Inácio de Antioquia

 




Inácio de Antioquia

A viagem definitiva a Cristo


Bryan M. Litfin 


    Nos dois capítulos anteriores, conhecemos alguns relatos martirológicos com alto grau de conteúdo lendário. Embora os textos tenham sido motivados por acontecimentos reais, tivemos de transpor várias camadas de acréscimos editoriais para identificar a realidade histórica subjacente. As emoções humanas dos mártires — seus medos, dúvidas e receios — são em grande parte eclipsadas pelo brilho da fé inabalável deles.

    Não é esse o caso de Inácio de Antioquia. Encontramos aqui um homem que desnuda a alma por completo em sua caminhada rumo à morte no Coliseu de Roma. Inácio não foi nenhum herói intimorato de um romance de ficção. A carta pessoal que nos legou revela um homem que se esforçava para manter a coragem diante de um tipo de morte que nenhum de nós é na realidade capaz de compreender. Nesse texto não encontramos conversões impressionantes de pagãos ao cristianismo, nenhuma descrição explícita de tortura, nem acusações corajosas lançadas no rosto de um tirano. Do ponto de vista da carta de Inácio, a tensão e o terror ainda estão lá adiante, no caminho que o conduz ao martírio. O que temos aqui é um homem que contempla o fim iminente e terrível de sua própria vida — um homem que tem o desejo de ser fiel em seu testemunho cristão, mas ao mesmo tempo se pergunta, com implacável sinceridade, se será capaz de cumprir o compromisso que assumiu. Neste capítulo, teremos acesso ao que passa pela mente de um mártir quando se aproxima o dia de sua morte. De maneira cronológica, aceleramos o tempo a partir da época de Pedro e Paulo. Isto é, avançamos várias décadas até o período imediatamente posterior ao encerramento do registro escrito do Novo Testamento. Inácio foi bispo da igreja de Antioquia nos primeiros anos do século 2 d.C. Essa cidade síria não era apenas uma das principais metrópoles do mundo antigo, mas também um dos grandes centros do movimento cristão dos tempos primordiais. Foi em Antioquia que os seguidores de Jesus receberam pela primeira vez o nome de “cristãos” (At 11.26) e que a comunidade local patrocinou as viagens missionárias de Paulo. Embora não saibamos muito sobre a vida de Inácio, temos de pelo menos reconhecer que ele pastoreava a igreja local onde Paulo havia sido membro (At 13.1-3) cerca de cinquenta anos depois da morte do apóstolo.

    Tudo quanto sabemos de Inácio provém das sete cartas que ele escreveu enquanto era conduzido acorrentado de Antioquia a Roma. Por algum motivo, sua fé cristã o pusera em conflito com as autoridades de Antioquia. Um pelotão de soldados cruéis escoltou Inácio de sua cidade natal à capital do Império, percorrendo mais ou menos a mesma rota que Paulo percorrera em sua terceira viagem missionária. Quando chegaram à cidade de Esmirna, os guardas que escoltavam Inácio se detiveram ali por algum tempo, o que permitiu ao bispo local, Policarpo (que quatro décadas depois sofreu o seu próprio martírio), encorajá-lo. Várias outras igrejas da região da Ásia também enviaram seus representantes para visitar Inácio. Grato pelo cuidado fraterno com que fora tratado, Inácio escreveu seis cartas de exortação espiritual a seu amigo Policarpo e às igrejas de Éfeso, Magnésia, Trália, Filadélfia e Esmirna. Além dessas, enviou de antemão uma carta para o local de seu destino final. O bispo condenado tinha algumas coisas importantes que desejava que os crentes de Roma soubessem. Eles não deveriam tentar impedir a sua morte, avisou. Inácio ansiava morrer por Jesus Cristo — mas queria que os cristãos romanos orassem para que ele não fraquejasse.

    Por fim, no entanto, não sabemos com exatidão o que aconteceu a Inácio. Depois de escrever as sete cartas, ele desaparece do palco da história. Testemunhos posteriores dão a entender que ele encontrou seu fim no exato local onde acreditava que seria — em Roma, e talvez diante de uma multidão sedenta de sangue no anfiteatro da cidade. Se algum dia você tiver a oportunidade de visitar o Coliseu, não deixe de localizar perto da entrada principal a grande cruz de bronze que celebra os mártires antigos. Quando estiver lá, faça uma oração de agradecimento pelo testemunho cristão de um homem como Inácio de Antioquia.


