Apóstolo Tiago: Vida e morte
Apóstolo Tiago: Vida e morte
Abdias Castro
O nome Tiago é a tradução de Iákobos, formato helenista do nome patriarcal Jacó. Por isso era um nome bastante comum, e por consequência disto, são mencionados ao menos quatro Tiago nos evangelhos; O primeiro é o Tiago em tela, irmão mais velho do também apóstolo, João. O segundo, e também apóstolo é o Tiago menor, filho de Alfeu; O terceiro é o meio irmão de Jesus, líder da Igreja em Jerusalém; e por fim, Tiago, suposto pai do apóstolo Judas Tadeu. É notório que, daqueles discípulos mais íntimos do Senhor, Tiago Maior se destaca como aquele de quem menos sabemos. De fato, a mais relevante informação bíblica sobre ele é a que trata do seu martírio, no livro de Atos dos Apóstolos, como veremos adiante; Isso o coloca como o primeiro mártir entre os apóstolos. Natural de Betsaida, irmão de João e filho de Zebedeu com Salomé, uma das mais devotadas servas do Senhor. Era pescador por profissão e sócio de Pedro no empreendimento pesqueiro, juntamente com outros pescadores como André, João e o próprio Zebedeu. É chamado de Tiago Maior para diferenciar do outro Tiago, mais novo e menor em estatura que também era apóstolo. Pelo que se pode entender dos evangelhos, seu pai era um homem próspero e influente na sociedade judaica com acesso ao sumo sacerdote. Diferentemente de seu irmão, Tiago não simpatizava com o movimento apocalíptico dos essênios, nem acompanhava as pregações acaloradas de João Batista. Sobre seu irmão João, autor de um dos evangelhos, uma curiosidade insaciável aos pesquisadores bíblicos sempre existirá; o motivo pelo qual João não o cita pelo nome.
Tiago se tornou íntimo do Senhor Jesus participando de perto de episódios reservados da vida de Jesus, como na ressurreição da filha de Jairo e na transfiguração no Monte Tabor, onde ele presenciou o fulgor da glória de Jesus. Ele esteve presente também na agonia do Getsêmani, quando, depois da última ceia subiu ao Monte das Oliveiras e deixando parte dos discípulos a meio caminho, seguiu mais adiante levando consigo a ele, Pedro e João. Ele é citado também entre os que viram a Jesus na terceira aparição após a ressurreição. Sua índole forte lhe rendeu o apelido de Boanerges, que significa filho do trovão, no episódio em que os samaritanos se recusaram a dar hospitalidade a Jesus e seu grupo (Marcos 3.17). Ele e seu irmão João perguntaram a Jesus se deveriam pedir em oração que descesse fogo do céu para os consumir (Lucas 9.51-56). A esta pergunta Jesus respondeu que não tinha vindo para causar a destruição dos homens, mas para salvá-los. Tiago era homem sanguíneo, e quando Jesus perguntou se os discípulos poderiam beber “este cálice” ele respondeu rapidamente; “podemos!” Calíce era uma figura de linguagem para “sofrimento”.
Ministério Pós-pentecostes
Sobre o ministério pós-Pentecostes um mistério impera acerca deste homem; Se ele era tão íntimo do Mestre quanto Pedro e João, e se estes figuram entre os mais notáveis partícipes dos primeiros capítulos de Atos, onde foi parar Tiago? Antes que alguém suponha que este silêncio possa significar um recuo, sou grato em afirmar que a maioria dos estudiosos supõe justamente o contrário: que ele adiantara-se em cumprir o Ide, partindo para as missões internacionais. Este posicionamento ganha peso ao se levar em conta que Lucas jamais omitiria a presença dele caso tivesse permanecido em Jerusalém. E se assim for, Tiago entra para o rol daqueles primeiros cristãos judeus a romper com a cultura israelita que fincava pé em Jerusalém e seus termos. Basta citar que o assunto do primeiro Concílio ocorrido em 49-50 d.C. em Jerusalém era sobre se os apóstolos deveriam ou não pregar para os gentios e se estes poderiam receber o batismo sem a circuncisão. Se Tiago foi mesmo um apóstolo mais adiantado que os demais em cumprir a missão de ir por todas as nações pregando o evangelho, não podemos garantir, mas, lendas que coadunem com tais suposições não faltam. Aramis De Barros relata (op. cit., p. 370-371): Tão fantasioso quanto interessante é o texto lendário atribuído a certo Abdias, que retrata Tiago Maior ministrando a dois magos descritos como Hermógenes e Fileto. Segundo a lenda, Fileto teria se rendido aos ensinos do santo, tencionando com isso abandonar suas práticas execráveis. Entretanto, sabendo- o, resistiu-lhe Hermógenes, lançando sobre seu parceiro tal feitiço, que fê-lo buscar socorro imediato em Tiago.
