O Mártir Policarpo de Esmirna
O Mártir Policarpo de Esmirna
Bryan M. Litfin
A história de Policarpo nos põe em contato com mais um tipo de texto,
diferente dos que examinamos até agora. Aqui também temos uma carta cristã
de encorajamento, tal como a de Inácio — essa, porém, conta a história inteira
e não nos deixa dúvida acerca de como o martírio foi concluído. Além disso, em
vez de ter de garimpar algumas poucas pepitas factuais em meio a toneladas de
ficção, o Martírio de Policarpo apresenta alto grau de autenticidade histórica. Isso não quer dizer que o narrador nos transmita apenas os fatos nus e crus; não há
dúvida de que ele queria comunicar um plano teológico e moldou a narrativa de
acordo com esse plano.1 Não obstante, ele fez isso a partir de uma história
fidedigna em sua essência. Isso faz de Policarpo o primeiro cristão cujo martírio
conhecemos em detalhes.
No entanto, a precisão histórica não é o único motivo para incluir essa
narrativa neste livro. O relato da nobre morte do bem-aventurado Policarpo
resistiu à prova do tempo nos anais da história da igreja e inspirou incontáveis
gerações de cristãos a serem mais fiéis. Policarpo de Esmirna é um dos pais da
igreja cuja história vale a pena conhecer.
Quem foi ele? Alguns detalhes da biografia de Policarpo são contestados
pelos pesquisadores, mas as fontes nos desenham um esboço de sua vida. Ele
se tornou bispo de Esmirna em algum momento do século 2 d.C., o que significa
que lhe foi confiada a supervisão espiritual dos cristãos da cidade. Embora
servisse ao lado de outros anciãos, no final de sua vida era o líder reconhecido
da comunidade — um pastor idoso cuja santidade lhe granjeara o respeito de
todas as igrejas da Ásia.
A cidade de Esmirna (atualmente chamada Izmir, na Turquia) era um
assentamento muito antigo fundado no local onde um rio desembocava numa
baía abrigada no mar Egeu. Por sua localização privilegiada, a cidade prosperou
durante muitos séculos. Com efeito, afirma-se que Homero, o maior de todos os
poetas gregos, residiu ali. Depois de um período de declínio, colonos gregos
refundaram a cidade e inauguraram uma segunda era de prosperidade. Na
época de Policarpo, Esmirna era uma animada metrópole romana no auge de
seu progresso. Entre seus monumentos havia muitos templos e casas de
banhos, um porto movimentado, escolas de retórica e de medicina, uma elegante
praça do mercado e o estádio onde Policarpo foi executado. Uma grande
população judaica também florescia na bela cidade marítima. É provável que os
primeiros cristãos de Esmirna fossem judeus evangelizados por missionários de
Éfeso, que distava cerca de 70 km dali.
Policarpo morreu aos 86 anos de idade por volta do ano 156 d.C. Isso
significa que ele nasceu apenas quarenta anos depois dos dias de Jesus, num
espaço temporal que lhe teria permitido contato com pessoas que conviveram
com o Senhor. Com efeito, a tradição da igreja antiga afirma que Policarpo foi
discípulo do apóstolo João. Embora esse vínculo não seja comprovado com
certeza absoluta, resta o fato de que Policarpo viveu sua juventude durante o
período de formação da igreja, no século 1. Um autor antigo diz que ele foi
“instruído pelos apóstolos” e “conviveu com muitos que tinham visto a Cristo”.
Durante sua longa vida, sempre “ensinou as coisas que aprendera com os
apóstolos e que a igreja transmitira, e que são, somente elas, verdadeiras”.
Dessa maneira, Policarpo serviu de elo entre a geração dos apóstolos e os
grandes pais da igreja que vieram depois. O fundamento jurídico para a execução de Policarpo no estádio de
Esmirna não é bem claro. Parece que as autoridades romanas relutaram em aplicar a pena de morte contra um velho tão devoto. No fim, porém, prevaleceu
o preconceito da multidão, e os governantes agiram de acordo com o sentimento
popular. Quando os crentes locais assistiram à morte de seu líder espiritual na
arena, sem dúvida se lembraram das palavras de Jesus à igreja de Esmirna em
Apocalipse 2.10: “Conheço tua tribulação e tua pobreza, apesar de seres rico, e
a blasfêmia dos que dizem ser judeus, mas não são; pelo contrário, são sinagoga
de Satanás. Não temas o que hás de sofrer. O Diabo está para colocar alguns
de vós na prisão, para que sejais provados; e passareis por uma tribulação de
dez dias. Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida”. Como estamos
prestes a ver, o bispo Policarpo ganhou com nobreza a coroa eterna prometida
pelo Senhor.
