Os profetas andam e oram
“ Agora, pois, restitui a mulher a seu marido, pois ele é profeta e intercederá por ti, e viverás; se, porém, não lha restituíres, sabe que certamente morrerás, tu e tudo o que é teu... E, orando Abraão, sarou Deus Abimeleque, sua mulher e suas servas, de sorte que elas pudessem ter filhos; porque o SENHOR havia tornado estéreis todas as mulheres da casa de Abimeleque, por causa de Sara, mulher de Abraão” (Gn 20.7,17).
Iniciamos esta parte do artigo com a história de um homem chamado Abraão. Ou podemos dizer; O profeta Abraão. Essa é a primeira vez nas Escrituras que um homem é chamado desta forma. Mas vamos nos atentar sobre o ocorrido. Abraão está peregrinando com sua esposa Sara e se depara em um território nada amigável. Ele sabe que precisa estar atento. A fama de um rei chamado Abimeleque não é boa em se tratando de mulheres bonitas. Então Abraão decide dizer que Sara é sua irmã. Obviamente pensava em ambos para sobreviver. Porém isso deu razão para o rei mandar buscar Sara para a possuir. Não iremos entrar em cada detalhe desta história, os costumes e qual a verdadeira razão do rei desejar a Sara. Mas ressaltaremos que essa atitude de Abimeleque despertou a ira de YHWH. Tal seria a punição, que Deus mataria o rei e o seu povo. Além disso, o texto fornece que houve um tempo maior da estadia de Sara com o rei e um tempo maior para a punição. Pois o rei estava enfermo e suas mulheres e servas estavam estéreis. Mas Abimeleque em certo sentido, não estava totalmente inclinado ao erro. Observamos no relato o próprio YHWH em sonhos trazendo a sentença e Abimeleque intercedendo por si mesmo: “Senhor, matarás até uma nação inocente? Não foi ele mesmo que me disse: É minha irmã? E ela também me disse: Ele é meu irmão. Com sinceridade de coração e na minha inocência, foi que eu fiz isso. Respondeu-lhe Deus em sonho: Bem sei que com sinceridade de coração fizeste isso; daí o ter impedido eu de pecares contra mim e não te permiti que a tocasses” (20.4-6). Mesmo o rei indo por uma armadilha de forma inocente e sendo punido por tomar Sara, iniciando assim uma defesa. Deus não aceita e lhe direciona para Abraão. Primeiro pede para que restitua Sara e depois o entrega nas mãos de Abraão. Tanto sua vida como do seu povo: “Agora, pois, restitui a mulher a seu marido, pois ele é profeta e intercederá por ti, e viverás; se, porém, não lha restituíres, sabe que certamente morrerás, tu e tudo o que é teu”. Então percebemos que no decorrer da história Abraão intercede por Abimeleque e Deus o salva e tira o castigo da sua casa: “E, orando Abraão, sarou Deus Abimeleque, sua mulher e suas servas, de sorte que elas pudessem ter filhos; porque o SENHOR havia tornado estéreis todas as mulheres da casa de Abimeleque, por causa de Sara, mulher de Abraão” (20.17,18).
Semelhante a oração de súplica e a oração de intercessão, na qual o suplicante apresenta a Deus os desejos e preocupações de outrem e implora as bênçãos para ele, ou na qual o suplicante intervém em nome e em favor de alguém que se tornou culpado. Esse tipo de oração intercessora já era atribuído a Abraão, qualificado então como profeta (Gn 20.7), e se encontra muitas vezes nos profetas (Am 7.1), desde que não tivesse sido proibida (Jr 11.14) (FOHRER p.120, 2007).
Você percebe o que acabamos de ler? O tipo de relato que temos em mãos? Deus deu a um homem a vida e o destino de outro homem. Deus entregou nas mãos de um homem o destino de um povo. Deus deu a um homem o futuro de pessoas que ainda não tinham nascido. Foi isso que YHWH fez nessa situação. Mas para seguirmos o foco deste artigo devemos falar assim: YHWH entregou nas mãos de um profeta o destino daqueles habitantes. Deus entregou a decisão do continuar de uma linhagem nas mãos de um Navi’.
Deus dissera a Abimeleque que Abraão poderia interceder por ele. Aqui, vê-se que tal intervenção é mais necessária do que se pensava. Graças a ela, “Deus curou Abimeleque, sua mulher e suas servas, que ganharam filhos”. Deus tinha tornado Abimeleque impotente, e as mulheres estéreis. Deus “fechara cada seio”, assim como Sara fora impedida de gerar (16.2). A ação de Deus não era uma punição, mas uma ação passageira preventiva. Deus agira assim “por causa de Sara, a mulher de Abraão” (VOGELS p.140 2000).
Agora o que podemos pensar é como o profeta Abraão pode chegar a esse nível? Como um homem recebe tal autoridade? Podemos relembrar um episódio anterior relacionado a Sodoma e Gomorra onde o próprio YHWH diz: “Ocultarei a Abraão o que estou para fazer?” (Gn 18.16). Nesta situação os três homens (18.1), sendo o próprio Senhor, conversavam sobre os planos de destruir Sodoma e Gomorra. Pois o próprio Deus diz: “Com efeito, o clamor de Sodoma e Gomorra tem-se multiplicado, e o seu pecado se tem agravado muito. Descerei e verei se, de fato, o que têm praticado corresponde a esse clamor que é vindo até mim; e, se assim não é, sabê-lo-ei” (18.20,21). Provavelmente dois daqueles homens vão até a cidade e Abraão permanece na presença do Senhor: “Então, partiram dali aqueles homens e foram para Sodoma; porém Abraão permaneceu ainda na presença do SENHOR” (18.22). O profeta está onde deve estar. Permanentemente na presença de Deus. É neste lugar que começa a intercessão:
Abraão permaneceu ainda na presença do SENHOR. E, aproximando-se a ele, disse: Destruirás o justo com o ímpio?.. Disse mais Abraão: Eis que me atrevo a falar ao Senhor, eu que sou pó e cinza...Insistiu: Não se ire o Senhor, falarei ainda... Continuou Abraão: Eis que me atrevi a falar ao Senhor... Disse ainda Abraão: Não se ire o Senhor, se lhe falo somente mais esta vez: Se, porventura, houver ali dez? Respondeu o SENHOR: Não a destruirei por amor dos dez. Tendo cessado de falar a Abraão, retirou-se o SENHOR; e Abraão voltou para o seu lugar (18.22-33).
