O céu na Terra! Uma exposição do Pentecostes
O céu na Terra!
Uma exposição do Pentecostes
James Innell Packer
Portanto, justificados pela fé, temos paz com Deus, por meio de nosso
Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem obtivemos também acesso pela fé
a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de
Deus. E não somente isso, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo
que a tribulação produz perseverança, e a perseverança, a aprovação, e a
aprovação, a esperança; e a esperança não causa decepção, visto que o amor
de Deus foi derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado.
Ora, quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios no tempo
adequado. Porque dificilmente haverá quem morra por um justo; pois talvez
alguém até ouse morrer por quem faz o bem. Mas Deus prova o seu amor para
conosco ao ter Cristo morrido por nós quando ainda éramos pecadores. Assim,
agora justificados pelo seu sangue, muito mais ainda seremos por ele salvos da
ira. Porque se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela
morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela
sua vida. E não somente isso, mas também nos gloriamos em Deus por meio de
nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual recebemos agora a reconciliação (Rm 5.1-
11, A21).
Todos os anos, no domingo de Pentecostes, nosso pensamento se volta
para aquela maravilhosa narrativa do segundo capítulo do livro de Atos, em que
lemos como o Espírito veio para começar seu ministério da nova aliança e
também para fazer a igreja cristã nascer em sua plenitude.
Você se lembrará de como a narrativa descreve os sinais do Espírito
chegando ao local onde os discípulos estavam sentados. Houve um estrondo
repentino que se parecia com um tornado, um vento muito forte — um sinal do
poder de Deus e da intensa presença divina. A palavra traduzida por “Espírito”
tanto em hebraico quanto em grego transmite a imagem de “vento”, a energia do
ar se movimentando, de modo que aquele som era um sinal da manifestação do
Espírito, o poder pessoal de Deus. Então eles viram chamas, ou algo que se
parecia com chamas, descendo sobre eles. Diferentes comentaristas explicam
as palavras de Lucas de maneiras diversas, mas a visão geral é que parecia
haver um tapete de fogo cobrindo o teto do local em que os discípulos estavam
e que línguas de fogo desciam do tapete sobre a cabeça de cada um. Nos dias atuais, usamos a frase “línguas de fogo” metaforicamente para falar do poder do
discurso apaixonado, mas a expressão não existia como metáfora antes que
Atos fosse escrito, e aqui ela representa simplesmente uma descrição do que foi
visto. Literalmente, Lucas diz que desciam do teto chamas de fogo no formato
de língua e repousavam sobre a cabeça de cada um dos presentes. Foi isso que
eles viram acontecer enquanto olhavam, atordoados, para todos os cantos.
Deus já havia se manifestado por meio de labaredas. Lembre-se da sarça
ardente. Moisés olhou e viu uma sarça em chamas; e ele ficou ali, olhando,
olhando o fogo queimar, mas a sarça ainda estava lá, o que fez com que
compreendesse que estava acontecendo algo extraordinário, por isso chegou
mais perto para ver, e Deus falou com ele do meio da sarça. A chama que deixou
o arbusto intacto tinha sido uma teofania, um sinal visível e proposital da
presença de Deus em poder impressionante, purificador e energizante. As
chamas que tocaram a cabeça dos discípulos sem os ferir tiveram o mesmo
significado.
Entretanto a aparição das línguas tinha um significado próprio, pois a
língua é um órgão da fala, e com aquele sinal visível, aparentemente apenas
para aquela manhã, veio o dom de línguas como idiomas. Isso também foi obra
do Espírito Santo. Foi a Torre de Babel ao contrário. Lembre-se do relato de
como, bem cedo na história humana, Deus confundiu a língua dos homens,
dividindo e separando a raça humana por meio da imposição da pluralidade
linguística. Esse foi o julgamento divino contra a tentativa de construir uma torre
que chegasse até o céu, que seria uma demonstração de poder e independência
do homem diante de Deus. A dispersão do povo e a falta de unidade criada pelo
avanço da variedade de línguas foram uma sentença a respeito daquela
tentativa. No entanto, aqui Babel é revertida; judeus de todas as partes
percebem-se sendo informados das grandiosas obras de Deus em suas próprias
línguas, e esse é um sinal de que Deus está reunindo pessoas de todas as
nações, tribos e grupos linguísticos no corpo de Cristo, no reino de Deus, na
realidade que chamamos de igreja.
