Martin Bucer - O Ecumênico da Reforma

 


 

  

Introdução 

    Uma das queixas que Roma apresentou contra os reformadores foi a séria acusação de que a Reforma rasgou a estrutura da igreja e destruiu a unidade do corpo de Cristo. Logo depois do começo da Reforma, ela se dividiu em vários ramos, sobretudo nos grupos luteranos, calvinistas e anabatistas. Embora houvesse boas razões para tal e embora Deus em Sua sabedoria inescrutável tivesse Seu próprio propósito com isso, este continuou sendo um problema sério com o qual os reformadores tinham de lidar.

    Ao passo que todos buscavam fervorosamente a unidade das igrejas da Reforma, ninguém procurou mais esse objetivo com tanto vigor e esforço quanto Martin Bucer, o reformador de Estrasburgo, na Alemanha. Todo o seu ministério pode ser caracterizado pela busca da unidade. No seu zelo por trazer unidade para a igreja de Cristo, entretanto, ele frequentemente procurou concessões inaceitáveis ​​que tornaram a verdadeira unidade impossível. Ele não só desejava juntar luteranos e calvinistas, mas ele não descansou em seus esforços mesmo quando quis unir o protestantismo e o catolicismo romano. Em seu zelo ardente por unidade, ele esqueceu que unidade é essencialmente a unidade da verdade, assim como é em Cristo e revelado no Santo Evangelho.

    Apesar disto, Bucer foi um reformador de considerável importância, cujo trabalho teve seu valor singular para a Igreja de Cristo.

Início da Vida de Bucer e Conversão


    Martin Bucer nasceu em 1491, em Selestat, no sul da Alemanha, não muito longe de Estrasburgo, onde havia de passar vinte e cinco anos de ministério pastoral. Ele era, portanto, oito anos mais novo que Lutero e dezoito anos mais velho que Calvino. Embora seu pai fosse um pobre sapateiro, Bucer recebeu uma boa educação na sua juventude, e, com quinze anos, entrou no monastério dominicano. Ele fez isso não tanto porque era enamorado pela vida monástica, mas sim porque desejava uma educação completa, pela qual a Ordem Dominicana era famosa. Para os demais estudos ele foi enviado para Heidelberg, onde o evento, talvez o mais importante da sua vida, aconteceu. Martinho Lutero havia vindo para Heidelberg pouco tempo depois do começo da Reforma, para discutir assuntos teológicos com os membros da Ordem Agostiniana à qual um dia ele pertenceu. Bucer ouviu Lutero falar e foi convencido por completo da verdade das doutrinas de reforma de Lutero. Em particular, durante o jantar, ele discutiu essas questões com Lutero e tornou-se plenamente comprometido com a Reforma.

    Quando Lutero foi convocado a comparecer perante a Dieta de Worms para ser julgado pelo imperador Carlos V, ele sabia no momento de sua partida que talvez não voltasse vivo daquela cidade. Muitos tentaram convencê-lo a não ir, pois as memórias do martírio de John Hus no Concílio de Constança ainda estavam nas mentes dos companheiros de Lutero. Entre os que tentaram dissuadir Lutero estava Martin Bucer, que o avisou dos perigos terríveis que o esperavam. Mas quando Lutero insistiu em ir, mesmo "se todas as telhas das casas em Worms fossem demônios", Bucer o acompanhou e ouviu o inspirador apelo de Lutero às Escrituras: "Aqui permaneço. Não posso fazer outra coisa. Deus me ajude! Amém."


O Pastoreio de Bucer em Estrasburgo


    Em 1522, com trinta e um anos, Bucer começou o seu trabalho em diligência. Ele trabalhou na cidade de Wissembourg e tentou fazer dela uma cidade protestante. Apesar dos esforços de Bucer por reforma, os católicos romanos tiveram êxito em manter a cidade fiel à Roma e Bucer foi forçado a fugir para salvar sua vida. Ele foi para a cidade vizinha de Estrasburgo, onde seus pais moravam.

    Enquanto esteve em Wissembourg, Bucer se casou com Elizabeth Silbereisen, também conhecida como Elizabeth Palast. Ela era uma ex-freira e juntos tiveram treze filhos. Bucer foi um dos primeiros reformadores a se casar e foi seu casamento que induziu Erasmo a comentar que a Reforma não era tanto uma tragédia, mas sim uma comédia, porque sempre terminava em um casamento.

