O Êxtase Profético
O Êxtase Profético
José Luis Sicre
Vimos as duas maneiras principais de Deus comunicar-se com o profeta: visões e palavras (que não se excluem mutuamente). Nenhum ser normal sai por aí dizendo que viu ou ouviu a Deus. Sem dúvida, ninguém o ouve nem o vê em circunstâncias normais. Surge com isso o problema: será que os profetas se encontravam numa situação anômala, de êxtase ou transe, quando recebiam estas palavras e visões? Muito se escreveu sobre o tema, na maioria das vezes sem esclarecer antes os conceitos, e com isto reina uma grande confusão neste campo.
Em primeiro lugar, é evidente que alguns profetas apresentam características estranhas em sua conduta, pelo menos em determinados momentos. Elias, depois do sacrifício no Carmelo, sobe ao cume do monte, prostra-se com o rosto entre os joelhos e reza insistentemente; quando chega a chuva:
Subiu Acabe a comer e a beber; Elias, porém, subiu ao cimo do Carmelo, e, encurvado para a terra, meteu o rosto entre os joelhos, e disse ao seu moço: Sobe e olha para o lado do mar. Ele subiu, olhou e disse: Não há nada. Então, lhe disse Elias: Volta. E assim por sete vezes. À sétima vez disse: Eis que se levanta do mar uma nuvem pequena como a palma da mão do homem. Então, disse ele: Sobe e dize a Acabe: Aparelha o teu carro e desce, para que a chuva não te detenha. Dentro em pouco, os céus se enegreceram, com nuvens e vento, e caiu grande chuva. Acabe subiu ao carro e foi para Jezreel. A mão do SENHOR veio sobre Elias, o qual cingiu os lombos e correu adiante de Acabe, até à entrada de Jezreel. (1Rs 18,42-46)
De Eliseu se conta que, enquanto o músico tocava o instrumento, vem sobre ele a mão do Senhor e comunica uma visão do que acontecerá no dia seguinte:
Disse Eliseu: Tão certo como vive o SENHOR dos Exércitos, em cuja presença estou, se eu não respeitasse a presença de Josafá, rei de Judá, não te daria atenção, nem te contemplaria. Ora, pois, trazei-me um tangedor. Quando o tangedor tocava, veio o poder de Deus sobre Eliseu. Este disse: Assim diz o SENHOR: Fazei, neste vale, covas e covas. Porque assim diz o SENHOR: Não sentireis vento, nem vereis chuva; todavia, este vale se encherá de tanta água, que bebereis vós, e o vosso gado, e os vossos animais. Isto é ainda pouco aos olhos do SENHOR; de maneira que também entregará Moabe nas vossas mãos. Ferireis todas as cidades fortificadas e todas as cidades principais, e todas as boas árvores cortareis, e tapareis todas as fontes de água, e danificareis com pedras todos os bons campos (2Rs 3.14-19).
Mais expressiva ainda é a cena do diálogo com Hazael:
“Depois imobilizou o olhar, ficou fora de si por um longo tempo e começou a chorar” (2Rs 8,11).
Séculos mais tarde, Ezequiel apresenta traços muito parecidos de prostração, abatimento, entusiasmo. Depois da vocação, caminha:
“Decidido e inflamado, enquanto a mão do Senhor me empurrava” (Ez 3,14).
Outras vezes terá a sensação de estar amarrado com cordas, de que a língua gruda no céu da boca e fica mudo (cf. 3,25s.), de que é um estranho que o agarra pelos cabelos e o transporta em êxtase desde a Babilônia até Jerusalém, para mais tarde trazê-lo de volta para junto dos exilados (8,1-4; 11,24).
Porque, ó filho do homem, eis que porão cordas sobre ti e te ligarão com elas; e não sairás ao meio deles. Farei que a tua língua se pegue ao teu paladar, ficarás mudo e incapaz de os repreender; porque são casa rebelde. Mas, quando eu falar contigo, darei que fale a tua boca, e lhes dirás: Assim diz o SENHOR Deus: Quem ouvir ouça, e quem deixar de ouvir deixe; porque são casa rebelde (Ez 3.25-27).
