O amor de Deus revelado pelos profetas

 




Os 2.14, “Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração”.


    Inevitavelmente temos uma teologia popular que incentiva as pessoas direcionando-as reconhecer a revelação da ira de YHWH no Antigo Testamento e a revelação do Seu amor no Novo Testamento, através da vinda do nosso Senhor Jesus. Parece ser mais propicio atentar para os relatos de justiça do que da mensagem revolucionária do incrível amor de YHWH. Se aprofundarmos na realidade dos deuses da antiguidade iremos observar que grande parte, mantinham-se longe das necessidades humanas visando primeiramente as suas. Não importando-se com o homem e apenas usando-o para exigências infindáveis: “Os deuses tinham necessidades, os deuses tinham tarefas e os deuses tinham caprichos – tudo isso era tratado na prática religiosa no nível estatal” (WALTON, 2021. p.125). O autor continua dizendo que “textos de todo o Oriente Próximo tratam claramente do fato de que os deuses têm necessidades que são atendidas pelos seres humanos. O rei e os sacerdotes tinham suas respectivas obrigações no processo. Rituais e outras atividades cultuais visavam atender a essas necessidades. A premissa básica dessa crença era que os deuses já existiam muito tempo antes da criação dos seres humanos. No entanto, precisavam de comida, roupa e moradia e, como eram deuses, estavam acostumados a confortos específicos. Os deuses se cansam de atender as próprias necessidades e então criam os seres humanos para lhes fornecerem alimentos (sacrifícios), moradia (templos) e roupa. Ao cuidar das necessidades dos deuses, as pessoas tinham o papel de dar as condições para que eles continuassem a trazer ordem no cosmo” (WALTON, 2021. p.125,126). Os deuses eram vingativos, orgulhosos, independentes, impositores, coercivos e impulsionavam os sacrifícios. Porém, representavam a justiça, a esperança e o alívio para aqueles que determinavam crer. Por mais que haja total interação entre os deuses e os povos antigos, é impossível encontrar na antiguidade um DEUS como YHWH. O Grande EU SOU é aquele que escolhe um povo que não possui poder militar competente para sobreviver, são escravos do Império mais poderoso da Terra. Ou seja, não podem dar a YHWH algum tipo de barganha. Desta forma são libertos pela mão forte deste temível Deus que os mantém sobre vigilância paterna.

Eu sei, porém, que o rei do Egito não vos deixará ir se não for obrigado por mão forte. Portanto, estenderei a mão e ferirei o Egito com todos os meus prodígios que farei no meio dele; depois, vos deixará ir (Ex 3.19,20)


    A relação entre Deus e o seu povo é registrada de forma revolucionária. YHWH não é um Deus de necessidades ou que exige sacrifícios pelo simples prazer de se manter no controle. O Deus de Israel é Santo e reivindica um povo que se comporte de maneira santa, porque agora são os seus representantes vivos na Terra: “Portanto, santificai-vos e sede santos, pois eu sou o SENHOR, vosso Deus” (Lv 20.7). Douglas Stuart comenta que “não deviam ser um povo para si mesmos, desfrutando de seu relacionamento especial com Deus e não prestando atenção ao resto do mundo. Ao invés disso, eles deveriam representá- lo para o resto do mundo e tentar trazer o resto do mundo até ele” (20221. P.32). Desta mesma maneira Walton continua e diz que no “Antigo Testamento Yahweh não tem necessidades; portanto, a religião estatal não tem nenhum fundamento logico subjacente com base na premissa de satisfazer aquelas necessidades. Boa parte disso se repete na retórica geral, mas no antigo Oriente Próximo os deuses logo admitem sua carência e reconhecidamente dependem do sustento humano. Em Israel, todos os aspectos, por mais tradicionais que sejam, tem uma logica alternativa. A religião estatal ressalta as necessidades do povo mais do que as necessidades de Yahweh. A reciprocidade e a dependência mútua não têm nenhum papel na retórica. Quaisquer obrigações que Yahweh tenha com Israel não advêm de os israelitas atenderem as necessidades dele, mas, sim, do acordo da aliança. O povo serve a Yahweh por fidelidade as expectativas da aliança” (2021. p.130). YHWH é extremamente exigente em relação a aliança firmada e não em relação as necessidades de um deus:


Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel (Ex 19.5,6).


