O tempo dos Profetas
Mircea Eliade
“Antigamente, em Israel, indo alguém consultar a Deus, dizia: Vinde, vamos ter com o vidente; porque ao profeta de hoje, antigamente, se chamava vidente” (ISm 9.9)
De fato, a instituição do “vidente” (ro êh) do período nômade foi modificada, após a conquista, sob a influência dos nabîim, que os israelitas haviam encontrado na Palestina. Por volta de 1.000, os “videntes” javistas (como Natã) e os nabîim ainda coexistiam:
Então, seguirás a Gibeá-Eloim, onde está a guarnição dos filisteus; e há de ser que, entrando na cidade, encontrarás um grupo de profetas que descem do alto, precedidos de saltérios, e tambores, e flautas, e harpas, e eles estarão profetizando (ISm 10.5)
As duas instituições fundiram-se pouco a pouco, e o resultado final foi o profetismo clássico veterotestamentário. Exatamente como nabîim, os profetas estavam associados aos santuários e ao culto, e participavam das experiências extáticas.
Elias e Eliseu ilustram o período de transição, mas suas vocações e atividades religiosas já anunciam o profetismo clássico. Elias faz seu aparecimento no reino do norte, sob os reis de Acabe e Ocozias (874-850). Insurge-se contra a política de Acabe, que queria integrar os israelitas e os cananeus, concedendo-lhes direitos iguais e encorajando o sincretismo religioso com o culto de Baal ou Malkart, culto protegido pela rainha Jezabel, originaria de Tiro. Elias proclama Javé o único soberano de Israel. É Javé, e não Baal, que dispensa a chuva e garante a fertilidade do país. No famoso episódio do monte Carmelo, quando concerta o duelo com os profetas de Baal depois de uma seca de três anos, Elias demonstra a impotência do deus cananeu para acender o altar de sacrifícios e, portanto, para trazer a chuva. Elias explode em ameaças contra o rei Acabe, que matou um de seus súditos para apossar-se de sua vinha, e prediz-lhe uma morte violenta (IRs 21). A reputação póstuma de Elias aproxima-o de Moisés. Refere a lenda que ele foi arrebatado por Javé ao Céu num carro de fogo:
Indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho. O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, tomando as suas vestes, rasgou-as em duas partes (2Rs 2.11,12).
A biografia de Eliseu, discípulo e sucessor de Elias, está repleta de episódios maravilhosos (2Rs 2.19s; 4.1s). Ao contrário de Elias, Eliseu reuniu em torno de si um grupo de profetas. Mas, tal como Elias, participou ativamente da vida política, comunicou oráculos ao rei e acompanhou-o até mesmo a guerra:
Perguntou, porém, Josafá: Não há, aqui, algum profeta do SENHOR, para que consultemos o SENHOR por ele? Respondeu um dos servos do rei de Israel: Aqui está Eliseu, filho de Safate, que deitava água sobre as mãos de Elias (2Rs 3.11).
À parte os adivinhos e os visionários ambulantes, distinguem-se duas categorias de profetas. O primeiro grupo é constituído pelos profetas cultuais: eles residem perto dos Templos e participam dos ritos com os sacerdotes. São profetas áulicos, associados aos santuários reais. Muitas vezes predizem ao rei a vitória desejada (IRs 22). Essa categoria de profetas profissionais, de proporções consideráveis, compreende também aqueles que são tidos, no Antigo Testamento, como falsos profetas.
Mais importante na história religiosa de Israel é o segundo grupo, formado pelos grandes profetas das Escrituras, de Amós ao “segundo Isaias”. Estes últimos não proclamam sua mensagem na qualidade de membros de uma profissão, mas valendo-se de uma vocação especial. Não representam certos clãs ou determinados santuários, nem os reis, mas declaram-se mensageiros de Deus. A vocação é decidida por um chamado direto de Javé. Segundo o relato de Jeremias:
A mim me veio, pois, a palavra do SENHOR, dizendo: Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações (Jr 1.4).
Por seu turno, Isaias viu, um dia, no Templo, “o Senhor Javé sentado sobre um trono alto e elevado”, cercado de Serafins, e ouviu sua voz, que dizia: “Quem hei de enviar? Quem irá por nós? Isaias respondeu: “Eis-me aqui, envia- me a mim”. E Deus instruiu-o sobre o que devia dizer ao povo (Isaias 6.1-10). O chamado é ouvido apesar da oposição dos ouvintes:
Chegaram os dias do castigo, chegaram os dias da retribuição; Israel o saberá; o seu profeta é um insensato, o homem de espírito é um louco, por causa da abundância da tua iniqüidade, ó Israel, e o muito do teu ódio (Os 9.7).
Veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Filho do homem, que provérbio é esse que vós tendes na terra de Israel: Prolongue-se o tempo, e não se cumpra a profecia? Portanto, dize-lhes: Assim diz o SENHOR Deus: Farei cessar esse provérbio, e já não se servirão dele em Israel; mas dize-lhes: Os dias estão próximos e o cumprimento de toda profecia. Porque já não haverá visão falsa nenhuma, nem adivinhação lisonjeira, no meio da casa de Israel. Porque eu, o SENHOR, falarei, e a palavra que eu falar se cumprirá e não será retardada; porque, em vossos dias, ó casa rebelde, falarei a palavra e a cumprirei, diz o SENHOR Deus (Ez 12.21-25).
