O Ministério Profético
O Ministério Profético
Austin Sparks
"Ele deu uns para... profetas... querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo" (Efésios 4:11,12).
Vamos considerar a questão do ministério profético. "Ele deu uns para... profetas". Mas primeiro devemos fazer uma distinção, pois quando falamos de ministério profético, descobrimos que as pessoas são bastante influenciadas por uma mentalidade associada ao que é chamado de 'profecia'. Elas imediatamente relacionam o próprio termo 'profético' a incidentes, acontecimentos, datas, e assim por diante, que repousa principalmente no futuro. Isto é, elas pensam instantaneamente no elemento preditivo do ministério profético e limitam toda a função a esta concepção.
Agora, para o real valor daquilo que está diante de nós, devemos remover de nossas mentes esta ideia limitada de preeminência do aspecto preditivo no ministério profético. Ele é um aspecto, mas apenas um aspecto. Pois o ministério profético é algo muito mais abrangente do que predição.
Talvez fosse melhor se disséssemos que a função profética, indo mais longe do que meros eventos, acontecimentos e datas, é o ministério da interpretação espiritual. Esta frase irá abranger todo o terreno daquilo com que estamos agora ocupados. Profecia é interpretação espiritual. Se você̂ pensar nisto por um instante, considerando o ministério profético na Palavra de Deus, estou certo de que você irá ver quão verdadeiro isto é. É a interpretação de todas as coisas do ponto de vista espiritual; é trazer os significados espirituais das coisas - do passado, do presente e do futuro - para o povo de Deus, dando a compreensão do significado das coisas em seu valor e sentido espiritual. Este era e é a essência do ministério profético.
Naturalmente, aquilo que sabemos sobre os profetas nas Escrituras é que eles exerciam uma função ou faculdade especial entre o povo do Senhor, mas também devemos lembrar de que eles frequentemente combinavam suas funções proféticas com outras funções. Samuel era um profeta, mas também era juiz, e sacerdote. Moisés era um profeta, mas era outras coisas, além disso.
Estou bem certo de que aqueles que têm algum conhecimento, qualquer que seja, dos tempos, espiritualmente falando, irão concordar comigo quando digo que a necessidade premente do nosso tempo é a de um ministério profético. Ninguém quer fazer declarações extravagantes ou ser extremo em seus próprios discursos, mas eu acho que não seria nem extravagante nem extremo dizer que o mundo hoje está bastante carente de um verdadeiro ministério profético no seguinte sentido - uma voz que interprete a mente de Deus para as pessoas.
Este ministério pode existir em algum pequeno grau aqui e ali, mas de modo algum está ele sendo cumprido de forma plena. Constantemente nossos corações gemem e clamam, Oh, que o propósito de Deus a respeito da presente situação possa ser recuperado, primeiramente para o reconhecimento de Seu povo, e, então, através de Seu povo para as pessoas mais distantes! Há uma grande e terrível necessidade de um ministério profético em nosso tempo.
Qual é a função do ministério profético?
É a de levar as coisas para o pleno propósito de Deus, e por isso trata-se de algo reacionário.
At.3.21 – “ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade”
Geralmente achamos que os profetas surgem como uma reação da parte de Deus devida ao curso e tendência das coisas entre o Seu povo; uma chamada de volta, uma redeclaração, um repronunciamento do propósito de Deus, um trazer dos pensamentos de Deus novamente à vista. Os profetas ficavam no meio da correnteza (normalmente uma correnteza rápida e impetuosa) como uma rocha; o curso das coisas se precipitava sobre eles. Eles desafiavam e resistiam aquele curso, e a presença deles no meio da correnteza representava a mente de Deus como que contrária ao curso predominante das coisas. No Velho Testamento, o profeta usualmente entrava em seu ministério num tempo quando as coisas estavam mal espiritualmente, elas eram tudo, menos a vontade de Deus; a situação era de miséria, as coisas estavam confusas, misturadas, caóticas; havia muita decepção, falsidade, e dificilmente as coisas poderiam piorar mais. Aqui está aquilo a que o ministério profético abrangente se refere - o original e supremo propósito de Deus para o Seu povo, e através dele; e ao dizer isto, você chega exatamente ao âmago da questão.
Um ministério profético requer revelação; é um ministério de revelação.