Realmente a intercessão de um homem fez a diferença. A mediação deste profeta fez Deus lembrar: “lembrou-se Deus de Abraão e tirou a Ló do meio das ruínas” (Gn 19.29). Novamente eu lhes pergunto: Vocês conseguem imaginar o tipo de relato que temos em mãos? Vamos tentar explorar este ponto para compreendermos sua dimensão. Aquele que fez os céus e a terra, o Senhor forte e poderoso. O grande Eu Sou que destruiu a nação mais poderosa da antiguidade, o Egito - através de um velho com um cajado - Quase destruiu o mundo todo através das águas do dilúvio. Criou todas as coisas. Nada existe sem Ele. Seu poder é tão grande que os milhares de anos escritos, seriam insuficientes para descrever tamanha gloria, poder, beleza, magnitude, misericórdia, justiça, perfeição, realeza, sabedoria e amor. Observe o que os profetas diziam:
Deus vem de Temã, e do monte Parã vem o Santo. A sua glória cobre os céus, e a terra se enche do seu louvor. O seu resplendor é como a luz, raios brilham da sua mão; e ali está velado o seu poder. Adiante dele vai a peste, e a pestilência segue os seus passos. Ele pára e faz tremer a terra; olha e sacode as nações. Esmigalham-se os montes primitivos; os outeiros eternos se abatem. Os caminhos de Deus são eternos (Hab 3.3-6).
Bendize, ó minha alma, ao SENHOR! SENHOR, Deus meu, como tu és magnificente: sobrevestido de glória e majestade, coberto de luz como de um manto. Tu estendes o céu como uma cortina, pões nas águas o vigamento da tua morada, tomas as nuvens por teu carro e voas nas asas do vento. Fazes a teus anjos ventos e a teus ministros, labaredas de fogo. Lançaste os fundamentos da terra, para que ela não vacile em tempo nenhum. Tomaste o abismo por vestuário e a cobriste; as águas ficaram acima das montanhas; à tua repreensão, fugiram, à voz do teu trovão, bateram em retirada. Elevaram-se os montes, desceram os vales, até ao lugar que lhes havias preparado. Puseste às águas divisa que não ultrapassarão, para que não tornem a cobrir a terra. Tu fazes rebentar fontes no vale, cujas águas correm entre os montes; dão de beber a todos os animais do campo; os jumentos selvagens matam a sua sede. Junto delas têm as aves do céu o seu pouso e, por entre a ramagem, desferem o seu canto. Do alto de tua morada, regas os montes; a terra farta-se do fruto de tuas obras. Fazes crescer a relva para os animais e as plantas, para o serviço do homem, de sorte que da terra tire o seu pão, o vinho, que alegra o coração do homem, o azeite, que lhe dá brilho ao rosto, e o alimento, que lhe sustém as forças. Avigoram-se as árvores do SENHOR e os cedros do Líbano que ele plantou, em que as aves fazem seus ninhos; quanto à cegonha, a sua casa é nos ciprestes. Os altos montes são das cabras montesinhas, e as rochas, o refúgio dos arganazes. Fez a lua para marcar o tempo; o sol conhece a hora do seu ocaso. Dispões as trevas, e vem a noite, na qual vagueiam os animais da selva. Os leõezinhos rugem pela presa e buscam de Deus o sustento; em vindo o sol, eles se recolhem e se acomodam nos seus covis. Sai o homem para o seu trabalho e para o seu encargo até à tarde. Que variedade, SENHOR, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas. Eis o mar vasto, imenso, no qual se movem seres sem conta, animais pequenos e grandes. Por ele transitam os navios e o monstro marinho que formaste para nele folgar. Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens. Se ocultas o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó. Envias o teu Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra. A glória do SENHOR seja para sempre! Exulte o SENHOR por suas obras! Com só olhar para a terra, ele a faz tremer; toca as montanhas, e elas fumegam. Cantarei ao SENHOR enquanto eu viver; cantarei louvores ao meu Deus durante a minha vida. Seja-lhe agradável a minha meditação; eu me alegrarei no SENHOR. Desapareçam da terra os pecadores, e já não subsistam os perversos. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR! Aleluia! (Salmo 104.1-34).
Leia todo o texto e tente imaginar tamanha glória. Leia atentamente cada
detalhe e outros textos das Escritura e tente conceber espantosa perfeição.
Force sua percepção e experimente sonhar estar diante e contemplando imensa
e infinita beleza. Se você conseguiu imaginar uma pequena fração disso tudo,
prossiga para o meu raciocínio. Um dia, um belo dia, um dia normal; este grande
Deus resolve passar em frente a sua casa. Foi o que ocorreu com Abraão. A
atitude deste homem nos faz entender por que ele é o primeiro a ser chamado
profeta de YHWH. Ele corre! Não de Deus e sim para Deus. O primeiro homem
que pecou se escondeu de Deus, fugiu ao ouvir a voz do Todo Poderoso (Gn 3.8). Porém Abraão, violentamente apressa-se para se encontrar com Deus e
lhe oferece seus serviços:
Levantou ele os olhos, olhou, e eis três homens de pé em frente dele. Vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro, prostrou-se em terra e disse: Senhor meu, se acho mercê em tua presença, rogo-te que não passes do teu servo; traga- se um pouco de água, lavai os pés e repousai debaixo desta árvore; trarei um bocado de pão; refazei as vossas forças, visto que chegastes até vosso servo; depois, seguireis avante. Responderam: Faze como disseste (Gn 18.2-5).
A maioria dos homens correria, ou se esconderia, ou até poderíamos dizer
que se prostrariam e nesta posição permaneceriam. Mas não um profeta. Ele se
oferece para presentear. Deseja estar perto. Prestar serviço. Entretanto, há um
segredo mais profundo para que Abraão esteja nessa posição. Voltaremos um
pouco nos relatos bíblicos e iremos notar uma palavra em hebraico (halak).
Essa palavra pode-se entender como andar, vir, partir, viver, ter um modo de
vida, liderar, agir, ser, ter um estilo de vida. Se formos encarnar em alguma
pessoa poderíamos concluir: este individuo terá que ter um pensamento próprio.
Com decisões pautadas em uma realidade única. Um modo de vida original. Isso
o fará decidir, agir e ser alguém que possui uma personalidade fora de uma
realidade manipulada. Alguém com uma identidade acima de influências baixas.
