Completo. CPAD. 2002. p.812


Este poema deve muito de seu encanto à habilidosa combinação de imagens contrastadas que cobrem os principais aspectos da vida humana, a saber, ao ar livre (1-2) e nos interiores (6b); paz pastoral (2) e peregrinação entre o perigo (4b); a possibilidade do mal (4b) e a antecipação do bem (5); tempos de revigoração de alma (3a) e tempos de ignominiosa melancolia (4a); a experiência em seguir (1-2) e uma vida de estável segurança (6b). Não obstante, todas as facetas literárias dessa gema lírica são vistas à luz do Senhor cujo terno cuidado, incessante vigilância e presença perpétua proporcionam à vida todas as suas cores e satisfações. Efetivamente, a atividade de sete aspectos do Senhor, descrita nos vers. 2-5 (Ele faz, Ele guia, Ele refrigera, Ele lidera, Ele está comigo, Ele prepara uma mesa, e Ele unge a minha cabeça) está emoldurada dentro do nome do Senhor (a primeira e a última palavras do poema).

Davidson, F. MA, DD. O Novo Comentário da Bíblia. Vida Nova. São Paulo: 1997.p.931


O hino do Bom Pastor. Um descanso sabático parece exalar desse Salmo, que destrói todo mal. Ele faz com que nosso inimigo permaneça imóvel como uma pedra até que os seus remidos tenham passado por cima. Por esse motivo, o salmista sente brotar em si um raio de esperança que acha expressão: “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre”.  

MEYER. F.B. Comentário Bíblico. Editora Betânia. Belo Horizonte: 2002, p.278


Este é o salmo do Grande Pastor que cuida de suas ovelhas e que as prepara para o ministério (Hb 13:20, 21), o "grande Sumo Sacerdote" (Hb 4:14) que "[vive] para sempre para interceder por [nós]" (Hb 7:25). Sem dúvida, este salmo tem uma mensagem para os que estão profundamente entristecidos, mas é uma pena que seja tão usado principalmente em funerais, pois, na verdade, o Salmo 23 concentra-se naquilo que Jesus faz por nós "todos os dias da [nossa] vida" e não apenas na morte (v. 6). Também é uma pena que a tendência seja espiritualizar o salmo e deixar de vê-lo dentro de seu verdadeiro contexto. Muita gente imagina Davi como um "pastorzinho", deitado num pasto meditando sobre as coisas de Deus, quando, na realidade, é bem provável que ele tenha escrito esse salmo quando já era um homem idoso, possivelmente durante a rebelião de Absalão (2 Sm 13-19).

WIERSBE, Warren, Comentário Bíblico Expositivo do A.T. Volume 3, Poéticos, Santo André, Geográfica: 2010. p.132

  
Introdução


Expor o Salmo 23 será de grande recompensa para todos os cristãos da atualidade, pois de maneira cautelosa sabemos ser um dos Salmos mais conhecidos na face da terra; mas às vezes determinadas traduções não conseguem serem tão profundas com as verdades contidas; iremos ver as palavras em hebraico que dão um sentido diferente e o mais importante; por exemplo, a palavra רֹעִי roy – pastor, ao aprofundarmos em nossa exegese, encontraremos uma riqueza de entendimento, relacionando a metáfora de um Deus pessoal e paterno; outra palavra também é shuwb (שׁוּב), “retornar” traduzida como refrigério em muitas versões, mudando o sentido de recuperação para alívio. 
O Salmo 23 é dito por grandes comentaristas como o texto chave para compreender a revelação trazida por Cristo no evangelho de João 10. Infelizmente as pessoas usam o Salmo 23 apenas para manter as Escrituras abertas em suas residências, mas poucos compreendem com exatidão a profundidade das palavras.
Estudar este Salmo nos levará em primeiro lugar a refletir quem é o verdadeiro Pastor das nossas almas e como este age com suas ovelhas. Revelando-nos como o Senhor trabalha com cada cristão. Também iremos compreender como Ele deseja que nos comportemos como ovelhas, passivas e totalmente dependentes do Pastor. Ovelhas são animais frágeis, não possuem um instinto de sobrevivência em um mundo selvagem, necessitam de um protetor. Davi tinha total entendimento e compreensão em sua pratica de vida, sobre ser uma ovelha totalmente dependente do Senhor. Começaremos nosso estudo explorando e abrindo de maneira mais clara toda a estrutura que compõe o Salmo 23, pesquisando as palavras, observando vários pensamentos, identificando as figuras e se aprofundando de maneira mais segura com o texto.  
Se você estudar todo o artigo e captar profundamente as palavras deste Salmo. Pode ter total garantia. Ele nunca mais será usado para manter sua Bíblia aberta na sala. Você caminhará para uma experiência de intimidade com o verdadeiro Pastor. Aquele que mantem suas ovelhas, guiadas pela Sua bondade e mantidas pela Sua proteção. Assim, todos os dias, podemos seguramente viver a promessa deste Salmo:

“Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre”.


Explanando a estrutura do Texto:

O Senhor Forte e Poderoso nas batalhas é um Pastor cuidadoso e pessoal.  


Encontramos uma característica peculiar no Salmo do guerreiro Davi. O autor inicia o texto com duas forças de pensamentos inaugurais para o período em que foi escrito. Primeiro, o salmista nomina o Deus a quem serve. Este nominar, descrevo-o no sentido de particularidade, pois iremos ver que ao mencionar o grande יְהוָֹה[1] YHWH-DEUS, Davi irá figurá-lo a um simples Pastor. O nome YHWH-DEUS encontrado do capítulo 23:1, “O SENHOR é o meu pastor...”, segundo Gusso, para facilitar a compreensão é uma transliteração para Yahweh com vogais para facilitar a pronuncia. Davi expõe o nome do Senhor, “Yahweh” e em segundo lugar o figura como um “Pastor”, (רֹעִי roy, Is 38.12). Na Bíblia Strong temos a tradução desta palavra que diz; “apascentar, cuidar de, pastar, alimentar, pastorear[2]. Neste segundo ponto exaltado do Salmo, a palavra em hebraico (רֹעִי roy – pastor), em sua forma explicada; רֹעִי roy; qal particípio ativo singular com sufixo pronominal 1.ª comum singular; Pastorear, apascentar, tomar conta do rebanho (GUSSO. 2008. p.301).  é traduzido como “me pastoreia”. Note a profundidade dos dois pontos. O nome do Senhor, YHWH-DEUS, Aquele que é forte e poderoso nas batalhas (Sl.24.8) é descrito por Davi com o sentido figurado de um pastor (רֹעִי roy). Este pastor é aquele que me pastoreia de forma pessoal. Calvino comenta:

É preciso, porém, observar-se que Deus só é pastor em relação àqueles que, tocados com o senso de sua própria fragilidade e pobreza, sentem-se dependentes de sua proteção, e que espontaneamente habita seu redil e se deixa governar por ele. Davi, que excedia tanto em poder quanto em riquezas, não obstante confessa francamente não passar de uma pobre ovelha, com o intuito de fazer de Deus o seu pastor (CALVINO. 2009. p.511).

Estes dois princípios necessitam ser esclarecidos porque fundamentam a compreensão do Salmo vinte e três. O primeiro princípio que Davi estabelece sobre o Senhor YHWH-DEUS se relaciona com seu estado Hebreu. Sendo herdeiro de toda obra feita por Deus, Davi compreende a supremacia do Senhor sobre toda e qualquer divindade pagã (Sl.82.1). Ele vive em uma cultura onde o entendimento da lei mosaica é essencial para a constituição do seu povo. Tanto para a religião como para a sociedade (Sl.1.1-6, 19.7-14). Davi recebe a herança cultural da historia do Êxodo de como o Senhor libertou o seu povo do Egito (Sl.78.12, 81.10, 105.38, 106.7, 114.1, 135.8, 136.10). O salmista compreende a presença do Deus YHWH simbolizada no tabernáculo (HILL. 2006. p.92). Então, nesta última chamada podemos encaixar o segundo princípio base deste Salmo. Davi entende que a presença de Deus em Israel era mantida simbolicamente pelo Tabernáculo e a sua real presença mantida pela Arca da aliança (Êx.40.17-33). Assim todos os Hebreus foram ensinados. Entretanto, o contexto que vivia podia colocar dúvidas à sua mente, pois o tabernáculo estava em Siló (ISm.1.3), e sem a Arca da Aliança que representava a presença de Deus (IS.4.4,17), pois a arca estava em Quiriate-Jearim (ISm.7.2) e depois em Obede-Edom (2Sm.6.10). Com certeza devemos ressaltar esse entendimento de Davi, também seu contexto, pois todos naquela época sabiam que a Arca da Aliança que representava a presença de Deus no meio do povo, por isso, futuramente a primeira atitude de Davi é resgatá-la.

O Senhor Reina. O Senhor é o meu Pastor. Davi declara e apresenta o poder maravilhoso da verdade que há em Deus, e também o quanto abençoado é saber isto (BUCER. 2015. p.452)

O Eu Sou é meu Pastor (Yhwh ro’i) estabelece um relacionamento intimo eu-tu entre o Eu Sou e o israelita; afirma a dependência total da bondade de Deus e da compaixão para cuidar; e vincula que este relacionamento é baseado em confiança amorosa (WALTKE. 2015. p.460)

Este é o tempo em que os “deuses” eram distantes, escravizavam os homens para adoração. Sacrifícios de filhos eram feitos para acalmar a ira supostamente divina, o homem era apenas um ser insignificante perante terríveis deuses (HILL. 2006. p.91). Supostamente podemos acreditar que muito deste pensamento afetava até o povo escolhido de Deus, poucos conseguiram captar que o Senhor não era igual a esses deuses. Davi conseguiu compreender uma característica pessoal de Deus, Ele é um Deus paternal, cuidadoso e pessoal, YHWH é chamado de Pastor. O único Senhor forte e poderoso, que destruiu uma nação poderosa, o Egito, agora pode ser comparado a um pastor pessoal e que supri todas as nossas necessidades para ter um relacionamento próximo com cada um.



