A Revelação de Deus por meio de Visões e Sonhos




A REVELAÇÃO POR MEIO DE VISÕES E SONHOS

Eugene H. Merrill


    Já no chamado de Abraão pode-se ver algum indício da revelação por meio de visões e sonhos. O Senhor, após ordenar que Abraão deixasse Ur e, depois, Harã por uma terra que mostraria a ele, apareceu para Abraão pela primeira vez em Siquém:


Apareceu o SENHOR a Abrão e lhe disse: Darei à tua descendência esta terra. Ali edificou Abrão um altar ao SENHOR, que lhe aparecera (Gn 12.7)


    A raiz niphaldo verbo usado aqui (rã'ãh) sugere ao pé da letra que Deus se fez visível. Não é declarado como ele é visto e, talvez, por visto queira-se apenas dizer que ele falou como em tempos anteriores. No entanto, contra essa possibilidade está a ocorrência da mesma forma verbal em Gênesis 18.1, passagem na qual o Senhor aparece de forma tangível na pessoa do anjo do Senhor que, na verdade, é igualado ao Senhor mesmo (Gn 18.10,13,17,20, etc.).

A revelação de Deus, pelo menos nesse caso, é feita por meio de um agente celestial.


Apareceu o SENHOR a Abraão nos carvalhais de Manre, quando ele estava assentado à entrada da tenda, no maior calor do dia (Gn 18.1)


O mesmo verbo é usado com referência às aparições do Senhor para Isaque:


Apareceu-lhe o SENHOR e disse: Não desças ao Egito. Fica na terra que eu te disser... Na mesma noite, lhe apareceu o SENHOR e disse: Eu sou o Deus de Abraão, teu pai. Não temas, porque eu sou contigo; abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência por amor de Abraão, meu servo (Gn 26.2,24).


    A segunda das quais aconteceu à noite, talvez, um indício de que Isaque o viu em sonho. Jacó também vivenciou uma aparição de Deus à noite enquanto aguardava com temor seu encontro com o irmão Esaú, com o qual se indispusera:


Disse Deus a Jacó: Levanta-te, sobe a Betel e habita ali; faze ali um altar ao Deus que te apareceu quando fugias da presença de Esaú, teu irmão (Gn 35.1)


        Jacó, como Abraão, testemunhou uma forma humana de manifestação divina com a qual lutou durante a noite (Gn 32.22-32). Embora o cenário noturno do encontro possa sugerir que fosse um sonho, os ferimentos físicos sofridos por Jacó como resultado do desacordo testificam o contrário. Claramente, Deus revelou-se em palavra e ato. Depois de seu retorno a Betei, Jacó teve uma segunda experiência de revelação de Deus. Ele apareceu para o patriarca e o abençoou, mudando seu nome para Israel (Gn 35.9,10). Na conversa posterior com José, na qual ele reitera a bênção que Deus pronunciou sobre ele e seus descendentes, Jacó estava consciente que, de uma maneira ou de outra, encontrara-se com o Deus Todo-poderoso (Gn 48.3,4).


Disse Jacó a José: O Deus Todo-Poderoso me apareceu em Luz, na terra de Canaã, e me abençoou, e me disse: Eis que te farei fecundo, e te multiplicarei, e te tornarei multidão de povos, e à tua descendência darei esta terra em possessão perpétua (Gn 48.3,4)


    Embora o Antigo Testamento, depois, ateste inúmeras vezes a revelação de Deus descrevendo-a como sua aparição, quase sempre ela está em conjunção com algum outro fator ou aspecto como a sarça ardente:


Apareceu-lhe o Anjo do SENHOR numa chama de fogo, no meio de uma sarça; Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia (Ex 3.2)


A glória shekiná (Lv 9.23; Nm 14.10; 16.19,42; 20.6; Dt 31.15).


