A Igreja primitiva. Os apóstolos e os primeiros mártires



A Igreja primitiva. 

Os apóstolos e os primeiros mártires 

Bruce Shelley

    Quando retornaram à cidade santa para se juntar aos outros peregrinos na celebração do Pentecostes, sete semanas após a crucificação de Jesus, a emoção era intensa. Durante a festa, cerca de 120 discípulos estavam reunidos em uma casa, quando o Espírito de Deus desceu sobre os presentes. Alguns acharam que se tratava de um vento violento soprando ali; outros testemunharam uma chama em forma de língua acima de cada um deles. Tomados por essa experiência, correram às ruas e dirigiram-se ao templo. Muitos visitantes na cidade, ao avistá-los, seguiram-nos, pois ouviram sua língua nativa saindo dos lábios dos discípulos.

    Assim que chegou ao templo, Pedro, um dos apóstolos de Jesus, pôs-se diante da multidão e disse que o milagre que estavam testemunhando era o cumprimento da promessa do profeta Joel quanto à efusão do Espírito de Deus nos “últimos dias”. A explicação da maravilha, disse ele, residia na recente crucificação de Jesus de Nazaré. Deus o havia feito Senhor e Messias ao ressuscitá-lo dentre os mortos! O anúncio de Pedro acerca da ressurreição foi surpreendente, mas a pergunta é: Como ele poderia provar tal alegação? Para tanto, recorreu às Escrituras Judaicas, segundo as quais o Messias não seria abandonado na morte, mas entronizado à destra de Deus até que a vitória universal fosse sua (Salmos 16:10; 110:1). Mas o que tais Escrituras têm a ver com Jesus de Nazaré? “Ele era o Messias”, disse Pedro. “Deus ressuscitou este Jesus, e todos nós somos testemunhas desse fato” (Atos 2:32). Desde o início, portanto, os apóstolos pregaram a ressurreição de Jesus como cumprimento do propósito divino anunciado no Antigo Testamento. O Messias, uma vez crucificado, foi exaltado acima do universo, e fora desse milagre, disseram os apóstolos, não há evangelho, nem salvação, nem Igreja. No entanto, ele é verdadeiro. Assim, “Arrependam-se”, disse Pedro aos peregrinos do Pentecostes, “e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo” (Atos 2:38).

    Muitos aceitaram o convite de Pedro e foram batizados. Cerca de 3 mil pessoas entraram para o movimento de Jesus naquele dia, e foi assim que a Igreja cristã começou. Foi um início e tanto. Estêvão conhecia bem a história, e os cristãos, desde então, afirmam que a morte de Jesus na cruz, sua ressurreição e a missão capacitadora do Espírito Santo são as realidades fundamentais do cristianismo. A Igreja incipiente alastrou-se em um ritmo descomunal nos primeiros quarenta anos. Ela surgiu na maioria das principais cidades do Império Romano e, de uma minúscula seita judaica, transformou-se em uma comunhão de povos muito diversos.

    Estêvão, naturalmente, não pôde testemunhar isso, contudo, foi o primeiro a compreender o significado especial da crucificação e da ressurreição de Jesus e da efusão do Espírito para a história bíblica. Ele percebeu, lá no fundo, que o cristianismo nunca poderia ser confinado às fronteiras rígidas das leis dos fariseus. O próprio Jesus sugeriu que haveria um rompimento. Certa vez, quando questionado por que seus discípulos não jejuavam como os fariseus, ele respondeu: “Nem se põe vinho novo em vasilha de couro velha; se o fizer, a vasilha rebentará, o vinho se derramará e a vasilha se estragará. Ao contrário, põe-se vinho novo em vasilha de couro nova; e ambos se conservam” (Mateus 9:17). O avanço mais importante no cristianismo do primeiro século foi o rasgo dos odres velhos.

A primeira comunidade

Ninguém duvidava de que o primeiro grupo de cristãos seguidores era composto de judeus e incluía a mãe de Jesus, Maria, alguns outros parentes e os apóstolos: Pedro, Tiago, João, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelote, e Judas, filho de Tiago. Eles escolheram um discípulo chamado Matias para se tornar o décimo segundo apóstolo, substituindo Judas Iscariotes, o qual cometera suicídio logo após a crucificação. Considerando que todo o grupo era composto por judeus devotos, eles permaneceram leais, durante certo tempo, às leis judaicas, e continuaram a adorar nas sinagogas e no templo. Em todos os aspectos exteriores, o estilo de vida deles se assemelhava a qualquer outra seita judaica da época. Os discípulos chamavam seu novo movimento de “O Caminho”, enfatizando a crença de que Jesus conduziria seus seguidores ao reino de Deus. Em pouco tempo, porém, a comunidade de Jerusalém passou a denominar-se por um termo do Antigo Testamento que costumava ser utilizado para se referir à assembleia de Israel. O equivalente em grego era ekklesia (ou igreja em português) e significava uma reunião de pessoas, o povo de Deus. A despeito de sua conformidade exterior à religião judaica e de seu emprego das Escrituras Judaicas, os discípulos sentiam que a ressurreição de Jesus e a vinda do Espírito