No sexto ano, no sexto mês, aos cinco dias do mês, estando eu sentado em minha casa, e os anciãos de Judá, assentados diante de mim, sucedeu que ali a mão do SENHOR Deus caiu sobre mim. Olhei, e eis uma figura como de fogo; desde os seus lombos e daí para baixo, era fogo e, dos seus lombos para cima, como o resplendor de metal brilhante. Estendeu ela dali uma semelhança de mão e me tomou pelos cachos da cabeça; o Espírito me levantou entre a terra e o céu e me levou a Jerusalém em visões de Deus, até à entrada da porta do pátio de dentro, que olha para o norte, onde estava colocada a imagem dos ciúmes, que provoca o ciúme de Deus. Eis que a glória do Deus de Israel estava ali, como a glória que eu vira no vale (Ez 8.1-4).
Depois, o Espírito de Deus me levantou e me levou na sua visão à Caldéia, para os do cativeiro; e de mim se foi a visão que eu tivera (Ez 11.24).
Na opinião de alguns, a experiência interior destes momentos é descrita muito bem pelo autor de Is 21,1-10, quando interrompe o relato de sua visão com as seguintes palavras:
“Ao vê-lo, minhas entranhas têm espasmos, apoderam-se de mim angústias de parturiente; aflige-me ouvi-lo, espanta-me olhá-lo, perturba-se minha mente, o terror me subjuga”.
Sentença contra o deserto do mar. Como os tufões vêm do Sul, ele virá do deserto, da horrível terra. Dura visão me foi anunciada: o pérfido procede perfidamente, e o destruidor anda destruindo. Sobe, ó Elão, sitia, ó Média; já fiz cessar todo gemer. Pelo que os meus lombos estão cheios de angústias; dores se apoderaram de mim como as de parturiente; contorço-me de dores e não posso ouvir, desfaleço-me e não posso ver. O meu coração cambaleia, o horror me apavora; a noite que eu desejava se me tornou em tremores. Põe-se a mesa, estendem-se tapetes, come-se e bebe-se. Levantai-vos, príncipes, untai o escudo. Pois assim me disse o Senhor: Vai, põe o atalaia, e ele que diga o que vir. Quando vir uma tropa de cavaleiros de dois a dois, uma tropa de jumentos e uma tropa de camelos, ele que escute diligentemente com grande atenção. Então, o atalaia gritou como um leão: Senhor, sobre a torre de vigia estou em pé continuamente durante o dia e de guarda me ponho noites inteiras. Eis agora vem uma tropa de homens, cavaleiros de dois a dois. Então, ergueu ele a voz e disse: Caiu, caiu Babilônia; e todas as imagens de escultura dos seus deuses jazem despedaçadas por terra. Oh! Povo meu, debulhado e batido como o trigo da minha eira! O que ouvi do SENHOR dos Exércitos, Deus de Israel, isso vos anunciei (Is 21.1-10).
A estes textos costuma-se acrescentar os que apresentam os profetas, pelo menos na opinião popular, como loucos. E, se levarmos em consideração que nestas experiências, além do espírito do Senhor, desempenha um papel importante a mão do Senhor, podemos dizer que também Isaías e Jeremias tiveram este tipo de experiências. Isaías, depois de proclamar sua mensagem durante a guerra siro-efraimita, quando percebe que Deus o toma pela mão e o afasta do caminho deste povo:
Porque assim o SENHOR me disse, tendo forte a mão sobre mim, e me advertiu que não andasse pelo caminho deste povo, dizendo: Não chameis conjuração a tudo quanto este povo chama conjuração; não temais o que ele teme, nem tomeis isso por temível (Is 8.11,12).
