O Vidente Bíblico

 



Antonius Gunneweg 


    Os profetas não são simplesmente visionários, embora possam ser chamados “videntes”. Não são meros adivinhos, apesar de ocasionalmente também se arriscarem a predições concretas, no que às vezes tiveram razão. Tampouco profetizaram primordialmente a vinda do Messias. Aliás, o messiânico exerce um papel importante somente em alguns deles, embora significativamente falte no profetismo o conceito “Messias”. Em particular não prenunciavam a vinda de Jesus. Esse nome não ocorre.

    Os grandes profetas são aqueles que costumamos chamar de profetas literários, porque possuímos obras que fixaram sua proclamação em forma escrita. Esses profetas são acima de tudo pregadores, proclamadores. É sui generis sua reivindicação de que a proclamação acontece em nome e por incumbência de Javé, mas sobretudo e singularmente o é também o conteúdo dessa proclamação. Sob perspectiva meramente fenomenológica-formal, o profetismo de Israel, como já foi assinalado, certamente não é sem paralelo. Isso nos ensina a história do profetismo. Os profetas clássicos de Israel, os profetas literários, entraram em cena entre o séc. VIII e o século da restauração judaica no período do pós-exílio, ou seja, até os séc. VI e V. Depois disso o profetismo desaparece.

    O material tradicional é colecionado, também modificado e reinterpretado em sentido apocalíptico. Esse profetismo clássico, porém, não apenas possui uma história prévia, que deixa mais explícitos o parentesco fenomenológico com paralelos fora de Israel e a natureza original desse fenômeno. Na realidade, o profetismo clássico possui uma pré-história dupla, uma raiz dupla, e também nesse caso a duplicidade, as diversidades que passaram a formar uma unidade, devem ter condicionado a singularidade do que cresceu dessa forma. Uma das raízes do profetismo é a ocorrência arcaica de videntes. Muitas vezes se supôs que os videntes se localizavam originalmente no contexto do nomadismo. Na realidade, deveríamos ser céticos diante da afirmação de que os videntes seriam um fenômeno nômade, apenas porque exerceram uma função importante entre os nômades do antigo Oriente.

    Seja como for, com toda a certeza, a divinação não é uma ocorrência especificamente israelita, e sim um fenômeno que aparece nas mais diversas religiões. Nem sequer é fenômeno especificamente religioso, ainda que seja entendido de maneira religiosa no nível cultural em que tudo é sacro. Com o termo “vidente” se designam certos homens que possuem a fama de saber mais que os mortais comuns sobre o futuro ou outras coisas ocultas. São carismáticos ou são tidos como tais, podendo então ser também chamados “homem de Deus”, uma designação que abarca diversos fenômenos carismáticos. Ocasionalmente também Moisés ou Samuel podem ser chamados assim:


Esta é a bênção que Moisés, homem de Deus, deu aos filhos de Israel, antes da sua morte (Dt 33.1)

Havia um homem de Benjamim, cujo nome era Quis, filho de Abiel, filho de Zeror, filho de Becorate, filho de Afias, benjamita, homem de bens. Tinha ele um filho cujo nome era Saul, moço e tão belo, que entre os filhos de Israel não havia outro mais belo do que ele; desde os ombros para cima, sobressaía a todo o povo. Extraviaram-se as jumentas de Quis, pai de Saul. Disse Quis a Saul, seu filho: Toma agora contigo um dos moços, dispõe-te e vai procurar as jumentas. Então, atravessando a região montanhosa de Efraim e a terra de Salisa, não as acharam; depois, passaram à terra de Saalim; porém elas não estavam ali; passaram ainda à terra de Benjamim; todavia, não as acharam. Vindo eles, então, à terra de Zufe, Saul disse para o seu moço, com quem ele ia: Vem, e voltemos; não suceda que meu pai deixe de preocupar-se com as jumentas e se aflija por causa de nós. Porém ele lhe disse: Nesta cidade há um homem de Deus, e é muito estimado; tudo quanto ele diz sucede; vamo-nos, agora, lá; mostrar-nos-á, porventura, o caminho que devemos seguir. Então, Saul disse ao seu moço: Eis, porém, se lá formos, que levaremos, então, àquele homem? Porque o pão de nossos alforjes se acabou, e presente não temos que levar ao homem de Deus. Que temos? O moço tornou a responder a Saul e disse: Eis que tenho ainda em mãos um quarto de siclo de prata, o qual darei ao homem de Deus, para que nos mostre o caminho. (Antigamente, em Israel, indo alguém consultar a Deus, dizia: Vinde, vamos ter com o vidente; porque ao profeta de hoje, antigamente, se chamava vidente.) Então, disse Saul ao moço: Dizes bem; anda, pois, vamos. E foram-se à cidade onde estava o homem de Deus (ISm 9.1-10)


    O carisma do vidente consiste particularmente em que, através de um ver interior, um contemplar, mas também de um ouvir interior, está ligado a Deus, a deuses ou simplesmente ao mundo superior. Ao que parece, Balaão, que deveria amaldiçoar Israel e então, contra sua vontade, é forçado a abençoá-lo, é descrito como vidente, quando se fala dele:


Palavra de Balaão, filho de Beor, palavra do homem de olhos abertos; palavra daquele que ouve os ditos de Deus, o que tem a visão do Todo-Poderoso e prostra-se, porém de olhos abertos (Nm 24.3,4).


    Contudo, também sem esse estado receptivo ser descrito, pode ser dito de modo singelo e sem explicações que Javé disse algo ao ouvido do vidente:


Ora, o SENHOR, um dia antes de Saul chegar, o revelara a Samuel, dizendo: Amanhã a estas horas, te enviarei um homem da terra de Benjamim, o qual ungirás por príncipe sobre o meu povo de Israel, e ele livrará o meu povo das mãos dos filisteus; porque atentei para o meu povo, pois o seu clamor chegou a mim (ISm 9.15,16).


    Por se esperar tal coisa de um vidente, solicita-se a orientação dele. Saul, por exemplo, inquire o homem de Deus, Samuel, para onde teriam fugido as jumentas perdidas de seu pai, conforme a narrativa de I Sm 9. Igualmente ficamos sabendo que se costumava efetuar um pagamento por tais orientações. O vidente presta conselhos, informações ou orientações em casos individuais. Essa orientação ou informação costuma ocorrer de modo bem isolado e sem nexo mais profundo, quer com a história, quer com a proclamação religiosa em si: Saul simplesmente indaga onde ficaram as jumentas de seu pai.

    O fenômeno dos videntes é uma raiz do profetismo de grande estilo. Deve- se distinguir dos videntes, na origem e no conteúdo, o fenômeno dos nabi. A palavra nabi é comumente traduzida por “profeta”.


Teologia Bíblica do Antigo Testamento. Uma história da religião de Israel na perspectiva bíblico-teológica. Antonius H. J. Gunneweg. Loyola. 2005. São Paulo – p.235-237. 


Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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