Pela unção vem a revelação. Podemos aceitar de forma geral a necessidade de o Espírito fazer tudo - iniciar, conduzir, governar e ser o poder e a inspiração de tudo; mas oh! Isto é uma instrução para uma vida toda, e isto traz a necessidade de que tudo seja dado por revelação. Este é o porquê de originalmente os profetas serem chamados de 'videntes' - homens que viam. Eles enxergavam o que nenhum outro homem enxergava. Eles viam aquilo que era impossível às outras pessoas verem, mesmo os religiosos, pessoas que temiam a Deus. Os profetas viam por revelação. O Espírito Santo ainda se move para revelar aquilo que 'nenhum olho viu, nem ouvido ouviu'. Esta é a maravilha de uma vida no Espírito. É uma vida de constante nova descoberta; tudo está cheio de surpresa e maravilha. Uma vida guiada pelo Espírito jamais pode ser estática; jamais pode alcançar o fim aqui, nem chegar a uma posição onde a soma da verdade esteja encaixotada. Uma vida realmente no Espírito Santo é uma vida que percebe infinitamente, transcendentemente, mais além do que aquilo que temos visto, ou captados, ou sentidos. As pessoas que chegaram a uma posição fixa e não conseguem enxergar - quem dirá se mover - além de sua própria posição atual, representam uma posição que é estranha à mente do Espírito Santo. O Ministério profético sujeito ao Espírito Santo é um ministério de revelação crescente.
O profeta era um homem que sempre recorria a Deus, e não saía para falar até que Deus lhe mostrasse a próxima coisa. Ele não ia simplesmente em seu ofício profissional, porque era um profeta e isto era esperado dele. Não havia nada de profissional sobre sua posição. O ministério profético é aquele ministério que - embora muito detalhe ainda tenha que ser revelado, até mesmo aos mais iluminados servos de Deus - é aquele que tem, pelo Espírito de Deus, enxergado o propósito de Deus, de forma original e final. A unção traz em primeira mão aquele contato com Deus, o que significa ver Deus face a face Não foi isto que resumiu a vida de Moisés?
"Nunca mais se levantou nas terras de Israel um profeta semelhante a Moisés, com quem o Senhor falava face a face" (Deut. 34:10).
E quando isto acontece você chega a uma posição de conhecimento espiritual direto de Deus, contato direto com Deus, você chega ao lugar onde céu está aberto - você não pode, sob nenhuma hipótese, por alguma vantagem, ser uma pessoa que faça transigências, que se desvia daquilo que tem sido mostrado ao seu coração.
"Moisés se achou fiel em toda a sua casa, como servo" (Heb 3:5);
A fidelidade de Moisés é vista particularmente e em grande medida na maneira como ele foi dominado exatamente por aquilo que Deus disse. Você conhece aqueles últimos capítulos do livro de Exodo, trazendo tudo de volta para a palavra, sempre, "como o Senhor havia ordenado a Moisés". Tudo era feito como Deus falava; através de todo o sistema a que Moisés foi levantado para estabelecer e constituir, ele era fiel ao detalhe. É uma dificuldade, um caminho custoso, mas você não pode ter revelação, e avançar em revelação, e ao mesmo tempo negociar sobre os detalhes e ter as coisas em cada ponto diferente daquilo que exatamente o Senhor quer. Você não é governado por diplomacia, política, ou opinião pública. Você é governado por aquilo que o Senhor disse em seu coração pela revelação quanto ao Seu propósito. Isto é ministério profético.
Os Profetas não eram homens que se acomodavam a alguma coisa que fosse comparativo em sua bondade. Eles jamais se permitiam avançar completamente se a coisa fosse apenas comparativamente boa. O profeta não pode aceitar como suficiente e final aquilo que é apenas comparativo, embora ele se alegre na medida do benefício que possa haver em alguma parte. Devemos, naturalmente, ser generosos para com qualquer pouco de bem que está no mundo - vamos ser gratos por tudo que está correto, que é verdadeiro e de Deus; mas oh! Não podemos dizer que aquilo está satisfazendo plenamente ao Senhor, que é tudo o que o Senhor deseja. Não, o ministério profético é completamente fiel aos pensamentos de Deus. É um ministério de exatidão.
Deus irá fazer com que o ministério e o ministro sejam um. Você vê isto em todos os profetas. O Senhor não parava por nada. Ele se utilizava de dores ilimitadas. Trabalhava até mesmo por meio da vida doméstica, as relações mais íntimas da vida. Pense na tragédia da vida doméstica de Oseías. Pense em Ezequiel, cuja esposa o Senhor levou embora por meio da morte num só golpe. O Senhor disse: 'Levante-se de manhã, lave o rosto, não permita que a menor sugestão de lamento ou tragédia seja percebida; saia como das outras vezes, como se nada tivesse acontecido; mostre-se para as pessoas, ande com um semblante radiante, provoque-os para que perguntem o que você quer significar com tal comportamento ultrajante". O Senhor trouxe este desgosto sobre ele e então, ordenou que agisse daquela maneira. Por quê? Ezequiel era um profeta; ele tinha que corporificar sua mensagem, e a mensagem era a seguinte: 'Israel, a esposa de Deus, tinha se desviado de Deus, morrido para Deus, e Israel não se dava conta disso; prossegue da mesma maneira como sempre, como se nada tivesse acontecido'.