Então, naquele mesmo dia de Pentecostes, o evangelho foi pregado de
uma maneira que o mundo nunca havia visto. Simão Pedro se viu diante de uma
multidão explicando o ministério e a graça de nosso Senhor Jesus Cristo de um
jeito que nunca havia feito e sequer pensava que poderia fazer. O que havia
acontecido? O Espírito havia lhe dado entendimento, e a regra que se aplica à
pregação, assim como a qualquer outro tipo de ensinamento ou instrução, é que
você fala daquilo que entende. Quando algo está claro para você, e nenhuma
limitação interna o impede, as palavras que precisa para se expressar vêm
naturalmente; contudo, se você não consegue entender, também não consegue
falar. Pessoas que falam vagamente e nos confundem estão mostrando que
ainda não entenderam claramente o que estão tentando dizer. Mas agora Simão
Pedro havia entendido com clareza a verdade sobre o Senhor Jesus Cristo, e,
porque entendeu, ele estava em condições de falar; por isso ele pregou o
evangelho com poder. Ao falar sobre o pecado daqueles que haviam se juntado para garantir a crucificação de Jesus, seus ouvintes entenderam, sentiram-se
culpados e interromperam o pregador, clamando: “O que faremos?”. Simão
Pedro sabia a resposta e lhes disse: “Arrependam-se e se comprometam com
Jesus Cristo, sendo batizados em seu nome para o perdão de seus pecados, e
vocês receberão o dom do Espírito Santo assim como eu e esses outros também
recebemos; voltem-se para Cristo e vocês o receberão também”.
E foi o que aconteceu. Como eu disse antes, naquele dia nasceu a igreja
cristã, e três mil pessoas se converteram e começaram uma vida de comunhão,
amor, cuidado, apoio mútuo, alegria e adoração com entusiasmo, que, de acordo
com o Novo Testamento, é a marca da igreja de Cristo onde quer que seja e em
todas as épocas.
Essa é uma história maravilhosa e um testemunho incrível da obra do
Espírito Santo, o que certamente nos conduz à seguinte pergunta: Qual é a
história interna que corresponde com a história externa, a história pública do que
aconteceu naquele grande dia de Pentecostes? O que estava acontecendo por
meio do ministério do Espírito nos corações de todos aqueles que falavam em
línguas que nunca haviam aprendido e de todos aqueles que se converteram,
foram batizados e se uniram aos apóstolos em comunhão?
Eu diria que a resposta a essa pergunta é algo que o Senhor disse na
noite em que foi traído, em seu último discurso aos apóstolos quando lhes falava
acerca do Espírito Santo e do que o Espírito faria quando viesse. Em João 16.14,
encontramos Jesus falando: “Ele [o Espírito Santo] me glorificará, pois receberá
do que é meu e o anunciará a vós” (A21). Não há dúvida de que Jesus falava
aramaico, mas a primeira coisa que impressiona na tradução que João fez
dessas palavras para o grego é que Jesus se refere ao Espírito pelo pronome
masculino “ele”, embora a palavra grega traduzida por “espírito” seja do gênero
neutro, não masculino. João sabia que a intenção de Jesus era que seu povo
pensasse no Espírito Santo como uma pessoa e não como uma influência, e aqui
Jesus está falando do Espírito realizando um ministério pessoal distinto
(somente uma pessoa pode “declarar” algo), de modo que João percebeu que
aqui deveria usar o pronome masculino. Esta é uma lição para nós: nunca nos
referirmos ao Espírito Santo como “algo”, pois ele é verdadeiramente uma
pessoa, assim como o Pai e o Filho. Ele é a terceira pessoa da santíssima
Trindade. Portanto, sempre pense nele e em seu ministério de uma perspectiva
pessoal.
Assim, qual é o ministério do Espírito que Jesus está antevendo naquele
versículo? “Ele me glorificará” significa que ele vai lhes mostrar a glória que é
minha. Esse ministério começará, Jesus diz, depois que eu for glorificado, depois
que eu tiver retornado ao Pai e tiver sido entronizado à sua direita como Senhor
do universo, Senhor deste mundo, Senhor de todos os mundos. Então, Jesus
diz, o Espírito tomará do que é meu — toda a glória do domínio, toda a glória da
vitória como Senhor que voltou à direita do Pai tendo realizado sua obra na terra
com triunfo — e lhes mostrará todas as coisas. “Ele pegará do que é meu e o
declarará a vocês.” Desse modo, ele me glorificará, me fará grandioso aos olhos de vocês, para que me louvem, me adorem e exultem em mim, que é aquilo que
o Pai quer que vocês façam.