Mas acontece da pregação ser interrompida pela força ou pelo próprio profeta quando julga que fracassou em sua missão:
Resguarda o testemunho, sela a lei no coração dos meus discípulos. Esperarei no SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei. Eis-me aqui, e os filhos que o SENHOR me deu, para sinais e para maravilhas em Israel da parte do SENHOR dos Exércitos, que habita no monte Sião (Is 8.16-18).
Todos os grandes profetas são sincera e apaixonadamente convictos da autenticidade de sua vocação e da urgência de sua mensagem. Eles não têm a menor dúvida de que proclamam a própria Palavra de Deus, pois sentiram que sobre eles pousava a mão de Javé ou o seu espírito (rûah). A possessão divina manifesta-se às vezes por meio do êxtase, ainda que a exaltação ou o transe extático não pareça indispensável. Certos profetas foram até acusados de “loucura” [como Oseias (9.7): O profeta é um tolo, o inspirado é um louco!], mas não se pode falar de uma verdadeira afecção psicopatológica. Trata-se de tremores afetivos provocados pela presença aterradora de Deus e pela gravidade da missão que o profeta acaba de assumir. O fenômeno é conhecido desde as “doenças iniciatórias” dos xamãs até às “loucuras” dos grandes místicos de todas as religiões. Além do mais, tal como os “especialistas do sagrado” das sociedades arcaicas e tradicionais, os profetas são dotados de faculdades divinatórias e apoiam-se em poderes maravilhosos de natureza magica: ressuscitam os mortos, alimentam multidões com uma quantidade mínima de comida, fazem certas pessoas adoecerem etc. Muitas ações efetuadas pelos profetas possuem um valor simbólico: Elias lança seu casaco sobre Eliseu. Ao ouvir a ordem de Javé, Jeremias quebra uma botija de barro para ilustrar a ruína próxima de Israel; coloca um jugo ao pescoço para convencer o povo a submeter-se ao rei da Babilônia:
Partiu, pois, Elias dali e achou a Eliseu, filho de Safate, que andava lavrando com doze juntas de bois adiante dele; ele estava com a duodécima. Elias passou por ele e lançou o seu manto sobre ele. Então, deixou este os bois, correu após Elias e disse: Deixa-me beijar a meu pai e a minha mãe e, então, te seguirei. Elias respondeu-lhe: Vai e volta; pois já sabes o que fiz contigo. Voltou Eliseu de seguir a Elias, tomou a junta de bois, e os imolou, e, com os aparelhos dos bois, cozeu as carnes, e as deu ao povo, e comeram. Então, se dispôs, e seguiu a Elias, e o servia (IRs 19.19-21).
Então, quebrarás a botija à vista dos homens que foram contigo e lhes dirás: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Deste modo quebrarei eu este povo e esta cidade, como se quebra o vaso do oleiro, que não pode mais refazer-se, e os enterrarão em Tofete, porque não haverá outro lugar para os enterrar. Assim farei a este lugar, diz o SENHOR, e aos seus moradores; e farei desta cidade um Tofete. As casas de Jerusalém e as casas dos reis de Judá serão imundas como o lugar de Tofete; também todas as casas sobre cujos terraços queimaram incenso a todo o exército dos céus e ofereceram libações a outros deuses. Voltando, pois, Jeremias de Tofete, lugar para onde o enviara o SENHOR a profetizar, se pôs em pé no átrio da Casa do SENHOR e disse a todo o povo: Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Eis que trarei sobre esta cidade e sobre todas as suas vilas todo o mal que pronunciei contra ela, porque endureceram a cerviz, para não ouvirem as minhas palavras (Jr 19.10-15).
Mas seja qual for a fonte de sua inspiração (sonho, visão, audição, conhecimento milagroso, etc), o que os profetas recebiam era sempre a palavra de Javé. Essas revelações diretas, pessoais, eram evidentemente interpretadas à luz da sua fé profunda e transmitidas segundo certos modelos tradicionais. Os profetas pré-exílicos têm em comum o fato de anunciarem sobretudo o julgamento de Deus contra Israel: Javé enviará conquistadores impiedosos para eliminá-los: o Senhor utilizara os grandes Impérios militares como instrumentos de punição contra o seu próprio povo, que o havia traído. Será que se pode igualmente vislumbrar uma promessa de esperança nesse julgamento terrível? Acreditou-se reconhecer no profetismo veteritestamentário uma variante de alternância, muito conhecida no Oriente Próximo, entre “era de infelicidade” e “era de felicidade”, mas esse esquema, ao que parece, não se aplica em todos os exemplos invocados. Como veremos, a única esperança reside no “resto” do povo eleito que sobrevivera à catástrofe. É com esse “resto” que Javé concluirá uma nova aliança.
Mircea Eliade. História das Crenças e das ideias religiosas. Zahar. Rio de Janeiro: 2010. p.324-326
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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