O profeta tem que trazer isto para o lar por meio de sua própria experiência. Deus está trabalhando algo lá dentro. Ele trabalha de maneiras profundas e terríveis na vida de Seu servo para produzir o ministério. Deus não nos permite assumir as coisas. Se estivermos submissos ao Espírito Santo, Ele irá nos transformar em profetas; isto é, Ele irá tornar a profecia algo que tenha encontrado lugar em nós, de modo que aquilo que falarmos seja apenas vocalizar algo que tem acontecido, que tem sido produzido dentro de nós.
Deus tem feito isto através dos anos de maneira estranha, profunda, terrível em algumas vidas, não se detendo a nada, tocando tudo; e é o vaso forjado desta maneira que é a mensagem. As pessoas não vêm para ouvir o que você tem para ensinar. Elas vêm para ver o que você é, para ver aquilo que tem sido trabalhado por Deus. Que preço um ministério profético tem que pagar!
Ministério Profético: Uma vida, não um ensino
Deus forja um profeta em sua vida, para que sua vida seja uma voz que proclame e não apenas um ensino. Deus toma um vaso e faz com que esse vaso passe por uma história profunda, quebrando e desfazendo, desiludindo, revolucionando toda a mentalidade, para que aquelas coisas que estavam agarradas muito ferozmente, tão agressivamente, não mais exerçam influência. É produzida uma maravilhosa maleabilidade, ajustabilidade, uma aptidão para se aprender. Tudo o que era meramente objetivo em relação à obra de Deus, em relação à verdade Divina, como a ortodoxia ou o fundamentalismo, tudo aquilo que dominava muito fortemente, de uma maneira objetiva, legalista, em relação ao que está certo e ao que está errado em métodos - é trabalhado. Há uma concepção inteiramente nova, uma nova perspectiva das coisas; não mais um sistema formal, algo fora de você que você assume, mas algo trabalhado de maneira interior no vaso. É o que o vaso é que é o seu ministério. Não aquilo que ele aceitou de doutrina e está agora ensinando.
Você entende a lei da função profética? É que Deus mantém os vasos ungidos à altura da verdade através da experiência. Cada pedacinho da verdade que eles liberam em palavra é algo que tem tido uma história. Eles desceram até as profundezas e foram salvos por essa verdade. Essa verdade é a vida deles e, portanto, é uma parte deles. Esta é a natureza do ministério profético.
A última declaração em Apocalipse 19:10 resume tudo. Ela sintetiza numa sentença o ministério profético desde o princípio. Suponho que o ministério profético começou no dia quando foi declarado sobre a semente da mulher que iria esmagar a cabeça da serpente, e então passou para Enoque, que profetizou dizendo: "Olhem, o Senhor virá..." (Judas 14), e foi assim a partir de então. Está tudo reunido no final de Apocalipse no seguinte pensamento: que "o testemunho de Jesus é o espírito da profecia". Isto é, o espírito da profecia desde o início até o fim está totalmente voltado para isto - o testemunho de Jesus. A profecia sempre esteve em torno de proclamar o testemunho de Cristo.
Durante todo o caminho foi sempre com o Senhor Jesus em vista, e um Cristo pleno. "Ele deu profetas... até que todos cheguemos...à plenitude de Cristo". Este é o objetivo, e Deus jamais pode ficar satisfeito com qualquer coisa a não ser a plenitude de Seu Filho, representado pela Igreja. A Igreja deve ser a plenitude Dele; um Varão perfeito - esta é a Igreja. O ministério profético é para isto - para a plenitude de Cristo, a total inclusividade de Cristo. É para ser Cristo, o centro da circunferência; Cristo, primeiro e último; Cristo no geral e Cristo em cada detalhe. E ver Cristo por revelação significa que você jamais pode aceitar qualquer coisa diferente disso. A maneira de se alcançar o objetivo de Deus, então, é enxergando por meio do Espírito Santo, e este enxergar é a base do ministério profético. Pois o ministério profético não é algo que apareceu com o tempo, mas é algo que veio da eternidade. Saiu dos conselhos eternos.
T. Austin Sparks. Prophetic Ministry. Mercy Place Ministries. 2000.
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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