O poder da imaginação poética dos profetas
Embora os profetas estejam caracteristicamente imersos em crises públicas, eles não são primariamente agentes políticos em qualquer sentido direto e raramente encorajam uma política específica. Nem são ativistas sociais, contrariamente à opinião liberal popular. Eles são mais caracteristicamente “proclamadores” e, até que desenvolvimentos posteriores alterem seu modo de agir, eles geralmente falam com toda a evasão e o poder imaginativo da poesia. Seus pronunciamentos não são evidentes por si mesmos quanto à sua relevância, mas eles falam em imagens e metáforas que visam perturbar, desestabilizar e convidar a percepções alternativas da realidade. Ao falar de imaginação, quero dizer a capacidade de construir, descrever e imaginar uma realidade fora dos retratos dominantes da realidade que são considerados como óbvios.
O idioma poético e a qualidade elusiva da imaginação constituem, juntos, uma estratégia dos profetas para levar a comunidade ouvinte para fora da ideologia administrada, a qual frequentemente se identifica com a política e imaginação da realeza. Os profetas falam usando figuras chocantes e extremas porque desejam perturbar as construções “seguras” da realidade, as quais são patrocinadas e defendidas pelos formadores de opinião dominantes. Em seu pronunciamento de “expressões- limite” – ou seja, pronunciamentos que levam as pessoas ao limite de sua imaginação – os profetas caracteristicamente exibem sensibilidade aguda quanto a dois aspectos.
Intensa consciência de aflição: Os profetas, estão intensamente conscientes da aflição, dor e disfunção presentes na comunidade que eles entendem para estar pronta para um desastre vindouro.
Imagens de novas possibilidades: Os profetas encontram novos e chamativos modos de imaginar para Israel atos extraordinários de coragem, falam sobre possíveis futuros mesmo havendo chegado ao desespero. Dessa forma, no uso impressionante de imagens, Ezequiel imagina o Israel exilado em um vale de ossos secos que será revivificado e reabilitado pelo sopro de Javé. Tanto nas imagens de mortalidade como nas metáforas de novas possibilidades, essas línguas eloquentes foram capazes de pronunciar algo além do lugar-comum de seus contemporâneos e convidar seus ouvintes a sair dos lugares-comuns dominantes para imaginar um cenário alternativo de suas vidas com Javé.
Walter Brueggemann. Teologia do Antigo Testamento. Paulus. 2014. p. 810
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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