Você deveria tornar-se ciente de que é pastoreado e guiado na vereda justa pelo Senhor, cante o Salmo 23. Regozije-se nisto – O Senhor me conduz

(PROTHERO. 2015. p.439).



“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas”.

(Jo.10.11).


O termo Pastor


Neste primeiro verso enfatizo a palavra רֹעִי roy – pastor, como palavra-chave do Salmo (23.1). Um imenso estudo pode ser feito com esta palavra. O termo Pastor era muito usado no Antigo Testamento (WIERSBE, 2010 p.132). Vemos a figura de Abel como o primeiro pastor (Gn.4:2, “...Abel foi pastor de ovelhas”) e o primeiro mártir da Bíblia. Moisés também passou 40 anos cuidando das ovelhas do seu sogro e o maior rei de Israel, Davi, passou boa parte de sua infância cuidando das ovelhas do seu pai. Note que tanto a figura de Moisés como a figura de Davi, passaram boa parte de suas vidas cuidando de ovelhas; futuramente estariam aptos a cuidar, guiar, direcionar e aconselhar pessoas. Assim Deus nos prepara para a sua obra. Primeiramente Ele nos coloca exercendo determinados trabalhos que pela nossa compreensão podem aparentemente ser inúteis, mas depois que estamos realizando a Sua obra, entendemos todo o tempo que gastamos nestes trabalhos primazes.
A figura do Pastor é associada a Deus nas Escrituras e a primeira vez que aparece, está em Gênesis 48:15 e 49:24. Então continua a ser usado ao longo das Escrituras (Sl.28:9; 80:1;95:7;100:3;Is 40:11;49:10;Jr.31:10;Ez.34:11-15;Mt.10:6;15:24; Mc.6:34). O messias prometido era visto como um Pastor (Ez.34:16,23; Mq.5:4; Zc.13:7; Mt.2:6; 26:3; Mc.14:27; Jo.10). O termo pastor é usado como uma figura, e caminha no sentido de um Deus pessoal que nos guarda, protege e guia. A este respeito Calvino diz:  

Sob a similitude de um pastor, ele enaltece o cuidado com que Deus, em sua providência, havia exercido para com ele. Sua linguagem implica que Deus não tinha menor cuidado para com ele do que um pastor tinha para com as ovelhas que lhe são postas a sua responsabilidade. Deus, na Escritura, frequentemente toma sobre si o nome e assume o caráter de um pastor, e isso de forma alguma é o emblema de um frágil amor para conosco. Visto ser essa uma despretensiosa e familiar forma de expressão, Aquele que se digna descer tão baixo por nossa causa, com certeza nutre uma afeição singularmente forte para conosco. Portanto, não é de admirar que, quando nos convida para si com tal mansidão e familiaridade, não nos deixamos ser atraídos ou fascinados por ele para que descansemos em segurança e paz sob sua guarda (CALVINO, 2009 p.459).

Este entendimento pessoal de Deus é uma característica compreendida por Davi em tempos impossíveis de captar. Como dissemos, a cultura daquele tempo mostrava “deuses” totalmente impessoais, terríveis, manipuladores, interesseiros nas dádivas dos homens; poucas pessoas do Antigo Testamento obtiveram uma revelação pessoal de Deus. Alguns versículos mostram a figura de um homem chamado Enoque que andou com Deus (Gn.5.22,24: הָלַךְ, halak; andar, vir, partir, proceder, ter um estilo de vida[3]). Outros como Abraão, Jacó e Moisés, também foram homens que caminharam com um Deus que é pessoal. Nesta caminhada com o Senhor, Abraão foi chamado de amigo de Deus (Is.41.8, “...descendente de Abraão, meu amigo”; אָהַב, ahab; amar, família, amigo[4]; Tg.2:23). Moisés tinha tanta comunhão com o Senhor que seu relacionamento era íntimo, como de um próximo amigo (Ex.33:11, “Falava o SENHOR a Moisés face a face, como qualquer fala a seu amigo...”); (רֵעַ, rea, amigo - substantivo רה, masculino singular com sufixo pronome 3.ª masculino singular. Da raiz רעה, tem os significados de; companheiro, camarada, colega, amigo; a pessoa com quem a gente se encontra casual e temporariamente ou, então, com que a gente se relaciona por vizinhança ou por qualquer outro motivo; vizinho, o outro, o próximo; muito frequente em expressões de reciprocidade)[5].
Davi foi um destes felizardos. Kidner comenta que Davi poderia ter usado termos como Rei, Guerreiro ou Libertador, por causa das constantes guerras (KIDNER,1973 p.128). Termos facilmente aceitos e compreendidos pelas pessoas, com uma ideia distante e nunca pessoal. Entretanto, o salmista usa o termo pastor, que poderia causar espanto no pensamento habitual daquele período. Primeiro que Davi era um homem de guerra, vemos que toda a sua trajetória envolvia luta e sangue. Sua luta com Golias (ISam 17), sua investida para a conquista do Reino e após a proibição do próprio Deus para a construção do Templo (ICron.22.8). Então, facilmente haveria em suas palavras a ideia de um Deus Todo Poderoso. Um Rei, Soberano e que governa com justiça. Assim seria o discurso de Davi por causa de sua pratica de vida. Porém algo extremamente importante salta de seus escritos. A ideia de um amável pastor. Aquele que vive com o seu rebanho. Como um médico, um guia e um excelente protetor.
Henry sugere que provavelmente Davi compreendeu a postura de Deus como um pastor e teve suporte para expressar o cuidado pessoal de Deus e assumir-se como uma ovelha, pelo fato da própria Escritura o citar como um pastor cuidadoso com suas próprias ovelhas (HENRY,2010 p.285), (Sl.78.70,71). Este ponto será melhor analisado nos próximos capítulos. Porque irá nos fornecer uma enorme compreensão da postura de Davi. Como já dissemos, Davi era um homem de guerra, propício para resolver todas as questões na base da força, independência e com um instinto de sobrevivência. Porém, em seus escritos, compara-se a uma ovelha totalmente indefesa e dependente do seu pastor para sobreviver. Esta base é totalmente importante para compreendermos nossa postura como cristão, pois somos chamados por Cristo de ovelhas (Jo.10.27). Cristo não deseja homens que aparentemente dizem ser ovelhas, mas que produzem suas atitudes através do comportamento de um animal selvagem. Agindo totalmente independente de Deus. Estes na verdade são lobos que desejam enganar (Mt.7.15). Cada cristão necessita avaliar suas atitudes, pois o efeito da salvação de Deus combate a rebeldia da natureza humana. Um homem que nasceu de novo não pode pensar em viver sozinho, independente de Deus (2Cor.5.14,15).         


As características de um Pastor




É de total importância sabermos de algumas ações que um pastor tinha com suas ovelhas. O comentarista Warren (2010, p.133), ressalta que Jesus chamou os cristãos de “minhas ovelhas” (Jo.10.27), pois morreu por elas (I Pd.1:18,19), e o Pai as entregou em suas mãos (Jo.17:12). Esta é a mais importante característica de um Pastor. Ele dá a sua vida para proteger as suas ovelhas. Para captar a profundidade daquilo que o próprio Cristo disse aos discípulos, observemos o texto: Jo 10.11, “Eu sou o bom Pastor. O bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas”. Precisamos entender que quando um pastor cuidava de suas ovelhas, em qualquer momento, se depararia com situações de vida ou morte. Ou seja, momentos em que a sua própria vida deveria ser ousada e valente para enfrentar todo mal que viesse contra suas ovelhas. Davi expõe este momento valioso da valentia de ser este pastor, ao relatar para o Rei Saul como agia para salvar as suas ovelhas (ISm.17:34-36). Davi enfrentava o leão e o urso, tirando-as da boca dos animais e em seguida os matava. Todos concordam que quando Davi enfrentava esses oponentes, estava indo em direção a morte. Era a sua vida para salvar a vida de suas ovelhas. Porém ele vencia. Assim é o nosso bom Pastor. Ele não teme o perigo para nos salvar. Está disposto a se sacrificar por todos nós.

Pastores são inseparáveis dos rebanhos e o trabalho exige muito, é solitário e, às vezes, perigoso (Gn 31.38-40; ISm 17.34,35). Se uma ovelha se perde, o pastor fiel deixa as outras no campo aberto para encontrá-la, e quando ele a encontra, chama os amigos para celebrar com ele porque encontrou a ovelha perdida (Lc 15.3-7) (WALTKE. 2015. p.460).
       
Outra forma de entender a rica característica de um Pastor é notar, que ao mesmo tempo em que Ele é Grande e um temível guerreiro. Ele também é um meigo e carinhoso Pastor (Is.40.11). Cuida dos pequeninos (Mt.10.42; 11.25; 18.6,10; 19.14; 25.40). Preocupa-se com a recepção destes no meio de outros. Gosta de revelar seus mais preciosos segredos. Preza para o cuidado dos pequeninos e ameaça de forma terrível a qualquer um que tenta prejudicá-los. Ele ama estar bem perto de cada um e não admite pessoas que tentam quebrar essa liberdade deles de se aproximarem do bom Pastor. Reconhece a todos aqueles que ajudam os pequeninos e promete recompensá-los por agirem assim.    
O vale da sombra da morte é um dos pontos centrais do Salmo. Davi mostra que o Pastor está conosco. Guiando-nos neste vale. Ovelhas são animais que não enxergam muito bem e se assustam com facilidade. Principalmente quando se veem em circunstâncias desconhecidas, especialmente no escuro. É a presença do pastor que as acalma. Da mesma forma que a presença de Jesus acalmou seus discípulos na tempestade (Mt.8:23).