    Diante disso temos a revelação de um Deus pessoal, inédita naquela época, que proporcionará todas as medidas possíveis para que o povo escolhido esteja cumprindo a aliança. YHWH desejava casar-se com o povo de Israel. Nenhum outro deus na antiguidade proporia algo tão profundo: “Portanto, dize aos filhos de Israel: eu sou o SENHOR, e vos tirarei de debaixo das cargas do Egito, e vos livrarei da sua servidão, e vos resgatarei com braço estendido e com grandes manifestações de julgamento. Tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso Deus; e sabereis que eu sou o SENHOR, vosso Deus, que vos tiro de debaixo das cargas do Egito” (Ex 6.6,7). Richardson comenta que dentro da frase “Eu vos tomarei para ser meu povo”, a palavra-chave é tomar (em hebraico: laqach). Esse termo é frequentemente usado especificamente para o casamento muitas vezes ao longo de toda a Bíblia (2021. p.11)


O Senhor convidou Israel para se tornar um reino especial, distinto de todas as outras nações do mundo (RICHARDSON 2021. p.31)


    Este será o caminho trilhado em desenvolvimento com o povo escolhido. Os registros mostrarão como YHWH sustentou a aliança e proporcionou todas as ferramentas possíveis para que o povo cumprisse o acordo. O grande Deus se revela como um Pai preocupado com o seu filho, acompanhando-o pelo deserto, oferecendo-lhe calor através da nuvem de fogo nas noites frias do deserto e proporcionando sombra nos dias quentes: “O SENHOR, vosso Deus, que vai adiante de vós, ele pelejará por vós, segundo tudo o que fez conosco, diante de vossos olhos, no Egito, como também no deserto, onde vistes que o SENHOR, vosso Deus, nele vos levou, como um homem leva a seu filho, por todo o caminho pelo qual andastes, até chegardes a este lugar. Mas nem por isso crestes no SENHOR, vosso Deus, que foi adiante de vós por todo o caminho, para vos procurar o lugar onde deveríeis acampar; de noite, no fogo, para vos mostrar o caminho por onde havíeis de andar, e, de dia, na nuvem” (Dt 1.30-33).

Richardson comenta que “No Salmo 105.39, aprendemos que foi através desta coluna que o Senhor estendeu uma nuvem por coberta, indicando que o topo da nuvem era extremamente largo, suficientemente grande para fornecer sombra do sol para toda congregação. O objetivo da coluna era vigiar os israelitas, para guiá-los para a terra prometida, e para que pudessem viajar grandes distancias, sem restrições devido a escuridão da noite ou ao calor do dia. Imagine que tipo de deslumbramento os israelitas devem ter sentido enquanto caminhavam e olhavam para esta maravilha inexplicável, esta manifestação gloriosa do anjo do Senhor, que pairava no céu acima e diante deles” (RICHARDSON 2021. p.18).

Então, o Anjo de Deus, que ia adiante do exército de Israel, se retirou e passou para trás deles; também a coluna de nuvem se retirou de diante deles, e se pôs atrás deles (Ex 14.19).

    A lista é enorme sobre todos os livramentos, expressões e ações que YHWH realiza para mostrar seu grande amor e apoiar Israel no cumprimento da aliança. Na última praga em que ocorre a instituição da Páscoa, enquanto haveria terror e morte em todo o Egito, os filhos de Israel estariam em paz, por causa do sangue nos umbrais das portas, livrando-os do juízo de YHWH: “passarei pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até aos animais; executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o SENHOR. O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; quando eu vir o sangue, passarei por vós, e não haverá entre vós praga destruidora, quando eu ferir a terra do Egito” (Ex 12.12,13). Ao estarem encurralados diante de um grande mar, sem haver nenhuma possibilidade de passagem, pois eram numerosos. O povo de Israel seria esmagado pelo maior exército da Terra. Os soldados de Faraó vinham com toda fúria para aniquilar o povo escolhido. Neste momento temos um dos maiores milagres registrados no Antigo Testamento. A abertura do mar vermelho. YHWH quebra as leis da física e faz com que o grande mar seja aberto para milhões de pessoas passarem em segurança: “Então, Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o SENHOR, por um forte vento oriental que soprou toda aquela noite, fez retirar-se o mar, que se tornou terra seca, e as águas foram divididas. Os filhos de Israel entraram pelo meio do mar em seco; e as águas lhes foram qual muro à sua direita e à sua esquerda” (Ex 14.21,22). Andrew comenta:

O resultado importante da aliança entre Javé e Israel foi a própria presença de Deus que acompanhava os hebreus na jornada do Egito às planícies de Moabe pelo monte Sinai. Embora a presença misteriosa de Deus se tenha manifestado aos israelitas de formas alternativas – nuvem e coluna de fogo -, o impulso essencial da narrativa do Pentateuco é o Senhor habitando no meio deles” (Ex 25.8) (ANDREW. 2012.p.109).