Quem poderia viver desta forma? Ou, o mais importante: Quem poderia ensinar
alguém a viver desta forma? A resposta é simples. O grande EU SOU e o
primeiro homem. Note este texto: “Quando ouviram a voz do SENHOR Deus,
que andava (halak) no jardim pela viração do dia, esconderam-se da
presença do SENHOR Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do
jardim” (Gn 3.8). Se você interpretar essa palavra apenas literalmente, então
compreenderá uma simples atuação de Deus andando até Adão e Eva após
terem optado por uma posição de rebeldia. Mas não é isso o que as Escrituras
querem dizer quando usa a palavra halak. Existe um sentido mais profundo. Vamos analisar. Após a queda os homens continuaram a andar (Halak). Ou
seja, continuaram a ter um estilo de vida, um modo de vida. Porém, este modo
agora é totalmente contrário daquele ensinado por YHWH.
Podemos perceber isso nos relatos após a queda. O primeiro assassinato ocorre entre dois irmãos (Gn 4.8-16). Após isso, mais assassinatos ocorrem através de Lameque, descendente de Caim (Gn 4.23). Então chegamos ao declínio máximo da criação: “A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se começou a invocar o nome do SENHOR” (Gn4.26). Quando lemos este texto apenas separado do contexto, não entendemos toda uma situação que o levou a isso. O próprio versículo nos fornece a gravidade: “começou-se a invocar o nome do Senhor”. Este versículo deve ser entendido como iniciou-se novamente algo que estava perdido na sociedade. A invocação neste versículo se compara a um grito desesperador para YHWH. Mas não é um grito para que a mudança permaneça num modelo subjetivo apenas; uma teoria limitada em retóricas. É uma música alta de socorro para que o halak volte a ser o normal entre os homens. Através deste brado temos a resposta: “Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si” (Gn 5.24). O mesmo termo é usado para este homem chamado Enoque. A melhor forma de entendermos este versículo é: “teve um estilo de vida, um modo de agir, pensar, analisar, fazer e esperar; se posicionou, reteve, tomou decisões, compreendeu, esperou, desejou, aproveitou, viveu, sorriu, brigou, observou, conquistou, perdeu, avançou, parou, repreendeu, criou, arruinou, limpou, perdoou, reteve, refez, levantou, restaurou”. Por fim, andou (halak) com Deus.
Porém, a situação não melhorou. Na verdade, socialmente as circunstâncias pioraram. O homem após a queda tornou-se um rebelde social. Tudo a sua volta é produzido como sinal de revolta contra Deus. O homem passa a ter um modo de vida que afronta os princípios estabelecidos por YHWH. Ou seja, a maneira que o Senhor andava ( %ָה ַל , halak) no jardim, ensinando Adão. Agora é praticado de maneira oposta. Uma subversão dos valores eternos por medidas revoltosas. Observe:
Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração... A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque todo ser vivente havia corrompido o seu caminho na terra (Gn 6.5,11).
O texto diz que o homem continuamente desejava o mau. Não havia pausa para ansiar a maldade. Dia e noite esperavam-se pela oportunidade de realizar perversidade. O mais agravante é perceber que todos estavam nessa posição. A terra estava corrompida. Todos os habitantes da terra estavam cheios de violência. Ou seja; todos tinham “um estilo de vida, um modo de agir, de pensar, analisar, fazer e esperar; se posicionar, reter, tomar decisões, compreender, esperar, desejar, aproveitar, viver, sorrir, brigar, observar, conquistar, perder, avançar, parar, repreender, criar, arruinar, limpar, perdoar, reter, refazer, levantar, restaurar para o mal”. Neste ambiente o texto mostra um homem. Um homem como aqueles, porém com um diferencial: “Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava (halak) com Deus” (Gn 6.9). Como já trabalhamos bastante o conceito de “andar”, podemos compreender mais facilmente. Noé é alguém disposto a viver totalmente diferente da normalidade rebelde que o mundo propõe. Ele é um pai de família. Um homem normal. Possivelmente fraco e influenciável. Sem poder para ir contra um poder maior de manipulação social para o mal. Mesmo com toda essa avalanche mundial de desprezo a vontade de YHWH. Este homem decide ter um modo de vida estabelecido por Deus desde a criação. Conhecemos todo o restante da história e como o Senhor se alegrou de Noé.
Trilhei este pensamento no artigo para leva-lo ao segredo de Abraão. Obviamente observaremos em sua vida inúmeros pontos positivos que podemos usar como exemplo na nossa caminhada cristã. Um deles está relacionado a postura de Abraão de sempre levantar um altar ao Senhor e invoca-lO. Em várias situações. Momentos específicos. Este homem mantinha a rotina de estar em conexão com YHWH:
Apareceu o SENHOR a Abrão e lhe disse: Darei à tua descendência esta terra. Ali edificou Abrão um altar ao SENHOR, que lhe aparecera... Fez as suas jornadas do Neguebe até Betel, até ao lugar onde primeiro estivera a sua tenda, entre Betel e Ai, até ao lugar do altar, que outrora tinha feito; e aí Abrão invocou o nome do SENHOR... E Abrão, mudando as suas tendas, foi habitar nos carvalhais de Manre, que estão junto a Hebrom; e levantou ali um altar ao SENHOR. (12.7; .)13.3,4,18
Seria esse o objetivo central de Deus para Abraão? Creio que não. Se notarmos, desde o chamado deste homem. YHWH vem trabalhando para desenvolver em Abraão um estilo de vida que Ele estabeleceu. No início do seu chamado vemos: “Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei” (Gn 12.1). Esse tipo de ordem é um pouco estranho. Para nós pode não haver tanta singularidade, mas para o período de Abraão sim. Os deuses não eram misericordiosos. Os deuses não eram relacionais. Os deuses não se importavam se você estava feliz ou não. Se você tinha uma terra para morar ou não. Se você tinha um filho para ter uma descendência ou não. Os homens procuravam os deuses e não os deuses procuravam os homens. Abraão está neste contexto e dificilmente agiria fora dele. Porém YHWH possui outros planos. Deus deseja homens que andem com Ele. Homens dispostos a viver o padrão que Ele determina. Enquanto Abraão ainda mantém seu ritual de sacrifícios. Agora o grande Eu Sou o procura para ensiná-lo uma maneira correta de viver e se relacionar. Deus está preocupado onde e como Abraão vai morar (12.1). Deus se preocupa com a esposa de Abraão, pois quando Faraó a toma, igual o rei Abimeleque – Deus pune os dois (12.10-20; 201-18). Deus se importa se Abraão e Sara teria um filho. Era um milagre, mas também uma enorme alegria para ambos (15.1-11). YHWH é ativo em iniciar uma aliança com Abraão. Primeiramente parte de Deus e a resposta vem do homem (15.12-21). Abraão tenta fazer conforme o costume dos povos, gerar um filho usando outra mulher. Mesmo amando Ismael, Deus não aceita isso. O Senhor mantém sua palavra e Abraão precisa aprender isso (16-21). Deus muda o seu nome. De pai para um pequeno grupo, agora ele seria pai de multidões; pai de nações. Da mesma forma que Deus é um Pai para todos nós (17.1-27). O Senhor estabelece um sinal. O pacto da aliança. A circuncisão. Todos da casa, futuramente, deveriam manter-se fiel nisso para que o Senhor fosse respeitado (17.23-27). Deus em pessoa resolve aparecer na casa de Abraão. O grande Deus se assenta para comer a refeição oferecida pelo profeta (Gn 18.1-15). Deus ouve a intercessão de Abraão para poupar a vida do seu sobrinho Ló (18-19). Nasce Isaque e Deus prova Abraão pedindo-lhe o filho como sacrifício. Algo totalmente normal naquele período. Os deuses pediam sacrifícios principalmente de primogênitos. Mas quando Abraão vai realizar. YHWH lhe ensina que é um Deus de vida e não de morte, apontando assim para o Seu futuro filho que morreria por todos. Provendo assim o carneiro para o sacrifício (22.1-19). Este pequeno relato da vida deste homem. O descrevi de forma superficial. Com o objetivo de levá-lo para este pronunciamento:
Quando atingiu Abrão a idade de noventa e nove anos, apareceu-lhe o SENHOR e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda (halak) na minha presença e sê perfeito” (Gn 17.1).
