O anjo de YHWH
por Geerhardus Vos
A forma mais importante e característica de revelação no período patriarcal é aquela por intermédio do “anjo do SENHOR” o u “ o anjo de Deus”. As referências são: Gênesis 16.7; 22.11,15; 24.7, 40; 31.11; 48.16 [cf. também Os 12.4, com referência a Gn 32.24 e seguintes].
A peculiaridade em todos esses casos é que, de um lado, o anjo se distingue de Yahweh, falando dele na terceira pessoa, e, de outro lado, no mesmo pronunciamento ele fala de Deus na primeira pessoa. Várias explanações têm sido dadas a respeito desse fenômeno. Para explicar, consideraremos duas opiniões críticas. Alguns têm proposto considerar a palavra ma`lakh como um substantivo abstrato, significando uma embaixada, uma missão, que Yahweh enviou de si mesmo, mas de uma maneira impessoal. A razão para esse conceito supostamente reside na crença primitiva de que Yahweh, que por muito tempo residiu no Sinai, não poderia, pessoalmente, partir do seu lugar de habitação, mas que, contudo, desejando acompanhar seu povo em sua jornada para Canaã e durante sua permanência na terra santa, poderia enviar uma influência de si mesmo para fazer o que ele estava incapacitado de fazer por meio de sua presença pessoal. De acordo com essa visão, o conceito é muito antigo, datando de pelo menos do tempo da entrada de Israel na terra santa.
Uma segunda tentativa considera a formação da figura do anjo como sendo em razão da ideia judia posterior da exaltação de Deus. Pensava-se ser indigno que Deus tivesse tal proximidade e intimidade com a criação terrena como relatado a seu respeito em velhas histórias ingênuas. Assim sendo, as histórias foram reescritas a partir desse ponto de vista semideísta, e todos os traços e ações tais foram representados como tendo sido exibidos ou executados por um ser angélico intermediário. Nessa forma de compreensão do assunto, a figura é de origem tardia, tão tardia quanto a emergência desse modo deísta de pensar sobre Yahweh.
Uma objeção comum se faz contra ambas as teorias. Se o propósito era salvaguardar a impossibilidade de se mover do Sinai ou o fato da mistura com a criatura ser inapropriada, então os escritores e redatores teriam sido capazes de exercitar grande cuidado para não deixar sem correção nenhuma instância em que tais características passíveis de objeção tenham ocorrido. Na verdade, lado a lado com o novo modo de revelação por meio do anjo, as teofanias do velho tipo continuam a ocorrer na narrativa. Alguma coisa da natureza de uma correção subsequente na produção da personagem não poderia ter ocorrido. Além disso, na segunda teoria, deveríamos esperar a outra frase: “um anjo de Yahweh” em vez de “o anjo de Yahweh”. Não é sustentável a objeção de que antes de um substantivo próprio, o substantivo precedente em relação de construto se torna inevitavelmente determinado; em outras palavras, que seria impossível fazer que a expressão “anjo de Yahweh” seja indeterminada, mesmo que se tivesse essa intenção. Tudo que se precisa fazer é inserir a preposição lamed entre anjo e Yahweh: “um anjo para Yahweh”. Se a intenção tivesse sido a de conservar Deus e a criatura à parte, aqueles interessados nisso nunca teriam permitido que o anjo falasse como Yahweh, pois isso obscureceria o próprio fato que eles queriam trazer à luz.
A respeito das duas propostas citadas, uma negligencia a distinção entre o anjo e Deus, a outra negligencia a identidade entre ambos. O problema é como fazer justiça a esses dois aspectos. Há apenas uma maneira de isso ser feito: nós devemos assumir que, por trás da dupla representação existe uma multiplicidade real na vida interior da deidade. Se o anjo enviado fosse ele mesmo alguém que partilhava dos atributos da divindade, então ele poderia se referir a Deus com o aquele que o havia enviado e, ao mesmo tempo, falar como Deus, e em ambos os casos haveria realidade por trás disso. Sem muito disso que chamamos de Trindade, a transação teria sido irreal e ilusória. Mas não é legítimo inferir disso que o propósito mais imediato de tal modo de revelação era apresentar a verdade sobre a Trindade. Uma coisa pode ser baseada em alguma realidade, sem a qual ela não poderia ter ocorrido, e ainda assim servir para inculcar outro fato ou verdade. Somente num período posterior e de maneira indireta é que as anjo-teofanias foram úteis para o desvelar da Trindade. Durante o tempo de suas primeiras ocorrências, isso não poderia ter sido feito, porque o supremo interesse naquele período era imprimir profundamente na mente de Israel a consciência da unicidade de Deus. A revelação prematura da Trindade provaria ser, com toda a probabilidade, uma tentação ao politeísmo. Por um longo tempo, a deidade do Messias e a personalidade do Espírito Santo foram conservadas mais ou menos nos bastidores.