    YHWH providencia água no deserto para o seu povo (Ex 15.22-27; 17.1-7), mesmo havendo murmurações, proporciona pão e carne para matar a fome dos israelitas (Ex 16.1-36). Faz o ajuntamento de todos e se revela no monte Sinai deixando claro os termos da aliança. Permite que todos ouçam a Sua voz ao falar as Dez Palavras: “Então, falou Deus todas estas palavras...” (Ex 20.1). O Senhor organiza o acampamento com leis santas que abrangem uma relação justa entre uns e outros, trabalho, justiça, respeito ao próximo, higiene, negócios, aspecto religioso, etc. Toda a lei de YHWH é estritamente perfeita como Ele é. O amor de Deus é demonstrado com Sua própria presença no acampamento:

Então, a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do SENHOR encheu o tabernáculo. Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do SENHOR enchia o tabernáculo. Quando a nuvem se levantava de sobre o tabernáculo, os filhos de Israel caminhavam avante, em todas as suas jornadas; se a nuvem, porém, não se levantava, não caminhavam, até ao dia em que ela se levantava. De dia, a nuvem do SENHOR repousava sobre o tabernáculo, e, de noite, havia fogo nela, à vista de toda a casa de Israel, em todas as suas jornadas (Ex 40.34-38).

    Entretanto, o próprio YHWH haveria de cobrar todos os filhos de Israel os termos da aliança. Ele seria o assegurador e incentivador do cumprimento por parte dos seus filhos. Mas Ele também seria o averiguador e cobrador destas condutas. YHWH é absoluto. Sua aliança é inegociável. Sua santidade é o padrão para o mundo. Seu povo escolhido agora é o espelho desta altíssima perfeição. Os profetas do Senhor são levantados e dão força para lembrar Israel da aliança. Eles incentivam, transmitem fé. São homens que irão até o fim, mesmo custando a própria vida, cobram o povo escolhido sobre as exigências da aliança: “Então, o atalaia gritou como um leão: Senhor, sobre a torre de vigia estou em pé continuamente durante o dia e de guarda me ponho noites inteiras. Eis agora vem uma tropa de homens, cavaleiros de dois a dois. Então, ergueu ele a voz e disse: Caiu, caiu Babilônia; e todas as imagens de escultura dos seus deuses jazem despedaçadas por terra. Oh! Povo meu, debulhado e batido como o trigo da minha eira! O que ouvi do SENHOR dos Exércitos, Deus de Israel, isso vos anunciei” (Is 21.8).

    Desta maneira devemos ler toda a trajetória no Antigo Testamento entre YHWH e seu povo e a manifestação da sua ira. Toda revelação do puro amor, proteção, amparo, incentivo, paciência, misericórdia, ensino e cuidado foi direcionado exclusivamente ao povo escolhido. Porém, a resposta ao longo dos séculos foi um descaso. Uma geração subia ao poder e simplesmente respondia contrário aquilo que foi estabelecido na aliança. Homens sem pudor, sem temor, sem nenhum sinal de reverencia a YHWH. Mesmo assim, encontramos as ricas misericórdias do Senhor, enviando seus profetas para alertar ao povo.


Mas o SENHOR, por meio de um profeta, fez subir a Israel do Egito e, por um profeta, foi ele guardado (Os 12.13).


