A revelação por meio dos profetas
A revelação por meio dos profetas
Eugene Merrill
No Antigo Testamento, sem dúvida, o meio mais comum de revelação divina é por intermédio de profetas. Eles escreveram a maior parte dos livros canônicos e são retratados nesses livros e também em outros como os canais de comunicação de Deus. O ofício de profeta conforme primeiro emergiu com Samuel e sua escola no século XI e, dois séculos depois, progrediu, por meio de Elias e Eliseu, para uma instituição popularmente chamada “os discípulos dos profetas”. No entanto, talvez seja útil, antes de tratar destes examinar as referências anteriores aos profetas a fim de ver que informação eles revelam e também como, a era pré-Samuel, motivou todo um novo movimento profético.
A primeira menção a um profeta foi feita pelo Senhor para Abimeleque de Gerar em relação a Abraão. O patriarca apresentara sua esposa Sara como sua irmã, e exatamente quando Abimeleque estava para a acolher em sua família, o Senhor interveio e disse: “Devolva a mulher ao marido dela. Ele é profeta” (Gn 20.7). A evidência da posição dele como profeta está no fato de que ele “orará em seu favor, para que você não morra”. Portanto, ser profeta era ser um intercessor entre Deus e os homens.
O termo usado aqui é nãbi’, de longe a palavra mais comum usada no Antigo Testamento para se referir a profetas. É provável que etimologicamente o termo se relacione com a palavra acadiana nabü, “proclamar, anunciar”, e esse sentido se ajusta bem ao uso de nãbi em todo o cânon. O termo sugere mais particularmente falar em favor de outro, sendo o outro quase invariavelmente o Senhor quando fala dos verdadeiros profetas de Israel. A tradução grega prophêtes (“falar por”) capta bem o sentido. Encontramos um claro exemplo dessa nuança na narrativa de Êxodo 7, passagem em que o Senhor faz a extraordinária declaração para Moisés:
“Dou-lhe a minha autoridade perante o faraó, e seu irmão Arão será seu porta- voz” (v. 1).
Ou seja, Moisés seria Deus no sentido de que seria o canal de revelação, e Arão seria um profeta ao proclamar essa revelação. Na verdade, antes o Senhor dissera ao falar de Arão para Moisés: “Assim como Deus fala ao profeta, você falará a seu irmão, e ele será o seu porta-voz diante do povo” (Êx 4.16). Portanto, o profeta era o porta-voz de Deus.
No fim, Moisés submeteu-se ao chamado de Deus para ser o porta-voz profético e, na verdade, tornou-se o profeta por excelência contra o qual todos os outros eram medidos. Ele, enquanto ainda estava no deserto, exercitou o dom profético, dom esse que compartilhou com os setenta anciãos que ele designou para servir ao povo com ele. O Senhor, a fim de capacitá-los, pôs seu Espírito neles, e eles começaram a profetizar (Nm 11.16,17,25).
Num 11.16,17,25, “Disse o SENHOR a Moisés: Ajunta-me setenta homens dos anciãos de Israel, que sabes serem anciãos e superintendentes do povo; e os trarás perante a tenda da congregação, para que assistam ali contigo. Então, descerei e ali falarei contigo; tirarei do Espírito que está sobre ti e o porei sobre eles; e contigo levarão a carga do povo, para que não a leves tu somente... Então, o SENHOR desceu na nuvem e lhe falou; e, tirando do Espírito que estava sobre ele, o pôs sobre aqueles setenta anciãos; quando o Espírito repousou sobre eles, profetizaram; mas, depois, nunca mais”.
A forma do verbo hebraico aqui não envolve a idéia de proclamação, mas, antes, de conduta; eles começaram a agir como profetas. Ou seja, eles foram dominados pelo Espírito e, em alguma forma de êxtase, demonstraram para a comunidade que Deus os investira com poder e autoridade incomuns.
Deuteronômio 18 elabora a singularidade de Moisés nesse aspecto. O Senhor contou a Moisés a respeito de todo o movimento profético que se seguiria: “Levantarei do meio dos seus irmãos um profeta como você; porei minhas palavras na sua boca, e ele lhes dirá tudo o que eu lhe ordenar” (v. 18).
Talvez aqui o pronome seja usado no singular para destacar uma pessoa que estabeleceria uma ordem de profetas que, por sua vez, pavimentariam o caminho para os grandes profetas canônicos de Israel. Esse homem seria Samuel que, após um verdadeiro hiato de trezentos anos de proclamação profética, apresentaria toda uma nova fase de profetismo (ISm 3.1,19-21).