Foi isso o que aconteceu com os apóstolos e os três mil convertidos no
dia de Pentecostes? Sim. Simão Pedro faz tudo conforme o modelo. O Espírito
Santo fez com que Simão Pedro ficasse consciente da glória que era de Cristo,
a glória da sua entronização como aquele que ressuscitou, subiu ao céu e reina
como Messias, a glória de sua obra reconciliatória agora completa, para que
Pedro possa prometer perdão de pecados no nome de Jesus. O Espírito Santo
mostrou tudo isso para Pedro. Todas essas coisas estão claras na mente de
Pedro, ele as proclama com clareza, e o Espírito Santo mostra a mesma
realidade ao coração daqueles que o estão ouvindo.
Pense no Espírito Santo como alguém que cumpre o ministério de holofote
em relação ao Senhor Jesus. Pense nele como se estivesse atrás de você,
iluminando-o por detrás de seus ombros, e destacando, como faz um holofote, a
glória e a beleza daquilo que a luz seleciona: não a fachada de alguns prédios
bonitos, mas a pessoa do Senhor Jesus glorificado. É como se o Espírito
sussurrasse em nosso ouvido — “Você o vê? Ele é o Deus encarnado, Deus que
se fez homem, o portador de seus pecados, e agora ele está entronizado à direita
do Pai; ele é real, não é uma fantasia, é um fato”. Então o Espírito sussurra —
“Você o ouve? Ele o está convidando para se juntar a ele, ele o está chamando”.
E quando o Espírito sussurra em seu ouvido desse jeito e o conscientiza de que
Jesus e seu convite são reais, assim ele está cumprindo mais um ministério, o
ministério de casamenteiro, pelo qual ele insiste conosco, nos atrai, nos inclina
e nos move para abraçar o Senhor Jesus, para dizer sim a seu convite, para ir
com ele e, pela fé, torná-lo nosso próprio Salvador, nosso Senhor, nosso amigo
e nosso rei. Este é o casamento: o casamento espiritual, se você gosta de
chamá-lo dessa maneira.
Fazendo isso, o Espírito realmente nos une ao Cristo ressurreto, que por
sua vez manda o Espírito ao nosso coração para ficar. O Espírito está presente
conosco desse momento em diante, cumprindo um terceiro ministério; ele, o
holofote e casamenteiro, agora cumpre em nosso favor um ministério de
testemunha. “O próprio Espírito dá testemunho com nosso espírito de que somos
filhos de Deus”, diz o apóstolo Paulo (veja Rm 8.16, RSV).
Sabemos qual a função das testemunhas. Testemunhas servem para nos
fornecer informações confiáveis sobre algo que conhecem em primeira mão. O
Espírito Santo nos dá testemunho de que nossa comunhão e união com o
Senhor Jesus têm nos levado à adoção na família do Pai. A declaração de Paulo
continua: “Se somos filhos, também somos herdeiros, herdeiros de Deus e
coerdeiros de Cristo, se é certo que sofremos com ele, para que também com
ele sejamos glorificados”. Nós, que cremos, temos um status permanente, o de
filhos adotados na família do Senhor, e uma esperança duradoura, a esperança
de glória com nosso Salvador, e sabemos disso pelo testemunho do Espírito.
Essa é a realidade cristã, e nada menos que isso. Às vezes, encontramos
pessoas que estão na igreja domingo após domingo durante anos e, mesmo assim, essa realidade ainda lhes escapa. Deus permita que essa não seja sua
história. Espero que você saiba tudo o que estou falando sobre o Espírito como
holofote, como casamenteiro e como testemunha no nosso coração do fato de
que agora somos filhos de Deus e coerdeiros com seu Salvador. Por favor, fique
claro que Paulo não está se referindo a uma única experiência momentânea
quando fala que o Espírito dá testemunho com nosso espírito dessas coisas.
Interpretações desse tipo têm sido feitas, mas o fato de Paulo usar o tempo
presente para “dá testemunho” descarta tais interpretações. Ele está se referindo
a um testemunho constante, um estado mental sustentado pelo Espírito no qual
sabemos — sabemos que pusemos nossa fé em Cristo, sabemos que sua
promessa é verdadeira, sabemos que ele nos recebeu, assim como nós também
o recebemos, sabemos que somos filhos de Deus, sabemos que somos
herdeiros de sua glória. Você lê isso nas Escrituras e seu coração diz: “Sim,
obrigado Senhor, eu sei que isso é verdade para mim”.