    Os Profetas foram espancados, humilhados, dados como loucos e muitas vezes mortos por aqueles que estavam errados e deveriam se arrepender. Incessantemente YHWH procurava seu povo. Desejando que voltassem. O Senhor não tem prazer na ira, em derramar juízo e sim que seu povo se arrependesse e voltasse para o caminho correto: “Mas, se o perverso se converter de todos os pecados que cometeu, e guardar todos os meus estatutos, e fizer o que é reto e justo, certamente, viverá; não será morto. De todas as transgressões que cometeu não haverá lembrança contra ele; pela justiça que praticou, viverá. Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? -- diz o SENHOR Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva? Mas, desviando-se o justo da sua justiça e cometendo iniquidade, fazendo segundo todas as abominações que faz o perverso, acaso, viverá?” (Ez 18.21-24). Os profetas realmente são aqueles que manifestam a ira de YHWH. Mas antes de tudo, os profetas são os pioneiros para anunciar o imenso amor de Deus pelo seu povo. De forma ininterrupta, declaram o intenso desejo do Senhor para que seu povo se arrependa e volte para os seus braços.


Volta, ó Israel, para o SENHOR, teu Deus, porque, pelos teus pecados, estás caído (Os 14.1).



  

    Com esse fundamento podemos ler e entender o livro de profeta Oséias. A manifestação da ira de YHWH não deve ser o único ponto de atenção na relação com seu povo. Essa é uma maneira totalmente equivocada de se interpretar os pronunciamentos proféticos. A teologia popular foca na manifestação da ira sem estudar a longa história de amor, misericórdia, escolha e o estabelecimento da aliança. Como observamos, o Senhor escolheu um povo para ser exclusivamente seu. Este povo foi cuidado, privado e preparado para cumprir a aliança. Mas se voltaram contra o Senhor e mesmo assim, houve inúmeras tentativas de retorno. A ira de Deus é derramada como último aviso de tantos que foram vindos através dos profetas ao longo dos séculos. Note os pronunciamentos da ira de Deus contra o povo através do profeta: “Repreendei vossa mãe (Israel), repreendei-a, porque ela não é minha mulher, e eu não sou seu marido, para que ela afaste as suas prostituições de sua presença e os seus adultérios de entre os seus seios; para que eu não a deixe despida, e a ponha como no dia em que nasceu, e a torne semelhante a um deserto, e a faça como terra seca, e a mate à sede, e não me compadeça de seus filhos, porque são filhos de prostituições” (Os 2.2-4). YHWH está bravo ao ponto de não ver mais Israel como esposa e pede aos filhos (profetas), que denunciem os atos de infidelidade da mãe. Israel peca com seus amantes virando as costas para o marido - YHWH. Isso é inaceitável depois de tudo o que o Senhor fez pelo seu povo. Deus jamais aceitaria isso, pois mantem firme sua posição na aliança. O senhor está extremamente bravo e diz que irá castigar Israel: “Castigá-la-ei pelos dias dos baalins, nos quais lhes queimou incenso, e se adornou com as suas arrecadas e com as suas jóias, e andou atrás de seus amantes, mas de mim se esqueceu, diz o SENHOR” (Os 2.13). Hernandes diz que:


Israel usou os bens recebidos de Deus para se enfeitar e se embonecar para os seus amantes. Quanto mais Israel se esquecia de Deus, tanto mais se entregava à volúpia de sua inflamada paixão pelos ídolos. Agora, Deus castigaria o seu povo pelos dias dos baalins. O sofrimento era inevitável. O pecado pode ser perdoado, mas as suas consequências não podem ser apagadas” (LOPES. 2010. p.55).


    Entretanto as misericórdias de YHWH são imensuráveis pelo seu povo. Sua ira passa e seu amor curará Israel. Ele fará isso com laços de amor:


Curarei a sua infidelidade, eu de mim mesmo os amarei, porque a minha ira se apartou deles (Os 14.4)

Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor (Os 11.4)

Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho (4,1).


E depois o próprio YHWH diz para Israel cultivar o amor entregue por Ele:


Converte-te a teu Deus, guarda o amor e o juízo e no teu Deus espera sempre (Os 12.6)


    David Hubbard comenta que neste ponto “a figura de linguagem torna-se pessoal, pois não é mais YHWH, o lavrador, cuidando de Israel como se fossem uvas, mas o Senhor, como pai, entristecendo-se por causa de Israel, o filho que esta rebelde. A conclusão é que existe esperança por trás do juízo. O livro de Oseias trata de juízo e esperança. Esperança por trás do juízo, e os grandes discursos proféticos desenvolvem essa mensagem em todo seu impacto. O profeta Oseias, parece servir de testemunha de um júri. Deus apresenta Seu caso a ele, mas com muita paixão, expõe o veredicto ao povo julgado, a quem ama e um dia irá restaurar” (HUBBARD.1993. p.197,198).