1Sm 3.1, “O jovem Samuel servia ao SENHOR, perante Eli. Naqueles dias, a palavra do SENHOR era mui rara; as visões não eram freqüentes... Crescia Samuel, e o SENHOR era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra. Todo o Israel, desde Dã até Berseba, conheceu que Samuel estava confirmado como profeta do SENHOR. Continuou o SENHOR a aparecer em Siló, enquanto por sua palavra o SENHOR se manifestava ali a Samuel”.
É importante, antes de explorarmos essa nova fase, dedicarmos alguma atenção à perversão, ou malversação, do ofício profético. O profetismo foi um fenômeno abundantemente atestado no mundo do Oriente Próximo da Antiguidade e em várias culturas e de várias formas. Muito fundamentado como era em sistemas de pensamento e prática religiosos em variados modelos bíblicos, seus alegados porta-vozes dos deuses no profetismo deviam ser evitados em Israel, e as técnicas deles, repudiadas. Infelizmente, esse não era sempre o caso, e, por isso, o Antigo Testamento está repleto de orientações de como reconhecer os falsos profetismo e ordens a fim de eliminá-los da vida israelita.
O primeiro exemplo é o de Balaão que, embora não seja descrito pelo termo Nãbi era claramente algum tipo de adivinhador ou vidente, um pagão contratado pelo rei de Moabe para amaldiçoar o povo de Israel (Nm 22— 24). Ele foi de Petor (acadiana Pitru), próxima de Mari, no Eufrates, local em que foram encontrados muitos textos proféticos detalhando as técnicas de adivinhação e de encantamento desenvolvidas por Balaão. A maioria dos outros falsos profetas não-israelitas mencionados no Antigo Testamento emergiram de fontes cananéias e eram continuamente a meta dos verdadeiros profetas de Israel, que, vez após outra, advertiam a nação para evitá-los e não absorvê-los (cf. lRs 18.16-40).
No entanto, o maior perigo não vinha de fora de Israel, mas dela mesma. Moisés advertiu contra profetas que surgiriam entre o povo de Deus e que profetizariam em nome de outros deuses ou profetizariam mentiras em nome do Senhor.
Jeremias é apenas um exemplo da consciência que esses profetas tinham de que, na verdade, não transmitiam apenas alguma lembrança obscura de um encontro divino, mas a autêntica palavra de Deus. O profeta, preso pelo perverso rei Jeoaquim, por causa de seu suposto conselho traiçoeiro para que o rei se rendesse aos babilônios, tirou vantagem de seu ócio forçado para escrever as palavras do que, no fim, chegou-nos como o livro que leva o nome dele. Contudo, a composição original foi confiscada pelos funcionários do rei que levaram o rolo para Jeoaquim. O rei, sentado ao lado do fogo em um frio dia de inverno, enraivecido pelo que leu, rasgou o rolo em pedaços e lançou-os ao fogo. Jeremias, sem se amedrontar pela destruição do manuscrito da palavra escrita de Deus, determinou-se a fazer todo o trabalho de novo, dessa vez, acrescentando outros escritos (Jr 36).
Preste atenção na leitura dessa narrativa. O Senhor ordenou a Jeremias que escrevesse em um rolo “todas as palavras” que ele dissera desde o início do ministério de Jeremias até aquele momento (v. 2). Essa ordem pressupõe a capacidade de Jeremias de (1) reconhecer a palavra de Deus quando marcado por ela e (2) de distinguir entre o que era realmente a palavra de Deus e o que era apenas alguma convicção religiosa ou resposta emocional a um ato gracioso de Deus em relação a ele. Além disso, o texto insiste que as “palavras” (no plural, não palavra nem idéia abstrata) estavam em pauta. O registro declara que “Jeremias chamou Baruque, filho de Nerias, para que escrevesse no rolo, conforme Jeremias ditava, todas as palavras que o Senhor lhe havia falado” (v. 4).
Depois do traumático e aparentemente decisivo ato de destruição do rolo, Jeremias, incitado pelo Senhor, pegou outro rolo em obediência à ordem recebida: “Pegue outro rolo e escreva nele todas as palavras que estavam no primeiro, que Jeoaquim, rei de Judá, queimou” (v. 28). Jeremias, entregando o rolo a Baruque, começou do início e ditava para que Baruque escrevesse “nele todas as palavras que estavam no primeiro, que Jeoaquim, rei de Judá, queimou” (v. 32). A intenção da narrativa está fora de discussão: a palavra de Deus para os profetas era verbal, portanto, o que eles disseram e escreveram também era verbal. Nunca é revelado os meios pelos quais a verbalização foi efetuada, nem é necessário conhecê-los. O ponto é que a palavra profética, a mais alta forma de revelação divina, foi reconhecida na época como a palavra de Deus, percepção mantida praticamente em consenso unânime pela tradição judaica e cristã.
Teologia do Antigo Testamento. Eugene H. Merrill. Shedd. São Paulo: 2009. p.97-105
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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