Ele é o Deus Todo-poderoso que tudo pode fazer, até mesmo tornar possível o impossível. Ele prossegue ordenando: “Anda em minha presença” (literalmente: diante da minha face). Javé ordenara a Abrão deixar sua terra natal, e ele obedecera. Assim realizava algo que só faria uma vez em sua vida. Javé lhe ordena agora que ande diante da sua face. Todo ato da vida de Abrão é que deverá ser feito em referência a Deus. Seu comportamento deve-se aproximar-se do de Henoc e do de Noé, que estavam ainda mais próximos de Deus, já que “andavam com Deus” (Gn 5.24; 6.9), lado a lado. E Deus acrescenta: “Sê integro”. Também nisso Abrão deve assemelhar-se a Noé (Gn 6.9). Deus lhe pede que seja um homem de vida ordenada e harmoniosa. Essa solicitação implica que Abrão, ate então, não levou tal vida? Talvez! Com efeito, Abrão teve procedimentos generosos, como em seu comportamento com Lot (13) e com os reis (14), mas também adotou outros edificantes, como em seu comportamento com Sarai no Egito (12.10-20) e com Hagar no relato precedente (16). A ordem de Deus indica ainda, de modo igualmente claro, que a realização da promessa depende do comportamento de Abrão (VOGELS p.107 2000)
No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. As bases do limiar se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça. Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos! Então, um dos serafins voou para mim, trazendo na mão uma brasa viva, que tirara do altar com uma tenaz; com a brasa tocou a minha boca e disse: Eis que ela tocou os teus lábios; a tua iniquidade foi tirada, e perdoado, o teu pecado. Depois disto, ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Disse eu: eis-me aqui, envia-me a mim (Is 6.1- 8).
Eis-me aqui! Estou aqui, oh Senhor! Estou a sua disposição. Estou certo
que exista apenas um modo de viver. O seu modo e não o nosso. Estou pronto
para viver no modelo que designaste e pronto para impor essa maneira aos
outros. Basicamente essa é a resposta de Isaias. Em qual contexto o profeta tem
essa visão do Senhor e consequentemente a motivação da sua resposta. Para
compreendermos isso precisamos estudar um pouco sobre os reis de Israel.
Vamos partir do primeiro rei após a divisão. Roboão permanece no Sul e
Jeroboão inicia seu reino no Norte (IRs 12-15). Vários acontecimentos ocorrem
entre os reis. Guerras, alianças e muita influência profética. Não irei entrar em
todos as ocorrências. Sugiro que vejam meus artigos e aulas sobre “Deus,
deuses e reis”, onde trabalho detalhadamente esses episódios. Vamos iniciar no
tempo do rei Acabe em Israel e no tempo do rei Josafá em Judá. Sabemos da
trajetória de Acabe e sua aliança com a profetisa Jezabel (IRs 16-22; 2Cr 18).
Jezabel foi uma semente maligna no Norte. Disseminando toda sorte de mistura,
matando profetas, mesclando a religião e se opondo abertamente contra a
vontade de YHWH. Entretanto sabemos o seu fim. A espada de Jeú não perdoou
toda a casa de Acabe, destruindo assim Jezabel (2Rs 9-10). Quando nos
concentramos no reino de Judá (Sul), iremos notar que a filha de Jezabel, casa-
se com o filho do rei Josafá: “Andou nos caminhos dos reis de Israel, como
também fizeram os da casa de Acabe, porque a filha deste era sua mulher; e fez
o que era mau perante o SENHOR” (2Rs 8.18). Então no reino de Judá temos o
rei Jeorão e a rainha Atalia. O rei Jeorão é filho de Josafá e a rainha Atalia é filha
de Jezabel. Vejamos a cronologia citada por Richard Pratt: “O texto compara
Jeorão com os outros reis de Israel, e especificamente com a casa de Acabe
(21.6). Os livros de Reis e Crônicas comparam outros reis de Judá com os reis
israelitas do Norte (2Rs 16.3) e Acabe, especificamente (2Rs 8.27; 21.3), para
indicar como alguns reis judaítas tinham se tornado perversos (2Cr 21.6,13; 22.4;
28.2-4). O ponto de comparação aqui e em outros lugares é principalmente o
sincretismo religioso. A ligação com Acabe é feita mais diretamente porque a
filha deste (de Acabe) era sua mulher (de Jeorão) (21.6). Jeorão buscou uma
aliança de casamento com o Norte da mesma forma que seu pai Josafá (18.1).