O apóstolo, por sua vez, livrou-o miraculosamente da maldição que o assolava, com o simples envio de seu lenço. Lendas à parte, é notório entretanto, que poucos apóstolos estão tão antigamente vinculado a determinada região quanto Tiago está ligado à Espanha. As tradições aludem obviamente, a um tempo anterior ao seu martírio em 44 d.C. O interesse por essa região do ponto de vista missionário fica expresso no desejo do maior evangelista do cristianismo primitivo, o apóstolo dos gentios, Paulo de Tarso. Embora não saibamos se ele conseguiu êxito na empreitada de alcançar a Espanha, visto ter sido executado sob Nero alguns anos depois, temos evidências de que as missões cristãs chegaram àquelas terras antes da metade do primeiro século, e com muita possibilidade de ter sido alcançada primeiramente por Tiago Maior. McBirnie considera da seguinte forma a presença de Tiago na antiga província romana de Hispânia (op. cit., p. 104): Considerando-se a facilidade que os habitantes da bacia do Mediterrâneo podiam transitar de uma à outra extremidade do mar, desde os dias de Hanibal de Cartago, facilidade esta incrementada a partir dos tempos de Júlio César (60 a.C.) – o qual visitou a Espanha pelo menos três vezes – não vemos nenhuma razão relevante que não se aceite a possibilidade de Tiago ter visitado as colônias judaicas na Espanha.
A reverência a São Tiago na Espanha é tão grande que ele é o patrono do país. Não obstante ser graúda a menção de Tiago naquela região, havemos de mencionar que muitos historiadores também discordam dessas alegações declarando que tais tradições são posteriores ao séculos 8. Naturalmente, as mesmas lendas que levam Tiago à Espanha o trazem de volta à Judéia onde relatram seu martírio com base no texto bíblico relacionado.
Sua morte
Tiago é o primeiro dos apóstolos a morrer pelo evangelho, e o único a ter seu martírio registrado na Bíblia. Segundo Atos dos Apóstolos 12.1-2, o rei Herodes Agripa I, neto de Herodes, o Grande que tentou matar o menino Jesus, e sobrinho de Herodes Antipas que matou João Batista, mandou matar a Tiago por decapitação para agradar aos judeus. Esse monarca era um bajulador dos césares tal qual seu avô. Ele tinha lambido as botas de Calígula quando da sua ascenção ao trono, e isto lhe valeu como recompensa o título de rei da tetrarquia de Filipe e Lisânias. Continuando sua trajetória de babação, recebeu do imperador mais duas províncias; Galiléia e Peréia. Para completar seu prêmio, passou a bajular Cláudio quando da sua ascenção ao trono, em sucessão a Calígula. Isto lhe rendeu novas conquistas, no caso, Samaria e Judéia. É este déspota idumeu, que para apaziguar a ira dos judeus, prende a Tiago recém chegado das missões e o executa em praça pública. Segundo a lenda acerca de sua morte seus restos mortais esquartejados foram lançados aos cães. Entretanto alguns seguidores os recolheram e levaram para serem enterrados longe de Jerusalém. Isto ocorreu entre os anos 40-42 d.C., ou seja; apenas sete ou oito anos após a morte e ressurreição de Jesus. Narra também que Herodes, logo depois, morreu consumido de bichos, ou seja; de vermes. A narrativa bíblica diz o seguinte: E por aquele mesmo tempo o rei Herodes estendeu as mãos sobre alguns da igreja para os maltratar.E matou à espada Tiago, irmão de João [...] E num dia designado, vestindo Herodes as vestes reais, estava assentado no tribunal e lhes fez uma prática.
E o povo exclamava: Voz de Deus e não de homem. E no mesmo instante feriu-o o anjo do Senhor, porque não deu glória a Deus e, comido de bichos expirou (Atos 12. 1.1,2; 21-23). Muitos ateus e céticos acham este texto forçado demais, entretanto, o historiador e apologista judaico-romano Flávio Josefo do primeiro século, em sua Antiguidades descreve: No segundo dia dos quais espetáculos ele vestiu traje feito totalmente de prata e de uma contextura verdadeiramente maravilhosa, e veio para o teatro pela manhâ cedo; ao tempo em que a prata de seu traje sendo iluminada pelo fresco reflexo dos raios do sol sobre ela, brilhou de uma maneira surpreendente e ficou tão resplendente que espalhou horror entre aqueles que olhavam firmemente para ele; e no momento seus bajuladores gritaram, um de um lado e outro de outro lugar, (ainda que não era para o bem dele) que ele era um deus; e acrescentaram: Sê misericordioso conosco, pois ainda que até agora te tenhamos reverenciado somente como um homem, contudo, doravante, te teremos como superior à natureza mortal [...] uma dor severa também apareceu no seu abdome e começou de maneira muito violenta [...] desse modo ele foi carregado para dentro do palácio; e o rumor espalhou-se por toda parte que ele certamente morreria dentro de pouco tempo[...] e quando ele se tinha esgotado muito pela dor no seu abdome, durante cinco dias, ele partiu desta vida (Antiguidades, XIX, 7.2).
