Adão no Jardim era um Rei-Sacerdote de Deus

 


Gregory Beale 


“Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gn 2.5)


    A passagem de Gênesis 2.15 diz que Deus colocou Adão no jardim “para que o homem o cultivasse [trabalhar] e o guardasse”. As duas palavras hebraicas para “cultivar e guardar” são geralmente traduzidas por “servir e guardar [ou manter]” em outras passagens do AT. É verdade que a palavra hebraica geralmente traduzida por “cultivar” pode se referir ao trabalho de agricultura quando usada isoladamente (Gn 2.5; 3.23). No entanto, quando essas duas palavras (ãbad e sãmar) ocorrem juntas no AT, elas se referem a israelitas “servindo” a Deus e “guardando” [mantendo] a palavra de Deus ou a sacerdotes que “mantém” o “serviço” ou o “dever” do Tabernáculo:


e cumpram seus deveres para com ele e para com todo o povo, diante da tenda da congregação, para ministrarem (ʿabad) no tabernáculo. Terão cuidado de todos os utensílios da tenda da congregação e cumprirão o seu dever para com os filhos de Israel, no ministrar (ʿabad) no tabernáculo (Nm 3.7,8)

mas desde a idade de cinqüenta anos desobrigar-se-ão do serviço e nunca mais servirão (ʿabad); porém ajudarão aos seus irmãos na tenda da congregação, no tocante ao cargo deles; não terão mais serviço. Assim farás com os levitas quanto aos seus deveres (Nm 8.25,26).

Contudo, eu os encarregarei da guarda (shamar) do templo, e de todo o serviço, e de tudo o que se fizer nele (Ez 44.14).


    A tradução aramaica de Gênesis 2.15 (Targum Neofiti) ressalta essa concepção sacerdotal de Adão ao afirmar que ele foi colocado no jardim “para trabalhar arduamente na lei e guardar seus mandamentos”. O versículo 19 dessa tradução aramaica também observa que, ao dar nome aos animais, Adão usou a “linguagem do santuário”. A tradição judaica posterior e a tradição cristã antiga fazem afirmações condizentes com a concepção de que parte da função de Adão era adorar a Deus.

    A melhor tradução da tarefa de Adão em Gênesis 2.15 é “cultivá-lo (lavrá- lo) e mantê-lo [o jardim]”. Contudo, independentemente da tradução exata, as observações anteriores sugerem que o escritor de Gênesis 2 estava retratando Adão à luz do pano de fundo dos sacerdotes de Israel que surgiram depois, e que ele foi o sacerdote arquetípico que servia no primeiro templo de Deus e o guardava (ou “tomava conta dele”).

    Embora seja provável que boa parte da tarefa de Adão consistisse em “cultivar” e ser um jardineiro, bem como “guardar” o jardim, a ideia de que todas as suas atividades devem ser entendidas primariamente como atividade sacerdotal é indicada não apenas pelo uso exclusivo das duas palavras em outras passagens em contexto de adoração, mas também porque o jardim era um santuário, como defenderemos ao longo de toda essa seção. Se assim for, então o trabalho braçal de “jardinagem” seria atividade sacerdotal, pois manteria a conservação e a ordem do santuário.


Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar. E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás (Gn 2.15-17).


    Depois de dizer a Adão para “cultivar” e “guardar/manter” em Gênesis 2.15, Deus lhe dá uma “ordem” específica no versículo 16. A ideia de Deus “ordenar” (sãwâ) ou dar “mandamentos” (miswôt) não raramente segue a palavra “guardar/manter” (sãmar) em outras passagens e, em 1Reis 9.6, em que “servir” e “guardar” ocorrem juntas, a ideia de “guardar mandamentos” está em vista.


Porém, se vós e vossos filhos, de qualquer maneira, vos apartardes de mim e não guardardes (shamar) os meus mandamentos (mitsvah) e os meus estatutos, que vos prescrevi, mas fordes, e servirdes a outros deuses, e os adorardes (IRs 9.6)


    A passagem de 1Reis é dirigida a Salomão e seus filhos logo depois de ele haver “acabado de edificar o templo do Senhor” (1Rs 9.1): se “não guardardes os meus mandamentos [...] e servirdes a outros deuses [...] eliminarei Israel da terra [...] e a casa [templo] lançarei para longe da minha vista” (IRs 9.6,7).


Será que essa ligação com Gênesis 2.15,16 é mera coincidência?