Ficamos sabendo mais tarde que o nome da filha de Acabe era Atalia. Ela
influenciou Jeorão na direção do mal da mesma forma que fez com seu filho Acazias” (PRATT p.483, 2008). Este rei foi mau aos olhos do Senhor a tal ponto,
que o profeta Elias lhe envia uma carta de condenação:
Então, lhe chegou às mãos uma carta do profeta Elias, em que estava escrito: Assim diz o SENHOR, Deus de Davi, teu pai: Porquanto não andaste nos caminhos de Josafá, teu pai, e nos caminhos de Asa, rei de Judá, mas andaste nos caminhos dos reis de Israel, e induziste à idolatria a Judá e os moradores de Jerusalém, segundo a idolatria da casa de Acabe, e também mataste a teus irmãos, da casa de teu pai, melhores do que tu, eis que o SENHOR castigará com grande flagelo ao teu povo, aos teus filhos, às tuas mulheres e todas as tuas possessões. Tu terás grande enfermidade nas tuas entranhas, enfermidade que aumentará dia após dia, até que saiam as tuas entranhas. Despertou, pois, o SENHOR contra Jeorão o ânimo dos filisteus e dos arábios que estão do lado dos etíopes. Estes subiram a Judá, deram contra ele e levaram todos os bens que se acharam na casa do rei, como também a seus filhos e as suas mulheres; de modo que não lhe deixaram filho algum, senão Jeoacaz, o mais moço deles. Depois de tudo isto, o SENHOR o feriu nas suas entranhas com enfermidade incurável. E, aumentando esta dia após dia, ao cabo de dois anos, saíram-lhe as entranhas por causa da enfermidade, e morreu com terríveis agonias. O seu povo não lhe queimou aromas, como se fez a seus pais. Era ele da idade de trinta e dois anos quando começou a reinar e reinou oito anos em Jerusalém. E se foi sem deixar de si saudades; sepultaram-no na Cidade de Davi, porém não nos sepulcros dos reis (2Cr 21.12-20).
Com a morte do rei Jeorão, temos o início do reinado do seu filho Acazias. Este rei é neto de Acabe e Jezabel. Sua mãe Atalia lhe aconselha no reino de forma maligna: “Era Acazias de vinte e dois anos de idade quando começou a reinar e reinou um ano em Jerusalém. Sua mãe, filha de Onri, chamava-se Atalia. Ele também andou nos caminhos da casa de Acabe; porque sua mãe era quem o aconselhava a proceder iniquamente” (2Cr 22.2,3). Com o levante de Jeú, os registros mostram que ambos são mortos. O rei de Israel, Jorão e o rei do Sul, Acazias. Pratt comenta que “o primeiro passo desta história descreve Acazias visitando o rei Jorão, do norte, que estava ferido. Quando a história começa, Acazias aparentemente ignorava o perigo. Ele visitou Jorão em Jezreel, um palácio de verão dos reis de Israel (IRs 18.45,46; 21.1; 2Rs 9.30), e se reuniu a Jorão para encontrar Jeú. A gramática hebraica de 22.7a sugere que esta sentença tinha a intenção de ser uma nota parentética. O cronista explica que Deus tinha um proposito secreto para a visita de Acazias a Jorão. Era o meio qual o Senhor escolhera para levar a ruína a Acazias. De fato, o cronista também observa que o Senhor tinha ungido (a Jeú) para desarraigar a casa de Acabe (22.7b). Justamente como ele fizera em muitas ocasiões, o cronista mostra os meios secretos de Deus agir por meio de eventos normalmente ordinários” (PRATT p.495, 2008).
Disse Jorão: Aparelha o carro. E lhe aparelharam o carro. Saiu Jorão, rei de Israel,
e Acazias, rei de Judá, cada um em seu carro, e foram ao encontro de Jeú, e o
acharam no campo de Nabote, o jezreelita. Sucedeu que, vendo Jorão a Jeú,
perguntou: Há paz, Jeú? Ele respondeu: Que paz, enquanto perduram as
prostituições de tua mãe Jezabel e as suas muitas feitiçarias? Então, Jorão voltou
as rédeas, fugiu e disse a Acazias: Há traição, Acazias! Mas Jeú entesou o seu
arco com toda a força e feriu a Jorão entre as espáduas; a flecha saiu-lhe pelo
coração, e ele caiu no seu carro. Então, Jeú disse a Bidcar, seu capitão: Toma-o,
lança-o no campo da herdade de Nabote, o jezreelita; pois, lembra-te de que, indo eu e tu, juntos, montados, após Acabe, seu pai, o SENHOR pronunciou contra ele
esta sentença: Tão certo como vi ontem à tarde o sangue de Nabote e o sangue
de seus filhos, diz o SENHOR, assim to retribuirei neste campo, diz o SENHOR.
Agora, pois, toma-o e lança-o neste campo, segundo a palavra do SENHOR. À
vista disto, Acazias, rei de Judá, fugiu pelo caminho de Bete-Hagã; porém Jeú o
perseguiu e disse: Feri também a este; e o feriram no carro, à subida de Gur, que
está junto a Ibleão. E fugiu para Megido, onde morreu. Levaram-no os seus
servos, num carro, a Jerusalém e o enterraram na sua sepultura junto a seus pais,
na Cidade de Davi (2Rs 9.21-28).
Então temos através da espada de Jeú a morte de dois reis. No mesmo dia, Jeú aniquila dois poderes de uma nação. Logo em seguida, Jeú vai até a cidade de Jezreel atrás da rainha do Norte. A tão temível Jezabel. Ela é lançada pelos próprios eunucos do seu palácio. Após isso, Jeú a atropela com seu carro e cavalos. Nada sobra desta maligna mulher, se não ossos, pois foi devorada por cães e cumprindo a palavra do profeta Elias: “Foram para a sepultar; porém não acharam dela senão a caveira, os pés e as palmas das mãos. Então, voltaram e lho fizeram saber. Ele disse: Esta é a palavra do SENHOR, que falou por intermédio de Elias, o tesbita, seu servo, dizendo: No campo de Jezreel, os cães comerão a carne de Jezabel. O cadáver de Jezabel será como esterco sobre o campo da herdade de Jezreel, de maneira que já não dirão: Esta é Jezabel” (2Rs 9.30-37). Após isso, Jeú continua exterminando a casa de Acabe. Setenta filhos são mortos pelos próprios chefes da cidade. As cabeças são cortadas e enviada a Jeú que permanece em Jezreel. Jeú pega as cabeças e as empilha na frente da cidade em dois montões. Em seguida encontra todos os contatos do rei Acabe e Jezabel, sacerdotes e conselheiros e os mata. Então segue para Samaria e no caminho encontra parentes do rei Acazias (Judá). Ele também os extermina. São quarenta e dois homens (2Rs 10.1-14).
Samaria era a capital do Reino do Norte e é, portanto, um sítio muito importante para o estudo da arqueologia de Israel no Ferro II em geral, e os dias da dinastia omrida em particular. No entanto, datar os estratos de Samaria de acordo com a tipologia cerâmica é, infelizmente, impossível, por causa do local montanhoso e do caráter das escavações passadas no início do século XX e nos anos de 1940 (FINKELSTEIN p.110, 2015).