    A atarefada casa de Bucer era uma casa piedosa, um exemplo para todos do que significa um lar da aliança, embora o caráter espiritual da casa se dava, em grande medida, devido à Elizabeth, porque Martin viajava extensivamente pela causa da Reforma.

    Elizabeth morreu antes de Martin, que se casou novamente, desta vez com uma mulher com o nome de Wilibrandis Rosenblatt. Ela tinha sido casada anteriormente com nada menos do que três outros reformadores: Ludwig Cellarius, Oecolampadius e Wolfgang Capito. Mais tarde ela iria com Bucer para a Inglaterra e viveria mais do que ele. Uma mulher casada com quatro desses grandes homens deve ter sido excepcionalmente cativante.

    Estrasburgo foi abençoada com grandes pregadores. Embora o próprio Bucer trabalhou lá por vinte e cinco anos, Zell, Capito, Hédio, Johann Sturm e até Calvino, durante os anos de seu exílio de Genebra, foram pregadores na mesma cidade. Poucas vezes uma cidade foi abençoada com tal galeria de ministros talentosos e capazes.

    Em Estrasburgo, Bucer se entregou à obra do ministério. Ele pregou fielmente, trabalhou exaustivamente na obra pastoral, estabeleceu escolas cristãs e um seminário, abrigou refugiados da perseguição, escreveu extensivamente - incluindo correspondência com todos os reformadores da Europa -, viajou por toda a Alemanha e Suíça e participou de conferências.

    Quando Calvino, depois de sua breve estadia em Estrasburgo, fora chamado de volta para Genebra, Bucer, embora aborrecido por ver Calvino ir embora, escreveu uma carta para o síndico e o conselho de Genebra, na qual disse: "Agora ele vai, finalmente, Calvino, aquele eleito e incomparável instrumento de Deus, a quem nenhum outro em nossa época deve ser comparado, se é que há a possibilidade de colocar alguém ao lado dele." Esta carta é uma boa ilustração dos relacionamentos que existiam entre os reformadores. Eles nunca hesitaram em reconhecer as boas dádivas que Deus tinha dado a outros, em elogiar seus companheiros pelo trabalho e incentivar um ao outro em sua vocação. Quisera Deus que isso fosse verdade também nos dias difíceis em que hoje a Igreja é chamada a viver.

    Em 1549, o Ínterim da Dieta de Augsburgo foi imposto à Alemanha, e aos protestantes "quase nenhum direito foi dado, somente que o cálice da Ceia do Senhor poderia ser dado aos leigos e os ministros eram autorizados a se casar". A vitória aparente da igreja papista ameaçava Estrasburgo. Recusando-se a aceitar o Ínterim, Bucer foi forçado a fugir de sua amada cidade e congregação.

    Embora Bucer houvesse recebido de Calvino um convite para ir a Genebra, decidiu aceitar o convite de Thomas Cranmer ao invés disso e ir para a Inglaterra. Na Inglaterra, seus enormes dons foram reconhecidos. Ele foi nomeado professor régio de teologia em Cambridge, conheceu pessoalmente o rei Eduardo VI, recebeu um doutorado honorário de Cambridge e teve um impacto duradouro sobre a Reforma Inglesa. 

    Martin Bucer morreu na Inglaterra no primeiro dia de março de 1551, nem mesmo chegou aos seus setenta anos. Seu corpo foi acompanhado por três mil pessoas no caminho para a sepultura e foi enterrado com honras. Mas Roma não iria deixá-lo descansar em paz. Quando a rainha Maria Tudor, mais conhecida como Maria Sanguinária, subiu ao trono, ela não somente queimou Ridley, Latimer e Cranmer na estaca, mas ela não descansou até que o corpo de Bucer tivesse sido exumado, amarrado com correntes a um poste e queimado. Deus em graça para com a Inglaterra fez o reinado de Maria breve. Quando Isabel subiu ao trono, ela pegou o que restava das cinzas de Bucer e deu-lhe um enterro decente.

O Trabalho de Bucer

    Bucer batalhou longa e duramente pela causa da Reforma. Quando aquele miserável humanista, Erasmo, apareceu com sua defesa do livre-arbítrio, Bucer rompeu com ele, apesar de Erasmo ter sido um amigo próximo. Bucer pediu que Lutero respondesse aquele "panfleto pernicioso" de um "infeliz escravo da fama, que prefere continuar com o cuspe da sua própria opinião do que com a Escritura". Quando os anabatistas se difundiram em Estrasburgo, Bucer condenou-os como adversários do puro Evangelho. Enquanto Calvino trabalhou em Estrasburgo como um colega de Bucer, Bucer teve uma influência considerável sobre Calvino e no desenvolvimento de seus pontos de vista.