Como uma ovelha, quando vagueia e atravessa um vale escuro, é preservada imune dos ataques das feras selvagens e de outras formas de males, tão-somente mediante a presença do pastor, assim Davi ora declara que enquanto estiver exposto a algum perigo contará com suficiente defesa e proteção, estando sob o cuidado pastoral de Deus (CALVINO, 2009 p.515).

Jesus não é um servo contratado que foge ao se deparar com o perigo. Ele é o verdadeiro Pastor que dá a sua vida por suas ovelhas (Jo.10:11-15). Elas tem “paz com Deus” (Rm.5.1, Jo.14.27) e quando confiam plenamente no Senhor podem desfrutar desta paz (Fp.4:4-7).    
Alguns comentaristas como Champlin, concordam que o Salmo 23 não se restringe apenas ao sentido de segurança para o cristão. Pois o Senhor é o Pastor que cuida de nossas vidas, mas também se refere a um sentido messiânico. Davi estava expressando o termo pastor, em seu tempo. Termo esse que no futuro seria usado e encarnado no próprio Cristo, com suas palavras e sua vida (Jo.10), (CHAMPLIN,2001 p.2119).

A característica de uma Ovelha.


Outro ponto central é aprofundarmos sobre as características de uma ovelha. Davi ao figurar o Senhor como um Pastor, pôde trazer uma dimensão rica sobre um guardião, protetor, pessoal e paterno. Porém também deveria haver na mente do Salmista, uma ideia do comportamento humano. No qual o Senhor deseja encontrar em seus filhos. Podemos sustentar este pensamento ao notar outros escritos de Davi, quando compara seus inimigos com feras selvagens (Sl.22:12-16,21).

Muitos touros me cercam, fortes touros de Basã me rodeiam. Contra mim abrem a boca, como faz o leão que despedaça e ruge. Derramei-me como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram; meu coração fez-se como cera, derreteu-se dentro de mim. Secou-se o meu vigor, como um caco de barro, e a língua se me apega ao céu da boca; assim, me deitas no pó da morte. Cães me cercam; uma súcia de malfeitores me rodeia; traspassaram-me as mãos e os pés... Salva-me das fauces do leão e dos chifres dos búfalos; sim, tu me respondes (Sl 22.12-16,21).

Pessoas rebeldes, com uma atitude independente, possuem um comportamento selvagem e podem ser igualados a animais. Pois agem com um instinto de sobrevivência em seu habitat. Animais selvagens necessitam deste instinto para poderem sobreviver. Eles são bárbaros, independentes e não tem um guia, um protetor, um líder ou um pastor. Totalmente diferente de uma ovelha. A ovelha no Oriente Médio era domesticada e chegava a ser tratada como um animal doméstico do Ocidente. Alguns pastores até nomeavam suas ovelhas (CHAMPLIN, p.649). Era uma forma de identifica-las e haver certa particularidade. Cada cristão possui uma história com Deus e isso se encaixa totalmente quando o evangelho de João menciona que o Pastor chama as suas ovelhas pelo nome. Ele as conhece.

Para este o porteiro abre, as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz para fora... As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem (Jo 10.3,27).

A figura de uma ovelha e seu comportamento para com o seu Pastor é de total dependência. Elas são identificadas pelo seu guia. Reconhecem a sua voz e não prosseguem sem a sua orientação. O texto de João 10 é importante para compreendermos a postura de uma ovelha. Pois esta deve também ser a postura de um cristão. No final do versículo três encontramos a seguinte menção: “...e as conduz para fora”; essa é a ação ativa do Pastor. As ovelhas estão protegidas no aprisco, mas existe a necessidade de saírem para se alimentarem. Pois precisam andar e crescer. Elas não conseguem sair sozinhas. É o Pastor que as conduz para fora. Não há como viver somente no aprisco. Da mesma forma cada cristão precisa sair e enfrentar a realidade do mundo. Porém neste ponto precisamos aprender com as ovelhas. Pois elas são conduzidas para fora pelo Pastor e em seguida elas o seguem (10.4, “...elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz”). O Pastor vai na frente de suas ovelhas, e elas caminham conforme seus passos. Todo cristão necessita entender estes dois momentos importantes. O momento do aprisco e o momento de sair e seguir o Pastor.

Assim como o bom Pastor, o Senhor Jesus cuida amavelmente de todo o seu povo. Ele supre todas as suas necessidades no deserto deste mundo e os conduz pelo reto caminho à cidade em que habitarão. Suporta pacientemente as muitas fraquezas e imperfeições de suas ovelhas e não as rejeita por serem geniosas, frágeis, errantes e aleijadas. Ele as guarda e protege contra todos os seus inimigos, assim como Jacó fez ao rebanho de Labão. O Senhor Jesus verá que de todos os que o Pai Lhe deu nenhum se perdeu afinal (RYLE. 2000. p.130)      

Champlin interpreta este “conduzir para fora”, como uma ação do Senhor para libertar cada cristão do mundo, levando-os para a vida eterna (Jo.10.10, 28). Devemos aprender que as Escrituras comparam cada cristão a uma ovelha pela total dependência que possui do seu pastor. Todo filho de Deus precisa lutar contra sua natureza selvagem. A palavra “aprisco” no Velho Testamento é mencionada no livro de Miquéias com uma forte esperança ao povo de Deus:

Certamente, te ajuntarei todo, ó Jacó; certamente, congregarei o restante de Israel; pô-los-ei todos juntos, como ovelhas no aprisco, como rebanho no meio do seu pasto; farão grande ruído, por causa da multidão dos homens (Mq 2.12)

A palavra “aprisco” no hebraico é בָּצְרָה, Botsrah. Quer dizer curral de ovelhas ou fortaleza. Veja que o sentido da palavra nos ajuda a compreender como o Senhor protege o seu povo. As ovelhas estão protegidas, os filhos de Deus serão guardados na fortaleza que é Cristo (Sl.18.2). Porém, existe um certo tempo onde as ovelhas estão guardadas no aprisco e o momento em que devem sair. Nestes dois momentos, o Pastor está presente para guardar e guiar.   

No cercado, as ovelhas eram protegidas pelos muros. Mas depois que o pastor chamava suas ovelhas para fora, que proteção lhes restava? Nenhuma, exceto o próprio pastor. Enquanto elas ficassem perto dele, tudo estaria bem; a característica de um bom pastor é que ele defende suas ovelhas, mesmo com sua vida correndo perigo. Este bom pastor acaba se revelando o verdadeiro Rei de Israel e o Servo do Senhor obediente, cumprindo a primeira parte da sua missão - “tornar a trazer a Jacó, e reunir Israel” (Is 49.5) (BRUCE. 1987. p.195)

Ele não me faltará!


23:1 - “...nada me faltará”. O termo אֶחְסָר לֹא, lo echesar; “não sofro falta”; v. חסר, qal incompleto, 1.ª comum singular; sentir falta, sofrer falta, quando lido separadamente sugere a ideia de “necessidades supridas” (GUSSO,2008 p.247). Ou de nenhuma forma de carência sofrida com um cristão. É propicio interpretarmos desta forma, por causa da influência capitalista que sofremos. Bênçãos de Deus comparadas aos bens materiais. Porém se acoplarmos com o inicio da palavra-chave do Salmo, podemos concluir que a necessidade do cristão é suprida diretamente no Senhor. O próprio Senhor é a fonte de todas as nossas necessidades. A Bíblia Judaica completa[6]usa o sentido da seguinte forma: “Adonai é meu Pastor; não preciso de nada”. Na verdade, o Senhor é o que me sustenta e as coisas necessárias da vida, são apenas consequência deste meu relacionamento com Ele. Este entendimento é muito vinculado com as mensagens proferidas por Cristo. Enquanto o ímpio procura satisfazer-se em bens materiais e o fundamento de sua vida são riquezas. Os cristãos devem compreender que seu sustento estão somente no Senhor. Não devemos estar ansiosos e preocupados com essas coisas.  

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração. São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão! Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes? Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal (Mt 6.19-34).  

Mas há divergências, pois alguns sugerem a ideia de provisões adequadas. Um Pastor nunca deixava suas ovelhas com fome ou sofrerem qualquer tipo de necessidades, por isso o cristão deve entender o tempo e a medida. Henry sugere que o cristão deve esperar que será sustentado com qualquer coisa que precise, e se não tiver tudo o que deseja, pode concluir que não é adequado receber, ou não está no momento de receber, mas virá em outros tempos (HENRY,2010 p.285). Já Champlin interpreta o sentido um pouco diferente, acreditando que na mente Judaica a piedade está vinculada com a prosperidade, tanto material como física (CHAMPLIN,2001 p.2119). Ou seja, Davi usou a figura de ovelhas para expressar como foi cuidado pelo Senhor. A benção de Deus esteve em sua vida na área espiritual, material, familiar e nas conquistas. Calvino comenta que a necessidade suprida pelo Senhor mencionada neste primeiro versículo é relatada em detalhes, da forma como Deus supre seus servos. Guiando-os a águas tranquilas e pastos verdejantes (CALVINO,2009 p.460). Essa riqueza vinda do Senhor em cuidar do seu rebanho, Davi presenciou isso na pratica.