Inácio, Carta aos romanos Saudação
DE: Inácio, também chamado Teóforo 
(“aquele que leva Deus consigo”)

PARA: a igreja que recebeu misericórdia mediante a majestade do Pai Supremo e seu único Filho, Jesus Cristo — a igreja que, segundo a fidelidade e o amor demonstrados por Jesus Cristo, nosso Deus, é amada e iluminada pela vontade do Criador, que decidiu fazer tudo quanto existe.

Vocês, a igreja que preside à região em torno de Roma, são dignos de Deus, e também de honra, bênção, louvor, sucesso e santificação. Vocês se destacam no amor, pois carregam o nome de Cristo e do Pai. Saúdo-vos, portanto, nesse nome, o nome de Jesus Cristo, o Filho do Pai. A todos os que seguem de corpo e alma os seus mandamentos, inabaláveis por serem cheios da graça de Deus e purificados de toda mancha — a vocês ofereço do fundo do coração uma saudação santa em Jesus Cristo, nosso Deus.


O pedido de Inácio aos cristãos romanos


Minhas orações a Deus foram atendidas e, aliás, recebi ainda mais do que pedi: estou chegando a Roma para ver com meus próprios olhos o rosto santo de vocês! Porque tenho a esperança de encontrar vocês quando estiver acorrentado por Jesus Cristo, se for da vontade dele que eu seja considerado digno de alcançar essa meta. Tudo começou bem, de modo que não posso senão esperar receber a graça de chegar ao meu destino definitivo sem nenhuma interferência. No entanto, confesso: estou preocupado que o amor de vocês possa me prejudicar. Sei que para vocês é simples fazer o que tanto querem fazer. Porém, se vocês não decidirem voltar atrás por minha causa, vai ser bem difícil para mim encontrar-me com o meu Deus.

    Ora, não quero que vocês pensem como os que gostam de agradar aos homens, mas, sim, como os que gostam de agradar a Deus (o que, sem dúvida, vocês já fazem). Jamais terei outra oportunidade igual a esta de me encontrar com Deus. Nem vocês jamais poderão receber o crédito de ação mais nobre — desde que fiquem quietos e não façam nada! Se de algum modo conseguirem abster-se de me atrapalhar, serei uma poderosa e eloquente testemunha de Deus. Se, porém, procurarem demonstrar “amor” pelo meu corpo carnal, vão reduzir-me a um ruído sem sentido. Peço-lhes, portanto, por obséquio, que me deem apenas a oportunidade de ser derramado em libação a Deus enquanto ainda tenho um altar à disposição. Com amor fraternal, sirvam apenas de coro para o meu ato. Cantem louvores ao Pai por meio de Jesus Cristo, que considerou a mim, o bispo da Síria, digno de encontrar-me no ocidente depois de ter sido chamado do oriente. Que alegria é para mim ser como o sol, esconder-me sob o horizonte deste mundo enquanto avanço em direção a Deus, ciente de que logo aparecerei de novo para encontrá-lo!

    Vocês de Roma nunca precisaram ter ciúmes de ninguém. Na verdade, têm sido os mestres dos outros.2 Que as instruções que vocês transmitiram aos seus seguidores sejam aplicadas também à minha situação. Peço que orem por uma coisa só: que eu tenha não apenas força exterior, mas também força interior para não desejar o martírio somente da boca para fora, mas que o deseje de fato. Não quero ser apenas chamado de cristão — quero ser cristão de verdade quando tudo estiver em jogo. Se for comprovado que sou cristão quando isso importa, então, e só nesse momento, poderei ser chamado por esse nome e ser lembrado como fiel mesmo quando não estiver mais visível neste mundo. As coisas visíveis da terra não são tão importantes assim! Pensem em Jesus Cristo, nosso Deus: agora que voltou ao Pai, ele está mais “visível” ainda. A obra divina não se cumpre mediante técnicas humanas de persuasão. Antes, o cristianismo atinge o seu melhor estado quando é odiado pelo mundo.