    Santo no Pentecostes os haviam transformado em algo único um odre novo? Pouco depois do Pentecostes, as autoridades do templo, perturbadas com a pregação sobre a ressurreição de Jesus, prenderam Pedro e os outros onze apóstolos, e ainda ameaçaram, em vão, os líderes da Igreja, proibindo-os de proclamar a ressurreição de Jesus. Apesar disso, os seguidores de Jesus participavam dos cultos no templo com regularidade e observavam rigorosamente as leis e os rituais judaicos. Eles não mostravam nenhum sinal da rejeição da lei de Moisés nem da autoridade do templo, e, em dois anos, seu número havia subido para vários milhares. Sob a liderança dos apóstolos, o novo movimento conservava sua unidade com duas cerimônias especiais, que mantinham a realidade da morte e da ressurreição de Jesus no centro da comunhão.

    A primeira, o batismo, era familiar porque muitos dos primeiros discípulos haviam seguido o ministério de João Batista. No entanto, seu significado na comunidade apostólica era diferente. O batismo de João era uma forma de professar a fé em um reino ainda por vir; já o batismo na nova Igreja era aquilo que os teólogos agora denominam escatológico, uma vez que assinalava a entrada em um reino espiritual já proclamado, porém ainda a ser revelado em sua plenitude. Os primeiros cristãos passaram a acreditar que a morte, o sepultamento e a ressurreição de Jesus, seguidos pela vinda do Espírito no Pentecostes, eram acontecimentos divinos que inauguraram uma nova era. As pessoas poderiam entrar para esse reino espiritual pela fé em Jesus como Senhor e testificar dessa fé pelo batismo. De modo semelhante, a segunda cerimônia, a ceia como logo foi chamada, recordava a traição e a morte de Jesus e encontrava evidência da nova aliança prometida pelo profeta Jeremias nos acontecimentos do Calvário e no túmulo vazio. A morte de Jesus e a vida nova no Espírito eram simbolizadas e seladas para a congregação dos discípulos no ato de beber o cálice e comer o pão consagrado. Essa simples refeição renovava sua aliança com Deus e uns com os outros.

Os helenistas


    Unida, portanto, pelo ensinamento dos apóstolos e pelas duas cerimônias que retratavam a morte e ressurreição de seu Senhor, a jovem Igreja alastrou- se pela Judeia, mas esse rápido crescimento suscitou novos temores nas autoridades e criou tensões na Igreja. Cada vez mais convertidos procediam da comunidade judaico-helenista isto é, judeus que tinham vindo a Jerusalém, provenientes de todas as partes do Império Romano, a fim de se estabelecer na cidade santa. Muitos deles vieram durante as peregrinações e decidiram ficar permanentemente. Assim como imigrantes em todos os lugares, eles viviam em comunidades separadas, falavam grego e utilizavam uma tradução grega comum do Antigo Testamento chamada Septuaginta.

    Os judeus helenistas eram fiéis à sua religião, mas, no mundo fora da Palestina Egito, Ásia Menor, Europa, haviam sido expostos à cultura grega por muito tempo. Eles se misturavam aos gentios com mais facilidade e eram mais receptivos a novas ideias do que seus primos palestinos. No princípio, os apóstolos abriam as portas da Igreja para os helenistas que criam em Jesus. O espírito de unidade foi prejudicado, entretanto, por uma rivalidade crescente entre membros palestinos e helenistas. Alguns cristãos helenistas queixavam-se de que suas viúvas eram negligenciadas pelo programa de assistência da Igreja, e, na tentativa de remover tais ressentimentos, os apóstolos criaram um conselho composto por sete discípulos helenistas, entre eles Estêvão e Filipe, para supervisionar as distribuições. É possível que esses homens tenham sido os primeiros a ocupar um cargo chamado, em outros lugares, de diácono (em grego, diakonos), que significa servo ou ministro.

    Em pouco tempo, porém, Estêvão começou a pregar nas sinagogas de judeus helenistas em Jerusalém, o que desencadeou o tumulto que levou à sua morte e foi só o começo. Grupos de justiceiros começaram a capturar e prender nazarenos suspeitos um dos líderes desses justiceiros era um fariseu zeloso chamado Saulo de Tarso. Esse primeiro massacre cristão, ocorrido por volta de 36 d.C., marcou a expansão do abismo entre judaísmo e cristianismo e transformou a nova fé em um movimento missionário. Os apóstolos hebreus não foram importunados, mas os discípulos helenistas foram obrigados a fugir de Jerusalém, encontrando refúgio na Síria e em Samaria, onde fundaram comunidades cristãs. Outros cristãos helenistas fundaram igrejas nas cidades de Damasco, Antioquia e Tarso, na Síria, na ilha de Chipre e no Egito. Notícias a respeito das igrejas espalhadas no mundo helênico foram aos poucos chegando à cidade santa, e os anciãos cristãos em Jerusalém logo enviaram representantes para estabelecer laços com os novos centros do cristianismo. Pedro e João foram a Samaria para se encontrarem com Filipe.

