Os profetas e a visão de Deus
Robertson O. Palmer
Não há evidência suficiente para afirmar que uma visão do Todo-poderoso era essencial ao chamado de todos os profetas. Mas, nos casos de Isaías e Ezequiel, a manifestação de Deus em sua glória fez parte integrante do seu chamado e comissão como profetas do Senhor. Jeremias afirma que os falsos profetas não estiveram “no conselho do Senhor da Aliança” (Jr 23.18 NVI), indicando que ele tinha passado por essa terrível experiência qualificadora. A visão exaltada da majestade divina exerceu uma função vital na convocação de vários profetas das nações, e essa experiência visionária sempre exercia forte impacto sobre o profeta.
Micaías prosseguiu: Ouve, pois, a palavra do SENHOR: Vi o SENHOR assentado no seu trono, e todo o exército do céu estava junto a ele, à sua direita e à sua esquerda. Perguntou o SENHOR: Quem enganará a Acabe, para que suba e caia em Ramote-Gileade? Um dizia desta maneira, e outro, de outra. Então, saiu um espírito, e se apresentou diante do SENHOR, e disse: Eu o enganarei. Perguntou- lhe o SENHOR: Com quê? Respondeu ele: Sairei e serei espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas. Disse o SENHOR: Tu o enganarás e ainda prevalecerás; sai e faze-o assim. Eis que o SENHOR pôs o espírito mentiroso na boca de todos estes teus profetas e o SENHOR falou o que é mau contra ti (IRs 22.19-23)
A Palavra de Deus vem “com a forte mão de Deus” sobre ele (Is 8.11). Dores como de parturiente se apoderam dos lombos do profeta, e o crepúsculo se torna um horror para ele:
Porque assim o SENHOR me disse, tendo forte a mão sobre mim, e me advertiu que não andasse pelo caminho deste povo, dizendo: Não chameis conjuração a tudo quanto este povo chama conjuração; não temais o que ele teme, nem tomeis isso por temível (Is 8.11,12).
Pelo que os meus lombos estão cheios de angústias; dores se apoderaram de mim como as de parturiente; contorço-me de dores e não posso ouvir, desfaleço- me e não posso ver. O meu coração cambaleia, o horror me apavora; a noite que eu desejava se me tornou em tremores (Is 21.3,4).
Depois de haver tido a visão, o profeta estava exausto, esteve doente por vários dias (Dn 8.27), e seu “rosto mudou de cor e se desfigurou”.
Eu, Daniel, enfraqueci e estive enfermo alguns dias; então, me levantei e tratei dos negócios do rei. Espantava-me com a visão, e não havia quem a entendesse (Dn 8.27)
Fiquei, pois, eu só e contemplei esta grande visão, e não restou força em mim; o meu rosto mudou de cor e se desfigurou, e não retive força alguma (Dn 10.8).
Quando ele ouviu a mensagem do Senhor, o coração do profeta se agitou, seus lábios tremeram, a podridão entrou em seus ossos, e seus joelhos vacilaram.
Ouvi-o, e o meu íntimo se comoveu, à sua voz, tremeram os meus lábios; entrou a podridão nos meus ossos, e os joelhos me vacilaram, pois, em silêncio, devo esperar o dia da angústia, que virá contra o povo que nos acomete (Hc 3.16).
Ao receber seu chamado, o profeta sentou-se atônito por causa da visão durante sete dias (Ez 3.15). Essas palavras não descrevem meramente experiências psicológicas exageradas, pois de forma consistente elas resultam nas mais exaltadas declarações humanas que dão toda a glória ao único e mesmo Deus Criador.
Levantou-me o Espírito, e ouvi por detrás de mim uma voz de grande estrondo, que, levantando-se do seu lugar, dizia: Bendita seja a glória do SENHOR. Ouvi o tatalar das asas dos seres viventes, que tocavam umas nas outras, e o barulho das rodas juntamente com eles e o sonido de um grande estrondo. Então, o Espírito me levantou e me levou; eu fui amargurado na excitação do meu espírito; mas a mão do SENHOR se fez muito forte sobre mim. Então, fui a Tel-Abibe, aos do exílio, que habitavam junto ao rio Quebar, e passei a morar onde eles habitavam; e, por sete dias, assentei-me ali, atônito, no meio deles (Ez 3.12-15).