Clemente de Alexandria, por volta de 190 d. C. , com certeza baseado em tradição escrita ou oral, escreveu detalhes da execução de Tiago. Diz ele que ao chegarem ao local designado para a execução da sentença, (morte por decapitação), um dos soldados, perturbado pela serenidade com que se portava o santo apóstolo perante a iminiência da morte, prostou-se diante dele pedindo- lhe perdão. Por isto, o soldado em tela também foi decapitado. Ele havia dito categoricamente que “podia beber o cálice”, e de fato o fez. Em todas as listas dos apóstolos, Tiago aparece em terceiro lugar confirmando sua grande posição entre os companheiros. O fato de Herodes ter dado mão em Tiago para o matar, demonstra o grau de importância deste líder naquela época. Muito possivelmente, informantes de Herodes, que viviam infiltrados na plebe, tenham ouvido de suas atividades na Espanha, lugar para onde Roma tinha enviado dezenas de milhares de escravos judeus e onde Herodes era amaldiçõado. Isto pode ter despertado o interesse do monarca pelo apóstolo em questão. A festa a que Lucas se refere como “dia designado”era um festival em honra ao imperador Cláudio, festejado segundo Josefo, em Cesaréia Marítima, em que Herodes se apresentou num vestido reluzente de prata que chamou muito a atenção do povo, dado o brilho fulgurante do traje.
Os restos mortais
Da mesma sorte que são claras e abundantes as tradições que confirmam o ministério do apóstolo em terras espanholas, são as narrativas acerca do translado de seu corpo de Jerusalém para aquele paìs. Uma dessas tradições diz que logo após o martírio, alguns discípulos recolheram o corpo e temendo a ira dos judeus o levaram a Jope, colocando-o em um navio. Após sete dias de viagem, navegando pelo estreito de Pilares de Hércules alcançaram a Galácia, ao norte da Espanha. O apelo idolátrico comum aos católicos cercou os fatos de fantasias, as mais pitorescas: Numa delas dizem que ao chegarem no porto, colocaram o corpo do apóstolo sobre uma pedra, que imediatamente virou cera e engoliu o corpo, fazendo entender que era alí que seus restos mortais deveriam permanecer. Há um complicador sobre a presença dos restos mortais em terras espanholas; é que o corpo só foi descoberto no século 8, havendo um desconfortável silêncio sobre seu paradeiro nos sete séculos anteriores.
O fato é que em 810 d. C. três corpos atribuídos a Tiago Maior e dois de seus discípulos foram encontrados ao norte da Espanha, pelo bispo Teodomiro, hás vinte quilômetros da casa episcopal. Notificado da descoberta, Alfonsso II, rei das Astúrias, em cujas terras deu-se a descoberta, informou ao papa Leão III. Pouco tempo depois o lugar onde as relíquias foram encontradas se transformou nacidadedeSantiago,aqual tornou-sealvoderomariaseperegrinações;aliás, a terceira maior peregrinação cristã da Idade Média. Existem muitas controvérsias em torno da data em que o transporte do corpo aconteceu, e muitos atribuem que as missões de Tiago na Espanha seja fruto das lendas sem fundamento, cujo interesse é autenticar a descoberta dos restos mortais, esta sim, digna de toda aceitação.
Em Tiago encontramos um exemplo de humildade. Mesmo sendo mais velho que seu irmão João, viveu em segundo plano diante deste em que os holofotes brilhavam mais por ser ele o discípulo que Jesus tanto amava. Não deve ter sido fácil viver à sombra de um irmão mais novo, mas Tiago, como bem o orientara seu mestre, soube ser manso e humilde. Ele, no entanto sobressai- se dos demais apóstolos, assumindo um lugar de destaque ao lado do Senhor. Seu ministério ao lado de Jesus reserva-nos o vislumbre de um dos mais laboriosos ajudantes do Mestre. Sua importância na tradição cristá excede o de muitos apóstolos os quais tiveram muito mais tempo para desenvolver suas histórias e legados.
CASTRO, ABDIAS. VIDA E MORTE DOS APÓSTOLOS: EDIÇÃO AMPLIADA (pp. 54-55). Edição do Kindle.
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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