O Atalaia de Israel
O Atalaia de Israel
Samuel Schultz
Ezequiel viu-se profundamente envolvido nos problemas de sua geração. Tendo começado seu ministério como profeta às vésperas da capitulação de Jerusalém, seis anos antes de Jerusalém haver sido destruída, ele não pôde escapar do que estava implícito no desastre nacional. Estava agudamente cônscio da seriedade da situação, enquanto sua nação se aproximava da crise do terrível julgamento divino. Sua mensagem mostra-se específica, pertinente e concentrada sobre as questões com que se defrontavam seus companheiros de exílio. Quando a destruição de Jerusalém já se fizera história, ele voltou a sua atenção para as esperanças futuras de Israel como nação.
O chamamento de Ezequiel foi deveras impressionante. Comparado com o majestoso espetáculo da visão de Isaías e com a comunicação simples feita a Jeremias, o chamamento de Ezequiel ao serviço profético pode ser descrito como fantástico. O meio ambiente era próximo ao rio Quebar nas circunvizinhanças da cidade de Babilônia. Não havia à vista qualquer templo com o qual ele pudesse associar a presença de Deus. Grande distância separava-o de Jerusalém, pelo que quando muito ele tinha memórias do santuário onde Deus manifestava Sua presença desde os dias de Salomão. Se a cidade de Babilônia estivesse ao alcance de sua vista, é possível que ele pudesse ver os grandes templos de Marduque e de outros deuses babilônios, honrados pelo conquistador triunfante, Nabucodonosor. Naquele meio ambiente pagão, Ezequiel recebeu a vocação de ser porta-voz de Deus.
Ezequiel tomou consciência da presença de Deus por intermédio de uma visão:
1.1-14, “Aconteceu no trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês, que, estando eu no meio dos exilados, junto ao rio Quebar, se abriram os céus, e eu tive visões de Deus. No quinto dia do referido mês, no quinto ano de cativeiro do rei Joaquim, veio expressamente a palavra do SENHOR a Ezequiel, filho de Buzi, o sacerdote, na terra dos caldeus, junto ao rio Quebar, e ali esteve sobre ele a mão do SENHOR. Olhei, e eis que um vento tempestuoso vinha do Norte, e uma grande nuvem, com fogo a revolver-se, e resplendor ao redor dela, e no meio disto, uma coisa como metal brilhante, que saía do meio do fogo. Do meio dessa nuvem saía a semelhança de quatro seres viventes, cuja aparência era esta: tinham a semelhança de homem. Cada um tinha quatro rostos, como também quatro asas. As suas pernas eram direitas, a planta de cujos pés era como a de um bezerro e luzia como o brilho de bronze polido. Debaixo das asas tinham mãos de homem, aos quatro lados; assim todos os quatro tinham rostos e asas. Estas se uniam uma à outra; não se viravam quando iam; cada qual andava para a sua frente. A forma de seus rostos era como o de homem; à direita, os quatro tinham rosto de leão; à esquerda, rosto de boi; e também rosto de águia, todos os quatro. Assim eram os seus rostos. Suas asas se abriam em cima; cada ser tinha duas asas, unidas cada uma à do outro; outras duas cobriam o corpo deles. Cada qual andava para a sua frente; para onde o espírito havia de ir, iam; não se viravam quando iam. O aspecto dos seres viventes era como carvão em brasa, à semelhança de tochas; o fogo corria resplendente por entre os seres, e dele saíam relâmpagos, os seres viventes ziguezagueavam à semelhança de relâmpagos”.
Inicialmente, sua atenção foi atraída por grande nuvem que relampejava com chamas de fogo. Surgiram quatro criaturas viventes que foram elaboradamente descritas, as quais ziguezagueavam para frente e para trás como se fossem relâmpagos. Tais criaturas aparentemente tinham características naturais e sobrenaturais. Intimamente relacionada com cada criatura, havia uma roda que as acompanhava a cada movimento. Visto que o espírito das criaturas se encontrava nas rodas, sua conduta era espetacular, embora ordeira. Por meio de asas para cada criatura, elas se moviam por todo o firmamento. Ezequiel também viu um elevado trono, sobre o qual estava sentada uma figura que tinha a semelhança de forma humana, rodeada por um resplendor que era similar ao arco-íris. Sem explicar ou interpretar todas essas coisas, Ezequiel intitulou a manifestação inteira de aparição da semelhança da glória de Deus. Ali, em uma nação pagã, distante do Templo de Jerusalém, Ezequiel tornou-se cônscio da presença de Deus.
Embora ele tivesse caído prostrado perante essa manifestação divina, Deus ordenou-lhe que se levantassem enquanto o Espírito o enchia e lhe permitia obedecer. Chamado de “filho de homem”, foi comissionado para ser mensageiro ao seu próprio povo, que se mostrava desobediente, obstinado e rebelde. A mensagem lhe foi dada na forma de quadro simbólico. Foi-lhe ordenado que ingerisse um rolo de lamentações e ais, mas que tinha dulcíssimo sabor em sua boca:
Ez 2.8-10, “Tu, ó filho do homem, ouve o que eu te digo, não te insurjas como a casa rebelde; abre a boca e come o que eu te dou. Então, vi, e eis que certa mão se estendia para mim, e nela se achava o rolo de um livro. Estendeu-o diante de mim, e estava escrito por dentro e por fora; nele, estavam escritas lamentações, suspiros e ais”.
Avisado de antemão que o povo não lhe daria ouvido e nem aceitaria sua mensagem, Ezequiel recebeu a recomendação que não deveria temê-los. Quando se afastou, a gloria de Deus, o Espírito tornou Ezequiel consciente da realidade literal que estava entre os exilados em Tel-Abibe, às margens do rio Quebar. Esmagado pelo que vira, ele ficou meditando sobre tais acontecimentos por sete dias:
Ez 3.14,15, “Então, o Espírito me levantou e me levou; eu fui amargurado na excitação do meu espírito; mas a mão do SENHOR se fez muito forte sobre mim. Então, fui a Tel-Abibe, aos do exílio, que habitavam junto ao rio Quebar, e passei a morar onde eles habitavam; e, por sete dias, assentei-me ali, atônito, no meio deles”.
Após uma semana de silêncio, Ezequiel foi comissionado para ser atalaia da casa de Israel:
Ez 3.16-21, “Findos os sete dias, veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Filho do homem, eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; da minha boca ouvirás a palavra e os avisarás da minha parte. Quando eu disser ao perverso:
Certamente, morrerás, e tu não o avisares e nada disseres para o advertir do seu mau caminho, para lhe salvar a vida, esse perverso morrerá na sua iniqüidade, mas o seu sangue da tua mão o requererei. Mas, se avisares o perverso, e ele não se converter da sua maldade e do seu caminho perverso, ele morrerá na sua iniqüidade, mas tu salvaste a tua alma. Também quando o justo se desviar da sua justiça e fizer maldade, e eu puser diante dele um tropeço, ele morrerá; visto que não o avisaste, no seu pecado morrerá, e suas justiças que praticara não serão lembradas, mas o seu sangue da tua mão o requererei. No entanto, se tu avisares o justo, para que não peque, e ele não pecar, certamente, viverá, porque foi avisado; e tu salvaste a tua alma”.
A História de Israel no Antigo Testamento. Samuel J. Schultz. Vida Nova. São Paulo: 2007, p. 334,335.
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.

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