No caso de Isaías, o Senhor aparece sentado em seu trono no templo. Não deve ser considerado como algo incidental que essa visão tenha ocorrido no templo de Deus na cidade eleita de Jerusalém, pois no centro da aliança de Deus com Davi estava a fusão do trono do rei com o próprio trono de Deus (2 Sm 7.25-29; 1 Cr 29.22,23).
No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória (Is 6.1-4).
Davi insistiu em estabelecer o lugar do templo, representando o trono de Deus na terra, lado a lado com seu próprio palácio e trono. Esse local permanente para o trono de Deus servia como lembrete simbólico de que os reis de Israel governavam unicamente por causa da soberania de Deus manifestada em Jerusalém. Os sucessores terrenos de Davi falharam em suas responsabilidades como governantes, mas o Senhor em sua soberania jamais haveria de falhar.
A visão de Isaías demonstrou que a santidade celestial tinha vindo à terra. Os serafins constantemente cobriam-se enquanto estavam diante do Senhor clamando: “Santo, santo, santo”. Essa manifestação da santidade de Deus na terra fez com que tremessem as bases do templo, o que foi um prenúncio da destruição dessa majestosa estrutura, o que mais tarde aconteceu devido às suas impurezas. Depois de experimentar uma purificação do altar, o profeta responde à pergunta vinda do trono: “Quem enviarei? Quem irá por nós?” (Is 6.8 NVI). A afirmação de que essa descrição “manifesta um politeísmo que enche o céu com vários deuses” desconsidera totalmente a vívida descrição de Isaías da soberania universal do único Deus sobre todas as nações e sua zombaria para com seus ídolos sem sentido. Embora os serafins estejam presentes na visão de Isaías como criaturas que adoram, nem eles nem nenhuma outra criatura aparece como a pessoa de quem e por quem algum profeta recebe sua comissão. Deus e unicamente Deus envia seus porta-vozes proféticos. Somente Ele é o “Eu” que comissiona seus porta-vozes, e somente Ele é o “nós” por quem vai o profeta.
De quem era, então, a glória do Santo de Israel que Isaías viu no templo?
No contexto seguinte imediato, o profeta Isaías antecipa o surgimento de um descendente da linhagem de Davi, nascido de uma virgem, cujo nome em sua essência será “Deus conosco”. Essa raiz de Jessé reinará no trono de Davi para sempre como o “Deus poderoso” que é “Pai desde a eternidade” (11.1; 9.6,7; veja o Capítulo 8).
Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel (Is 7.14).
Embora interpretações injuriosas tentem enfraquecer o testemunho dessas passagens, seu pleno significado no contexto fornece o suporte apropriado para o surpreendente testemunho das Escrituras da nova aliança de que Isaías “viu a glória de Jesus e falou sobre ele” (Jo 12.41 NVI). Quando a unicidade de Deus se junta ao conceito de um messias divino, surge um suporte adequado para reconhecer as várias Pessoas do Deus único. Somente essa compreensão das Escrituras da antiga aliança fornece uma explicação adequada para a facilidade com que os judeus crentes em Jesus Cristo podiam afirmar sua plena deidade lado a lado com sua consagrada fé na unicidade de Deus.
Essa visão inicial da santidade de Deus teve profundo impacto no ministério de Isaías. Para ele, Deus era singularmente o “Santo de Israel”. Essa designação de Deus aparece vinte e cinco vezes no livro de Isaías, doze vezes em Isaías 1-39, e treze vezes em Isaías 40-66. Essa descrição única de Deus é usada apenas duas outras vezes em todo o acervo profético (Jr 50.29; 51.5). Claramente, o conceito de Isaías a respeito de Deus foi grandemente influenciado pela visão que deu início ao seu chamado profético. Esse Deus foi “exaltado em sua justiça”, pois “o Deus santo se mostrará santo em sua retidão” (Is 5.16 NVI).
Mas o SENHOR dos Exércitos é exaltado em juízo; e Deus, o Santo, é santificado em justiça (Is 5.16).
