Os pronunciamentos proféticos de Noé

 


Os pronunciamentos proféticos de Noé

Geerhardus Vos

Gn 9.20-27, "Sendo Noé lavrador, passou a plantar uma vinha. Bebendo do vinho, embriagou-se e se pôs nu dentro de sua tenda. Cam, pai de Canaã, vendo a nudez do pai, fê-lo saber, fora, a seus dois irmãos. Então, Sem e Jafé tomaram uma capa, puseram-na sobre os próprios ombros de ambos e, andando de costas, rostos desviados, cobriram a nudez do pai, sem que a vissem. Despertando Noé do seu vinho, soube o que lhe fizera o filho mais moço e disse: Maldito seja Canaã; seja servo dos servos a seus irmãos. E ajuntou: Bendito seja o SENHOR, Deus de Sem; e Canaã lhe seja servo. Engrandeça Deus a Jafé, e habite ele nas tendas de Sem; e Canaã lhe seja servo".

    Essas profecias são uma maldição no caso de Canaã (Cam) e uma bênção no caso de Jafé e Sem. As palavras devem ser consideradas como sendo palavras de profecia. Mesmo o paganismo atribui a esses pronunciamentos o poder de realmente influenciar as pessoas envolvidas. Essa influência era tida como mágica, mas quanto à Escritura, tais palavras estão elevadas à categoria de profecia inspirada. Tais profecias nesse período inicial representam o ápice no avanço da revelação.
    Observaremos que a base para distinção entre maldição e bênção se en­contra na esfera ética. A sensualidade desavergonhada de Cam, a modéstia de Jafé e Sem, indicam uma diferença na moralidade comum. Contudo, isso configurou, de uma maneira mais abrangente, todo o curso subsequente da histó­ria da redenção. O processo sobrenatural de redenção permanece em contato com o desenvolvimento natural da raça. Esses traços de influência eram traços típicos. Eles eram a fonte das grandes disposições raciais. O evento ocorreu num ponto crítico em que nenhum evento significativo poderia falhar quanto a influenciar a História nas eras por vir. O Antigo Testamento reconhece que entre os cananeus o mesmo tipo de pecado que havia sido amaldiçoado era o traço dominante do mal. As descrições dadas no Pentateuco não deixam dú­vidas quanto a isso [cf. Lv 18.22; Dt 12.29-32], Mesmo entre povos antigos fora de Israel (jafetitas), a depravação na vida sexual dos fenícios e cartaginenses em particular havia se tornado proverbial.
    Tem-se perguntado por que Canaã é amaldiçoado quando foi Cam quem cometeu o pecado. Alguns assumem que Cam era o filho mais novo de Noé e Canaã, o filho mais novo de Cam. O princípio subjacente seria então que Cam é punido naquele filho que sustenta a mesma relação com ele como ele sustentou com Noé. Isso traria à luz o fato de esse ser um pecado cometido contra seu pai. Não haveria nada nisso que esteja contra a Lei de retribuição do Antigo Testamento, pois, em tais pontos, não é tão morbidamente indivi­dualista como nós somos capazes de ser. O princípio de solidariedade genérica é enfatizado especialmente nas partes iniciais do Antigo Testamento [cf. Ex 20.5,6, em que a operação da regra é afirmada tanto in malam como in bonam partem\. Revelações posteriores, especialmente em Ezequiel, trouxeram a ma­neira mais específica para a solução do problema. 
    Todavia, os fatos do relacionamento genealógico assumidos são passivos de dúvida. A sequência normal dos nomes dos filhos de Noé é Sem, Cam e Jafé, o que indica que Cam ocupava o lugar do segundo filho. Também não há nenhuma evidência para considerar Canaã como o filho mais novo de Cam. “Filho mais jovem” na Versão Revisada, versículo 24, não é con­clusiva, porque a palavra hebraica pode ser tanto um comparativo como um superlativo, que seria traduzido como “o filho mais jovem que...” (como na nota marginal da Versão Revisada), atribuindo a ele o lugar do meio entre os três. Por tais circunstâncias, o melhor é adotar uma forma modificada da proposta e dizer que Cam foi punido em um dos seus filhos porque ele havia pecado contra seu pai, e ele foi punido naquele filho em particular porque Canaã era o que reproduzia, de maneira mais forte, o caráter sensual de Cam. Deve-se notar que os descendentes de Cam não foram todos amal­diçoados, mas somente os cananeus; os outros não receberam nem bênção nem maldição. 
