O homem de DEUS (îsh 'elohîm)



 

por José Luis Sicre Díaz 


    Este título é muito mais frequente do que os anteriores: aparece 76 vezes, 55 delas nos livros dos Reis. Na maioria das vezes se aplica a um personagem conhecido; em ordem decrescente: Eliseu (29x), Elias (7x), Moisés (6x), Samuel (4x), Davi (3x), Semeías (2x), Hanã (1x). Mas também se aplica a personagens anônimos:

O profeta que condena Eli: “Veio um homem de Deus a Eli e lhe disse: Assim diz o SENHOR: Não me manifestei, na verdade, à casa de teu pai, estando os israelitas ainda no Egito, na casa de Faraó?” (ISm 2.27).

O profeta do Sul que denuncia Jeroboão I: “Eis que, por ordem do SENHOR, veio de Judá a Betel um homem de Deus; e Jeroboão estava junto ao altar, para queimar incenso” (IR 13.1).

Outros profetas: “Chegou um homem de Deus, e falou ao rei de Israel, e disse: Assim diz o SENHOR: Porquanto os siros disseram: O SENHOR é deus dos montes e não dos vales, toda esta grande multidão entregarei nas tuas mãos, e assim sabereis que eu sou o SENHOR” (1Rs 20,28).

2Cr 25,7.9, “Porém certo homem de Deus veio a ele, dizendo: Ó rei, não deixes ir contigo o exército de Israel; porque o SENHOR não é com Israel, isto é, com os filhos de Efraim. Porém vai só, age e sê forte; do contrário, Deus te faria cair diante do inimigo, porque Deus tem força para ajudar e para fazer cair. Disse Amazias ao homem de Deus: Que se fará, pois, dos cem talentos de prata que dei às tropas de Israel? Respondeu-lhe o homem de Deus: Muito mais do que isso pode dar-te o SENHOR”.

    Percebe-se imediatamente, e todos os autores o reconhecem, que em época tardia o título foi entendido em sentido honorífico (merecedor de honra), e é assim que foi aplicado a Moisés e Davi; estas referências carecem de interesse para o sentido profético do termo. Restam-nos, portanto, 67 citações. E é curioso que a imensa maioria delas se refere a personagens do período de um século e meio que vai da divisão do reino (por volta de 931) até os inícios do século VIII, quando morre Eliseu: Semeías, o profeta anônimo de Judá (1Rs 13), Elias, o profeta anônimo de 1Rs 20,28, Eliseu, o profeta anônimo que aconselha Amasias (2Cr 25,7.9). No total, 59 citações. Ficam fora apenas as quatro referências a Samuel, um uso interessante em Jz 13,6.8, a menção do profeta anônimo que denuncia Eli (1Sm 2,27) e o curioso caso de Ben-Joanã filho de Jegdalias (Jr 35,4).

    Por conseguinte, podemos dizer que um termo pouco usado no começo (as quatro referências a Samuel aparecem todas na mesma história, a das jumentas de Saul), alcançou grande difusão, sobretudo aplicado a Eliseu, e desapareceu de repente. Percebe-se outro detalhe: é um título muito usado por todo tipo de pessoas. É aplicado a Samuel pelo criado de Saul, por Saul e pelo narrador; a Elias, pela viúva, pelos oficias de Ocozias e o próprio Elias adota o título para aplicá-lo a si mesmo; a Eliseu é aplicado pela mulher estéril, por alguém da comunidade de profetas, pelo porteiro do rei da Síria, por Ben-Adad e pelo narrador em numerosas ocasiões.

    Se nos perguntarmos o que predomina nestas tradições e o que pode motivar o uso deste título, a resposta parece ser clara: o homem de Deus possui uma relação tão estreita com o Senhor que pode realizar os maiores milagres. O tema da transmissão da palavra de Deus não está ausente destas tradições. Mas, basicamente, não é a palavra que anuncia o futuro ou exige mudança do presente, e sim a palavra poderosa que torna inesgotáveis o pote de farinha e o jarro de azeite, ressuscita mortos, desencadeia o raio. Por isso, quando a viúva de Sarepta se dirige a Elias depois dos primeiros milagres, chama-o de “homem de Deus”. E, quando ele ressuscita seu filho, afirma com maior convicção ainda: “Agora reconheço que és um homem de Deus e que a palavra do Senhor que pronuncias se cumpre!” (1Rs 17,24).

    Esta impressão é abundantemente confirmada no caso de Eliseu, o maior realizador de milagres do Antigo Testamento e a quem mais se aplica o título de homem de Deus. Inclusive outras tradições se orientam na mesma linha: quando a mulher de Manoá recebe a visita do anjo que lhe anuncia o fim de sua esterilidade, ela está convencida de que foi um homem de Deus que lhe falou; e a mesma coisa pensa depois seu marido.