A imagem pastoral começa com a tarefa do pastor em conduzir as ovelhas à sua proteção, provavelmente em um aprisco, para lugares verdes pastagens...O verdor da vegetação é um prazer estético como também um pré-requisito funcional para a vida. O plural sugere que o Pastor nunca se cansa de encontrar pastos verdejantes para as ovelhas (HOUSTON. 2015. P.462)  

Na vulgata Latina temos a pronuncia da seguinte forma, “Dominus pascit me, et nihil mihi deerit”, traduzido por “Javé é o meu pastor. Nada me falta[7]”. Note que o versículo inicia que Javé é meu único pastor, ou seja, minha única segurança como ovelha, meu sustento, meu guia, meu protetor e minha salvação contra os perigos; nada me falta. O “nada me falta” é uma resposta enfatizada para o presente, que independente das circunstâncias – nada me falta, porque Javé é tudo o que eu preciso. Então nada no momento me falta. Também poderíamos inverter a ordem e compreender da seguinte forma: “Nada me falta, porque Javé é o meu pastor”. Ele é a garantia que eu tenho tudo o que preciso para viver. Todo cristão pode afirmar que não lhe falta nada no presente, porque pode dizer que o Senhor é seu Pastor.    


Ele não me faltará em várias traduções.


Na Nova versão Internacional encontramos a tradução: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”, que se identifica com a tradução mais conhecida, na qual já estamos trabalhando e explorando. Na tradução da New Living Translation, encontramos um pouco diferente. Pois diz: “O Senhor é o meu pastor; Eu tenho tudo que eu preciso”. Note que ela usa o sentido “eu tenho tudo o que eu preciso”. Podemos compreender minha total completude n’Ele, pois só posso estar totalmente inteiro em Deus. O Pastor é a única fonte em que posso me preencher. Na versão Inglês Standard Version traduz também da forma mais conhecida: “O Senhor é o meu pastor; Nada me faltará”. Na New American Standard Bible também caminha para o mesmo sentido: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”. Na King James da Bíblia também: “O Senhor é o meu pastor; Nada me faltará”. Na Holman Christian Standard Bible há um sentido diferente: “O Senhor é o meu pastor; não há nada que me falta”. Note que ao invés desta tradução usar o sentido “tudo o que eu preciso”, optaram em usar o sentido “não há nada que me falta”. Podemos compreender o contrário. Enquanto que tudo o que eu preciso é completo somente n’Ele, a minha necessidade de algo fora d’Ele é anulada, por isso nada me falta fora do Senhor, porque todo o meu completar é somente n’Ele. O sentido de “tudo” pode estar relacionado ao positivo, de se completar somente em Deus e o sentido de “nada” pode estar relacionado ao negativo em mim. Então preciso ser anulado nas minhas exigências e necessidades fora de Deus. Na Versão Norma vemos um sentido diferente, que diz: “O Senhor é o único que está me pastorear; Me falta nada”. Observe a ênfase na ação do Pastor, sendo Ele o único cuidador pessoal da minha vida. Ele está rendendo o meu coração para apenas um Senhor, um Salvador e um Pai. Na NET Bíblia o sentido é o mais conhecido também: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”. Na tradução da aramaico Bíblia em Inglês Plain, o uso também é o mais conhecido: “Senhor Deus me pastor e nada me faltará”. Na PALAVRA DE DEUS ® Tradução, o sentido é diferente, pois optaram por: “O SENHOR é o meu pastor. Eu nunca estou em necessidade”. Observe que o sentido caminha para a anulação das minhas necessidades. O lado (b) do versículo não pode ser lido separadamente do lado (a). “Eu nunca estou em necessidade” é consequência da primeira frase: “O SENHOR é o meu pastor”, colocando Ele como a fonte de todo o meu completar. Assim não tenho nenhuma necessidade, pois estou totalmente n’Ele. A tradução Jubileu Bíblia 2000 também é convencional: “O Senhor é o meu pastor; Nada me faltará”. Na King James Bible 2000, diz “O Senhor é o meu pastor; nada faltará”. Na americano King James Version também é: “O SENHOR é o meu pastor; Nada me faltará”. Na Almeida Atualizada é: “Senhor é o meu pastor; Nada me faltará”. Na Douay-Rheims Bíblia há um sentido diferente e relevante: “O Senhor me domina, e eu não quero nada”. Note o primeiro sentido da frase e o termo “Ele me domina”. Isso mostra o total controle que um pastor exercia sobre suas ovelhas. Ele as dominava com o empenho de guardá-las e protegê-las. Uma rendição consciente de um cristão para o Senhorio de Cristo. Pois Ele é o nosso general (Sl.24.8-10). Nós somos seus servos (Rm.1.1). Optamos ter nossa orelha furada e renunciamos nossa liberdade (Ex.21.6). Então podemos concluir o restante da frase: “eu não quero nada”, ou seja, eu não desejo através da minha liberdade mais nada fora d’Ele. Ele é meu único Senhor. Apenas o sirvo com o meu amor. Na Darby Tradução da Bíblia, diz: “Jeová é o meu pastor; Nada me faltará”. Na Inglês Versão Revisada: “O Senhor é o meu pastor; Nada me faltará”. Na Webster Tradução da Bíblia: “O Senhor é o meu pastor; Nada me faltará”. Na Mundo Inglês Bíblia diz: “O Senhor é o meu pastor: nada me faltará”. Por último, na Tradução Literal de Young temos a convencional: “O Senhor é o meu pastor, nada me falta[8].  

Ele me faz deitar e Ele me guia.


23:2 – Vamos observar a parte (a) do versículo, “Deitar-me faz...” e a parte (b) do versículo, “...guia-me a águas tranquilas”. Os dois termos são interessantes e devem ser analisados; יַרְבִּיצֵנִי, Yarebytseny – “faz-me deitar” (v. רָבַץ, rabats - hifil incompleto 3.ª masculino singular; Fazer, repousar, deitar-se, deixar acampar-se, deixar repousar, cobrir, revestir, descansar[9]). Pode ser compreendido também como, “Ele me faz descansar”. Note como o termo “Ele me faz”, salta a ideia de que eu não posso descansar por mim mesmo, ou seja, eu não consigo acalmar a minha própria natureza. O Pastor é o agente ativo na condição de fazer sua ovelha deitar-se. A ovelha é o agente passivo em se sujeitar ao momento de descanso direcionado pelo Pastor. Este pensamento pode estar muito relacionado com aquilo que o próprio Cristo diz: Ao convidar a todos os que estão cansados e oprimidos:

Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei (Mt 11.28).

Observe como o texto diz está escrito. Existe um chamado para todos. Aqueles que são chamados são responsáveis por estarem cansados e sobrecarregados. Com certeza se olharmos as palavras no grego, encontraremos mais entendimento. A palavra cansado é κοπος, kopos; que pode se estender a alguém que levou uma enorme surra, ou um ato desesperador de bater no peito em grande tristeza, ou também um trabalho intenso unido a aborrecimento e fadiga. A outra palavra é sobrecarregado que no grego é φορτιζω, phortizo; que indica oprimir alguém com uma carga muito pesada. Assim somos nós. Estamos cansados por causa do pecado. O pecado desgasta nossa energia. Rouba nosso tempo. Arranca nosso desejo de ser justos. O pecado nos oprime. Engano o homem com o prazer, porém quando retorna, cobra uma divida muito alta. Trazendo serias consequências, um peso além do normal. A consequência é ter uma caminhada pesada e triste. Por isso há sobrepeso em nossos ombros. Uma vida de pecado é um fardo insuportável. O homem passa a ser escravo de uma força opressora. Um volume de acusação que não cessa de oprimi-lo dia e noite. Entretanto, o texto revela a ação Daquele que é considerado o inicio e o fim de todas as coisas. O versículo precisa ser entendido desta forma. (a) Cristo o inicio. (b) O homem responsável. (c) A revelação do Salvador:

(a) Vinde a mim, (b) todos os que estais cansados e sobrecarregados, (c) e eu vos aliviarei (Mt 11.28).

(a) “Vinde a mim”. Neste primeiro ponto temos a ação de Cristo. Não é uma simples atuação. É uma intervenção. Precisamos entender que não há como um escravo libertar outro escravo. É impossível um homem que está carregando um peso insuportável nos ombros, ao ponto de desfalecer, dizer para o amigo que está ao seu lado que está na mesma condição – Eu irei salvá-lo! Apenas um homem totalmente livre pode libertar outro homem. Ou seja, Aquele que é antes de todas as coisas, o inicio de tudo e o fim da história humana tem o poder para interferir (Ap 1.8, “Eu sou o Alfa e Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso”). A palavra “vinde” é δευτε, deute; que significa “venha até aqui, ou, venha depressa, ou venha agora!”. Um Pai tem o poder para convidar seu filho para se aproximar do seu conforto. Mas esse mesmo Pai tem o poder de mandar que seu filho fique próximo, caso haja algum perigo se aproximando. A palavra “vinde” de Cristo possui dois lados. Convite e ordem. Os dois estão direcionados a um objetivo só. Cristo! Por isso o próprio diz: “Vinde a mim”. Como ovelhas obedecemos. Como filhos nos aproximamos pelo desejo de estarmos perto dos braços do Pai.

Assim como parte do homem na salvação está para vir humildemente, é também o vir na fé. Embora mentes finitas não podem compreender totalmente a verdade, a graça divina e da fé humana são inseparáveis na salvação. A soberania de Deus provê salvação, que inclui o fato de que o homem deve dar-se ao Senhor Jesus Cristo no compromisso antes que se torne eficaz. Jesus disse: "Todo aquele que o Pai me dá virá a mim", e acrescentou imediatamente: "e aquele que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora" João 6:37 (MACARTHUR. p.708)

Nossa responsabilidade de buscar ao Senhor:

Jr 29.13, “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração”.