    Estou escrevendo a todas as igrejas sobre estas coisas. Estou dizendo a todos que pretendo de livre vontade morrer pelo nome do meu Deus — isto é, se vocês me permitirem. Eu lhes imploro: não demonstrem por mim nenhuma “caridade” fora de propósito! Ao contrário, deixem que eu sirva de alimento para as feras, que são para mim o meio de chegar a Deus. Sou como um grão de trigo de Deus, pronto para ser moído pelos dentes daquelas feras a fim de me transformar em pão puro. Ou, dito de outra maneira, que essas feras se aproximem e sejam elas próprias o meu sepulcro e não deixem sobrar nenhum vestígio de meu corpo. Não quero ser fardo para ninguém depois de morto.4 Somente quando o mundo não puder mais ver o meu corpo, serei um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo. Implorem, portanto, ao Senhor em meu favor, pedindo- lhe que mediante essas feras eu seja considerado um sacrifício digno para Deus. É claro que não estou dando ordens a vocês, como Pedro e Paulo. Eles eram apóstolos; eu sou apenas um criminoso condenado. Eles eram livres, ao passo que estou acorrentado como um escravo mesmo agora que estou escrevendo. Não obstante, se eu puder sofrer, vou ser o escravo liberto de Cristo — o que significa que vou ressuscitar e ficar livre nele! Por ora, no entanto, sou apenas um prisioneiro aprendendo a renunciar a todos os meus desejos.


DIANTE DAS FERAS


    Em todo o meu trajeto desde a Síria até Roma, já tenho lutado contra feras. Em terra e no mar, de dia e de noite, estou acorrentado a dez leopardos. Refiro-me, é claro, aos dez soldados que me escoltam. Sempre que sou gentil com eles, tratam-me pior. No entanto, por meio dos maus-tratos deles, estou aprendendo a me tornar cada vez mais um discípulo — embora isso não signifique nada, de modo algum, em minha reivindicação final. Ainda preciso da ajuda desses animais que me aguardam na arena. Oro para que estejam dispostos a liquidar-me.5 Na verdade, pretendo provocá-los para que me devorem depressa em vez de ficarem tímidos e não atacarem, como às vezes acontece. Se eu estiver pronto e disposto, mas eles não, vou obrigá-los a me pegarem! Por favor, tenham um pouco de paciência comigo — sei o que é melhor para mim. Agora, por fim, estou começando a me tornar um verdadeiro discípulo.


O repúdio deste mundo e o desejo por Cristo


    Que absolutamente nada, quer deste mundo, quer do mundo invisível acima, venha contra mim e me impeça de chegar a Jesus Cristo. Que venham as chamas, a cruz, as hordas de feras selvagens! Que comecem os cortes e as dissecções! Meus ossos esmagados, meus membros picados em pedacinhos, meu corpo moído, as odiosas torturas do Diabo — que tudo isso me sobrevenha, desde que eu chegue a Jesus Cristo! De uma extremidade a outra da terra, nada mais me importa. Os reinos deste século não têm sentido. Prefiro morrer por Jesus Cristo a governar o mundo inteiro. Ele somente, o que morreu por nós, é aquele a quem busco. Apenas ele, o que ressuscitou para o nosso bem, é o meu desejo! Sofro agora as dores do parto. Irmãos, concedam-me o que lhes peço. Não me impeçam de alcançar a verdadeira vida; não desejem a minha morte. Por que entregariam ao mundo alguém que anseia por estar junto a Deus? Por que procurariam me seduzir com coisas terrenas? Ao contrário, deixem-me alcançar a pura luz do céu. Quando lá estiver, serei uma pessoa completa. Portanto, cedam a mim! Deem-me essa oportunidade de imitar os sofrimentos do meu Deus. Se alguns de vocês têm Cristo dentro de si, esforcem-se por compreender meu anseio profundo e tenham piedade de mim! Mais do que quaisquer outros, vocês devem compreender o que me motiva.

    O príncipe deste mundo procura me sequestrar e abalar minha decisão de seguir a Deus. Por isso, nenhum de vocês em Roma deve ajudá-lo. Pelo contrário, devem ficar do meu lado — que é o lado de Deus! Vocês não podem declarar que são seguidores de Jesus Cristo e ao mesmo tempo colocar o coração nas coisas desse mundo. Não deem lugar às ardilezas do Diabo entre vocês!