    Finalmente, devemos brevemente ver qual a solução da crítica histórica para o problema. Os críticos dizem que, na versão original do relato, os três filhos de Noé eram Sem, Jafé e Canaã e que, posteriormente, isso foi mudado para a enumeração presente. Isso requer, é claro, que se retirem as palavras “Cam o pai de”, no versículo 22, e as palavras “Cam é pai de Canaã”, no versículo 18. De acordo com essa teoria, essas palavras foram acrescentadas subsequentemente quando as relações familiares de Noé fo­ram alteradas. A maldição sobre Canaã consiste em ser ele reduzido à ser­ vidão aos seus irmãos. Isso ocorre de novo como um refrão na sequência às bênçãos de Jafé e Sem. 
    A segunda parte da profecia é em relação a Sem. Aqui o uso do nome Yahweh parece significante. De fato esse nome contém em si a bênção sobre Sem. Isso porque Deus, na capacidade de Yahweh, o Deus da redenção, dá a si mesmo a essa parte da raça como posse religiosa e para deleite. Essa é uma fórmula-berith, significando muito mais do que a afirmação de que os semitas irão adorar Yahweh. Essa é a primeira vez na Escritura em que Deus é chamado de Deus de algum grupo particular na humanidade. Isso é algo tão extraordinário que inspirou o patriarca a pronunciar uma doxologia: “Bendito seja Yahweh, o Deus de Sem”. Colocado nos seus termos explícitos, leríamos: “Bendito seja Yahweh, porque ele deseja ser o Deus de Sem”. 
    A terceira parte da profecia é de interpretação mais incerta. Ela diz: “En­grandeça Deus a Jafé, e habite ele nas tendas de Sem”.Um ponto de incerteza é o significado do verbo yapht (um trocadilho com o som do nome Jafé). Devemos considerá-lo como indicando um local ou como uma metáfora? O primeiro faria referência à extensão de território; o segundo entende como alargar, ou seja, aumento de prosperidade. Um segundo ponto de incerteza se expressa na pergunta: quem é o sujeito na oração “habite ele”; é uma referência a Deus ou a Jafé? As duas perguntas estão interligadas. Se o sujeito da segunda oração for Jafé, então é natural entender a primeira oração falando de estender o território. Habitar nas tendas de alguma tribo ou povo é uma maneira co­ mum de descrever a conquista de uma tribo pela outra. Para Jafé, habitar nas tendas de Sem implica a conquista de territórios semitas por jafetitas. Entre­ tanto, se “ele” em “habite ele” se refere a Deus, então deveríamos parafrasear: “que Deus dê grande prosperidade a Jafé, mas que ele faça repousar sobre Sem o que em muito transcende todas essas bênçãos temporais, que ele habite nas tendas de Sem”. Nesse caso, um contraste é feito entre as dádivas objetivas concedidas aos jafetitas e o ato de Deus se comunicar pessoalmente aos se­ mitas. O sentido territorial de “alargar” fazendo referência a “ele” com o sendo Jafé merece a nossa preferência. O uso do nome Elohim favorece isso, já que a predição de tal habitação graciosa não se refere a Elohim, mas a Yahweh. A o interpretar com o os jafetitas tomando posse das terras dos semitas não se deve, contudo, alegorizar a declaração, como se referisse à habitação espiritual conjunta de semitas e jafetitas. A intenção é fazer referência a uma conquista política. Porém, no fim, essa conquista física terá com o resultado a vinda de uma bênção religiosa para Jafé. A o ocupar as tendas de Sem ele encontrará o Deus de Sem, o Deus de redenção e revelação. A profecia, tanto no sentido político como na sua consequência espiritual final, foi cumprida quando os territórios semitas foram subjugados pelos gregos e romanos. Isso porque essa bênção se tornou um dos fatores mais potentes no espalhar da verdadeira reli­gião sobre a terra. Delitzsch observa de modo contundente: “Nós todos somos jafetitas habitando nas tendas de Sem”. 


Teologia Bíblica, Antigo e Novo Testamento. Cultura: São Paulo. 2010. p.77-80



Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.

@ze.ronaldo.templodefogo @osprofetas_ @lagrimasportuacausa @templodefogo @portuacasa



Você pode adquirir o livro. Entre no site: https://www.revistaimpacto.com.br/produto/o-profeta-em-israel-e-a-justica-social/ 


Ouça também o ultimo trabalho da Banda Templo de Fogo: 

 

Ouça também no Spotify: 



Ouça tambem aulas sobre os Profetas do AT: 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quem foi o primeiro Profeta

Avivamento nas Ilhas Fiji

AVIVAMENTO NAS ILHAS HÉBRIDAS