Tendo subido ao trono de Israel por intermédio de sanguinária insurreição, aparentemente Jeú nunca conseguiu unificar sua nação o bastante para resistir ao poder de Hazael. É duvidoso que Hazael tenha conseguido reduzir Jeú a um vassalo sírio; porém, por todo o resto dos dias de Jeú, Israel foi molestado e perturbado por esse agressivo monarca sírio. Embora Jeú tenha eliminado o baalismo, não se moldou a lei de Deus. A idolatria continuava prevalecendo de Dã a Betel – daí o aviso divino de que seus filhos reinariam após ele somente a quarta geração” (SCHULTZ p.186, 2007).
Voltando os olhos para o reino de Judá, temos a rainha Atalia. Filha de Jezabel e mãe do rei morto, Acazias. Quando percebe toda a matança através de Jeú, para se livrar, comete uma atrocidade. Assassina toda a descendência real. Atalia faz isso para assumir o trono e ao mesmo tempo livrar-se da espada de Jeú: “Vendo Atalia, mãe de Acazias, que seu filho era morto, levantou-se e destruiu toda a descendência real da casa de Judá. Mas Jeosabeate, filha do rei, tomou a Joás, filho de Acazias, e o furtou dentre os filhos do rei, aos quais matavam, e o pôs e à sua ama numa câmara interior; assim, Jeosabeate, a filha do rei Jeorão, mulher do sacerdote Joiada e irmã de Acazias, o escondeu de Atalia, e não foi morto. Joás esteve com eles seis anos na Casa de Deus, e Atalia reinou no país” (2Cr 22.10-12).
Ocorreu drástica mudança no clima religioso, depois do falecimento de Josafá. Sendo adepta de Baal, tal como sua mãe, Jezabel, Atalia promoveu essa prática idólatra em Jerusalém e por todo o Judá. Os objetos consagrados no templo foram apropriados para servir na adoração a Baal. Matã servia a Baal como sumo sacerdote, em Jerusalém. Não há que duvidar que o derramamento de sangue e as perseguições contra o baalismo, no reino do Norte, sob Jeú, fizeram Atalia tornar-se ainda mais ardorosa no estabelecimento do culto da fertilidade em Judá, nessa ocasião (SCHULTZ p.193, 2007).
Segundo a vontade de Alexandre, desde a época helenística tornou-se costume, no Ocidente, conceder aos líderes de exceção o atributo de “Grande”. Ora, pelos seus feitos em muitas áreas do governo, Uzias merece certamente ser chamado de “Uzias, o Grande (GICHON p.238, 2009).
O autor continua dizendo que Uzias reduziu os filisteus a um estado de absoluta vassalagem. Para garantir o seu domínio, desmantelou as fortificações de algumas das suas principais cidades e instalou guarnições judaicas em cidades e territórios filisteus, construindo fortalezas especiais para as proteger. A submissão foi praticamente absoluta, pois em outra passagem bíblica (2Rs 14.22) é dito que Uzias “reconstruiu Elat e restituiu-a ao domínio de Judá. Uzias foi o primeiro rei que instaurou todo um armamento uniformizado para o exército nacional, ou pelo menos foi o primeiro a mandar registrar o fato. Entre os itens de armamento mencionados incluem-se armaduras em geral. Podemos deduzir que cada corpo de tropas envergava uma couraça ou armadura diferente, em função dos vários tipos de armamento ofensivo e missões. Os membros da célebre falange judaica poderão ter usado capacete, cota de malha e sandálias pesadas, a imagem dos seus equivalentes assírios. Um outro componente do exército de Uzias é digno de menção: a casta hereditária, os “homens valorosos”. Estes parecem-nos ser, pelo menos em parte, os descendentes da guarda de elite de Davi, os gibborim (heróis), que recebiam terras do rei, permanentemente ou como feudos, e que formavam uma casta “nobre” que constituía uma espinha dorsal do exercito – ainda que, por serem proprietários de terras, fizessem mais parte do “povo em armas” do que dos regulares. Sendo homens de posse, tinham tempo disponível para se exercitarem nas armas mais diligentemente do que o cidadão comum. O seu número é plausivelmente colocado em 2.500 famílias, e “sob a sua mão” encontrava-se a leva nacional: “O número total dos cabeças das famílias, homens valentes, era de dois mil e seiscentos. Debaixo das suas ordens, havia um exército guerreiro de trezentos e sete mil e quinhentos homens, que faziam a guerra com grande poder, para ajudar o rei contra os inimigos” (2Cr 26.12,13), (GICHON p.242,243, 2009).
Com toda a fama que alcançou, trazendo esperança de novamente Judá reviver a glória que tinham com o rei Davi. Uzias comete o pior erro que um rei poderia fazer. Permitiu-se o orgulho entrar: “exaltou-se o seu coração para a sua própria ruína” (26.16). Desta forma, alimentou o desejo que todo rei queria na antiguidade. Algo totalmente proibido por YHWH. O anseio de alcançar todo o poder. O poder militar e o poder religioso. Era extremamente vetado isso em Israel. Os reis não poderiam ter o controle sacerdotal. Mas Uzias suas conquistas militares para passar por cima dos sacerdotes. Ao tentar fazer o sacrifício, é contestado por oitenta sacerdotes. Mesmo sendo impedido, resolve não se submeter e seguir adiante para aquilo que desejava realizar. Seu caminho de enfrentamento contra as ordens de Javé o faz ter um final deprimente. A ira de Deus cai sobre ele com uma doença terrível:
Porém o sacerdote Azarias entrou após ele, com oitenta sacerdotes do SENHOR, homens da maior firmeza; e resistiram ao rei Uzias e lhe disseram: A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o SENHOR, mas aos sacerdotes, filhos de Arão... Então, Uzias se indignou; tinha o incensário na mão para queimar incenso; indignando-se ele, pois, contra os sacerdotes, a lepra lhe saiu na testa perante os sacerdotes, na Casa do SENHOR, junto ao altar do incenso. Então, o sumo sacerdote Azarias e todos os sacerdotes voltaram-se para ele, e eis que estava leproso na testa, e apressadamente o lançaram fora; até ele mesmo se deu pressa em sair, visto que o SENHOR o ferira. Assim, ficou leproso o rei Uzias até ao dia da sua morte; e morou, por ser leproso, numa casa separada, porque foi excluído da Casa do SENHOR (2Cr 26.16-23).