Packer, J. I.. Caminhando no poder do Espírito (p. 340). Vida Nova. Edição
do Kindle.
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.
@ze.ronaldo.templodefogo @osprofetas_ @lagrimasportuacausa @templodefogo @igrejaportuacasa
Ora, quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios no tempo adequado. Porque dificilmente haverá quem morra por um justo; pois talvez alguém até ouse morrer por quem faz o bem. Mas Deus prova o seu amor para conosco ao ter Cristo morrido por nós quando ainda éramos pecadores. Assim, agora justificados pelo seu sangue, muito mais ainda seremos por ele salvos da ira. Porque se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida. E não somente isso, mas também nos gloriamos em Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual recebemos agora a reconciliação (Rm 5.1- 11, A21).
Todos os anos, no domingo de Pentecostes, nosso pensamento se volta para aquela maravilhosa narrativa do segundo capítulo do livro de Atos, em que lemos como o Espírito veio para começar seu ministério da nova aliança e também para fazer a igreja cristã nascer em sua plenitude.
Você se lembrará de como a narrativa descreve os sinais do Espírito chegando ao local onde os discípulos estavam sentados. Houve um estrondo repentino que se parecia com um tornado, um vento muito forte — um sinal do poder de Deus e da intensa presença divina. A palavra traduzida por “Espírito” tanto em hebraico quanto em grego transmite a imagem de “vento”, a energia do ar se movimentando, de modo que aquele som era um sinal da manifestação do Espírito, o poder pessoal de Deus. Então eles viram chamas, ou algo que se parecia com chamas, descendo sobre eles. Diferentes comentaristas explicam as palavras de Lucas de maneiras diversas, mas a visão geral é que parecia haver um tapete de fogo cobrindo o teto do local em que os discípulos estavam e que línguas de fogo desciam do tapete sobre a cabeça de cada um. Nos dias atuais, usamos a frase “línguas de fogo” metaforicamente para falar do poder do discurso apaixonado, mas a expressão não existia como metáfora antes que Atos fosse escrito, e aqui ela representa simplesmente uma descrição do que foi visto. Literalmente, Lucas diz que desciam do teto chamas de fogo no formato de língua e repousavam sobre a cabeça de cada um dos presentes. Foi isso que eles viram acontecer enquanto olhavam, atordoados, para todos os cantos.
Deus já havia se manifestado por meio de labaredas. Lembre-se da sarça ardente. Moisés olhou e viu uma sarça em chamas; e ele ficou ali, olhando, olhando o fogo queimar, mas a sarça ainda estava lá, o que fez com que compreendesse que estava acontecendo algo extraordinário, por isso chegou mais perto para ver, e Deus falou com ele do meio da sarça. A chama que deixou o arbusto intacto tinha sido uma teofania, um sinal visível e proposital da presença de Deus em poder impressionante, purificador e energizante. As chamas que tocaram a cabeça dos discípulos sem os ferir tiveram o mesmo significado.
Entretanto a aparição das línguas tinha um significado próprio, pois a língua é um órgão da fala, e com aquele sinal visível, aparentemente apenas para aquela manhã, veio o dom de línguas como idiomas. Isso também foi obra do Espírito Santo. Foi a Torre de Babel ao contrário. Lembre-se do relato de como, bem cedo na história humana, Deus confundiu a língua dos homens, dividindo e separando a raça humana por meio da imposição da pluralidade linguística. Esse foi o julgamento divino contra a tentativa de construir uma torre que chegasse até o céu, que seria uma demonstração de poder e independência do homem diante de Deus. A dispersão do povo e a falta de unidade criada pelo avanço da variedade de línguas foram uma sentença a respeito daquela tentativa. No entanto, aqui Babel é revertida; judeus de todas as partes percebem-se sendo informados das grandiosas obras de Deus em suas próprias línguas, e esse é um sinal de que Deus está reunindo pessoas de todas as nações, tribos e grupos linguísticos no corpo de Cristo, no reino de Deus, na realidade que chamamos de igreja.