Então, entraram Moisés e Arão na tenda da congregação; e, saindo, abençoaram o povo; e a glória do SENHOR apareceu a todo o povo (Lv 9.23)

Apesar disso, toda a congregação disse que os apedrejassem; porém a glória do SENHOR apareceu na tenda da congregação a todos os filhos de Israel (Nm 14.10)


O anjo de lavé (]z 6.12; 13.3,10).

Então, o Anjo do SENHOR lhe apareceu e lhe disse: O SENHOR é contigo, homem valente (Jz 6.12)

Apareceu o Anjo do SENHOR a esta mulher e lhe disse: Eis que és estéril e nunca tiveste filho; porém conceberás e darás à luz um filho... Apressou-se, pois, a mulher, e, correndo, noticiou-o a seu marido, e lhe disse: Eis que me apareceu aquele homem que viera a mim no outro dia (Jz 13.3,10).


Os sonhos (1 Rs 3.5; 9.2; 11.9).


Em Gibeão, apareceu o SENHOR a Salomão, de noite, em sonhos. Disse-lhe Deus: Pede-me o que queres que eu te dê (IRs 3.5)

O SENHOR tornou a aparecer-lhe, como lhe tinha aparecido em Gibeão (IRs 9.2)

Pelo que o SENHOR se indignou contra Salomão, pois desviara o seu coração do SENHOR, Deus de Israel, que duas vezes lhe aparecera (IRs 11.9).


Ou as visões.


Aconteceu no trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês, que, estando eu no meio dos exilados, junto ao rio Quebar, se abriram os céus, e eu tive visões de Deus... O aspecto das rodas e a sua estrutura eram brilhantes como o berilo; tinham as quatro a mesma aparência, cujo aspecto e estrutura eram como se estivera uma roda dentro da outra. (Ez 1.1,16).


    Há uma tendência obviamente discernível da revelação direta e livre por meio da palavra para uma revelação mediada por meio de vários canais secundários.

    É bastante irônico o fato de que o primeiro relato de revelação em sonho retrate o governante pagão de Gerar, Abimeleque, que foi informado pelo Senhor em sonho que a mulher que estava para tomar em seu harém era a esposa de Abraão.


Deus, porém, veio a Abimeleque em sonhos de noite e lhe disse: Vais ser punido de morte por causa da mulher que tomaste, porque ela tem marido. Ora, Abimeleque ainda não a havia possuído; por isso, disse: Senhor, matarás até uma nação inocente? Não foi ele mesmo que me disse: É minha irmã? E ela também me disse: Ele é meu irmão. Com sinceridade de coração e na minha inocência, foi que eu fiz isso. Respondeu-lhe Deus em sonho: Bem sei que com sinceridade de coração fizeste isso; daí o ter impedido eu de pecares contra mim e não te permiti que a tocasses. Agora, pois, restitui a mulher a seu marido, pois ele é profeta e intercederá por ti, e viverás; se, porém, não lha restituíres, sabe que certamente morrerás, tu e tudo o que é teu (Gn 20.3-7).


    Claro que as religiões do Oriente Próximo da Antiguidade acreditavam que esse era um meio de comunicação possível dos deuses, por isso, Abimeleque não ficou particularmente surpreso com o sonho. Talvez seja ines- perado que o Senhor Deus dos hebreus revele-se para o pagão, mas não é de maneira alguma uma ocorrência única. O chefe dos padeiros e o chefe dos copeiros tiveram sonhos desencadeados pelo Senhor (Gn 40), como também o faraó (Gn 41), um soldado midianita cujo nome não é fornecido (Jz 7.13) e, o mais famoso, o rei babilônio Nabucodonosor (Dn 2; 4). Isso demonstra, entre outras coisas, que o Senhor é soberano além dos estreitos limites de Israel, agindo e revelando-se conforme quer. Na verdade, essa é exatamente a lição que Nabucodonosor aprende como resultado de seus sonhos.