Dt 4.29, “De lá, buscarás ao SENHOR, teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma”.

Sl 105.4, “Buscai o SENHOR e o seu poder; buscai perpetuamente a sua presença”.

ICr 28.9, “Tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai e serve-o de coração íntegro e alma voluntária; porque o SENHOR esquadrinha todos os corações e penetra todos os desígnios do pensamento. Se o buscares, ele deixará achar-se por ti; se o deixares, ele te rejeitará para sempre”.        

Sl 9.10, “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome, porque tu, SENHOR, não desamparas os que te buscam

2Cr 15.2, “...O SENHOR está convosco, enquanto vós estais com ele; se o buscardes, ele se deixará achar; porém, se o deixardes, vos deixará”.

Is 55.6, “Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto”.

Sl 119.10, “De todo o coração te busquei; não me deixes fugir aos teus mandamentos”.
   
O convite de Cristo:

Is 1.18, “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã

Is 2.3, “Vinde, e subamos ao monte do SENHOR e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos pelas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e a palavra do SENHOR, de Jerusalém”.

Os 6.1, “Vinde, e tornemos para o SENHOR, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará”.

Mt 4.19, “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens”.

Mt 22.4, “Enviou ainda outros servos, com esta ordem: Dizei aos convidados: Eis que já preparei o meu banquete; os meus bois e cevados já foram abatidos, e tudo está pronto; vinde para as bodas”.

Mt 25.34, “então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo”.

(b) “Todos os que estais cansados e sobrecarregados”. Há duas formas de interpretarmos este apontamento de Cristo. Inocentando o homem ou reconhecendo sua culpa. A maioria interpretará que que aqueles que estão cansados e sobrecarregados, só estão desta forma, porque um governo ou pessoas mais poderosas estabeleceram um tipo de vida que fez dos mais fracos sofrerem. Ou seja, o mais abatido está cansado porque não tem acesso a um patamar de eventualidades mais favoráveis para estar menos cansado. Esta esgotado porque luta por algo que não tem retorno. Esta afadigado, pois todo seu esforço está sendo consumido por um poder maior que o escraviza. Da mesma forma, está sendo oprimido, ou seja, sobrecarregado por inúmeras exigências insuportáveis. Assim interpretaríamos a fala de Cristo, inocentando aqueles que o ouviam. Entretanto, seria essa a visão bíblica do estado do homem diante de Deus? Obviamente não. Vamos observar alguns textos:

Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos (Rm 3.9-18).

Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei. Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir. Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos. O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou; porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a graça transcorre de muitas ofensas, para a justificação. Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo. Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos. Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça, a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor (Rm 5.12-21).

Para entendermos, precisamos compreender com exatidão a doutrina do pecado original. Vejamos o que Hanko menciona:                  

A Bíblia ensina que, mesmo que nunca tivéssemos pecado – nunca feito algo errado – ainda seríamos contados como pecadores diante de Deus. Essa é a doutrina bíblica do pecado original...Existem duas partes no pecado original. Há, em primeiro lugar, o fato que todos pecaram em Adão e são considerados culpados de seu pecado. Isso é geralmente mencionado como “culpa original” e chega a todo homem porque Adão representava todos os homens diante de Deus. Em segundo lugar, sendo já culpados, mesmo antes de nascer, todos os homens também vêm ao mundo sofrendo a punição do pecado, que é a morte eterna. Eles nascem mortos em delitos e pecados (Ef 2.1). Essa parte do pecado original – a punição que vem sobre eles no nascimento – é mencionada como “poluição original” ou “depravação” (HANKO, 2007, p.1).             

As definições de Hanko direciona-nos para o entendimento do estado humano perante Deus. Porém, desejo enfatizar que este estado não se comporta passivamente – o homem caído é ativamente rebelde contra Deus (Gn 6.5, “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração”). Observe a palavra “continuamente” que no hebraico é הַיּוֹם-כָּל; Kal Hayom[10]. Significa “todo o dia”, “um trabalho contínuo”. O homem escravo do pecado se mantém ativamente contra toda força e domínio de Deus na Terra.  

Do ponto de vista de Deus, que é o único ponto de vista verdadeiro, o homem natural é incapaz de fazer o bem, em pensamentos, palavras ou atos, e, por isso, não pode contribuir em nada para sua salvação. Ele está em rebelião total contra Deus (BEEKE, 2010, p. 69).  

Partindo deste entendimento bíblico podemos interpretar a fala de Jesus. O homem está cansado por causa do pecado que tira todas as suas energias. O ser humano está sobrecarregado porque o causa do pecado diariamente, lança sobre seus ombros pressões e acusações. 

Embora o próprio termo não é usado no texto, Jesus dá uma chamada ao arrependimento, a afastar-se da vida egoísta e trabalho-centrado e vir a Ele. A pessoa que está cansada e sobrecarregada e desesperos de sua própria capacidade de agradar a Deus. Ele vem para o fim de seus próprios recursos e se virá para Cristo. O desespero é uma parte da verdadeira salvação, porque uma pessoa não vem a Cristo, enquanto ele tem confiança em si mesmo. Arrepender-se é fazer uma volta de 180 graus do fardo da vida velha para o sossego do novo (MACARTHUR. p.709)

(c) “Eu vos aliviarei”. A parte final da mensagem de Cristo é fundamental. Ele mesmo está dizendo que irá aliviar o fardo do pecador. A palavra “aliviar” no grego é αναπαυω, anapauo; que quer dizer provocar ou permitir que alguém pare com algum movimento ou trabalho a fim de recuperar e recompor suas energias, dar descanso, reanimar, manter quieto, de expectativa calma e paciente. Cristo faz assim com seus discípulos. Ele os impulsiona a descansar. Retirando o pecado e levando-o a cruz: “...Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.19). Observe que o texto diz que o Senhor tira o pecado do mundo. A palavra em grego é αιρω, airo que pode ser entendida como mover de seu lugar, cortar ou afastar o que está ligado a algo, afastar de alguém o que é dele. Essa é a ideia de aliviar. É retirar de nós o peso do pecado e fazer-nos descansar na santidade de Deus. Em todo o tempo Cristo é o agente ativo em nossas vidas para o repouso. Assim Davi menciona a figura das ovelhas sendo passivas e um Pastor que é ativo. O ativo Pastor conduz as ovelhas ao descanso. Henry comenta:

Deus faz o seus santos deitarem. Ele dá quietude e contentamento para as suas próprias mentes, qualquer que seja a sua porção. As suas almas habitam com tranquilidade nele, e isso faz com que todos os pastos sejam verdejantes” (HENRY,2010 p.286). 

Descansar é uma tarefa impossível para o ser humano. A alma do homem após a queda tornou-se incontrolável, desequilibrada e sem controle. O quarto mandamento (שַׁבָּת,shabbath; Sábado[11]), é posto por Deus para que o homem descanse. Como o próprio Deus “descansou” após terminar a obra da criação. YHWH sabia da natureza caída do homem. No Velho Testamento encontramos o descanso como ordem descrita nos Dez Mandamentos. Entretanto no Novo Testamento encontramos o descanso somente em Cristo e através de d’Ele: “...achareis descanso para a vossa alma” (Mt 11.29). Compreendemos desta forma que o único que pode fazer nossas almas descansarem é o Pastor. O Bispo de nossas almas. Jesus Cristo.

Porque estáveis desgarrados como ovelhas; agora, porém, vos convertestes ao Pastor e Bispo da vossa alma (IPd 2.25).  
     
Outra maneira de atingirmos o sentido é; “Ele me faz deitar”. Da mesma forma como uma criança não sabe que precisa dormir. Ocorrendo a indispensabilidade das brincadeiras para o repouso obrigatório. Através da maturidade dos pais, de uma forma autoritária, consciente e com amor. Ordenam que a sua criança descanse para o seu próprio bem. O sentido “...deitar-me faz...” encaixa perfeitamente sobre a ordem de um superior direcionando o imaturo para um caminho seguro. O Pastor sabia qual era o momento correto das ovelhas descansarem. Este é um pensamento que as ovelhas não possuem.
Para assimilarmos os dois termos “deitar-me faz” e “Ele me faz descansar” em nossa situação. Precisamos retornar a queda (Gn.3.6,7). Após ela a alma do homem tornou-se incontrolável, selvagem e vingativa (Gn.4.8). O desejo de justiça enraizado no homem o persegue, pois qualquer que se encontra em uma situação de injustiça não descansará até praticar o seu direito. No tempo de Noé todo o declínio humano tornou-se uma afronta contra Deus. A situação no mundo sem o reconhecimento de um Senhor virou uma catástrofe (Gn.6.5), “...é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade” (8.21). Neste ímpeto de dominação humana e escravidão do pecado, o homem tornou-se um dominador. Perseguidor dos seus direitos e um vingador implacável. Toda a história da humanidade é baseada por sede de poder, vingança e assassinatos. Nas Escrituras encontramos este mesmo problema. O homem escravo por este desejo, exigindo justiça e lutando por ideais egoístas. Entretanto, encontramos também um caminho nas Escrituras. Uma maneira do homem entregar essa ansiedade a Deus e descansar:

Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem (Rm 12.7-21).