    Portanto, espera-se naturalmente que, depois de pôr Adão no jardim para “cultivar/servir e manter/guardar” (v.15), Deus ordene no versículo seguinte que Adão guarde um mandamento: “E o Senhor ordenou ao homem...”. A primeira “torá” foi: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17). Assim, a desobediência de Adão, como a de Israel, resulta em seu banimento da terra sagrada do jardim. Isso é um indício de que a tarefa de Adão em Gênesis 2.15 envolvia algo além de simplesmente enfiar a enxada na terra. É evidente que as obrigações sacerdotais no Templo de Israel, construído mais tarde, incluíam o dever de “guardar” o templo para que coisas impuras não entrassem:


Faze chegar a tribo de Levi e põe-na diante de Arão, o sacerdote, para que o sirvam e cumpram seus deveres para com ele e para com todo o povo, diante da tenda da congregação, para ministrarem no tabernáculo... O príncipe dos príncipes de Levi será Eleazar, filho de Arão, o sacerdote; terá a superintendência dos que têm a seu cargo o santuário... Os que se acamparão diante do tabernáculo, ao oriente, diante da tenda da congregação, para o lado do nascente, serão Moisés e Arão, com seus filhos, tendo a seu cargo os ritos do santuário, para cumprirem seus deveres prescritos, em prol dos filhos de Israel; o estranho que se aproximar morrerá (Nm 3.6,7,32,38).

Disse o SENHOR a Arão: Tu, e teus filhos, e a casa de teu pai contigo levareis sobre vós a iniqüidade relativamente ao santuário; tu e teus filhos contigo levareis sobre vós a iniqüidade relativamente ao vosso sacerdócio. Também farás chegar contigo a teus irmãos, a tribo de Levi, a tribo de teu pai, para que se ajuntem a ti e te sirvam, quando tu e teus filhos contigo estiverdes perante a tenda do Testemunho. Farão o serviço que lhes é devido para contigo e para com a tenda; porém não se aproximarão dos utensílios do santuário, nem do altar, para que não morram, nem eles, nem vós. Ajuntar-se-ão a ti e farão todo o serviço da tenda da congregação; o estranho, porém, não se chegará a vós outros. Vós, pois, fareis o serviço do santuário e o do altar, para que não haja outra vez ira contra os filhos de Israel. Eu, eis que tomei vossos irmãos, os levitas, do meio dos filhos de Israel; são dados a vós outros para o SENHOR, para servir na tenda da congregação. Mas tu e teus filhos contigo atendereis ao vosso sacerdócio em tudo concernente ao altar, e ao que estiver para dentro do véu, isto é vosso serviço; eu vos tenho entregue o vosso sacerdócio por ofício como dádiva; porém o estranho que se aproximar morrerá (Nm 18.1-7).


    Isso parece ser relevante para Adão, especialmente em vista da criatura impura que espreita no perímetro do jardim e que acaba entrando nele. Curiosamente, os sacerdotes dos antigos templos pagãos também deviam “guardar o templo” e matar os intrusos, bem como “guardar” e transmitir os textos sagrados.

    A tarefa sacerdotal de Adão de “guardar” (sãmar) o santuário do jardim também pode estar refletida no papel desempenhado posteriormente pelos sacerdotes de Israel, que eram chamados de “guardas” e várias vezes são mencionados como os “porteiros” que montam guarda às portas para que ninguém entrasse por elas impuro:


Guardavam, pois, eles e seus filhos as portas da Casa do SENHOR, na casa da tenda (ICr 9.23)

Os porteiros: Salum, Acube, Talmom e Aimã e os irmãos deles; Salum era o chefe. Estavam até agora de guarda à porta do rei, do lado do oriente; tais foram os porteiros dos arraiais dos filhos de Levi. Salum, filho de Coré, filho de Ebiasafe, filho de Corá, e seus irmãos da casa de seu pai, os coreítas, estavam encarregados da obra do ministério e eram guardas das portas do tabernáculo; e seus pais tinham sido encarregados do arraial do SENHOR e eram guardas da entrada. Finéias, filho de Eleazar, os regia nesse tempo, e o SENHOR era com ele. Zacarias, filho de Meselemias, era o porteiro da entrada da tenda da congregação. Todos estes, escolhidos para guardas das portas, foram duzentos e doze. Estes foram registrados pelas suas genealogias nas suas respectivas aldeias; e Davi e Samuel, o vidente, os constituíram cada um no seu cargo. Guardavam, pois, eles e seus filhos as portas da Casa do SENHOR, na casa da tenda. Os porteiros estavam aos quatro ventos: ao oriente, ao ocidente, ao norte e ao sul. Seus irmãos, que habitavam nas suas aldeias, tinham de vir, de tempo em tempo, para servir com eles durante sete dias; porque havia sempre, naquele ofício, quatro porteiros principais, que eram levitas, e tinham a seu cargo as câmaras e os tesouros da Casa de Deus. Estavam alojados à roda da Casa de Deus, porque a vigilância lhes estava encarregada, e tinham o dever de a abrir, todas as manhãs (ICr 9.17-27).

Colocou porteiros às portas da Casa do SENHOR, para que nela não entrasse ninguém que de qualquer forma fosse imundo (2Cr 23.19).