    Bucer escreveu extensivamente. Suas obras somam cerca de cento e cinquenta volumes. Como é o caso de muitos teólogos, ele era extremamente prolixo. Lutero o chamava de papagaio; Carlos V disse que era um tagarela, e Calvino, mais caridoso, disse: "Bucer é muito prolixo para ser lido rapidamente por aqueles que têm outros assuntos a tratar [...]. Ele não sabe como parar de escrever". Sua escrita era tão ilegível que o bispo inglês, Edmund Grindal, disse que era necessário um mágico para decifrá-la.

    Em todo o seu esforço pela causa da Reforma, Bucer foi movido por um zelo muito grande pela união, não somente entre os vários ramos do protestantismo, mas também entre o protestantismo e Roma, se possível. Ele trabalhou muito e arduamente para atingir estes fins. Embora este trabalho seja, de fato, louvável, seu desejo por união o fez optar por concessões inaceitáveis em relação à verdade.

    Embora Bucer participara de muitas conferências em sua busca pela unidade eclesiástica, duas ilustrações serão suficientes para demonstrar sua tendência a concessões. 

    Bucer foi o principal autor da Confissão Tetrapolitana, um documento elaborado para alcançar a unidade na questão iminente sobre a presença de Cristo nos elementos da Ceia do Senhor. Sem explicitar os conteúdos desta confissão - vale a pena ler -, podemos notar que Bucer fez grandes concessões à verdade das Escrituras na esperança de que, especialmente o luteranismo e calvinismo fossem trazidos juntos sobre esta questão singular que os dividia.

    Esta disposição de entrar em acordo sobre a doutrina da presença de Cristo nos sacramentos tornou-se especialmente evidente no Colóquio de Marburgo. Esta foi uma conferência convocada por Filipe de Hesse para discutir a união entre os luteranos e os reformados. Estiveram presentes os principais teólogos da Alemanha e da Suíça, incluindo Bucer, porém Calvino não estava presente.

    Como vimos anteriormente, Bucer era um fervoroso adepto de Lutero. No entanto, em sua vida, ele foi gradualmente cedendo para o lado calvinista, provavelmente sob a influência de Calvino, enquanto os dois estavam em Estrasburgo. Foi por esta razão que, quando Lutero e Bucer se conheceram em Marburgo, Lutero disse a Bucer, embora com um sorriso no rosto: "Você não passa de um tratante".

A conferência foi aberta com uma bela oração de Zwinglio:


"Enche-nos, ó Senhor e Pai de todos nós, suplicamos a Ti, com Teu Espírito gentil, e dissipe em ambos os lados todas as nuvens de incompreensão e cólera. Traga um fim às contendas de fúria cega. Levanta-te, ó Cristo, Tu, Sol da justiça e brilhe sobre nós. Ai de nós! Enquanto contendemos, nós tão frequentemente esquecemos de lutar em busca de santidade, a qual Tu requeres de todos nós. Proteje-nos contra o abuso de nossos poderes e permite-nos empregá-los com toda seriedade para a promoção da santidade."


    Logo tornou-se evidente na conferência que os reformadores poderiam chegar a um acordo sobre todos os assuntos da fé, com exceção da doutrina da Ceia do Senhor. Embora os suíços houvessem pedido a Lutero por compreensão e compaixão, Lutero permaneceu inflexível e um acordo nunca foi alcançado.

    Aqui também, Bucer estava disposto a fazer uma concessão pelo bem da unidade. Nós podemos ser gratos que seus pedidos por concessões não foram ouvidos e que a posição reformada foi mantida dentro das igrejas calvinistas.

    Unidade da igreja é uma coisa eminentemente desejável. Fazer concessões pelo bem da unidade não conduz à unidade, mas a futuros problemas. Bucer fez importantes contribuições à Reforma, mas o seu zelo pela unidade continua a ser um alerta permanente contra concessões em relação à verdade do Evangelho com o propósito de se alcançar mera unidade exterior.


RETIRADO do livro: Retratos de Santos Fiéis - Herman Hanko - Fireland Soli Deo Gloria/2013   


Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.

@ze.ronaldo.templodefogo @osprofetas_ @lagrimasportuacausa @templodefogo @portuacasa




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