O Profeta e o Vidente
por José Luis Sicre Díaz
Vimos quatro tipos de mediadores proféticos. A tradição posterior terminou fundindo-os de forma inseparável. Samuel é homem de Deus, vidente e profeta; Elias e Eliseu são homem de Deus e profeta; Jeú é chamado profeta em 1Rs 16,7, “Assim, veio a palavra do SENHOR, por intermédio do profeta Jeú, filho de Hanani, contra Baasa e contra a sua descendência; e isso por todo o mal que fizera perante o SENHOR, irritando- o com as suas obras, para ser como a casa de Jeroboão, e também porque matara a casa de Jeroboão”. E visionário em 2Cr 19,1,2, “Josafá, rei de Judá, voltou para sua casa em paz, para Jerusalém. O vidente Jeú, filho de Hanani, saiu ao encontro do rei Josafá e lhe disse: Devias tu ajudar ao perverso e amar aqueles que aborrecem o SENHOR? Por isso, caiu sobre ti a ira da parte do SENHOR”. Gad recebe estes dois títulos num mesmo versículo; 2Sm 24,11, “Ao levantar-se Davi pela manhã, veio a palavra do SENHOR ao profeta Gade, vidente de Davi”. Visionários ou videntes aparecem às vezes em paralelo com profetas.
Is 29.10-16, “Porque o SENHOR derramou sobre vós o espírito de profundo sono, e fechou os vossos olhos, que são os profetas, e vendou a vossa cabeça, que são os videntes. Toda visão já se vos tornou como as palavras de um livro selado, que se dá ao que sabe ler, dizendo: Lê isto, peço-te; e ele responde: Não posso, porque está selado; e dá-se o livro ao que não sabe ler, dizendo: Lê isto, peço-te; e ele responde: Não sei ler. O Senhor disse: Visto que este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu, continuarei a fazer obra maravilhosa no meio deste povo; sim, obra maravilhosa e um portento; de maneira que a sabedoria dos seus sábios perecerá, e a prudência dos seus prudentes se esconderá. Ai dos que escondem profundamente o seu propósito do SENHOR, e as suas próprias obras fazem às escuras, e dizem: Quem nos vê? Quem nos conhece? Que perversidade a vossa! Como se o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse do seu artífice: Ele não me fez; e a coisa feita dissesse do seu oleiro: Ele nada sabe”.
É possível rastrear o sentido primitivo de cada termo? Muitos se mostram céticos, pensam que são sinônimos, ao menos em suas funções. Outros admitem certas diferenças, pelo menos nos primeiros momentos. Hölscher, por exemplo, pensava que o vidente obtinha seu conhecimento graças a visões noturnas, sonhos, presságios e espíritos, enquanto o nabî’ era um extático; mais tarde acabaram identificados. Para Lods, o vidente é um inspirado solitário, enquanto os nebî’îm refletem uma inspiração coletiva, violenta e contagiosa. Totalmente oposta é a opinião de Orlinsky, para quem o vidente é geralmente membro de um grupo, enquanto o profeta é um individualista. Petersen chega às seguintes conclusões:
1) O vidente (ro’eh) aparece como um personagem urbano, que atua no lugar alto ou ermida de uma cidade, presta seus serviços e é recompensado por isso. Exemplo: Samuel, na tradição das jumentas de Saul (ISm 9).
2) O homem de Deus (’îsh ’elohîm) e os “filhos dos profetas” são um exemplo do que Lewis chama de “profecia periférica”, com suas próprias características:
a) surge em tempos de crise: fome, seca, tensões, pobreza, guerra;
d) o Deus da profecia periférica é, durante os século IX, periférico, por mais estranho que pareça; e) o Deus da profecia periférica é amoral; seu traço principal não é a bondade, mas o poder.
3) Os outros dois títulos, visionário (hozeh) e profeta (nabî’), Petersen os relaciona com a profecia central, cujas características são as seguintes:
d) o deus da profecia central é um deus central, apesar de possíveis
manifestações de sincretismo.
e) o deus da profecia central é predizível e moral; Javé sempre responde ao mal da mesma forma.
A que se deve a diferença de títulos? De acordo com Petersen, ao fato de nabî’ ser título do Norte (Israel) e hozeh do Sul (Judá). A diferença de títulos implica também outras diferenças, já que eram legitimados de maneira diferente. Em Israel, o nabî’ aparecia como porta-voz da aliança, enquanto no Sul o hozeh era percebido como mensageiro do Conselho divino (Is 6; 1Rs 22).
A análise de Petersen é interessante, mas aponto pelo menos duas dificuldades.
1) Em relação ao título homem de Deus, é difícil admitir que se trata de um profeta periférico, se recordarmos a tradição contida em 1Rs 12,22-24 sobre Semeías.
2) Quanto à distribuição geográfica de nabî’ e hozeh, em 1Rs 13 contrapõem- se dois profetas, um do Norte e outro do Sul. Ao do Norte se dá sempre o titulo de nabî’, de acordo com o que diz Petersen. O do Sul, porém, não é chamado visionário (hozeh), mas sempre homem de Deus. Em todo caso, deveríamos admitir que, para o século VIII, já havia sido introduzido o título no Sul (Is 8,3), onde teve plena aceitação mais tarde.
Em tudo o que foi dito acima omiti intencionalmente a questão principal. Estes intermediários são importantes porque conhecem o que o resto de seus contemporâneos não sabe. Precisamente por isso estes recorrem a eles. Por que canais Deus lhes comunica este conhecimento? É o que analisaremos no capítulo seguinte.
Retirado do livro: DÍAZ, José Luis Sicre. Introdução ao profetismo bíblico. Editora Vozes. Edição do Kindle (posição 1293-1502).
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.
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