    Convido você a ler novamente este pronunciamento profético: “Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração” (Os 2.14). Já fizemos todo fundamento para crermos na expressão imensurável do amor de Deus pelo seu povo. Este pequeno versículo expõe de maneira mais clara, entretanto, extremamente profunda o grande amor de YHWH revelado pelos profetas. Note que o versículo usa três palavras chaves: atrairei, levarei e falarei. Essas três palavras precisam ser observadas para entendermos mais da obra redentora de YHWH e do seu plano. Todas elas estão assumidas. Deus é o agente ativo nesta relação. Assume seu papel e seu amor. Sua posição mostra seu querer e determinação em conquistar o seu povo (Os 1.6; 2.2,3,8,14,21; 3.3; .)5.2

    Então YHWH diz: Eu a atrairei ָפּ ָתה – pathah; ou seja, a seduzirei, enganarei, persuadir de forma convincente. Louis Goldberg diz que o “significado do verbo se evidencia na tática que a noiva de Sansão faz ao brigar pelo segredo de seu enigma (Jz 14.15,16). A ideia da sedução aparece na descrição de um homem que corrompe uma mulher (Ex 22.15). Enganar transmite quase a mesma ideia de seduzir. Israel é advertido a não se deixar enganar, voltando-se para outros deuses em meio a fartura” (LOUIS .2012. p.1249). Observe o que YHWH diz para seu povo: “Guardai-vos não suceda que o vosso coração se engane, (ָפּ ָתה ) e vos desvieis, e sirvais a outros deuses, e vos prostreis perante eles” (Dt 11.16). Sabe o que Deus está alertando para o seu povo? - Não permita que o seu coração seja seduzido, enganado, atraído, conquistado por outros deuses. Se isso ocorrer, vocês irão amar esses deuses e serem escravos de seus caprichos. O Senhor alerta pelo profeta Oseias: “tu esperarás por mim muitos dias; não te prostituirás, nem serás de outro homem; assim também eu esperarei por ti” (Os 3.3). No fundo YHWH está dizendo; - Eu sou o único que pode seduzir o coração de vocês. Apenas Eu posso atrai-los. Lembre-se: A quem amamos servimos. Por quem formos conquistados, iremos gastar nossos valores honrando-o. Deus está dizendo que irá seduzir o nosso coração para que o amemos profundamente.


Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força (Dt 6.4,5).


    A segunda palavra é levarei (יל – yalak que significa guiar, trazer, levar, carregar ou conduzir. O sentido da palavra sugere alguém que precisa ser conduzido, neste caso lembramos da história de Moises que foi levado por uma mulher segundo a ordem da filha de Faraó. Uma criança sendo levada pois não tinha meios de sobreviver: “Leva ((ָי ַל ) este menino e cria-mo; pagar-te-ei o teu salário. A mulher tomou o menino e o criou” (Ex 2.9). A palavra também sugere um sentido de proteção. Uma pessoa não possui todas as capacidades de se defender ou lutar em algum sentido da vida, então, alguém mais apto, forte e poderoso assume esse papel e se torna um protetor. Um guardião. Assim fez o Anjo de YHWH para com seu povo: “Então, o Anjo de Deus, que ia adiante do exército de Israel, se retirou e passou ((ָי ַל ) para trás deles; também a coluna de nuvem se retirou de diante deles, e se pôs atrás dele” (Ex 14.19). Este Anjo iria destruir os inimigos: “Porque o meu Anjo irá ((ָי ַל ) adiante de ti e te levará aos amorreus, aos heteus, aos ferezeus, aos cananeus, aos heveus e aos jebuseus; e eu os destruirei” (Ex 23.23). Por fim, o termo pode se relacionar a um sentido mais familiar, onde um Pai carrega seu filho diante de alguns obstáculos que ainda não tem maturidade para vencer: “Ponde, pois, estas minhas palavras no vosso coração e na vossa alma; atai-as por sinal na vossa mão, para que estejam por frontal entre os olhos. Ensinai-as a vossos filhos, falando delas assentados em vossa casa, e andando ((ָי ַל ) pelo caminho, e deitando-vos, e levantando-vos” (Dt 11.18,19). Ou, um homem apaixonado, que quando se casa, carrega no colo sua amada esposa para a noite de núpcias: “Qual o homem que está desposado com alguma mulher e ainda não a recebeu? Vá ((ָי ַל ), torne-se para casa, para que não morra na peleja, e outro homem a receba” (Ex 20.7).