É uma ordenança do Senhor. Todos os homens devem descansar e confiar na justiça de Deus. Enquanto que muitos predadores buscam uma maneira de atacar as ovelhas (Jo.10.10), fazendo-as dispersar, para correrem assustadas. Longe da proteção do seu guia. O Pastor, com a Sua autoridade, as coloca para descansar (Ez.34.15). Assim, Ele pode afastar o perigo. As ovelhas não precisam fugir, nem lutar ou se esconder. Pois o Pastor é o forte guerreiro que as protege. As ovelhas apenas confiam e descansam. Isso é encontrar pastagem, ou seja, segurança: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem” (Jo.10.9). Pastagem é um local seguro para as ovelhas. Para os cristãos, pastagem é um estado mental, emocional e espiritual seguro em Deus. Descansar em Jesus é permitir através d‘Ele estar neste lugar.  
No comentário de Kidner vemos o termo descanso um pouco mais profundo. Pois ele compara o descanso das ovelhas com o mesmo termo usado para a “arca da aliança” que procurava um lugar para descansar (KIDNER,1973 p.128): “...a arca da Aliança do SENHOR ia adiante deles caminho de três dias, para lhes deparar lugar de descanso” (Nm 10.33). A palavra hebraica para descanso é מְנוּחָה, menuwchah; sendo um lugar de sossego. Então o Pastor coloca as ovelhas neste estado se sossego, de paz e descanso.

Descanso é definido como sendo confiável e confiante. Quando entramos no descanso de Deus é nos dada a garantia de que "Aquele que começou a boa obra em [nós] a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus" (Filipenses 1: 6.). Finalmente, o dicionário descreve o resto como inclinando-se, repousando, ou dependendo. Como filhos de Deus, podemos confiar com absoluta certeza de que o nosso Pai celestial vai "oferta todos os [nossos] necessidades segundo as suas riquezas na glória em Cristo Jesus" Phil. 4:19 (MACARTHUR. p.710).

Ele me guia: Este termo no hebraico é יְנַהֲלֵנִי, yenahaleny; guia-me: v. נָהַל, piel incompleto 3.ª masculino singular; Assentar-se, estabelecer-se, descansar, repousar, aguardar (GUSSO,2008 p.274). Novamente podemos focar na atitude ativa do Pastor. Pois é Ele quem guia as suas ovelhas. Warren comenta que “o termo traduzido por levar no versículo dois, significa conduzir gentilmente. As ovelhas não podem ser empurradas. Elas ouvem a voz do pastor e o seguem, assim como ouvimos a Cristo em sua palavra e lhe obedecemos (Jo.10:3-5,16,27), (WARREN,2010 p.133). Na tradução Strong o termo optado é “leva-me”. Com um rico significado de “liderar, dar descanso, guiar com cuidado, conduzir para um lugar de água parada, levar a repousar, trazer a uma parada ou lugar de descanso”. Este mesmo termo pode ser encontrado em outras passagens nas Escrituras. As situações são diferentes, porém nos ajudam a compreender mais da riqueza desta palavra: 

Ouve, ó Deus, a minha súplica; atende à minha oração. Desde os confins da terra clamo por ti, no abatimento do meu coração. Leva-me (נָחָה) para a rocha que é alta demais para mim; pois tu me tens sido refúgio e torre forte contra o inimigo. Assista eu no teu tabernáculo, para sempre; no esconderijo das tuas asas, eu me abrigo. Pois ouviste, ó Deus, os meus votos e me deste a herança dos que temem o teu nome. Dias sobre dias acrescentas ao rei; duram os seus anos gerações após gerações. Permaneça para sempre diante de Deus; concede-lhe que a bondade e a fidelidade o preservem. Assim, salmodiarei o teu nome para sempre, para cumprir, dia após dia, os meus votos. (Sl.61:1-8).

Note que Davi usa o termo “leva-me”, no sentido de ser conduzido pelo próprio Senhor. Davi reconhece ser impossível, pois descreve o lugar de segurança em Deus como uma rocha muito alta. Este lugar é um refugio. Um ambiente de paz e segurança. Este mesmo termo pode ser compreendido quando o Pastor busca a ovelha perdida. Ele a coloca sobre os ombros e retorna para casa: “...Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo” (Lc.15.5). Podemos ver outra passagem que usa o mesmo termo mas em um contexto diferente:

Leva-me (מָשַׁךְ,mashak: arrastar, guiar, conduzir, puxar) após ti, apressemo-nos. O rei me introduziu nas suas recâmaras. Em ti nos regozijaremos e nos alegraremos; do teu amor nos lembraremos, mais do que do vinho; não é sem razão que te amam (Can.1.4)

Veja que sentido maravilhoso. Salomão descreve o desejo da amada para o seu Amado. Ela menciona ser levada pelo seu Rei as suas recamaras. A amada está sendo guiada pelo seu Amado. Assim Cristo fará com sua noiva. Ele nos guiará para um lugar de intimidade. Um lugar de intensa intimidade entre um casal. Este sentido relaciona-se ao momento após o casamento. O marido leva sua amada esposa, agora casados, para o momento da intimidade. Ambos estão em concordância. O Amado deseja levar sua amada. Ele tem autoridade e posse. Pois a partir do momento que se tornam um casal, Ele tem poder sobre ela. Entretanto, a amada também deseja. Por isso diz: “leva-me”. Ela deseja ser carregada pelos braços fortes do Amado. Que a nossa oração como ovelha do Pastor e noiva do Cordeiro, diariamente seja:

Leva-me Senhor,
Com Tuas mãos fortes.
Guia-me; Oh Pastor,
Para em Teus braços descansar.

Espero em Ti,
Pois só em Ti espero ansiosamente.
Não há outro que eu deseje,
Pois desejo estar só Contigo.

Coloca-me onde Tu queres,
Faz de mim como Tu desejares.
Realiza em mim Tua santa obra,
Finaliza em teu servo - Sua plena vontade.

Para onde irei? Ou, onde estarei?
Para onde posso encaminhar o meu amor?
Nada fora de Ti vale um segundo dos meus pensamentos.
Tudo o que não for feito somente para Ti – torna-se em vão!
Se não for para ser totalmente Seu – é prefiro não existir.
Existir sem te amar é uma inexistência!

Leva-me Senhor! Apenas leva-me à amá-Lo,
Porque fui criado para amá-Lo!


Pastos verdejantes e águas tranquilas


Trabalhamos neste artigo sobre a atuação de um Pastor. Falamos também sobre suas características. Abordamos sobre uma ovelha e suas qualidades. Iremos pesquisar agora sobre o alimento, vinculando-o as nossas necessidades para o crescimento espiritual. As palavras em hebraico: נָאָה, na'ah: pasto, habitação, habitação de pastor, morada. A outra palavra דֶּשֶׁא, deshe; grama, grama nova, erva verde, vegetação, jovem. As duas nos dão um entendimento que tratando-se de ovelhas, os pastos verdes são o alimento certo e adequado para o crescimento saudável de cada uma delas. Toda mãe sabe que um recém nascido só pode se alimentar do leite materno. Com o tempo, e na medida que cresce, vai se acrescentando outro tipo de alimento para o bebê. Mas isso é feito gradativamente e com muito cuidado. Bebês precisam do alimento certo para crescerem saudáveis.     Henry comenta que seria como leite para os bebês o sentido de pastos verdejantes para as ovelhas, um cuidado especial que as fazia estar tranquilas e alimentadas (HENRY, 2010 p.286). Encontramos também um outro sentido importante no Novo Testamento sobre essa questão: 

Jesus, pois, lhes afirmou de novo: Em verdade, em verdade vos digo eu sou a porta das ovelhas. Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não lhes deram ouvido. Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem (Jo 10.7-9).

A palavra pastagem no grego é νομη, nome; que significa forragem, alimento, estar totalmente suprido de todo o necessário para a verdadeira vida. Porém, observe atentamente o texto. Cristo afirma ser a única porta para que as ovelhas entrem. Quando elas caminham em Sua direção, pois ouviram Sua voz e quiseram ser guiadas por Ele. Então encontram aquilo que precisam para amadurecer.
Este texto apenas fortalece a nossa ênfase. No Pastor encontramos tudo aquilo que precisamos. É n’Ele que nos completamos. Ele é a nossa “pastagem”. Observe como Cristo é tudo para nós. No livro de João encontramos várias afirmações sobre isso:

Respondendo a mulher Samaritana sobre a espera do Messias: “Eu o sou, eu que falo contigo” (Jo 4.26).

Falando a multidão que vinham atrás d’Ele por causa do pão: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6.35,48,51).

Respondendo aos fariseus sobre a luz da verdade: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8.12).

Mostrando aos fariseus que Ele existe antes de Abraão: “...antes que Abraão existisse, EU SOU” (Jo 8.58).

Consolando seus discípulos, pois um Pastor nunca abandona suas ovelhas: “Eu sou o bom pastor”(Jo 10.11,14).

Respondendo para Marta sobre o a morte de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11.25).

Mostrando aos discípulos o verdadeiro sentido do evangelho – servir - Ele é o bom Mestre: “Vós me chamais Mestre e Senhor; e dizeis bem, porque eu o sou”(Jo 13.13).

Mostrando como nos aproximar de Deus. Ele é o único caminho, a única verdade e só n’Ele há vida: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14.6).

Ensinando aos discípulos que se estarmos n’Ele, não precisamos mais nos esforçar. Apenas receber a Sua vida. Ele é a videira: “Eu sou a videira verdadeira”(Jo 15.1,5).

