As formas de recepção dos profetas
As formas de recepção dos profetas
Maimônides
A profecia acontece somente por meio de uma visão ou sonho, conforme explicamos várias vezes e não repetiremos isso constantemente. Diremos agora que, quando o profeta é inspirado, às vezes ele vê uma parábola – como explicamos diversas vezes. Em certas ocasiões, ele crê ver Deus falando com ele numa visão profética – como em Isaías: “Ouvi a voz do Eterno, dizendo: A quem enviarei, quem há de ir por nós?” (Isaías 6:8). E outras vezes, ele vê e ouve um anjo falando com ele, e isto é muito frequente – como em “E um anjo de Deus disse-me no sonho” (Gênesis. 31:11); “E perguntei ao anjo que falava comigo (...) e o anjo retrucou-me: Não sabes o que são?” (Zacarias 4:5) e “Logo ouvi a voz de um sagrado servidor” (Daniel 8:13) – e isto é tão frequente que nem se pode enumerar todos os exemplos. Em outras vezes, o profeta vê uma pessoa humana falando com ele – como em Ezequiel: “... e avistei um homem que parecia ser de cobre (...) e me disse: Ó filho do homem!” (Ezequiel 40:3-4), depois de ter dito no início que “a mão do Eterno pousou sobre mim” (ibid. 40:1).
Há vezes em que o profeta não vê qualquer figura, mas somente ouve as palavras dirigidas a ele na visão profética – como em Daniel: “Escutei uma voz humana vinda do meio do rio Ulai” (Daniel 8:16); como disse Elifaz: “ouvi então uma voz tranquila a dizer” (Jó 4:16) e como em Ezequiel: “... e ouvi uma voz que me falava” (Ezequiel 1:28), pois não era o que Ezequiel havia percebido na visão profética o que lhe falava, mas ele contou em detalhes toda a coisa estranha e extraordinária que declarou ter percebido, e começou a descrever o assunto e a forma da revelação e disse: “... e escutei Àquele que me falava” (ibid. 2:2).
Após termos falado sobre esta divisão, justificada pelos textos, direi que, às vezes, as palavras que o profeta ouve na visão profética são apresentadas por sua extremamente forte imaginação, como quando uma pessoa sonha que ouviu um grande trovão, um terremoto ou um raio, pois muitas vezes se sonha isto.
Há ocasiões nas quais ele ouve as palavras da visão profética como se fossem numa linguagem habitual e familiar, de modo que nada lhe é estranho. Isso fica claro no relato do profeta Samuel, pois quando Deus o chamou no momento de inspiração, ele pensou que quem o tinha chamado três vezes consecutivas fora Eli, o Sacerdote. Depois, a Escritura explica a razão disso e diz que, pelo fato de ele não saber ainda que a palavra de Deus se dirigia aos profetas daquela forma, isso o fez pensar que fora Eli, pois este segredo ainda não tinha sido revelado a ele: “E Samuel ainda não conhecia ao Eterno, e ainda não lhe tinha sido revelada a palavra do Eterno” (1 Samuel 3:7) –, ou seja, ele não sabia e ainda não lhe tinha sido revelado que era assim que se manifestava a “palavra do Eterno”. Quando é dito que ele “ainda não conhecia ao Eterno”, isso quer dizer que ele não tivera uma inspiração profética antes, uma vez que, a quem profetiza “Me faço conhecer a ele numa visão ou falo com ele em sonhos” (Números 12:6). A explicação do versículo conforme seu sentido será então: “E Samuel ainda não havia profetizado anteriormente, nem sabia que assim era a forma da inspiração profética.” Saibas isto!
Maimônides. Guia dos perplexos (p. 627). Editora Sêfer. Edição do Kindle.
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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