No entanto, se não era a verdade sobre aTrindade, qual era, então, o propósito para o qual esse novo modo de revelação havia sido inaugurado? O propósito era duplo: um que não é totalmente novo; o outro como uma nova orientação. Nós podemos designar o primeiro como intento “sacramental”, e o segundo como o intento “espiritualizante”. Por intento “sacramental” entendemos o desejo de Deus de se aproximar intimamente de seu povo, para assegurá-lo da maneira mais clara de seu interesse e de sua presença com ele. Esse intento sacramental foi a base de todas as teofanias desde o princípio. Ele não foi introduzido primeiramente por meio das aparições do anjo de Yahweh. Somente que sem essas aparições não se poderia perceber tal intento, no simples modo antigo, sem pôr em perigo outro princípio que é aquele da natureza espiritual da deidade. Quando Deus andou com os homens e comeu e bebeu com eles, e, em forma corpórea falou com eles e os ouviu, a conclusão instintiva de que essas coisas eram o resultado de sua natureza é quase imediata. Porém, ainda assim, na realidade elas não tinham uma relação necessária com sua natureza, mas eram condescendências sacramentais de sua parte. Como tais elas eram indispensáveis. Entretanto, não importando quão necessária fosse essa condescendência sacramental, era igualmente necessário que a natureza espiritual de Deus fosse preservada como seu pano de fundo. E esse objetivo foi alcançado ao trazer a impressão de que, por trás do anjo falando como Deus, e que incorporava em si mesmo toda a condescendência de Deus em se adequar às fragilidades e limitações do homem, existia, ao mesmo tempo, outro aspecto de Deus em cujo estado ele não poderia ser visto e recebido materialmente: o próprio Deus a respeito do qual o anjo falou na terceira pessoa. Por meio dessa divisão de trabalho entre Deus e seu anjo, o núcleo indispensável da teofania estava resguardado. O intento espiritualizante era auxiliar do intento sacramental. O anjo é verdadeiramente divino, pois, do contrário, ele não poderia ter desempenhado a função sacramental de assegurar o homem de que Deus estava com ele. Mas a forma física e visível para atender a essa necessidade não era por causa da natureza de Deus. A natureza do homem, principalmente sua natureza pecaminosa, pede por isso.
Na encarnação de nosso Senhor temos a expressão máxima desse arranjo fundamental. A encarnação não é o resultado de nenhuma necessidade inerente em Deus. A opinião contrária a isso, ainda que vastamente divulgada, tem uma base panteísta. Nós precisamos do Deus encarnado por razões redentoras. O todo da encarnação, com tudo que lhe diz respeito, é um grande sacramento da redenção. E, ainda assim, mesmo aqui, um cuidado especial é tomado para impressionar os que creem com a espiritualidade absoluta daquele que, dessa maneira, se fez nossa natureza. Tal princípio encontrou sua expressão clássica em João 1.18: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigénito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. Como desde o princípio as aparições do anjo estão a serviço da redenção, é mais do que natural que a execução de importantes movimentos de redenção seja atribuída a ele. Imediatamente após o estabelecimento do berith, ele aparece em cena [Gn 16.7]. Delitzsch faz a seguinte observação: “O fim e o objeto dessas aparições devem ser avaliados por seus começos”. Nós veremos mais claramente no período mosaico que a condução divina do berith é totalmente confiada ao seu anjo. Ele guarda aqueles, particularmente, cujas vidas e trabalhos estão mais intimamente ligados ao berith. Jacó diz [Gn 48.15,16]: “O Deus em cuja presença andaram meus pais Abraão e Isaque, o Deus que me sustentou durante a minha vida até este dia, o Anjo que me tem livrado de todo mal, abençoe estes rapazes”.Veja também Malaquias 3.1: “o anjo do berith”. O anjo de Yahweh se distingue dos anjos comuns não somente na natureza, mas também pela função.
A forma na qual o Anjo apareceu era uma forma assumida para o momento que, novamente, foi posta de lado tão logo o propósito dela havia sido cumprido. Normalmente, mas nem sempre, era uma forma humana. Alguns pensam que essa era a forma permanente do Anjo durante a dispensação do Antigo Testamento. Isso vai contra a susceptibilidade de formas nas quais as manifestações ocorreram. Isso também anteciparia a encarnação, na qual a divindade assume uma forma que fica permanentemente como a própria [Jo 1.14]. Um erro ainda mais sério é a ideia de que por toda a eternidade essa pessoa da divindade possuía uma forma material adequada para pô-la em contato com os sentidos. Isso é inconsistente com a espiritualidade de Deus e faria que essa anjo-revelação resultasse no mau entendimento que ela intencionava excluir.
Finalmente, quanto à tão debatida questão, se o anjo era criado ou não, uma distinção clara entre a pessoa e a forma da aparição é suficiente como resposta. Se, como sugerido, o conceito de anjo aponta para uma distinção dentro da divindade, de modo a fazer do anjo uma prefiguração do Cristo encarnado, então, claramente, a pessoa que aparece na revelação era não criada, porque era Deus. Entretanto, se por anjo nós designarmos a forma de manifestação da qual essa pessoa fez uso para si mesma, então o anjo era criado. É o mesmo caso de Cristo: a pessoa divina de Cristo é não criada, porque ser divino e ser criado são mutuamente excludentes. Todavia, quanto à sua natureza humana, Jesus era criado. A única diferença a esse respeito, entre ele e o anjo, é que no Antigo Testamento a forma criada era efêmera, enquanto que pela encarnação ela se tornou eterna.
Nós lidamos com os elementos e princípios da revelação contida na vida de cada um dos três grandes patriarcas, sucessivamente. Aquilo que os três têm em comum é tratado na discussão sobre Abraão, de maneira que, ao lidar com Isa-que e Jacó, examinaremos somente o material novo em relação com cada um.
Retirado do livro: Teologia Bíblica do Antigo Testamento. Cultura. São Paulo: 2010. p. 96-100
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.
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