Então, naquele mesmo dia de Pentecostes, o evangelho foi pregado de uma maneira que o mundo nunca havia visto. Simão Pedro se viu diante de uma multidão explicando o ministério e a graça de nosso Senhor Jesus Cristo de um jeito que nunca havia feito e sequer pensava que poderia fazer. O que havia acontecido? O Espírito havia lhe dado entendimento, e a regra que se aplica à pregação, assim como a qualquer outro tipo de ensinamento ou instrução, é que você fala daquilo que entende. Quando algo está claro para você, e nenhuma limitação interna o impede, as palavras que precisa para se expressar vêm naturalmente; contudo, se você não consegue entender, também não consegue falar. Pessoas que falam vagamente e nos confundem estão mostrando que ainda não entenderam claramente o que estão tentando dizer. Mas agora Simão Pedro havia entendido com clareza a verdade sobre o Senhor Jesus Cristo, e, porque entendeu, ele estava em condições de falar; por isso ele pregou o evangelho com poder. Ao falar sobre o pecado daqueles que haviam se juntado para garantir a crucificação de Jesus, seus ouvintes entenderam, sentiram-se culpados e interromperam o pregador, clamando: “O que faremos?”. Simão Pedro sabia a resposta e lhes disse: “Arrependam-se e se comprometam com Jesus Cristo, sendo batizados em seu nome para o perdão de seus pecados, e vocês receberão o dom do Espírito Santo assim como eu e esses outros também recebemos; voltem-se para Cristo e vocês o receberão também”.
E foi o que aconteceu. Como eu disse antes, naquele dia nasceu a igreja cristã, e três mil pessoas se converteram e começaram uma vida de comunhão, amor, cuidado, apoio mútuo, alegria e adoração com entusiasmo, que, de acordo com o Novo Testamento, é a marca da igreja de Cristo onde quer que seja e em todas as épocas.
Essa é uma história maravilhosa e um testemunho incrível da obra do Espírito Santo, o que certamente nos conduz à seguinte pergunta: Qual é a história interna que corresponde com a história externa, a história pública do que aconteceu naquele grande dia de Pentecostes? O que estava acontecendo por meio do ministério do Espírito nos corações de todos aqueles que falavam em línguas que nunca haviam aprendido e de todos aqueles que se converteram, foram batizados e se uniram aos apóstolos em comunhão?
Eu diria que a resposta a essa pergunta é algo que o Senhor disse na noite em que foi traído, em seu último discurso aos apóstolos quando lhes falava acerca do Espírito Santo e do que o Espírito faria quando viesse. Em João 16.14, encontramos Jesus falando: “Ele [o Espírito Santo] me glorificará, pois receberá do que é meu e o anunciará a vós” (A21). Não há dúvida de que Jesus falava aramaico, mas a primeira coisa que impressiona na tradução que João fez dessas palavras para o grego é que Jesus se refere ao Espírito pelo pronome masculino “ele”, embora a palavra grega traduzida por “espírito” seja do gênero neutro, não masculino. João sabia que a intenção de Jesus era que seu povo pensasse no Espírito Santo como uma pessoa e não como uma influência, e aqui Jesus está falando do Espírito realizando um ministério pessoal distinto (somente uma pessoa pode “declarar” algo), de modo que João percebeu que aqui deveria usar o pronome masculino. Esta é uma lição para nós: nunca nos referirmos ao Espírito Santo como “algo”, pois ele é verdadeiramente uma pessoa, assim como o Pai e o Filho. Ele é a terceira pessoa da santíssima Trindade. Portanto, sempre pense nele e em seu ministério de uma perspectiva pessoal.
Assim, qual é o ministério do Espírito que Jesus está antevendo naquele versículo? “Ele me glorificará” significa que ele vai lhes mostrar a glória que é minha. Esse ministério começará, Jesus diz, depois que eu for glorificado, depois que eu tiver retornado ao Pai e tiver sido entronizado à sua direita como Senhor do universo, Senhor deste mundo, Senhor de todos os mundos. Então, Jesus diz, o Espírito tomará do que é meu — toda a glória do domínio, toda a glória da vitória como Senhor que voltou à direita do Pai tendo realizado sua obra na terra com triunfo — e lhes mostrará todas as coisas. “Ele pegará do que é meu e o declarará a vocês.” Desse modo, ele me glorificará, me fará grandioso aos olhos de vocês, para que me louvem, me adorem e exultem em mim, que é aquilo que o Pai quer que vocês façam.