    Mas ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? Tão logo me tornou a vir o entendimento, também, para a dignidade do meu reino, tornou- me a vir a minha majestade e o meu resplendor; buscaram-me os meus conselheiros e os meus grandes; fui restabelecido no meu reino, e a mim se me ajuntou extraordinária grandeza. Agora, pois, eu, Nabucodonosor, louvo, exalço e glorifico ao Rei do céu, porque todas as suas obras são verdadeiras, e os seus caminhos, justos, e pode humilhar aos que andam na soberba (Dn 4.34-37).

    Jacó foi o primeiro dos patriarcas bíblicos de quem se declara especifica mente que teve revelação de Deus por meio de um sonho.


Partiu Jacó de Berseba e seguiu para Harã. Tendo chegado a certo lugar, ali passou a noite, pois já era sol-posto; tomou uma das pedras do lugar, fê-la seu travesseiro e se deitou ali mesmo para dormir. E sonhou: Eis posta na terra uma escada cujo topo atingia o céu; e os anjos de Deus subiam e desciam por ela. Perto dele estava o SENHOR e lhe disse: Eu sou o SENHOR, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaque. A terra em que agora estás deitado, eu ta darei, a ti e à tua descendência. A tua descendência será como o pó da terra; estender-te-ás para o Ocidente e para o Oriente, para o Norte e para o Sul. Em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra. Eis que eu estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei voltar a esta terra, porque te não desampararei, até cumprir eu aquilo que te hei referido (Gn 28.10-15).


    A reação dele ao acordar é digna de nota, pois, na verdade, ele diz que não sabia que estava em um lugar em que se pudesse esperar a revelação de Deus. Por essa razão, ele chamou o lugar de Betei, pois, conforme observou, “[esse lugar] não é outro, senão a casa de Deus; esta é a porta dos céus”


E, temendo, disse: Quão temível é este lugar! É a Casa de Deus, a porta dos céus (Gn 28.17).


    Embora não devamos descobrir coisas demais nessa declaração, a referência a um lugar especial de revelação pode sustentar a noção de que se sentia que Deus estava associa do particularmente a determinados lugares santos nos quais era mais provável que ele aparecesse (cf. Gn 32.30; 35.7,14; Êx 3.5; Dt 12.5,14). Jacó, por sua vez, contou a respeito de outro sonho cuja localização permanece secreta exceto pelo fato de que aconteceu em algum lugar de Padã-Arã, onde morava, ou perto dali, um local bem distante da terra prometida (Gn 31.10,11). No entanto, mesmo aqui lhe foi dito no sonho para que voltasse a Canaã, ao lugar em que Deus se revelara em Betei (v. 13).

    De todos os sonhos dos patriarcas, os de José são os mais famosos. A idade dele na época em que teve seu primeiro sonho, apenas dezessete anos, sugere que os sonhos de revelação não estavam limitados aos israelitas nem mesmo aos patriarcas, profetas ou outras pessoas de reconhecida liderança. Deus concedia seu dom de revelar a si mesmo a quem quer que ele quisesse. É desnecessário dizer que os sonhos de José não foram bem recebidos por seus irmãos nem mesmo por seu pai, mas o cumprimento deles no tempo certo validou sua autenticidade como revelação divina.

    Em épocas posteriores, os sonhos gradualmente caíram em desuso como modos legítimos de revelação, em parte por serem cada vez mais associados às práticas pagãs e em parte por causa do surgimento da profecia. Desde a época de Moisés há, pelo menos, um leve indício de que os sonhos e as visões não poderiam permanecer no mesmo plano da revelação do Senhor concedida a Moisés.


Então, disse: Ouvi, agora, as minhas palavras; se entre vós há profeta, eu, o SENHOR, em visão a ele, me faço conhecer ou falo com ele em sonhos. Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a forma do SENHOR; como, pois, não temestes falar contra o meu servo, contra Moisés? (Nm 12.6- 8).


