O conteúdo da revelação dos profetas
O conteúdo da revelação dos profetas
Geerhardus Vos
É desnecessário dizer que a orientação profética é centrada em Deus. Isto é somente outra maneira de dizer que ela é religiosa, pois sem isto nenhuma religião que mereça esse nome pode existir. Os profetas sentem isto tão instintivamente que não tem necessidade nem ocasião para refletir sobre ela ou expressá-la. Somente quando atinge seu ponto mais alto, tornando-se uma verdadeira paixão por Yahweh, é que ela se coroa por meio de refletir sobre a própria natureza e deleite em sua expressão. Pois a religião, em qualquer lugar, não aquela instintiva, sem reflexão, mas aquela claramente reconhecida, aquela totalmente iluminada, é que constitui o produto mais excelente do processo. É por isso que a experiência religiosa sem o colorido do pensamento e da doutrina é tida como algo inferior, e pode até mesmo chegar a ser sem importância, quando a dúvida se levanta sobre se ela ainda merece o nome de religião ou não. Isto não significa que não há muito de religião sob a superfície da consciência, ou pertencente às esferas da volição e sentimento. Mas ela pode defender seu título somente pelo desejo de ascender à luz do dia e à região do louvor, pois não há outra maneira de ela poder chegar ao lugar onde a glória divina encontra reconhecimento e o movimento da religião atinge o seu ápice. Deus não é um filantropo que gosta de fazer o bem em segredo sem ser notado. Seu deleite é em ver a si mesmo e suas perfeições espelhadas na consciência do sujeito religioso. Nenhum acordo é possível. O único outro princípio abrangente é o de que o homem encontra prazer supremo em ver a si mesmo e suas qualidades superiores reconhecidas e admiradas por Deus. Aquele que escolhe este último ponto de vista nunca entenderá os profetas. O único, entre os profetas, que mais claramente apreendeu isso e o expressou é Isaías:
Is 5.1-7, “Agora, cantarei ao meu amado o cântico do meu amado a respeito da sua vinha. O meu amado teve uma vinha num outeiro fertilíssimo. Sachou-a, limpou-a das pedras e a plantou de vides escolhidas; edificou no meio dela uma torre e também abriu um lagar. Ele esperava que desse uvas boas, mas deu uvas bravas. Agora, pois, ó moradores de Jerusalém e homens de Judá, julgai, vos peço, entre mim e a minha vinha. Que mais se podia fazer ainda à minha vinha, que eu lhe não tenha feito? E como, esperando eu que desse uvas boas, veio a produzir uvas bravas? Agora, pois, vos farei saber o que pretendo fazer à minha vinha: tirarei a sua sebe, para que a vinha sirva de pasto; derribarei o seu muro, para que seja pisada; torná-la-ei em deserto. Não será podada, nem sachada, mas crescerão nela espinheiros e abrolhos; às nuvens darei ordem que não derramem chuva sobre ela. Porque a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta dileta do SENHOR; este desejou que exercessem juízo, e eis aí quebrantamento da lei; justiça, e eis aí clamor”.
Se compararmos sua consciência neste aspecto com Oséias, descobriremos que Oséias se baseia mais naquilo que Israel é para Yahweh:
Os 13.8, “Como ursa, roubada de seus filhos, eu os atacarei e lhes romperei a envoltura do coração; e, como leão, ali os devorarei, as feras do campo os despedaçarão”.
Enquanto Jeremias em sua visão inaugural via coisas, Isaías em sua visão do templo via Yahweh. E ele via Yahweh em seu templo, que equivale a dizer, no local onde tudo está subordinado a Deus, e Deus estabelece o selo de sua presença sobre tudo, o local de adoração. Em conformidade com isso, Isaías é eminentemente o profeta do mais alto tipo de religião. Sua sensibilidade religiosa é fina e fortemente afetada pela mensagem que ele leva aos outros.
Além disso, essa reação religiosa é, em Isaías, de um caráter peculiarmente fundamental. Três ingredientes primordiais estão presentes. Primeiro, há uma percepção vívida da majestade infinita de Yahweh. Em segundo lugar isto tem como seu correlato uma compreensão profunda da distância imensurável entre a majestade de Yahweh e o caráter de criatura e da pecaminosidade do homem. Em terceiro lugar, entra ali o elemento de entrega ilimitada ao serviço da glória divina. É um fato significante que o conceito mais nobre de religião é representado, no círculo dos profetas, por aquele que foi sem dúvida o maior dos profetas em todos os aspectos.
Teologia do Antigo Testamento. Cultura. São Paulo: 2010. p.285,286
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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