Cristo é o nosso Pastor, e n’Ele encontramos tudo aquilo que precisamos:  

Porque assim diz o SENHOR Deus: Eis que eu mesmo procurarei as minhas ovelhas e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que encontra ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; livrá-las-ei de todos os lugares para onde foram espalhadas no dia de nuvens e de escuridão. Tirá-las-ei dos povos, e as congregarei dos diversos países, e as introduzirei na sua terra; apascentá-las-ei nos montes de Israel, junto às correntes e em todos os lugares habitados da terra. Apascentá-las-ei de bons pastos, e nos altos montes de Israel será a sua pastagem; deitar-se-ão ali em boa pastagem e terão pastos bons nos montes de Israel. Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas e as farei repousar, diz o SENHOR Deus. A perdida buscarei, a desgarrada tornarei a trazer, a quebrada ligarei e a enferma fortalecerei; mas a gorda e a forte destruirei; apascentá-las-ei com justiça (Ez 34.11-16).

Observe neste texto de Ezequiel como o nosso Pastor é ativamente funcional em cuidar de suas ovelhas. Ele diz: “eu mesmo procurarei as minhas ovelhas e as buscarei”. Depois prossegue: “livrá-las-ei”. Este é o cuidado do nosso Pastor. É o guerreiro. Como Davi. Livra as ovelhas do urso e do Leão. Então diz novamente: “Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas e as farei repousar”. O nosso Pastor irá cuidar de cada um e Ele mesmo nos dará descanso.    

As águas tranquilas: מַיִם מְנוּחָה, mayim manuwchah; águas de descanso. Águas em um lugar de sossego. Águas tranquilas para se beber e descansar. Mas o que Davi estava querendo nos ensinar? O salmista estava falando da fragilidade de uma ovelha para se alimentar. Uma ovelha não consegue beber água através de uma correnteza muito forte. O pastor necessita fazer uma espécie de represa temporária para que elas possam beber a água (WARREN,2010 p.133). Calvino colabora com o mesmo pensamento ao dizer que “Davi usou a frase às aguas tranquilas para expressar o suave fluir das águas; pois as fortes correntezas se tornam inconvenientes para as ovelhas beberem, e são também quase sempre prejudicial” (2009,p.460). Tanto pastos verdejantes como águas calmas são essenciais para a sobrevivência de uma ovelha. Ao compararmos com os seres humanos, a comida, a água e as vestes também são essenciais. Se lembrarmos a forma que Deus cuidou do povo de Israel.

Veremos uma maneira equilibrada e responsável, como um Pai agindo com seu filho: “como também no deserto, onde vistes que o SENHOR, vosso Deus, nele vos levou, como um homem leva a seu filho, por todo o caminho pelo qual andastes, até chegardes a este lugar” (Dt 1.31).

Deus cuidou da alimentação do povo: “E o SENHOR disse a Moisés: Tenho ouvido as murmurações dos filhos de Israel; dize-lhes: Ao crepúsculo da tarde, comereis carne, e, pela manhã, vos fartareis de pão, e sabereis que eu sou o SENHOR, vosso Deus” (Ex.16.11,12).

Cuidou também da sede do povo: “Eis que estarei ali diante de ti sobre a rocha em Horebe; ferirás a rocha, e dela sairá água, e o povo beberá. Moisés assim o fez na presença dos anciãos de Israel” (Ex.17.6).  

Cuidou das vestes e da saúde: “Nunca envelheceu a tua veste sobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos” (Dt.8.4).

Deus guardou o povo do sol no deserto e os esquentou nas noites frias do deserto: “O SENHOR, vosso Deus, que foi adiante de vós por todo o caminho, para vos procurar o lugar onde deveríeis acampar; de noite, no fogo, para vos mostrar o caminho por onde havíeis de andar, e, de dia, na nuvem”(Dt.1.33).

Havia um enorme cuidado do Senhor para com os filhos de Israel. Da mesma forma Jesus, como o nosso bom Pastor, acalmou o coração do povo nas mesmas questões.

Ele disse para não nos preocuparmos com aquilo que vestimos ou comemos: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração... Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes? Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” (Mt 6.19-21,25-34).    

Alimentou a multidão: “Ao cair da tarde, vieram os discípulos a Jesus e lhe disseram: O lugar é deserto, e vai adiantada a hora; despede, pois, as multidões para que, indo pelas aldeias, comprem para si o que comer. Jesus, porém, lhes disse: Não precisam retirar-se; dai-lhes, vós mesmos, de comer”(Mt.14.15,16).

Pagou impostos com o dinheiro tirado da boca do peixe: “Mas, para que não os escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, e o primeiro peixe que fisgar, tira-o; e, abrindo-lhe a boca, acharás um estáter. Toma-o e entrega-lhes por mim e por ti” (Mt.17.27).

Jesus disse para todos os que estavam com sede: “Declarou-lhes, pois, Jesus: Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede” (Jo.6.35).

O nosso bom Pastor levará suas ovelhas as fontes da água viva: “pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima” (Ap.7.17).

Refrigera a minha alma ou retorna a minha alma


23.3, “refrigera-me a alma”. A maioria das traduções usa o termo “refrigerar”. Este termo traduzido nos dá uma sensação de alivio, refresco, conforto e consolação. Entretanto, no hebraico podemos ir mais fundo e captar uma mensagem mais profunda. A palavra é שׁוּב, shuwb; que significa voltar, retornar, referindo-se a morte, ou, voltar as costas, afastar-se de Deus, restaurar, renovar e reparar. Vejamos alguns textos em contextos diferentes, para termos uma ideia do sentido desta palavra.
Quando Noé precisou saber se as águas haviam abaixado, precisou soltar uma pomba. Ela foi e retornou até Noé: “mas a pomba, não achando onde pousar o pé, tornou (שׁוּב, shuwb) a ele para a arca; porque as águas cobriam ainda a terra. Noé, estendendo a mão, tomou-a e a recolheu consigo na arca” (Gn 8.9). Quando Moisés está sendo ensinado por YHWH para a missão de libertar o povo de Israel. O Senhor mostra o Seu poder. Moisés coloca a mão no peito e quando a tira, fica com lepra. Ao retornar a mão, ela é curada: “Disse ainda o SENHOR: Torna a meter a mão no peito. Ele a meteu no peito, novamente; e, quando a tirou, eis que se havia tornado (שׁוּב, shuwb) como o restante de sua carne” (Ex 4.7). Na abertura do mar vermelho e em seguida com a perseguição do exercito de Faraó. Deus pede para Moisés estender as mãos. Então as águas retornariam para o seu lugar, assim mataria os soldados de Faraó: “Disse o SENHOR a Moisés: Estende a mão sobre o mar, para que as águas se voltem (שׁוּב, shuwb) sobre os egípcios, sobre os seus carros e sobre os seus cavalarianos” (Ex 14.26). Quando Davi foi perseguido pelo seu filho Absalão e os homens de Judá estavam envolvidos na trama. Após uma longa guerra e negociações, os homens de Judá, arrependidos dizem ao Rei: “Com isto moveu o rei o coração de todos os homens de Judá, como se fora um só homem, e mandaram dizer-lhe: Volta (שׁוּב, shuwb), ó rei, tu e todos os teus servos” (2Sm 19.14).      
Através destes textos, podemos entender que o uso da palavra “refrigério” está mais inclinado ao sentido de retornar, recuperar, voltar, salvar e restaurar. Assim é o nosso Pastor. Ele recupera e restaura as suas ovelhas. Davi não só mostra o cuidado especial de um Pastor para com as suas ovelhas. Ele aprofunda no termo e explica que o Senhor traz de volta a nossa vida e a nossa alma em seus deleites. O Pastor restaura a nossa alma afligida pelo pecado. Calvino diz sobre a “restauração da alma, segundo nossa tradução, ou a conversão da alma, segundo literalmente traduzido, contém a mesma essência que dizer; tornar-se novo, ou restabelecido” (2009, p.460). Da mesma forma, Champlin capta o entendimento ao comparar o texto de Ezequiel (34.16), onde o próprio Deus diz apascentar suas próprias ovelhas, fazendo-as repousar, buscando a perdida e recuperando a desgarrada (2001,p.2121). Cristo é a referência ideal deste sentido ao declarar que nenhuma daquelas ovelhas que o Pai o deu se perderá das suas mãos:

Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão (Jo 10.28).

Reafirmando a mensagem. Ele, o Pastor, “traz de volta e restaura”. Isso nos lembra da graciosa parábola das cem ovelhas. Parábola que ousamos mudar o titulo para a “ovelha restaurada ou trazida de volta a vida”. Note que o próprio versículo diz: “Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo” (Lc.15.5). Enfatizamos a palavra “Achando-a” que no grego é ευρισκω, heurisko; quer dizer “descobrir, encontrar, procurar, achar o que se buscava, ser achado”. A ovelha é encontrada de forma graciosa pelo seu Pastor. O foco do texto não é o abandono das noventa e nove. Porém, a mensagem é a recuperação daquela que estava perdida. Você já ficou perdido em alguma circunstancia da vida? Claro que já. Todos já tivemos esse sentimento. Mas o texto não está ressaltando o sentimento da ovelha que está perdida. Novamente te faço outra pergunta e desta vez, iremos nos colocar no lugar do Pastor. Você já perdeu algo extremamente importante? A pior dor que pode existir é a dor de uma mãe que perde o seu filho. Algumas, pela misericórdia de Deus conseguem encontra-los e tudo passa a ser um susto que jamais irá esquecer. Entretanto, há pais que nunca mais encontram seus filhos – essa é a pior dor que pode existir. Já imaginaram a dor deste Pastor que perdeu a sua ovelha? Por isso o texto diz sobre recuperar, achar, encontrar e salvar. O Pastor vai atrás da sua ovelha como uma mãe desesperada procura o seu filho. O mesmo sentido é relatado no próprio contexto entre as três parábolas. A mulher varre a casa para encontrar a dracma que estava perdida:  “Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma, não acende a candeia, varre a casa e a procura diligentemente até encontrá-la? (ευρισκω, heurisko)” (Lc 15.8). Porém nesta parábola, Lucas exalta o sentido que é impossível uma mulher perder a sua dracma e não procurá-la. Isso mostra a nossa total importância. O Pastor das nossas almas não perde suas ovelhas. Porém se insistirmos caminhar longe da sua proteção, Ele insistentemente irá ao nosso encontro.
  