O martírio de Policarpo
Saudação e introdução Da igreja de Deus em Esmirna para sua igreja em
Filomélio e a todas as comunidades da santa igreja católica3 em toda parte: que
sejam abundantes entre vocês a misericórdia, a paz e o amor de Deus Pai e de
nosso Senhor Jesus Cristo.
Irmãos, escrevemos para lhes dar um relato do que aconteceu aos
mártires, sobretudo ao bem-aventurado Policarpo, cujo martírio pôs fim à
perseguição como um selo sobreposto a uma carta.4 Quase todos os
acontecimentos que levaram à morte de Policarpo aconteceram para que o
Senhor nos mostrasse um martírio em conformidade com o evangelho.5
Policarpo, por exemplo, esperou até que fosse traído, assim como o Senhor.
Devemos ser imitadores do seu exemplo, “não tendo em vista somente os [...]
próprios interesses, mas também os dos outros” (Fp 2.4, NAA). Porque essa é a
marca do amor verdadeiro e fiel: o desejo de salvar não somente a si mesmo,
mas também a todos os irmãos.
Consideramos, portanto, bendito e nobre todo martírio que tenha ocorrido
de acordo com a vontade de Deus (pois nós, que reverenciamos a Deus em
verdade, devemos considerar que ele é soberano sobre tudo quanto ocorre).
Quem deixaria de se maravilhar diante da nobreza, da total devoção ao Senhor
e da firme perseverança dos mártires? Mesmo com a carne dilacerada pelos
açoites, a ponto de expor veias, artérias e órgãos internos, eles suportaram a
agonia com coragem, enquanto os espectadores se compadeciam deles e se
derramavam em lágrimas. Não obstante, os próprios mártires demonstraram
tamanha bravura que nenhum deles deixou escapar nem um murmúrio ou
suspiro sequer. Com isso, esses nobres mártires de Cristo demonstraram a
todos que, no momento exato em que eram torturados, já estavam desligados
de seus corpos — ou melhor, que o Senhor estava bem ao lado deles,
comungando com eles. Concentrando seus pensamentos na beleza de Cristo,
eles desprezaram os tormentos terrenos e se libertaram do castigo eterno
mediante apenas uma hora de sofrimento.7 As chamas dos torturadores
desumanos lhes pareceram frias, porque preferiram voltar os olhos para a salvação do fogo eterno e inextinguível do inferno. Com os olhos do coração, os
mártires contemplaram as coisas boas reservadas para os que perseveram com
paciência - as coisas que “olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem
penetraram o coração humano” (1Co 2.9). Tais maravilhas lhes foram reveladas
de modo pessoal pelo Senhor, pois já não eram humanos, mas anjos.
Do mesmo modo, os condenados às feras suportaram tormentos
horrendos. Eram estirados sobre um leito de conchas pontiagudas ou afligidos
com diversas outras formas de tortura. A intenção era, se possível, obrigá-los a
abjurar a fé mediante a agonia contínua. Com efeito, o Diabo inventou muitos
estratagemas para usar contra os mártires. Todavia, pela graça de Deus, ele não
conseguiu a vitória sobre nenhum deles!
Bons e maus exemplos de martírio
Germânico, um homem do mais alto valor, fortaleceu os temerosos com
o exemplo de sua paciente perseverança e enfrentou as feras com notabilidade.
Quando o governador da província tentou persuadi-lo a abjurar a fé, pedindo-lhe
com insistência que voltasse atrás, uma vez que ainda estava na flor da idade,
Germânico o contrariou, agarrou os animais e os atraiu para si à força! Ele só
queria se libertar o mais rápido possível do estilo de vida indisciplinado e imoral
da multidão. Vendo isso, todos os espectadores se admiraram da bravura da
raça dos cristãos que amam e temem a Deus, e começaram a gritar: “Fora com
os ateus! Encontrem Policarpo!”.
Entretanto, também houve um homem chamado Quinto recém-chegado
da Frígia. Quinto olhou para as feras e se acovardou. Ora, esse homem se
entregara de forma voluntária às autoridades e instara com os outros para que
fizessem o mesmo. Depois de muito insistir, o governador da província
convenceu Quinto a prestar o juramento a César e fazer um sacrifício pagão! É
por isso mesmo, irmãos, que não louvamos ninguém que se entregue às
autoridades. O evangelho não ensina isso de modo algum.