    Isaías, de forma irônica, descreve os profetas de sua época como cegos e mudos. Eles são cães, diz ele, que “deitam-se e sonham; só querem dormir” (Is 56.10). É claro que essa não é uma acusação velada ao profetismo israelita, mas antecipa a ainda mais sarcástica declaração de Jeremias a respeito de sonhos de revelação conforme manifestada, pelo menos, por alguns dos profetas que conheceu:


Tenho ouvido o que dizem aqueles profetas, proclamando mentiras em meu nome, dizendo: Sonhei, sonhei. Até quando sucederá isso no coração dos profetas que proclamam mentiras, que proclamam só o engano do próprio coração? Os quais cuidam em fazer que o meu povo se esqueça do meu nome pelos seus sonhos que cada um conta ao seu companheiro, assim como seus pais se esqueceram do meu nome, por causa de Baal. O profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em quem está a minha palavra fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? -- diz o SENHOR (Jr 23.25-28).


    O contraste entre a palha inútil e o grão precioso enfatiza bem a deterioração do sonho de revelação por volta do século XVII talvez por causa da facilidade de ser fraudado e de ser uma ilusão.


A visão é semelhante ao sonho, as principais diferenças entre eles são:

(1) O sonho era obviamente um fenômeno ligado com dormir ao passo que a visão podia e, com frequência, ocorria em momentos em que a pessoa estava desperta.

(2) A visão é “concebida como apresentada aos olhos físicos”. Abraão teve uma visão a respeito de um herdeiro prometido (Gn 15.1), e o Senhor, em uma visão, disse a Jacó que ele não deveria ter medo de descer ao Egito (Gn 46.1 -4).


    As visões, como os sonhos, não estavam restritas ao povo de Deus, conforme o exemplo do profeta pagão Balaão demonstra de forma clara. Este teve uma visão de olhos bem abertos (Nm 24.4), uma mensagem que ele sabia que viera do “Todo-poderoso” (v. 16). Contudo, as visões eram raras nas culturas fora dos círculos de Israel. Além de Balaão, as visões no Antigo Testamento estão ligadas apenas aos falsos profetas citados por Jeremias (Jr 14.14; 23.16), Ezequiel (Ez 13.6-9,23; 22.28) e Zacarias (Zc 10.2). Samuel teve uma visão do chamado de Deus quando as visões ainda eram raras (1 Sm 3.15; cf. v. 1). O texto, ao mesmo tempo, equipara a “palavra do Senhor às visões, sugerindo que até aqui a revelação de Deus foi, pelo menos em algumas ocasiões, transmitida dessa maneira. As visões, com o papel de Samuel de fundador da escola profética, tornaram-se muito mais fecundas; na verdade, elas parecem ter se tornado o principal meio da revelação divina por intermédio dos profetas. Poucos dos profetas canônicos deixam de atribuir seus oráculos a visões até mesmo no fim do período do Antigo Testamento quando as visões, como os sonhos, estavam de alguma maneira se tornando um meio não confiável de transmitir a verdade (Jr 14.14; 23.16; Ez 12.24; 13.6-9,16,23; 21.29; 22.28; cf. Is 1.1; Ez 1.1; 8.3; 40.2; 43.3; Mq 1.1; Ne 1.1; Dn 1.17; 4.5,10,13; Zc 1.8).


Retirado do livro Teologia do Antigo Testamento. Eugene H. Merrill. Editora Shedd. Sao Paulo: 2009. 88-92 

 

Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


@ze.ronaldo.templodefogo @osprofetas_ @lagrimasportuacausa @templodefogo @igrejaportuacasa




    
Este é um projeto envolvendo todos os irmãos da Igreja PorTuaCasa (@igrejaportuacasa). O objetivo é unir duas coisas. As Escrituras e um bom Rock N Roll. Atualmente temos muitas músicas que se dizem "gospel", porém, encontramos muitas frases que exaltam mais o homem do que à Deus. Essa é a primeira música, temos o objetivo de fazer o sermão do monte por completo (Mateus 5.1-7.29).

Nesta música, fizemos o texto das Bem-aventuranças (Mateus 5.3-12). 


Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. 
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. 
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 
Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. 
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. 
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. 
Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.  


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