No versículo 6, o serafim se aproxima de Isaías, trazendo uma brasa viva na mão; no 7, toca-lhe a boca com a brasa para simbolizar que Isaías recebera a graça perdoadora de Deus. Ele é declarado santo pelo Deus santo; daí em diante, a vida do profeta tem de ser vivida para a glória de Deus. Isaías não se fez santo; Deus o declarou santo. Depois de perdoar a impureza de Isaías, Deus o escolhe para falar praticamente ao impuro Israel, comissionando-o como profeta. Isaías é alguém que reverencia Deus e, portanto, reflete a santidade divina, o que resulta em sua restauração e nomeação como profeta (BEALE p.38,39-2008).
Assim, tornam-se agentes incansáveis para mostrar que não há aliança entre o Senhor e o padrão humano de pecado. Como diz Tozer: “Coisa terrível é a ideia atual de que os cristãos podem servir a Deus do jeito deles”. Não é só servir, mas servir do jeito que Ele quer. Não é só adorar, mas adorar da forma que Ele deseja. Os profetas veem a adoração sendo feita a Javé e nunca aceitariam os homens fazendo de uma maneira incompleta, errada, diferente e relaxada: “Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos”. Os profetas conhecem a linha da intercessão que toca o coração de Deus. Assim seguiram Abraão, Moisés, Isaías, Jeremias, Daniel, Habacuque e outros. Eles conhecem o Senhor e assim clamam segundo o coração de Deus. Quando respondem: “Eis-me aqui”. Não é, estou aqui para entrar em acordo com Sua vontade. Estou disponível, porém irei avaliar sua posição. Não! Estou aqui, porque Seu padrão é o único padrão perfeito, vivo, justo e eterno. Me submeto e por ele irei lutar e servir. Por essa causa Oséias é chamado de louco e insensato (9.7):
Jeremias, de traidor da pátria. Em outros casos eles se veem perseguidos. Elias precisa fugir do rei em muitas ocasiões; Miqueias filho de Jemla acaba no cárcere; Amós é expulso do Reino do Norte; Jeremias passa vários meses de sua vida na prisão; o mesmo acontece com Hanani. E no caso extremo chega-se à morte: é o destino dos profetas no tempo de Acabe e Jezabel; também Urias é assassinado e jogado na fossa comum (Jr 26,20-23). Esta perseguição não é feita só pelos reis e pelos poderosos; nela intervêm também os sacerdotes e os falsos profetas. Inclusive o povo se volta contra eles, os critica, despreza e persegue (DÍAZ, Luís Sicre).
Mas mesmo assim, Javé assegura os seus profetas. Pois aquilo que pronunciam, firma-se na força dos céus. Os homens irão ouvir e não respeitar. Provavelmente lutarão contra. Farão de tudo para tentar mudar as palavras desagradáveis dos profetas para palavras aprazíveis aos seus corações doentios. Mas os profetas são fiéis a YHWH. Preferem a morte do que vender- se. Preferem a tortura a manipular a palavra profética. Apenas assim são mantidos pela força de Deus:
Quanto a ti, ó filho do homem, os filhos do teu povo falam de ti junto aos muros e nas portas das casas; fala um com o outro, cada um a seu irmão, dizendo: Vinde, peço-vos, e ouvi qual é a palavra que procede do SENHOR. Eles vêm a ti, como o povo costuma vir, e se assentam diante de ti como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois, com a boca, professam muito amor, mas o coração só ambiciona lucro. Eis que tu és para eles como quem canta canções de amor, que tem voz suave e tange bem; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra. Mas, quando vier isto e aí vem, então, saberão que houve no meio deles um profeta (Ez 33.30-33).
Viu que não havia ajudador algum e maravilhou-se de que não houvesse um intercessor; pelo que o seu próprio braço lhe trouxe a salvação, e a sua própria justiça o susteve. Vestiu-se de justiça, como de uma couraça, e pôs o capacete da salvação na cabeça; pôs sobre si a vestidura da vingança e se cobriu de zelo, como de um manto. Segundo as obras deles, assim retribuirá; furor aos seus adversários e o devido aos seus inimigos; às terras do mar, dar-lhes-á a paga. Temerão, pois, o nome do SENHOR desde o poente e a sua glória, desde o nascente do sol; pois virá como torrente impetuosa, impelida pelo Espírito do SENHOR. Virá o Redentor a Sião e aos de Jacó que se converterem, diz o SENHOR. Quanto a mim, esta é a minha aliança com eles, diz o SENHOR: o meu Espírito, que está sobre ti, e as minhas palavras, que pus na tua boca, não se apartarão dela, nem da de teus filhos, nem da dos filhos de teus filhos, não se apartarão desde agora e para todo o sempre, diz o SENHOR (Is 59.16-21).
O Senhor ruge através dos seus profetas apontando para o mediador eterno. Seu Filho amado. Os profetas são este sinal. O apontamento profético destina para a obra de Jesus. Antes de Cristo apontavam para sua primeira vinda. Agora apontam para a sua volta. Por isso os profetas não desistem, porque o Filho nunca irá renunciar o mundo. Os profetas não oram por partidarismo. Os profetas não clamam por ter algum interesse familiar. Os intercessores não se posicionam porque há valor tribal envolvido. Os profetas vigiam porque assim o Filho faz. Eles são um sinal profético daquilo que Jesus faria.
Deve ser acrescentado neste ponto que a profecia de Isaías, além de incorporar eventos do período de 680-536 a.C., também contém referencias a grandes acontecimentos espirituais, nacionais e internacionais, além desse tempo. Ele profetizou a respeito da vinda de Jesus Cristo, seu reino desde o tempo de sua ascensão à eternidade, e a inclusão das nações no povo do pacto de Yahweh (Is 2.1-4; 11.10,11; 19.23-25). Essas profecias não eram expressões proféticas surgidas de expectativas e esperanças de um povo atribulado; ao contrário, eram profecias reveladas por Yahweh para Isaías proclamar. Elas se tornaram a razão, a fonte e a base para as esperanças do povo ou para as expectativas messiânicas (GRONINGEN p.491 2018).
Desta forma podemos entender o profeta Jeremias. Não haveria lógica para um homem orar por um povo assumidamente rebelde contra YHWH. Eles tinham seus profetas (falsos), seus sacerdotes (falsos), apoio real e ainda incentivo do povo. Além de haver rejeição com o profetismo real, Jeremias era perseguido e torturado. Para ajudar, o próprio Deus estava decidido em destruir o povo. Suas ordens são para que Jeremias parasse de clamar. Porém, ele continua. Por quê? Porque o Filho jamais desistiria:
A ordem era clara para Jeremias. Cessar de orar pelo povo. Note a descrição do porquê Deus disse isso. Não eram só homens envolvidos na afronta contra YHWH. Eram famílias. Este é o nível mais decadente. Pois toca no fundamento de uma sociedade. Na história de Israel houve momentos em que reis estavam contra YHWH. Suas famílias eram o terror de um povo. Também percebemos que os líderes estavam envolvidos. Assim, tanto chefes como homens influentes em Israel tornavam-se alvo da justiça divina. Entretanto, mesmo ocorrendo estes níveis de declínio, a base social que podemos apontar, seriam as famílias. Boa parte estava sendo influenciada pelos profetas. Por isso tínhamos Samuel percorrendo as tribos e julgando-as. A escola de profetas no tempo de Elias e Eliseu. Essa escola estava separada do reino de Israel durante a dinastia de Acabe e Jezabel.