    Ao lermos todas essas passagens podemos ter uma noção mais clara daquilo que YHWH quis revelar pelo seu profeta. Ele está dizendo que nos carregaria como um Pai. Ele nos levaria por lugares que jamais conseguiríamos passar. O Senhor, como marido, nos carregaria em seu colo para por fim, sermos totalmente dele. Essa é uma expressão riquíssima de um Senhor apaixonado pelo seu povo.

    Por fim, temos a última palavra que é falarei - ָדּ ַבר – dabar; que significa falar, declarar, conversar, prometer, avisar e cantar. Vejamos o que o comentarista Kalland diz sobre essa palavra: Esse substantivo é traduzido de 85 maneiras diferentes na KJV. Isso é resultado da necessidade de traduzir uma palavra tão rica pelo sentido que ela possui em contextos variados. Como “palavra” dãbãr basicamente significa aquilo que Deus disse ou diz: “Então, vos anunciou ele a sua aliança, que vos prescreveu, os dez mandamentos (ָדּ ָבר ), e os escreveu em duas tábuas de pedra” (Dt 4.13); “Então, escreveu o SENHOR nas tábuas, segundo a primeira escritura, os dez mandamentos (ָדּ ָבר ) que ele vos falara (ָדּ ָבר ) no dia da congregação, no monte, no meio do fogo; e o SENHOR mas deu a mim” (Dt 10.4). O decálogo “as dez palavras”, são dez declarações ou afirmações que o Senhor falou. As dez palavras são mandamentos por causa da forma sintática como foram enunciadas. As dez palavras são o que Deus disse; são dez mandamentos por causa da maneira como Deus as disse. A obra reveladora de Deus é frequentemente indicada com “a palavra do Senhor veio” a alguém ou sobre alguém e com frequência nos profetas; “Porém, naquela mesma noite, veio a palavra (ָדּ ָבר ) do SENHOR a Natã, dizendo” (ICr 17.3).

    Acerca de Eliseu, Josafá diz que: “...Está com ele a palavra (ָדּ ָבר ) do SENHOR...” (2Rs 3.12). Quando a atividade profética era silenciada, como durante a infância de Samuel: “...Naqueles dias, a palavra (ָדּ ָבר ) do SENHOR era mui rara; as visões não eram frequentes” (ISm 3.1). Mas Moisés diz que Israel possui a palavra bem próxima, pois refere-se ao livro da lei que há pouco tempo lhes fora dado, conforme revela o contexto imediatamente anterior. Kalland continua dizendo que o cronista diz que o Senhor levantou Ciro “para que se cumprisse a palavra do SENHOR, por boca de Jeremias” (2Cr 36.22). Por meio de Isaías o ) ָדּ ָבר( Senhor diz que a sua palavra será como a chuva e a neve que tornam a terra produtiva: “assim será a palavra (ָדּ ָבר ) que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei” (Is 55.11). Jeremias também promete que o Espírito e a palavra do Senhor jamais se afastarão de seu povo: “Não é a minha palavra (ָדּ ָבר ) fogo, diz (ְנ ֻאם ) o SENHOR, e martelo que esmiúça a penha?” (Jr 23.29). (KALLAND. 2012. p.292- .)297

