Apóstolo Pedro: Vida e morte
Apóstolo Pedro: Vida e morte
Abdias Castro
O nome dos doze Apostolos
Mc 3.13-19, “Depois, subiu ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e vieram para junto dele. Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar e a exercer a autoridade de expelir demônios. Eis os doze que designou: Simão, a quem acrescentou o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais deu o nome de Boanerges, que quer dizer: filhos do trovão; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Zelote, e Judas Iscariotes, que foi quem o traiu”.
1. PEDRO
Pelo que se depreende da leitura dos Evangelhos Sinóticos, do livro de Atos dos Apóstolos e da carta paulina aos Gálatas, Simão Pedro era um homem austero, sanguíneo e fiel. Ele entrou para a História como o discípulo que negou Jesus três vezes. No entanto, irei demonstrar mui claramente a sua fidelidade ao Mestre através de uma análise mais detida dos fatos. Pedro, é sem sombra de dúvidas a mais célebre testemunha do Senhor e o mais destacado dos doze apóstolos. Seu destaque é notório desde a relação dos nomes dos discípulos, onde figura sempre em primeiro lugar, assim como Judas figura em último, numa clara alusão à posição hierárquica. Assim como o último lugar na lista é reservado ao abjeto traidor, Judas Iscariotes, indicando demérito e ignomínia, o lugar primeiro, dedicado a Simão Pedro, faz menção à honra e reconhecimento dos escritores sinóticos (Mt 10.2; Mc 3.16; Lc 6.14).
O CHAMADO
Ele e seu irmão mais novo, o também pescador André, ouviram falar primeiramente de um certo profeta que se levantara no Jordão, clamando ao povo por arrependimento. Seria o Messias? Mas não era; o próprio João Batista atestou que não era o Messias, nem o Profeta, que no caso seria Elias. A voz que clama no deserto estava fazendo muitos seguidores e ele e seu irmão estavam entre eles. O primeiro encontro com o Rabi se deu às margens do rio Jordão, quando ele desceu para ser batizado por João. Ele ouviu do profeta; “Este é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.” Dali há alguns dias, André lhe convidou para ir ouvir a pregação de Jesus. Mas Jesus tinha algo mais para impactar a mente desconfiada daquele velho homem do mar. Um belo dia eles estavam chegando de uma longa jornada em alto mar, uma pescaria frustrada na qual não pegaram peixe algum. De repente um homem se aproximou acompanhado de uma barulhenta e afobada multidão. Era Jesus! Ele se afastou um pouco da dianteira do povo e se dirigiu até onde Simão estava a observar-lhe. Pôs a mão no seu ombro e perguntou: Posso usar o seu barco para fazer a obra de meu Pai? Simão quase desmaiou, pois, o esgotamento físico e o desânimo causado pela pescaria frustrada faziam todos os músculos e nervos do seu corpo clamar por um longo repouso. Sua casa ficava há alguns quilômetros da praia. Mas concordou com um aceno de cabeça e um aperto na mão que estava sobre seus ombros. Jesus pregou um sermão maravilhoso de dentro do seu barco. Quando a multidão foi embora o mestre se dirigiu novamente a ele. O que queres que eu faça por ti Simão? Ele abaixou a cabeça meio enfadado e falou para si mesmo; Que a pescaria seja melhor da próxima...Faze-te ao mar alto Simão! – disse Jesus! – Lançai as vossas redes para pescar – disse acenando para os companheiros de Pedro. Todos os seus colegas se entreolharam, mas não ousaram falar ante a presença do velho comandante.
Eles tinham pescado a noite toda, nos lugares mais conhecidos como bons de peixe e mesmo com toda uma noite de tentativas não pegaram nada. De nada lhes valeu a melhor hora, o melhor lugar, as melhores redes e estratégias, os melhores e mais experimentados pescadores da região. Agora, a experiência dizia que o sol já estava alto e que a hora de pescar tinha passado havia muito tempo. Agora era hora de voltar para casa e planejar durante semanas outra empreitada. Mas era o Rabi da Galiléia que estava mandando. Pedro concordou entre um suspiro e outro. E para sua surpresa e admiração a pesca foi literalmente milagrosa. Naquele dia eram tantos peixes que as redes estavam se rompendo e foi preciso pedir ajuda a outra equipe que estava por ali.
Que coisa maravilhosa era aquela? Quem era aquele jovem galileu, afinal, que parecia impor sua vontade contra as forças da natureza? Era como se tivesse dado uma ordem aos cardumes do mar para que se dirigissem sem demora àquelas redes. Ao testemunhar esta cena, Pedro prostrou-se diante de Jesus numa demonstração inusitada de rendição ao senhorio daquele que se dizia a rendenção de Israel, o Messias prometido: Senhor, ausenta-te de mim, que sou homem pecador. Jesus o abraçou naquele dia, pois ele não veio para afastar as pessoas de si, mas para atraí-las para o seu regaço de amor. Jesus apertando a sua mão, disse: Vinde após mim e eu os farei pescadores de homens! Aramis DeBarros escreveu (op. cit., p. 399): A farta pescaria que precedeu sua vocação discipular na Galiléia tornou-se como que uma profecia do futuro ministério desse que seria um dos mais célebres pescadores de almas de todos os tempos [...] poucos anos depois, no Pentecostes, ante um público cosmopolita que se apertava pelas ruas de Jerusalém, Pedro pôde experimentar o cumprimento dessa profecia...