O profeta Samuel é um dos mais ilustres, em razão do seu ministério de mediação entre Yahweh e o povo desde bem cedo em sua vida, e também do papel de embaixador de Deus para estabelecer o reino. Mas o seu grande legado é a escola de profetas que aparentemente fundou, e cujos membros, tais como Natã e Gade, eventualmente apareciam para anunciar a palavra de Deus aos reis sob quem serviam. Embora seja difícil saber até que ponto os profetas foram organizados formalmente sob Samuel, está claro que apareciam em grupos ou bandos, e participavam de um estilo de vida comunitário. Entretanto, grande parte deles parecia viver isolada, agindo conforme a orientação do Espírito de Deus (MERRIL p.401, 2018)
Então, por um tempo, as famílias de Israel eram muito influenciadas pelos profetas. Diferentemente no tempo de Jeremias. Aqui o próprio Deus está dizendo. A base social. O fundamento de Israel agora foi abalado. Chegaram a um grau aterrorizador. Então o Senhor proíbe o profeta de clamar: “Assim diz o SENHOR sobre este povo: Gostam de andar errantes e não detêm os pés; por isso, o SENHOR não se agrada deles, mas se lembrará da maldade deles e lhes punirá o pecado. Disse-me ainda o SENHOR: Não rogues por este povo para o bem dele. Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor e, quando trouxerem holocaustos e ofertas de manjares, não me agradarei deles; antes, eu os consumirei pela espada, pela fome e pela peste” (14.10-12). Era inevitável. A justiça viria. O Senhor se vingaria. Mas também era preciso. O profeta continuaria clamando. O Navi’ permaneceria declarando os oráculos de Javé. Os profetas gritam as misericórdias de Deus. Os profetas falam da justiça de YHWH. Eles veem o futuro de um Cordeiro que virá para remir o seu povo. Eles enxergam a volta de um Leão que trará justiça eterna: “Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca” (Is 53.7). Na proclamação profética esta a esperança, a misericórdia, o amor, o renovo, as mudanças e a vinda do Filho que vem para remir e salvar o seu povo. Assim os profetas contemplam a entrega do Filho Jesus. Seu sofrimento em prol do povo escolhido. Os profetas sofrem porque haverá um sofrimento futuro. Os profetas são perseguidos e permanecem fiéis, porque viram o Cordeiro ser morto e alcançar vitória sobre os inimigos. Enquanto os profetas caminham pelo âmbito do sofrimento, da calunia, da revolta, da vergonha e perseguições por causa da mensagem que proclamam. Os profetas também são levados a ver a glória na volta do Filho. É o acerto de contas. É o cumprimento de toda justiça do Pai sendo realizada pelo Rei dos reis. Neste momento YHWH levanta a cabeça dos seus profetas para verem tamanho poder que descerá sobre a terra. Então os profetas gritam. Os profetas ousadamente correm para a mais alta torre e berram. Tocam as trombetas. Estufam os peitos e bradam corajosamente em uma só voz: “Amós harmoniza, no final, o rugido do Leão com a voz do profeta (3.8); a sua própria voz clama, em nome de Deus, que o povo o ouça antes que seja tarde demais” (MOTYER p.11, 1991).
O SENHOR rugirá de Sião e de Jerusalém fará ouvir a sua voz... Rugiu o leão, quem não temerá? Falou o SENHOR Deus, quem não profetizará?... Portanto, assim diz o Senhor, o SENHOR, Deus dos Exércitos: Em todas as praças haverá pranto; e em todas as ruas dirão: Ai! Ai! E ao lavrador chamarão para o pranto e, para o choro, os que sabem prantear. Em todas as vinhas haverá pranto, porque passarei pelo meio de ti, diz o SENHOR. Ai de vós que desejais o Dia do SENHOR! Para que desejais vós o Dia do SENHOR? É dia de trevas e não de luz. Como se um homem fugisse de diante do leão, e se encontrasse com ele o urso; ou como se, entrando em casa, encostando a mão à parede, fosse mordido de uma cobra. Não será, pois, o Dia do SENHOR trevas e não luz? Não será completa escuridão, sem nenhuma claridade?... Porque o Senhor, o SENHOR dos Exércitos, é o que toca a terra, e ela se derrete, e todos os que habitam nela se enlutarão; ela subirá toda como o Nilo e abaixará como o rio do Egito. Deus é o que edifica as suas câmaras no céu e a sua abóbada fundou na terra; é o que chama as águas do mar e as derrama sobre a terra; SENHOR é o seu nome. Não sois vós para mim, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes? -- diz o SENHOR. Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e de Caftor, os filisteus, e de Quir, os siros? Eis que os olhos do SENHOR Deus estão contra este reino pecador, e eu o destruirei de sobre a face da terra; mas não destruirei de todo a casa de Jacó, diz o SENHOR. Porque eis que darei ordens e sacudirei a casa de Israel entre todas as nações, assim como se sacode trigo no crivo, sem que caia na terra um só grão. Todos os pecadores do meu povo morrerão à espada, os quais dizem: O mal não nos alcançará, nem nos encontrará. Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi, repararei as suas brechas; e, levantando-o das suas ruínas, restaurá-lo-ei como fora nos dias da antiguidade; para que possuam o restante de Edom e todas as nações que são chamadas pelo meu nome, diz o SENHOR, que faz estas coisas. Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que o que lavra segue logo ao que ceifa, e o que pisa as uvas, ao que lança a semente; os montes destilarão mosto, e todos os outeiros se derreterão. Mudarei a sorte do meu povo de Israel; reedificarão as cidades assoladas e nelas habitarão, plantarão vinhas e beberão o seu vinho, farão pomares e lhes comerão o fruto. Plantá- los-ei na sua terra, e, dessa terra que lhes dei, já não serão arrancados, diz o SENHOR, teu Deus” (1.2; 3.8; 5.16-20; 9.5-11).
Bibliografia:
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.
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