Jeremias, como um estado de ânimo frequente depois de sua vocação: “Forçado por tua mão sentei-me solitário, porque me encheste de tua cólera” (Jr 15,17). De fato, estas e outras passagens apresentam uma imagem bastante estranha da atuação profética, que seria mais compreensível na teoria do êxtase. Estes dados sempre foram conhecidos e às vezes foram levados em conta para falar do elemento extático nos profetas. Mas quem dará um impulso radicalmente novo a esta questão será Gustav Hölscher, no ano em que começa a Primeira Guerra Mundial (1914). Em seu livro “Os profetas”, defende que o êxtase é um traço característico de todos os profetas de Israel. Hölscher se esforça para distinguir, sem muita precisão, entre os primeiros nebî’îm e os grandes profetas escritores; resulta-lhe impossível imaginar Amós como um destes extáticos iniciais. Mas está convencido de que toda a profecia israelita é extática. A teoria de Hölscher encontrou grande aceitação em muitos autores. Mas quem lhe deu um caráter mais dramático foi Robinson. Convém lembrar suas palavras para compreender a forte reação que ocorreu contra a teoria:
“Podemos imaginar uma cena da atividade pública do profeta. Ele está misturado entre a multidão, às vezes em dias comuns, às vezes em ocasiões especiais. De repente, algo lhe acontece. Seus olhos ficam fixos, assaltam-no estranhas convulsões, muda sua maneira de falar. As pessoas reconhecem que o Espírito caiu sobre ele. Quando passar a síncope, ele dirá aos circunstantes as coisas que viu e ouviu”.
Nem todos estavam preparados para aceitar esta imagem de Amós, Isaías ou Jeremias (Ezequiel é um caso à parte, que sempre causou problemas). Significava jogar por terra a ideia solene e hierática que muitas vezes temos dos profetas. Mas havia um argumento mais forte do que o do simples gosto: a falta de dados que confirmassem a teoria e, sobretudo, o conceito tão confuso de êxtase que se empregava. Não é de estranhar que, com o passar do tempo, se impusesse uma visão muito mais moderada e se procurasse definir mais exatamente o fenômeno.
Wilson, por exemplo, esclarece uma série de questões elementares. Antes de mais nada, os antropólogos raras vezes usam a palavra “êxtase”. Quando o fazem, se referem à forma religiosa do transe. Transe é um estado psicológico e fisiológico “caracterizado por reduzida sensibilidade aos estímulos, perda ou alteração do conhecimento do que acontece e substituição da atividade voluntária pela automática” (E. Bourguignon). Por outro lado, os antropólogos usam a palavra para referir-se a um tipo de conduta, não ao processo pelo qual se estabelece o contato entre o mundo divino e o humano. Para este processo se fala de possessão de um espírito ou de emigração da alma para o mundo dos espíritos. Pode ocorrer um caso de possessão sem que haja transe ou êxtase.
A propósito da possessão, que em Israel é o meio primário de comunicação entre o mundo divino e o humano, convém reparar que ela pode provocar diferentes tipos de conduta. Se não há transe, o intermediário pode não mostrar traços anormais e transmitir simplesmente a mensagem dos espíritos. Se há transe, as ações podem ir desde uma atividade física aparentemente incontrolada até uma atividade física completamente normal. A linguagem pode ir desde sílabas ininteligíveis até um discurso coerente.
Apesar das diferenças, dentro de uma dada sociedade, a conduta de possessão é quase sempre estereotipada e se usa uma linguagem estereotipada. Às vezes, numa mesma sociedade, diferentes tipos de conduta estereotipada estão relacionados com situações e grupos sociais específicos.
Por conseguinte, os biblistas não devem generalizar rapidamente a respeito da natureza da possessão em Israel. A conduta dos profetas poderia variar de um grupo para outro, e inclusive podia ser diferente dentro do mesmo grupo; o mesmo profeta podia mudar de conduta de acordo com o contexto histórico e social. Pelo fato de alguns profetas parecerem atuar como se estivessem em transe, não se poder dizer que essa conduta era característica de toda a profecia de Israel. Por outro lado, o material antropológico mostra que existem diversas formas de conduta de transe controlada, e que o transe não impedia os profetas de falar de maneira coerente.
As ideias de Wilson podem ser esclarecidas com o seguinte esquema:
Possessão (Processo de contato com o mundo divino)
Pode ser:
a) Com transe.
b) Sem transe.
Díaz, José Luis Sicre. Introdução ao profetismo bíblico. Editora Vozes. Edição do Kindle.
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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