A ira de Deus na ira dos profetas
Jr 6.11, “Pelo que estou cheio da ira do SENHOR; estou cansado de a conter. Derramá-la-ei sobre as crianças pelas ruas e nas reuniões de todos os jovens”.
15.17, “Nunca me assentei na roda dos que se alegram, nem me regozijei; oprimido por tua mão, eu me assentei solitário, pois já estou de posse das tuas ameaças”.
20.9, “Quando pensei: não me lembrarei dele e já não falarei no seu nome, então, isso me foi no coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; já desfaleço de sofrer e não posso mais”.
O profeta preocupava-se para encontrar para cada mensagem a forma adequada. Há casos que permitem supor que o profeta gozava de grande liberdade e poder de decisão pessoal na escolha da forma para cumprir a tarefa recebida. O mesmo não acontece com uma forma muito utilizada na profecia clássica. A sentença do mensageiro. Aqui, a própria forma exigia que a ordem divina fosse transmitida exatamente e sem modificação. Mas os profetas não se limitaram a simplesmente transmitir a sentença divina como ela era. Antepunham à sentença, que frequentemente era uma ameaça, um discurso de acusação para introduzi-la e para estabelecer uma relação entre a sentença recebida de Deus e aqueles a quem ela se dirigia. Somente em casos muito raros visava a uma pessoa determinada (o rei, por exemplo) ou um determinado grupo. Na maioria das vezes o seu conteúdo era genérico; anunciava, por exemplo, a dizimação do exército de convocação popular (Am 5.3), a deportação das classes superiores (Am 4.2) ou a desertificação do país (Is 5.8).
Am 5.3, “Porque assim diz o SENHOR Deus: A cidade da qual saem mil conservará cem, e aquela da qual saem cem conservará dez à casa de Israel”.
Am 4.2, “Jurou o SENHOR Deus, pela sua santidade, que dias estão para vir sobre vós, em que vos levarão com anzóis e as vossas restantes com fisga de pesca”.
Is 5.8, “Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra!”.
Era o profeta que tinha que tomar a iniciativa de dirigir esta palavra ao ser humano em forma adaptada. Aqui se abria em liberdade para o seu julgamento, a sua vigilância poimênica um vasto campo de ação. No fundo, pode-se mesmo dizer que lhe cabia aí o papel mais importante, pois que seria uma sentença divina sem destinatário? Assim é que o profeta dirige às classes privilegiadas que viviam na embriaguez a mensagem relativa à deportação, e àqueles que especulavam com terras a mensagem da desertificação do país. A importância desta participação do profeta não deve ser subestimada, pois graças a ela a palavra recebida atinge o seu objetivo e pode ser cumprida. A sua imensa responsabilidade reside em ser ele quem cumpre a vontade de Javé; e Javé se ligara à decisão do seu mensageiro.
Também estamos em condições de falar algo sobre o critério, em cuja base o profeta encaminha a mensagem divina aos diversos grupos, pois os profetas não defenderam simplesmente os interesses de uma classe social ou até da sua classe social, nem falaram de alguma outra forma como ofendidos, mas tinham consciência de estar ligados a uma ordem bem determinada, a qual as suas mensagens de juízo deveriam restabelecer. Trata-se da relação teológica entre o discurso de reprovação e a sentença de ameaça. Tal relação existe, como mostra a palavra laken (“por isso”), expressão tão frequente quanto característica, que estabelece uma relação lógica entre as duas partes, o discurso de reprovação e a sentença divina, permitindo fundamentar a palavra de ameaça que segue. Até um certo ponto, o profeta aqui, sem dúvida, demonstra uma preocupação pedagógica.
O profeta quer que o destinatário da palavra de ameaça seja informado e compreenda o que lhe acontece. Com este cuidado se combina, às vezes, a esperança de que possa converter-se e ser salvo. Mas quer que compreenda que o que está por lhe acontecer é uma punição que corresponde com exatidão a um pecado que ele cometeu. Há, portanto, da parte de Javé uma nêmesis (grego: imputação de culpa, deusa da justiça distributiva) que reina na história, ou, dito na linguagem do Antigo Testamento: em correspondência rigorosa o próprio Javé faz cair o mal sobre a cabeça do ser humano que o desencadeou. Assim, Elias já havia anunciado que os cães lamberiam o sangue de Acabe no mesmo lugar onde tinham lambido o de Nabote (IRs 21.19); “é por isto que” os bebedores de vinho morrerão de sede (Is 5.13); “é por isto que” os que queriam se evadir sobre os cavalos, serão obrigados a fugir:
Is 30.16, “Antes, dizeis: Não, sobre cavalos fugiremos; portanto, fugireis; e: Sobre cavalos ligeiros cavalgaremos; sim, ligeiros serão os vossos perseguidores”.
“É por isto que” os proprietários de terra de latifúndio verão o país desertificado (Is 5.9; Mq 3.12), ou então serão interditados da posse de terras (Mq 2.4); e os falsos profetas serão lançados na escuridão, sem iluminação (Mq 3.6). Esta maneira de apresentar a lógica dos acontecimentos não se assenta sobre um sentido teológico profundo, mas sobre uma lógica surpreendente superficial. Nesta parte dos discursos proféticos não entra nenhuma experiência secreta sem nenhum conhecimento recebido por via sobrenatural. No fundo, o profeta pratica aqui um conhecimento que ele recebeu assim, mas que, semelhantemente, pela experiência do mundo e da vida, qualquer outra pessoa também recebe para saber que existem ordens divinas a que a vida humana é submetida. Profecia e sabedoria se encontram assim de modo intenso e vivo. O rigor da relação entre o discurso de reprovação e a sentença divina pode eventualmente afrouxar, em particular (como é o caso no poema sobre o assírio, Is 10.5-9) quando o discurso de reprovação se torna tão hipertrofiado que supera em muito a extensão das ameaças e em relativa independência trata de um tema próprio. Entretanto, o tema básico, a soberba orgulhosa que cai, é sapiencial:
“Eu te constituí como examinador entre o meu povo, a fim de que conheças e examines a sua conduta” (Jr 6.27).
G. Von Rad. Teologia do Antigo Testamento. ASTE. São Paulo: 2006. 510- 512
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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