Ezequiel teve uma visão complexa da glória do Senhor por ocasião do seu chamado para o ofício de profeta. Consequentemente, seu livro todo pode ser resumido como uma descrição da “glória que se afastou e depois tornou a voltar”. Em sucessivos estágios por meio da primeira porção da profecia de Ezequiel, a Shekinah se eleva do seu lugar de repouso em Jerusalém e afasta-se do monte do templo (Ez 9.3; 10.13,18,19; 11.22,23). Mas a última parte do livro concentra- se na reconstrução de um templo maior, com maior glória do que poderia ser imaginada em associação com o complexo do templo anterior (42.15-20; 43.2,5).
Em sua visão, Ezequiel vê quatro seres viventes posicionados junto do trono do Todo-poderoso. Rodas giram dentro de rodas cobertas de olhos, transmitindo uma sensação de prontidão para movimentar-se de imediato em qualquer direção desejada pelo poderoso e onisciente Deus. A visão comunica a ideia básica de mobilidade inerente a uma “carruagem em forma de trono”. Rodas dentro de rodas permitem movimentos simultâneos para frente e para os lados. O esplendor de relâmpagos e o som de muitas águas fornecem imagem e som para a visão. No firmamento, encontrava-se a forma de um homem, que ardia como metal incandescente. Esse homem estava sentado em um trono de safira, rodeado de nuvens escuras e de um arco-íris. Desta vívida manifestação da glória do Senhor, Ezequiel ouviu uma voz comissionando-o a ir como profeta encarregado de entregar ao povo as palavras de Deus (Ez 1.4-2.8).
Aconteceu no trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês, que, estando eu no meio dos exilados, junto ao rio Quebar, se abriram os céus, e eu tive visões de Deus. No quinto dia do referido mês, no quinto ano de cativeiro do rei Joaquim, veio expressamente a palavra do SENHOR a Ezequiel, filho de Buzi, o sacerdote, na terra dos caldeus, junto ao rio Quebar, e ali esteve sobre ele a mão do SENHOR. Olhei, e eis que um vento tempestuoso vinha do Norte, e uma grande nuvem, com fogo a revolver-se, e resplendor ao redor dela, e no meio disto, uma coisa como metal brilhante, que saía do meio do fogo (Ez 1.1-4).
A visão de Deus concedida a Ezequiel está intimamente ligada ao seu chamado para o serviço. A tarefa era tão grande, que nada menos do que uma visão espetacular da glória de Deus poderia sustentar o profeta. Esse servo escolhido precisou, depois, avaliar sempre seu trabalho em termos da visão original, nunca em termos da resposta dos homens. No final das contas, era a esse grande e glorioso Deus que ele servia, não ao povo que era o receptor da sua mensagem. A visão reforçou a importância da sua função como profeta e a necessidade da fidelidade à tarefa a que foi chamado.
No contexto da nova aliança, visões semelhantes eram associadas com o chamado dos porta-vozes de Deus. Jesus recebeu sua comissão para o ministério em conexão com a visão do céu aberto e a pomba que descia (Mt 3.16). Simultaneamente, a voz do céu declarou que Ele era o Filho amado de Deus (3.17). Em resposta a essa visão abonadora, Jesus começou a anunciar a vinda do reino de Deus. O apóstolo Paulo também relata ter sido “elevado ao terceiro céu” como preparação para seu ministério (2 Co 12.2-4). Sua sublime visão culminou na união dos judeus e dos gentios em um novo homem em Cristo. A amplitude da sua tarefa igualou-se à grandeza da sua visão.
Assim, tanto no contexto da antiga como da nova aliança, a visão de Deus era parte vital do chamado do profeta. Essa visão comunicava ao futuro profeta um sentimento de espanto em relação àquele com quem ele teria de lidar. Mais do que as palavras poderiam transmitir, um vislumbre da glória de Deus por parte do profeta tornava-o cônscio da grandeza da pessoa por quem ele haveria de falar. Ele jamais poderia esquecer o momento da confrontação com o Deus incompreensível. Jamais poderia a face do homem, por mais enfeitada de glórias transitórias, comparar-se com a subjugante presença do Deus onipotente que o havia chamado e comissionado. Claramente, esse ofício não poderia ser exercido de forma apropriada simplesmente na base da decisão humana. Mas a visão da glória de Deus podia preparar de forma adequada esses homens para o mais elevado dos chamados humanos.
Retirado do livro. O Cristo dos Profetas. Robertson, O. Palmer. Clire. Edição do Kindle.
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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