    Consequentemente, o papel sacerdotal, tanto no jardim quanto no Templo posterior, era “administrá-lo”, mantendo-o em ordem e impedindo a entrada de algo impuro. A imagem é a de um “guardião” que “toma conta do templo” ou é responsável por uma guarda sagrada:


Ele me disse: Esta câmara que olha para o sul é para os sacerdotes que têm a guarda do templo (Ez 40.45)

Contudo, eu os encarregarei da guarda do templo, e de todo o serviço, e de tudo o que se fizer nele (Ez 44.14)

É interessante notar que, após a destruição do Segundo Templo, há textos que descrevem os sacerdotes dizendo a Deus: “Guarda tu mesmo a tua casa, porque, contemple, fomos maus mordomos” (2Br 10.18; também Midr. Rab. De Lv 19.6). Um comentário judaico antigo resume o papel de Adão de forma semelhante: “E tu [Deus] disseste que farias um homem para este mundo para ser guardião das tuas obras” (2Br 14.18, aludindo, ao que tudo indica, a Gn 2.15).


    Também pode ser importante que a palavra usada para dizer que Deus “pôs” Adão “no jardim” em Gênesis 2.15 não é a palavra hebraica comum para “pôr”, mas, sim, a palavra normalmente traduzida por “descansar”. A escolha de uma palavra com implicação de “descanso” pode indicar que Adão deveria começar a refletir o descanso soberano de Deus, analisado anteriormente, e que ele alcançaria um “descanso” consumado depois de ter cumprido fielmente sua tarefa de “tomar conta e guardar” o jardim. Isso é coerente com o “descanso” que posteriormente Deus promete dar aos israelitas se forem fiéis na Terra Prometida (que, como veremos, é constantemente comparada ao jardim do Éden).

    A hipótese de que a escolha desse verbo foi intencional e reforçada pela observação de que ele é usado em outras passagens para se referir à instalação de moveis sagrados e de imagens divinas em templos e, especialmente, para se referir ao “lugar de descanso” (por isso, a forma nominal) de Deus em seu palácio-templo celestial.


Também fez dez mesas e as pôs no templo, cinco à direita e cinco à esquerda; também fez cem bacias de ouro (2Cr 4.8)

Porém cada nação fez ainda os seus próprios deuses nas cidades em que habitava, e os puseram nos santuários dos altos que os samaritanos tinham feito (2Rs 17.29)


Saiu o anjo que falava comigo e me disse: Levanta, agora, os olhos e vê que é isto que sai. Eu perguntei: que é isto? Ele me respondeu: É um efa que sai. Disse ainda: Isto é a iniqüidade em toda a terra. Eis que foi levantada a tampa de chumbo, e uma mulher estava sentada dentro do efa. Prosseguiu o anjo: Isto é a impiedade. E a lançou para o fundo do efa, sobre cuja boca pôs o peso de chumbo. Levantei os olhos e vi, e eis que saíram duas mulheres; havia vento em suas asas, que eram como de cegonha; e levantaram o efa entre a terra e o céu. Então, perguntei ao anjo que falava comigo: para onde levam elas o efa? Respondeu- me: Para edificarem àquela mulher uma casa na terra de Sinar, e, estando esta acabada, ela será posta ali em seu próprio lugar (Zc 5.5-11).

Assim diz o SENHOR: O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis vós? E qual é o lugar do meu repouso? Porque a minha mão fez todas estas coisas, e todas vieram a existir, diz o SENHOR, mas o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da minha palavra (Is 66.1,2).


    Portanto, a implicação pode ser que Deus coloca Adão em um templo régio para começar a reinar como seu vice-rei sacerdotal. De fato, Adão deveria sempre ser chamado de “rei-sacerdote”, pois o sacerdócio só foi separado do reinado depois da Queda, embora a expectativa escatológica de Israel seja a de um rei-sacerdote messiânico:


E dize-lhe: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é Renovo; ele brotará do seu lugar e edificará o templo do SENHOR. Ele mesmo edificará o templo do SENHOR e será revestido de glória; assentar-se-á no seu trono, e dominará, e será sacerdote no seu trono; e reinará perfeita união entre ambos os ofícios (Zc 6.12,13).


O Templo e a Missão. G. K. Beale. Vida Nova. São Paulo: 2021/p.66-70 


Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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Este é um projeto envolvendo todos os irmãos da Igreja PorTuaCasa (@igrejaportuacasa). O objetivo é unir duas coisas. As Escrituras e um bom Rock N Roll. Atualmente temos muitas músicas que se dizem "gospel", porém, encontramos muitas frases que exaltam mais o homem do que à Deus. Essa é a primeira música, temos o objetivo de fazer o sermão do monte por completo (Mateus 5.1-7.29).

Nesta música, fizemos o texto das Bem-aventuranças (Mateus 5.3-12). 


Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. 
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. 
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 
Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. 
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. 
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. 
Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.  


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