Jz 13.6-8, “Então, a mulher foi a seu marido e lhe disse: Um homem de Deus veio a mim; sua aparência era semelhante à de um anjo de Deus, tremenda; não lhe perguntei donde era, nem ele me disse o seu nome. Porém me disse: Eis que tu conceberás e darás à luz um filho; agora, pois, não bebas vinho, nem bebida forte, nem comas coisa imunda; porque o menino será nazireu consagrado a Deus, desde o ventre materno até ao dia de sua morte. Então, Manoá orou ao SENHOR e disse: Ah! Senhor meu, rogo-te que o homem de Deus que enviaste venha outra vez e nos ensine o que devemos fazer ao menino que há de nascer”.

    Eles ouviram uma palavra capaz de transformar suas vidas, de realizar o que parecia impossível; para eles, um autêntico milagre. Quanto ao profeta anônimo de Judá, basta sua palavra para rachar o altar de Betel e curar mais tarde o braço do rei Jeroboão (1Rs 13).

    E aquilo que um profeta anônimo anuncia ao rei de Israel, a vitória sobre os sírios na planície, e não na montanha, pode ser também considerado um autêntico prodígio (1Rs 20,28). Neste contexto de uma palavra milagrosa se explica que o Cronista dê este título ao profeta anônimo que dirige sua palavra a Amasias; pede-lhe que despeça os mercenários do Reino do Norte, “porque o Senhor não está com os efraimitas”; o rei lamenta o dinheiro que perdeu ao contratá-los, mas o homem de Deus o anima dizendo-lhe que “o Senhor pode devolvê-lo a ti com abundância”. Com efeito, o rei obedece e a vitória é completa.

2Cr 25.5-13, “Amazias congregou a Judá e o pôs, segundo as suas famílias, sob chefes de mil e chefes de cem, por todo o Judá e Benjamim; contou-os de vinte anos para cima e achou trezentos mil escolhidos capazes de sair à guerra e manejar lança e escudo. Também tomou de Israel a soldo cem mil homens valentes por cem talentos de prata. Porém certo homem de Deus veio a ele, dizendo: Ó rei, não deixes ir contigo o exército de Israel; porque o SENHOR não é com Israel, isto é, com os filhos de Efraim. Porém vai só, age e sê forte; do contrário, Deus te faria cair diante do inimigo, porque Deus tem força para ajudar e para fazer cair. Disse Amazias ao homem de Deus: Que se fará, pois, dos cem talentos de prata que dei às tropas de Israel? Respondeu-lhe o homem de Deus: Muito mais do que isso pode dar-te o SENHOR. Então, separou Amazias as tropas que lhe tinham vindo de Efraim para que voltassem para casa; pelo que muito se acendeu a ira deles contra Judá, e voltaram para casa ardendo em ira. Animou-se Amazias e, conduzindo o seu povo, foi-se ao vale do Sal, onde feriu dez mil dos filhos de Seir. Também os filhos de Judá prenderam vivos dez mil e os trouxeram ao cimo de um penhasco, de onde os precipitaram, de modo que todos foram esmigalhados. Porém os homens das tropas que Amazias despedira, para que não fossem com ele à peleja, deram sobre as cidades de Judá, desde Samaria até Bete-Horom; feriram deles três mil e fizeram grande despojo”.



    Às vezes esta palavra se manifesta de forma mais modesta, limitando- se a orientar sobre umas jumentas perdidas ou sobre a cura de uma enfermidade. Em outras ocasiões não tem nada a ver com um milagre. Mas isto só ocorre em dois casos: o do profeta anônimo, que condena Eli, e o de Semeías, que ordena a Roboão não lutar contra os do Norte.

2Cr 11.1-4, “Vindo, pois, Roboão a Jerusalém, reuniu a casa de Judá e de Benjamim, cento e oitenta mil escolhidos, destros para a guerra, para pelejar contra Israel, a fim de restituir o reino a Roboão. Porém veio a palavra do SENHOR a Semaías, homem de Deus, dizendo: Fala a Roboão, filho de Salomão, rei de Judá, e a todo o Israel em Judá e Benjamim, dizendo: Assim diz o SENHOR: Não subireis, nem pelejareis contra vossos irmãos; cada um volte para sua casa, porque eu é que fiz isto. E, obedecendo eles à palavra do SENHOR, desistiram de subir contra Jeroboão

    De acordo com o que foi dito, tem sentido estudar o titulo “homem de Deus” neste contexto? Sim, por dois motivos. Primeiro, porque a tradição dá também o título de “profeta” (nabî’) aos mais importantes destes homens de Deus: Samuel, Elias, Eliseu. Segundo, porque eles são autênticos intermediários entre Deus e os homens, e a palavra de Deus ocupa um lugar capital em sua atividade. A única diferença em relação aos profetas posteriores é que esta palavra por eles transmitida é, sobretudo, uma palavra poderosa; não se limita a denunciar o presente ou anunciar o futuro, mas tem também a capacidade de transformar a realidade. 

 

Retirado do livro: DÍAZ, José Luis Sicre. Introdução ao profetismo bíblico. Editora Vozes. Edição do Kindle (posição 1293-1502).


Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.

@osprofetas_ @lagrimasportuacausa @templodefogo @portuacasa




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