Foi isso o que aconteceu com os apóstolos e os três mil convertidos no dia de Pentecostes? Sim. Simão Pedro faz tudo conforme o modelo. O Espírito Santo fez com que Simão Pedro ficasse consciente da glória que era de Cristo, a glória da sua entronização como aquele que ressuscitou, subiu ao céu e reina como Messias, a glória de sua obra reconciliatória agora completa, para que Pedro possa prometer perdão de pecados no nome de Jesus. O Espírito Santo mostrou tudo isso para Pedro. Todas essas coisas estão claras na mente de Pedro, ele as proclama com clareza, e o Espírito Santo mostra a mesma realidade ao coração daqueles que o estão ouvindo.
Pense no Espírito Santo como alguém que cumpre o ministério de holofote em relação ao Senhor Jesus. Pense nele como se estivesse atrás de você, iluminando-o por detrás de seus ombros, e destacando, como faz um holofote, a glória e a beleza daquilo que a luz seleciona: não a fachada de alguns prédios bonitos, mas a pessoa do Senhor Jesus glorificado. É como se o Espírito sussurrasse em nosso ouvido — “Você o vê? Ele é o Deus encarnado, Deus que se fez homem, o portador de seus pecados, e agora ele está entronizado à direita do Pai; ele é real, não é uma fantasia, é um fato”. Então o Espírito sussurra — “Você o ouve? Ele o está convidando para se juntar a ele, ele o está chamando”. E quando o Espírito sussurra em seu ouvido desse jeito e o conscientiza de que Jesus e seu convite são reais, assim ele está cumprindo mais um ministério, o ministério de casamenteiro, pelo qual ele insiste conosco, nos atrai, nos inclina e nos move para abraçar o Senhor Jesus, para dizer sim a seu convite, para ir com ele e, pela fé, torná-lo nosso próprio Salvador, nosso Senhor, nosso amigo e nosso rei. Este é o casamento: o casamento espiritual, se você gosta de chamá-lo dessa maneira.
Fazendo isso, o Espírito realmente nos une ao Cristo ressurreto, que por sua vez manda o Espírito ao nosso coração para ficar. O Espírito está presente conosco desse momento em diante, cumprindo um terceiro ministério; ele, o holofote e casamenteiro, agora cumpre em nosso favor um ministério de testemunha. “O próprio Espírito dá testemunho com nosso espírito de que somos filhos de Deus”, diz o apóstolo Paulo (veja Rm 8.16, RSV).
Sabemos qual a função das testemunhas. Testemunhas servem para nos fornecer informações confiáveis sobre algo que conhecem em primeira mão. O Espírito Santo nos dá testemunho de que nossa comunhão e união com o Senhor Jesus têm nos levado à adoção na família do Pai. A declaração de Paulo continua: “Se somos filhos, também somos herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo, se é certo que sofremos com ele, para que também com ele sejamos glorificados”. Nós, que cremos, temos um status permanente, o de filhos adotados na família do Senhor, e uma esperança duradoura, a esperança de glória com nosso Salvador, e sabemos disso pelo testemunho do Espírito. Essa é a realidade cristã, e nada menos que isso. Às vezes, encontramos pessoas que estão na igreja domingo após domingo durante anos e, mesmo assim, essa realidade ainda lhes escapa. Deus permita que essa não seja sua história. Espero que você saiba tudo o que estou falando sobre o Espírito como holofote, como casamenteiro e como testemunha no nosso coração do fato de que agora somos filhos de Deus e coerdeiros com seu Salvador. Por favor, fique claro que Paulo não está se referindo a uma única experiência momentânea quando fala que o Espírito dá testemunho com nosso espírito dessas coisas. Interpretações desse tipo têm sido feitas, mas o fato de Paulo usar o tempo presente para “dá testemunho” descarta tais interpretações. Ele está se referindo a um testemunho constante, um estado mental sustentado pelo Espírito no qual sabemos — sabemos que pusemos nossa fé em Cristo, sabemos que sua promessa é verdadeira, sabemos que ele nos recebeu, assim como nós também o recebemos, sabemos que somos filhos de Deus, sabemos que somos herdeiros de sua glória. Você lê isso nas Escrituras e seu coração diz: “Sim, obrigado Senhor, eu sei que isso é verdade para mim”.
Packer, J. I.. Caminhando no poder do Espírito (p. 340). Vida Nova. Edição do Kindle.
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.

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