Os pronunciamentos proféticos de Noé
Os pronunciamentos proféticos de Noé
Geerhardus Vos
Tem-se perguntado por que Canaã é amaldiçoado quando foi Cam quem cometeu o pecado. Alguns assumem que Cam era o filho mais novo de Noé e Canaã, o filho mais novo de Cam. O princípio subjacente seria então que Cam é punido naquele filho que sustenta a mesma relação com ele como ele sustentou com Noé. Isso traria à luz o fato de esse ser um pecado cometido contra seu pai. Não haveria nada nisso que esteja contra a Lei de retribuição do Antigo Testamento, pois, em tais pontos, não é tão morbidamente individualista como nós somos capazes de ser. O princípio de solidariedade genérica é enfatizado especialmente nas partes iniciais do Antigo Testamento [cf. Ex 20.5,6, em que a operação da regra é afirmada tanto in malam como in bonam partem\. Revelações posteriores, especialmente em Ezequiel, trouxeram a maneira mais específica para a solução do problema.
Todavia, os fatos do relacionamento genealógico assumidos são passivos de dúvida. A sequência normal dos nomes dos filhos de Noé é Sem, Cam e Jafé, o que indica que Cam ocupava o lugar do segundo filho. Também não há nenhuma evidência para considerar Canaã como o filho mais novo de Cam. “Filho mais jovem” na Versão Revisada, versículo 24, não é conclusiva, porque a palavra hebraica pode ser tanto um comparativo como um superlativo, que seria traduzido como “o filho mais jovem que...” (como na nota marginal da Versão Revisada), atribuindo a ele o lugar do meio entre os três. Por tais circunstâncias, o melhor é adotar uma forma modificada da proposta e dizer que Cam foi punido em um dos seus filhos porque ele havia pecado contra seu pai, e ele foi punido naquele filho em particular porque Canaã era o que reproduzia, de maneira mais forte, o caráter sensual de Cam. Deve-se notar que os descendentes de Cam não foram todos amaldiçoados, mas somente os cananeus; os outros não receberam nem bênção nem maldição.
Finalmente, devemos brevemente ver qual a solução da crítica histórica para o problema. Os críticos dizem que, na versão original do relato, os três filhos de Noé eram Sem, Jafé e Canaã e que, posteriormente, isso foi mudado para a enumeração presente. Isso requer, é claro, que se retirem as palavras “Cam o pai de”, no versículo 22, e as palavras “Cam é pai de Canaã”, no versículo 18. De acordo com essa teoria, essas palavras foram acrescentadas subsequentemente quando as relações familiares de Noé foram alteradas. A maldição sobre Canaã consiste em ser ele reduzido à ser vidão aos seus irmãos. Isso ocorre de novo como um refrão na sequência às bênçãos de Jafé e Sem.
A segunda parte da profecia é em relação a Sem. Aqui o uso do nome Yahweh parece significante. De fato esse nome contém em si a bênção sobre Sem. Isso porque Deus, na capacidade de Yahweh, o Deus da redenção, dá a si mesmo a essa parte da raça como posse religiosa e para deleite. Essa é uma fórmula-berith, significando muito mais do que a afirmação de que os semitas irão adorar Yahweh. Essa é a primeira vez na Escritura em que Deus é chamado de Deus de algum grupo particular na humanidade. Isso é algo tão extraordinário que inspirou o patriarca a pronunciar uma doxologia: “Bendito seja Yahweh, o Deus de Sem”. Colocado nos seus termos explícitos, leríamos: “Bendito seja Yahweh, porque ele deseja ser o Deus de Sem”.
A terceira parte da profecia é de interpretação mais incerta. Ela diz: “Engrandeça Deus a Jafé, e habite ele nas tendas de Sem”.Um ponto de incerteza é o significado do verbo yapht (um trocadilho com o som do nome Jafé). Devemos considerá-lo como indicando um local ou como uma metáfora? O primeiro faria referência à extensão de território; o segundo entende como alargar, ou seja, aumento de prosperidade. Um segundo ponto de incerteza se expressa na pergunta: quem é o sujeito na oração “habite ele”; é uma referência a Deus ou a Jafé? As duas perguntas estão interligadas. Se o sujeito da segunda oração for Jafé, então é natural entender a primeira oração falando de estender o território. Habitar nas tendas de alguma tribo ou povo é uma maneira co mum de descrever a conquista de uma tribo pela outra. Para Jafé, habitar nas tendas de Sem implica a conquista de territórios semitas por jafetitas. Entre tanto, se “ele” em “habite ele” se refere a Deus, então deveríamos parafrasear: “que Deus dê grande prosperidade a Jafé, mas que ele faça repousar sobre Sem o que em muito transcende todas essas bênçãos temporais, que ele habite nas tendas de Sem”. Nesse caso, um contraste é feito entre as dádivas objetivas concedidas aos jafetitas e o ato de Deus se comunicar pessoalmente aos se mitas. O sentido territorial de “alargar” fazendo referência a “ele” com o sendo Jafé merece a nossa preferência. O uso do nome Elohim favorece isso, já que a predição de tal habitação graciosa não se refere a Elohim, mas a Yahweh. A o interpretar com o os jafetitas tomando posse das terras dos semitas não se deve, contudo, alegorizar a declaração, como se referisse à habitação espiritual conjunta de semitas e jafetitas. A intenção é fazer referência a uma conquista política. Porém, no fim, essa conquista física terá com o resultado a vinda de uma bênção religiosa para Jafé. A o ocupar as tendas de Sem ele encontrará o Deus de Sem, o Deus de redenção e revelação. A profecia, tanto no sentido político como na sua consequência espiritual final, foi cumprida quando os territórios semitas foram subjugados pelos gregos e romanos. Isso porque essa bênção se tornou um dos fatores mais potentes no espalhar da verdadeira religião sobre a terra. Delitzsch observa de modo contundente: “Nós todos somos jafetitas habitando nas tendas de Sem”.
Teologia Bíblica, Antigo e Novo Testamento. Cultura: São Paulo. 2010. p.77-80
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.
@ze.ronaldo.templodefogo @osprofetas_ @lagrimasportuacausa @templodefogo @portuacasa
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.
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