O MARTÍRIO
Sobre a morte de Pedro, nada encontramos na Bíblia, assim como não há registro da morte dos demais apóstolos, com exceção de Tiago que tem seu martírio registrado em Atos dos Apóstolos 12.2. Isto se dá pelo fato de que eles foram mortos algum tempo depois que todos os livros bíblicos já tinham sido escritos. Entretanto, a tradição da Igreja nos dá este relato com considerável fidelidade.
A tradição da Igreja cristã, antiga e confiável, declara repetidas vezes que Pedro morreu em Roma durante a perseguição desencadeada por Nero César, provavelmente entre 65 e 67d.C. Antes de Nero, outros imperadores cruéis já tinham se levantado contra os crentes a exemplo de Tibério, Calígula e Cláudio. Nero assumira o Império após a morte de seu tio Cláudio César, muito provavelmente envenenado por Agripina, mãe de Nero. Simão Pedro fora preso e aguadava julgamento sob o governo de Nero, conforme este autor em A História da Igreja, Uma Abordagem ao Alcance dos Leigos, pág.39,40, Clube de Autores, 2018: “Trinta e cinco anos já haviam se passado desde a ressureição do Senhor e a perseguição não dava tréguas. Alguns imperadores haviam passado pelo trono em Roma, e todos levaram adiante o terror sobre os cristãos. Tibério, Calígula, Cláudio e agora Nero, um verdadeiro monstro, assumira o poder imperial. Este se proclamou inimigo de Deus, sendo o algoz de Pedro e do apostolo Paulo entre milhares de outros cristãos. Embora Pedro tenha iniciado seu ministério em Jerusalém, logo depois foi enviado a Samaria e outras regiões, tendo alcançado segundo o historiador Eusébio, a Síria, onde estabeleceu a igreja de Antioquia. A tradição da Igreja defende que ele continuou até 40 d.C. como líder desta igreja, tendo depois ido para a Grã-Bretanha, Gália (França) e finalmente levado cativo a Roma onde foi executado por ordem do medonho Nero. Ao chegar a Roma, Pedro foi trancafiado em uma masmorra lavrada em rocha sólida. Era uma cela sob outra, onde a luz entrava unicamente por uma fenda no teto da cela superior. A câmara inferior era sem ventilação, escura e fedorenta. Era chamada de a “cela da morte” e nunca era limpa. Um mau cheiro insuportável enchia aquela prisão. Fezes dos presos, dos ratos, e a infestação de baratas envenenavam de maneira fatal muitos presos. Pedro foi lançado ali por longos nove meses, período em que não recebeu sequer uma visita, muito menos tomou banho de sol, pois era preso incomunicável. A monotonia só era quebrada por longos períodos de tortura, onde a liberdade era- lhe oferecida mediante uma simples renúncia a Cristo. Gerônimo atesta que ele foi crucificado de cabeça para baixo, por se julgar indigno de morrer como seu Senhor.” Hegespino conta que o povo, ao perceber que Nero procurava fatos contra Pedro para matá-lo, rogou insistentemente ao apóstolo para que ele fugisse da cidade. Pedro no fim, foi persuadido pelos importunos pedidos e preparou-se para a fuga. Porém, ao chegar ao portão da cidade,viu o Senhor Jesus vindo ao seu encontro, a quem Pedro, adorando disse: - Senhor, para onde vais tu? – Ao que ele respondeu dizendo: - Estou voltando para ser crucificado. – Assim Pedro, percebendo que com essas palavras o Senhor se referia ao martírio do qual ele estava fugindo, voltou para a cidade. Jerônimo diz que ele foi crucificado com a cabeça para baixo e os pés para o alto a pedido dele mesmo porque era – disse ele – indigno de ser crucificado do mesmo modo e jeito como o fora o Senhor”. (John Fox, O Livro dos Mártires, pag. 04). Outras fontes como Eusébio de Cesaréia, Gerônimo, Tertuliano e Orígenes corroboram com esta informação sobre o apóstolo. Assim encerra a história de fé, perseverança e amor do grande apóstolo Pedro.
APÓCRIFOS
Existem muitos escritos apócrifos atribuídos a ele como Evangelho de Pedro, Pregação de Pedro, Atos de Pedro e André, Atos de Pedro e dos Doze, Atos de Pedro e Paulo, Carta de Pedro a André e Filipe, Carta de Pedro a Tiago Maior e Apocalipse de Pedro. Nestes escritos encontramos muitas expeculações biográficas sobre o apóstolo que embora possam ser verdadeiras, não foram consideradas por este autor tendo em vista a quantidade de material mais confiável disponível.
CASTRO, ABDIAS. VIDA E MORTE DOS APÓSTOLOS: EDIÇÃO AMPLIADA (p. 39). Edição do Kindle.
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.

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