Andar pelos vales sombrios, porém com o Senhor


23.4, “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte...”. Davi declara total confiança no Senhor. Mostra que mesmo sendo um filho de Deus, não seria poupado de passar por tribulações. Entretanto, há um diferencial. Cristo sempre estaria ao seu lado. Ainda que eu tenha que passar por vales sombrios, dificuldades extremas. Dores insuportáveis e períodos implacáveis em minha vida. Preciso sempre ter uma certeza. Eu não estou sozinho. O Pastor está comigo. Davi entendia que não havia ovelhas sozinhas sem um Pastor. Isso era impossível. Onde houvesse uma ovelha haveria um guardião – o Pastor. Desta forma podemos compreender. As lutas virão, são inevitáveis. Os momentos turbulentos surgirão, não há como impedi-los. Porém, nunca estaremos sozinhos. O nosso Pastor dia a dia estará conosco. O próprio Calvino enfatiza que mesmo crentes que habitam segundo a proteção de Deus, estão expostos a muitos perigos, são passiveis a todos os tipos de aflições, e tudo isso para que possam sentir a necessidade da proteção divina (2009, p.461). Como o Pastor protegia suas ovelhas? Como o Pastor cuidava de suas ovelhas?     
23.4, “...o teu bordão e o teu cajado me consolam”. O texto relata dois itens importantes no trabalho do Pastor. O cajado e a vara. Estes dois instrumentos são explicados de maneira rica por Warren:

O bordão era um bastão pesado com o qual o pastor podia atordoar ou matar uma fera que tentasse atacar o rebanho. O cajado era uma vara com uma das extremidades curvadas, usada para ajudar as ovelhas individualmente. No final do dia, o pastor fazia as ovelhas passarem, uma por uma, debaixo do cajado para que pudesse conta-las e examiná-las (Lv.27:32) (2010,p.134).

Para o Pastor eram instrumentos importantes. Ele tinha o שֵׁבֶט, shebet; vara, bordão, ramo, galho, clava. Era pesado e servia para atacar. Com isso o Pastor podia proteger suas ovelhas. Ele não usava este cajado para bater ou disciplinar suas ovelhas. Ele usava para combater aqueles que queriam machucar suas ovelhas. O outro instrumento era o מַשְׁעֵנָה, mish`enah; apoio, bordão, cajado. Este instrumento, o Pastor usava para manusear as ovelhas, direcionar, buscar e averiguar se estavam tudo bem.    

Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


@ze.ronaldo.templodefogo @osprofetas_ @lagrimasportuacausa @templodefogo @portuacasa






 BIBLIOGRAFIA

·      Biblioteca Digital Libronix, Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong
·      Bíblia Judaica Completa, o Tanakn e a B’rit Hadashah, Ed. Vida
·      Bíblia Sacra Vulgata
·      BUCER. Martin. Os Salmos como Adoração Cristã. Um comentário Histórico. Shedd. São Paulo: 2015
·      BRUCE. F.F. Introdução e Comentário de João. Cultura. São Paulo: 1987
·      CALVINO, João, série comentários bíblicos Salmos volume 1, São José dos Campos, Ed. Fiel, 2009
·      CHAMPLIN, Russel Norman, O Antigo Testamento Interpretado, Volume 4, Ed. Hagnos, 2001
·      Davidson, F. MA, DD. O Novo Comentário da Bíblia. Vida Nova. São Paulo: 1997
·      ELIADE, Mircea, História das Crenças e das Ideias Religiosas I, da idade da pedra as mistérios de Elêusis, RJ, Ed. Zahar, 2010
·      GUSSO, Antônio Renato, Gramática Instrumental do Hebraico, São Paulo, Ed. Vida Nova, 2008
·      HENRY, Matthew, Comentário Bíblico A.T. Jó a Cantares de Salomão, Edição Completa, Ed. CPAD, RJ, 2010
·      HANKO, Ronald. Pecado Original. Tradução Felipe Sabino de Araújo Neto, traduzido em maio de 2007. Fonte; monergismo.com                       
·      HOUSTON. James M. Os Salmos como Adoração Cristã. Um comentário Histórico. Shedd. São Paulo: 2015
·      MACARTHUR. John. Comentário do Novo Testamento
·      MEYER. F.B. Comentário Bíblico. Editora Betânia. Belo Horizonte: 2002, p.278
·      PROTHERO. R.E. Os Salmos como Adoração Cristã. Um comentário Histórico. Shedd. São Paulo: 2015
·      RYLE. J.C. Meditações no Evangelho de João. Fiel. São Paulo: 2010   
·      WIERSBE, Warren, Comentário Bíblico Expositivo do A.T. Volume 3, Poéticos, Santo André, Geográfica: 2010
·      KIDNER, Derek, Introdução e Comentário, Salmos 1-72, Ed. Mundo Cristão, série cultura bíblica, São Paulo, 1973
·      WARREN. W. Wiersbe, Comentário Bíblico Expositivo, A.T. Volume III, Poéticos, Santo André, Ed. Geográfica, 2010
·      WALTKE. Bruce. K. Os Salmos como Adoração Cristã. Um comentário Histórico. Shedd. São Paulo: 2015


[1] יְהוָֹה – YHWH. Divindade Javé - "Aquele que existe" 1) o nome próprio do único Deus verdadeiro. Nome impronunciável.
[2]. Biblioteca Digital Libronix, Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong
[3] Biblioteca Digital Libronix, Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong, Bíblia Hebraica Stuttgartensia
[4] Ibidem.
[5] GUSSO, Antônio Renato, Gramática Instrumental do Hebraico, São Paulo, Ed. Vida Nova, 2008, p.301
[6] Bíblia Judaica Completa, o Tanakn e a B’rit Hadashah, Ed. Vida 
[7] Bíblia Sacra Vulgata, Sociedade Bíblica do Brasil, 1969, tradução extraída do site (http://www.bibliacatolica.com.br/en/biblia-da-cnbb-vs-neo-vulgata-latina/salmos/23/#.U4ECTtJDsjw)
[8] Traduções retiradas do site http://biblehub.com/
[9] GUSSO, Antônio Renato, Gramática Instrumental do Hebraico, São Paulo, Ed. Vida Nova, 2008, p.275
[10] Retirado do site: http://www.hebraico.pro.br
[11] Ex.20-8-11. A palavra “descansou”, וַיָּנַח, verbo נוח, qal incompleto 3.ª masculino singular; assentar-se, estabelecer-se, descansar, repousar, aguardar. GUSSO, Antônio Renato, Gramática Instrumental do Hebraico, São Paulo, Ed. Vida Nova, 2008, p.276




 "O Profeta em Israel e a Justiça Social", lançado pela editora Reflexão. Pr. Ronaldo José Vicente. (ronjvicente@gmail.com)   - Adquira o livro clicando:  http://www.editorareflexao.com.br/o-profeta-em-israel-e-a-justica-social/p/576 

Banda TEMPLO (ICor 3.17) de FOGO (Hb 12.29)


CD – O VIDENTE


Este CD tem como característica fundamental a vida e a mensagem dos profetas do AT. Todas as músicas estão baseadas em textos das Escrituras. A música “o Vidente” baseia-se em uma linha de profetas do Antigo Israel chamados de Nabiy’, Chozeh e Ra’ah, Is 6.1-3; ISm 9.9; 16.1-13; Dn 7.1-8; Zc 3.1-10. (ver: http://lagrimasportuacausa.blogspot.com.br/…/o-profeta-e-o-…). A música “Terra Especial” e “Alguém” conta a trajetória de Moisés com o povo de Israel rumo a Terra prometida (Ex 12.1-51; 14.1-31). A música “Jeremias 7” baseia-se nas advertências do profeta contra as perversidades dos religiosos (Jr 7.1-34). “Oséias, o profeta do amor” é poetizado com o intenso amor de Javé pelo seu povo (Os 1.2,9; 2.1; 11.1; 14.1,4). A música “Elias”, retratará o episódio no monte Carmelo, onde Javé responde com fogo no desafio entre Elias e os profetas de Baal (IRs 18.1-40). A música “Teu Querer” é uma balada baseada na doutrina da Eleição Incondicional – homens como (Paulo) e outros, impactados pela escolha soberana de Deus (At 9.3; Rm 8.29,30). A música “Confiar nos profetas” baseia-se neste texto das Escrituras: “...Crede no SENHOR, vosso Deus, e estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis...” – A música relata o contexto deste pronunciamento contando a história do Rei Josafá (2Cr 20.20). Por fim, temos a música do profeta “Joel”, especificamente com uma mensagem sobre “O Dia do Senhor”. Essa música fecha o CD com a profecia da volta de JESUS!



ACESSE EM TODAS AS PLATAFORMAS:








    
Este é um projeto envolvendo todos os irmãos da Igreja PorTuaCasa (@igrejaportuacasa). O objetivo é unir duas coisas. As Escrituras e um bom Rock N Roll. Atualmente temos muitas músicas que se dizem "gospel", porém, encontramos muitas frases que exaltam mais o homem do que à Deus. Essa é a primeira música, temos o objetivo de fazer o sermão do monte por completo (Mateus 5.1-7.29).

Nesta música, fizemos o texto das Bem-aventuranças (Mateus 5.3-12). 


Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. 
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. 
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 
Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. 
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. 
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. 
Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.  


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