A prisão de Policarpo
Policarpo, porém, muito mais digno de admiração, não se incomodou nem
um pouco quando ouviu falar da perseguição. Ele pretendia permanecer dentro
dos limites de Esmirna, mas a maioria das pessoas o aconselhou a sair da cidade
sem fazer alarde. Diante disso ele se retirou para uma pequena chácara nos
arredores, onde permaneceu na companhia de alguns amigos. Dia e noite não
fazia outra coisa a não ser orar por toda a humanidade e pela igreja em todo o
mundo, como era seu costume. Três dias antes de sua prisão, enquanto orava,
Policarpo entrou em êxtase e recebeu uma visão. Viu seu travesseiro
completamente consumido pelo fogo. Voltando-se para os companheiros, disse:
“Eu tenho de ser queimado vivo”.
As autoridades continuavam perseguindo Policarpo, que, por sua vez,
mudou-se para outra chácara. Não muito depois que partira, chegaram os
perseguidores. Uma vez que não o encontraram, prenderam dois escravos
jovens e um deles confessou sob tortura. Na verdade, era impossível a Policarpo
evitar a prisão, pois os que o traíram eram de sua própria casa. O chefe da polícia
— que, por predestinação, se chamava Herodes — quis trazê-lo com urgência
ao estádio. Tudo isso aconteceu para que Policarpo cumprisse seu destino de
se tornar um participante dos sofrimentos de Cristo, ao passo que os traidores
acabariam recebendo o castigo de Judas.
Assim, levando consigo o jovem escravo, os oficiais da polícia montada
partiram numa sexta-feira por volta da hora do jantar, portando todas as armas
“como se perseguissem um bandido” (cf. Mt 26.55). Mais tarde, naquela mesma
noite, chegaram aonde ele estava e o encontraram descansando num quartinho
no andar de cima. Mesmo assim ele ainda tinha a oportunidade de fugir para
outro local, mas decidiu não fazer isso, dizendo: “Seja feita a vontade de Deus”
(cf. Mt 26.42). Quando ouviu a chegada dos guardas, desceu e conversou com
eles. Eles notaram sua idade avançada e sua serena dignidade e ficaram
perplexos diante do afã para prender tão respeitável cavalheiro. De imediato,
Policarpo mandou que se oferecesse aos oficiais quanta comida e bebida
quisessem. Depois, pediu-lhes que lhe dessem uma hora para orar sem ser
perturbado. Quando consentiram, ele se levantou e orou — mas estava tão cheio
da graça de Deus que não conseguiu parar de falar durante duas horas! Todos
os que o ouviram ficaram admirados e muitos se arrependeram de ter de
perseguir tão piedoso ancião.
Por fim, quando terminou sua oração — depois de se lembrar de todas as
pessoas que conhecera, comuns ou extraordinárias, famosas ou desconhecidas,
bem como da igreja católica no mundo inteiro —, era hora de partir. Os guardas
o puseram sobre um jumento e o levaram para a cidade. Era um dia especial, de
comemoração do Sábado. Herodes, o chefe da guarda, foi encontrá-lo
acompanhado do pai, Nicetes. Depois de transferir Policarpo para sua
carruagem, sentaram-se ao lado dele e procuraram persuadi-lo, dizendo: “Qual
é o problema? Que mal há em dizer ‘César é senhor’ e fazer um pequeno
sacrifício, como se exige? Só assim você poderá salvar sua vida”.
De início Policarpo nada lhes respondeu. Ao insistirem, porém, finalmente
disse: “Não tenho nenhuma intenção de fazer o que vocês me aconselham”.
Quando perceberam que não conseguiam convencê-lo, começaram a dirigir-lhe
imprecações e o empurraram da carruagem com tanta violência que ele sofreu
um corte profundo na canela. Sem se virar para trás, como se não estivesse
ferido, ele caminhou depressa e cheio de energia, ansioso para chegar ao seu
destino.
Policarpo no estádio
Quando estava sendo conduzido para o estágio, a balbúrdia lá dentro era
tamanha que ninguém conseguia se fazer ouvir. Mas, quando Policarpo entrou,
uma voz do céu ecoou: “Seja forte e corajoso, Policarpo!”. Ninguém viu quem
disse isso, mas todos os cristãos presentes ouviram a voz com clareza.
Quando Policarpo foi apresentado, todos se deram conta de que ele fora
preso, e ouviu-se um grande clamor. Ele estava diante do governador da
província, que lhe perguntou se ele era mesmo Policarpo. Quando ele confirmou,
o governador tentou convencê-lo a abjurar a fé.