    E se, quando chegar a Roma, eu apelar para vocês pedindo socorro? Mesmo assim, não deem ouvidos aos meus apelos! Ao contrário, acreditem no que lhes escrevo agora. Apesar de estar vivo no corpo enquanto escrevo, na verdade anseio pela morte. Minhas paixões terrenas foram crucificadas. A chama do desejo pelas coisas materiais não existe mais em mim. Em vez disso, estou cheio da água viva que brota dentro de mim e declara do fundo da minha alma: “Esse é o caminho que leva ao Pai!” Não tenho satisfação em alimentos que se estragam nem nos prazeres fugazes desta vida. O alimento que desejo é o pão de Deus, ou seja, a carne de Cristo, descendente de Davi; e a bebida que desejo é o seu sangue, que é o amor eterno.6 Quero deixar de viver minha vida segundo os critérios humanos, e só poderei fazer isso se os desejos de vocês corresponderem aos meus! Por isso, desejem isso comigo, para serem desejáveis a Deus. Estou escrevendo esta breve carta para lhes dizer o que quero. Não tenham dúvida de que digo isso com sinceridade! Mas se duvidarem, Jesus Cristo lhes deixará claro que falo com toda a minha sinceridade, pois ele é o porta-voz fidedigno por intermédio de quem o Pai nos falou sua verdade. Orem por mim para que eu atinja meu objetivo. Não lhes escrevo com pensamento carnal, mas de acordo com os divinos propósitos de Deus. Se eu vier a sofrer na arena, isso será sinal de que os desejos de vocês foram corretos. Se, porém, rejeitarem meus desejos, isso será prova de que me odeiam.


Saudações finais


    Lembrem-se da igreja da Síria em suas orações. Agora que vim embora, eles precisam confiar apenas em Deus como o pastor deles. Jesus Cristo é o único que cuidará deles agora — e vocês também, na ternura de seu amor. Quanto a mim, fico constrangido até de ter meu nome associado ao deles. Não sou digno daqueles cristãos. Sou o menor deles, como um feto abortivo.7 Contudo, se eu puder chegar a Deus, por sua misericórdia serei um homem formado por completo.

    Saúdo vocês do fundo do meu coração. Todas as igrejas que me receberam ao longo de meu caminho — não como a um estrangeiro de passagem, mas em nome de Jesus Cristo — também lhes enviam seu amor. E algumas igrejas que nem sequer estavam em minha rota (refiro-me à minha rota física) me precederam de cidade em cidade.

    Estou escrevendo esta carta em Esmirna e a envio por meio dos efésios. Eles merecem as mais ricas bênçãos de Deus! Um dos muitos que me fazem companhia é Croco, homem que me é especialmente caro. Creio que vocês já estão bem familiarizados com aqueles que me precederam no caminho desde a Síria até Roma pela glória de Deus. Digam-lhes que estou quase chegando. Todos eles merecem ser honrados por Deus e por vocês. Por isso, é certo e adequado que vocês os fortaleçam de todas as maneiras possíveis. Esta carta foi escrita no dia 24 de agosto. Que vocês permaneçam fortes até o fim, com a perseverança que vem de Jesus Cristo.


Litfin, Bryan M.. Conhecendo os mártires da igreja primitiva (p. 97). Vida Nova. Edição do Kindle.


Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


@ze.ronaldo.templodefogo @osprofetas_ @lagrimasportuacausa @templodefogo @igrejaportuacasa



BÍBLIA FALADA METAL 





Este é um projeto envolvendo todos os irmãos da Igreja PorTuaCasa (@igrejaportuacasa). O objetivo é unir duas coisas. As Escrituras e um bom Rock N Roll. Atualmente temos muitas músicas que se dizem "gospel", porém, encontramos muitas frases que exaltam mais o homem do que à Deus. Esta é a segunda música: Sal da terra e Luz do mundo: 


Mat 5.13-16, "Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus". 

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Você pode adquirir o livro. Entre no site: https://www.revistaimpacto.com.br/produto/o-profeta-em-israel-e-a-justica-social/ 


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