    Barnabé, um judeu do Chipre e um dos primeiros convertidos de Jerusalém, viajou para Antioquia, na Síria, onde “homens de Chipre e de Cirene” haviam fundado um movimento cristão bem-sucedido, dando o passo revolucionário de evangelizar gentios. Antioquia era a capital administrativa da província romana da Síria. Com meio milhão de habitantes, ela também era a terceira maior cidade do império, depois de Roma e de Alexandria. Por ser um centro cosmopolita movimentado, sua população racialmente mista era, em sua maioria esmagadora, gentia, mas também existia uma grande comunidade judaica. Em Antioquia, pela primeira vez os seguidores de Jesus foram chamados de cristãos. Originalmente, os oponentes da Igreja usavam o termo como um rótulo depreciativo para os “devotos do Ungido” (em grego, Christianoi), mas os cristãos logo o adotaram de bom grado. Desse modo, a Antioquia cresceu em influência cristã e, com o tempo, substituiu Jerusalém como centro de iniciativas missionárias. Isso se deu, em grande parte, graças ao trabalho de Saulo de Tarso, que se juntou a Barnabé ali em aproximadamente 44 d.C.


Declínio de Jerusalém


    Vozes de Jerusalém, não de Roma, entretanto, representaram o ápice da separação. Enquanto Paulo reunia seguidores gentios por todo o mundo pagão, a igreja em Jerusalém dava continuidade à sua rígida aderência à ortodoxia judaica. A perseguição continuava sendo uma possibilidade. Em aproximadamente 41 d.C., Tiago, filho de Zebedeu, um dos seguidores mais íntimos de Jesus, foi assassinado por ordem de Herodes Agripa I, rei da Palestina de 41 a 44 d.C. O irmão de Tiago, João, “o discípulo amado”, talvez tenha fugido de Jerusalém nessa época. Pedro foi preso logo após a morte de Tiago, mas escapou e embarcou em uma longa viagem missionária. Ele visitou Antioquia, Corinto e outras cidades na Ásia Menor, e, próximo ao final da vida, viajou para Roma, onde, juntamente com Paulo, foi capturado na perseguição de Nero e, então, martirizado. A liderança da igreja de Jerusalém ficou de início nas mãos de Tiago, “o irmão do Senhor”. Por ser um judeu devoto e cumpridor da lei, ele era reverenciado por seus seguidores, mas, em 62 d.C., foi assassinado por ordem do sumo sacerdote judeu. Sua morte deixou a igreja de Jerusalém desmoralizada e sem liderança. Enquanto isso, tensões entre os judeus e seus dominadores romanos ficavam cada vez mais fortes.

    A conclusão do templo judaico em 64 d.C., deixou milhares de trabalhadores desempregados, intensificando o descontentamento geral. Por fim, em 66 d.C., os judeus se rebelaram, recusando-se a executar o sacrifício diário para o imperador. Segundo a descrição de um relato, A guerra trágica e sangrenta que se seguiu custou mais vidas do que qualquer conflito anterior. Os judeus resistiram a adversidades avassaladoras por quatro anos, mas não puderam suportar o poder de Roma. Em 70 d.C., as tropas do imperador Vespasiano, lideradas por Tito, irromperam pelos muros de Jerusalém, saquearam o templo, queimaram-no e levaram os despojos para Roma. A cidade santa foi totalmente destruída, e, nas represálias subsequentes, todas as sinagogas da Palestina foram completamente queimadas. No início da revolta, os líderes da igreja de Jerusalém foram aconselhados, em uma visão, a fugir da cidade. Os judeus piedosos consideravam a fuga cristã um ato de traição, e isso selou o destino da Igreja no mundo judaico. Alguns anos mais tarde, ao tomarem a decisão de barrar judeus cristãos nos cultos na sinagoga, o rompimento estava completo.

    Qualquer judeu que desejasse permanecer fiel à sua religião não poderia ser também cristão. A nova fé havia se tornado, e permaneceria sendo, um movimento gentílico. O odre velho estava irremediavelmente rasgado. Para fins práticos, o ano de 70 d.C. e a destruição de Jerusalém marcaram o fim da era apostólica. A maioria dos primeiros apóstolos estava morta, e as igrejas que eles haviam fundado estavam agora em novas mãos. Por intermédio de sua incansável atividade, um novo e poderoso elixir fora derramado no mundo mediterrâneo. Mais duradoura e resiliente do que as forças adversárias, a mensagem dos apóstolos suportaria perseguições e oposições, emergindo séculos mais tarde como a fé dominante do Império Romano.


Shelley, Bruce. História do cristianismo (Portuguese Edition) (p. 53). Thomas Nelson Brasil. Edição do Kindle. 


Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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BÍBLIA FALADA METAL 





Este é um projeto envolvendo todos os irmãos da Igreja PorTuaCasa (@igrejaportuacasa). O objetivo é unir duas coisas. As Escrituras e um bom Rock N Roll. Atualmente temos muitas músicas que se dizem "gospel", porém, encontramos muitas frases que exaltam mais o homem do que à Deus. Esta é a segunda música: Sal da terra e Luz do mundo: 


Mat 5.13-16, "Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus". 

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