    Entretanto desejo enfatizar outros pontos desta palavra. Notamos que o profeta Oseias diz que YHWH irá declarar palavras ao coração de Israel. São palavras pronunciadas especificamente na alma do povo. No momento certo, Deus estabelece o ambiente para falar de uma maneira extraordinária. São palavras que queimam o coração. Promessas riquíssimas. É um momento raro e único entre o Grande Eu Sou e o escolhido. Assim ocorreu com um homem de noventa e nove anos. Uma conversa esplendida, onde o Senhor revelou Seus planos para um mortal. Seu servo fiel chamado Abraão: “Quando atingiu Abrão a idade de noventa e nove anos, apareceu-lhe o SENHOR e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito. Farei uma aliança entre mim e ti e te multiplicarei extraordinariamente. Prostrou-se Abrão, rosto em terra, e Deus lhe falou (ָדּ ָבר )” (Gn 17.1-3); “E, finda esta fala (ָדּ ָבר ) com Abraão, Deus se retirou dele, elevando-se” (17.22). Outro momento surpreendente e que pode nos levar a uma compreensão mais profunda e romântica é o caso da mulher moabita chamada Rute. Após perder o marido, permanece com sua sogra, retornando para a terra de Israel. Elas passam por inúmeras dificuldades, mas em um momento encontra o homem chamado Boaz. O livro de Rute mostra como este homem, considerado um resgatador, teve disposição para resgatar uma mulher desamparada chamada Rute. A mensagem do livro é apontar o grande amor de YHWH resgatando o seu povo. Rute expressa e reconhece essa bondade relatando as palavras de Boaz: “Tu me favoreces muito, senhor meu, pois me consolaste e falaste ao coração de tua serva, não sendo eu nem ainda como uma das tuas servas” (Rt 2.13). Não eram apenas palavras do cotidiano, eram palavras especificas que traziam um amor gracioso e um sentido poético. Isso cativou Rute, era o resgatador chegando para salvar a história desta mulher.

    Falar ao coração representa um momento específico, surpreendente e marcante na história. Não são palavras aleatórias, sem sentido e que trazem conversas vãs. Mas momentos sublimes e que assinam o romance. Qualquer casal poderá dizer que tem conversas diárias, organização e estratégias no desenvolvimento da vida. Porém, todo casal também recordará do momento em que houve as palavras magicas, ditas no instante exato e que se despertou o amor. Assim o local se torna único, a música é registrada, o ambiente muda e o perfume permanece nas memórias. Este é o sentido de falar ao coração. Todos conhecem essa passagem falando do dia que viria o anunciador preparando o caminho do Senhor: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do SENHOR; endireitai no ermo vereda a nosso Deus” (Is 40.3). Conhecemos este proclamador e o usamos como exemplo para continuar seu legado. Mas o que não enfatizamos é que este pioneiro surge primeiramente em um contexto de amor. Observe o texto inteiro do profeta Isaias:


Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua iniqüidade está perdoada e que já recebeu em dobro das mãos do SENHOR por todos os seus pecados. Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do SENHOR; endireitai no ermo vereda a nosso Deus (Is 40.1-4).


    Falai ao coração de Jerusalém pois o tempo de ficar na iniquidade foi perdoada. Assim é a expressão de YHWH. Muito antes de ocorrer a manifestação de sua ira ou até surgindo sua justiça, há muita paixão e desejo de limpar o seu povo. Ele mesmo diz: “Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho” (Os 4,1). Então continua: “Curarei a sua infidelidade, eu de mim mesmo os amarei, porque a minha ira se apartou deles” (Os 14.4). Porque, “atraí-os com cordas humanas, com laços de amor” (Os 11.4). Assim, “tu esperarás por mim muitos dias; não te prostituirás, nem serás de outro homem; assim também eu esperarei por ti” (Os 3.3). YHWH fala ao coração do seu povo como uma música poética, um cantor apaixonado criando uma linda poesia de amor e que contém uma história inspiradora; é um pronunciamento de conquista: “Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração” (Os 2.14).


Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


@ze.ronaldo.templodefogo @osprofetas_ @lagrimasportuacausa @templodefogo @portuacasa


BIBLIOGRAFIA

ANDREW e WILL. Panorama do Antigo Testamento. Vida Acadêmica. São Paulo: 2012
WALTON. John H. O pensamento do Antigo Oriente próximo e o Antigo Testamento. Vida Nova. São Paulo: 2021

LOUIS. Goldberg. Professor de Teologia e Estudos Judaicos. Estados Unidos. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Vida Nova. São Paulo: 2012.

RICHARDSON. Joel. Do Sinai a Sião. Base. Vitória, ES: 2021

STUART. Douglas. Êxodo. Vl 2. The New American Commentary. 2006 LOPES. Hernandes Dias. Oseias, o amor de Deus em ação. Hagnos. São Paulo: 2010
HUBBARD. David. A. Oseias, Introdução e comentário. Cultura Bíblica. São Paulo: 1993

KALLAND. Earl. S, Th.D. Professor Emérito de Antigo Testamento e Ex-Deão do Conservative Baptist Seminary, Denver, Colorado, Estados Unidos 




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