— Tenha um pouco de respeito pela dignidade de sua velhice — instava,
acrescentando coisas semelhantes a esta que em geral costumam ser ditas.
— Faça um simples juramento pelo espírito divino de César. Arrependa-se das
suas crenças! Diga: “Fora com os ateus!”.
Com uma expressão austera, Policarpo encarou a turba de pagãos imorais
presentes no estádio e lhes mostrou o punho cerrado. Com um gemido profundo
e os olhos voltados para o céu, exclamou:
— Fora com os ateus!
O governador continuou a pressioná-lo.
— Apenas faça o juramento, que eu o libertarei. Amaldiçoe o nome de Cristo.
Policarpo respondeu:
— Tenho servido a Cristo durante 86 anos, e ele não me fez mal algum. Como
eu poderia blasfemar agora contra o meu rei, que me salvou?”
— Jure pelo divino espírito de César — instava ainda com ele o governador.
— Se você acha que vou fazer o que me pede e jurar pelo demônio de César,
está enganado — replicou Policarpo.
— Mas, como continua fingindo não saber quem sou, eu mesmo declaro com
coragem: Eu sou cristão! Se quiser aprender a verdadeira doutrina do
cristianismo, marque uma data e me conceda uma audiência.
— Veja se consegue convencer a multidão — sugeriu o governador.
Mas Policarpo retrucou:
— A você eu teria considerado digno de um discurso, pois nossa fé nos ensinou
a dar a devida honra aos soberanos e governadores, que são nomeados por
Deus — desde que não tenhamos de comprometer nossos princípios. Quanto à
turba, não a considero digna de ouvir uma defesa fundamentada.
— Tenho animais ferozes — disse o governador — e vou jogá-lo a eles se você
não mudar de ideia.
— Traga-os, então! Nós cristãos não podemos mudar do melhor para o pior. A
verdadeira beleza está em passar da maldade para a justiça.
O governador o ameaçou de novo:
— Já que não se importa com as feras, vou assá-lo no fogo caso não mude de
ideia.
— O fogo de que você fala queima por um curto período e se extingue de forma
rápida — tornou Policarpo. — Está claro que você não tem consciência do fogo
do juízo iminente e do castigo eterno que aguarda os ímpios. O que está
esperando, então? Vamos! Faça comigo o que quiser!
Enquanto dizia essas coisas e muitas outras, Policarpo transbordava de júbilo e
coragem, e a graça brilhava em seu rosto. Não foi ele quem recuou aterrorizado
diante das ameaças que lhe eram feitas, mas, sim, o governador que se mostrou
atônito. Enviou então seu arauto pessoal para o meio do estádio a fim de
proclamar três vezes:
— Policarpo confessou que é cristão!
Quando o arauto anunciou isso, a multidão inteira — não somente os gentios,
mas também os judeus que moravam em Esmirna — gritou numa fúria
incontrolável:
— Esse é o mestre de todos os cristãos da Ásia, o pai espiritual deles! Ele nega
nossos deuses e ensina a muitos que não lhes façam sacrifícios e nem os
adorem!
Aos berros, exigiram que Filipe, um dos organizadores dos jogos na Ásia,
soltasse um leão sobre Policarpo. Mas Filipe declarou que não lhe era permitido
fazer isso, visto que já terminara a parte dos jogos em que as feras caçavam.
Diante disso, a multidão decidiu clamar em uníssono que Policarpo fosse
queimado vivo. Aconteceu dessa forma para se cumprir a visão que ele recebera
durante a oração, quando viu o seu travesseiro em chamas, e depois se virou
para seus fiéis companheiros e profetizou: “É necessário que eu seja queimado
vivo”.
Então, com uma rapidez impressionante, a multidão juntou troncos e
galhos das oficinas e casas de banhos das proximidades. Como de hábito, os
judeus eram sobremodo prestativos em colaborar nesse tipo de coisa.15 Quando
a pira estava pronta, Policarpo tirou o cinto e se despiu de toda a sua roupa.
Procurou até desatar os nós das sandálias, coisa que por costume não fazia,
pois todos os crentes estavam sempre ávidos por ser os primeiros a ter algum
tipo de contato físico com ele.16 Pois mesmo antes do seu martírio, Policarpo
fora sobremaneira honrado em razão de sua vida virtuosa.
A lenha reunida para a fogueira foi em seguida disposta ao seu redor. Quando
estavam a ponto de pregá-lo na estaca, Policarpo disse:
— Podem me deixar como estou. O Deus que me dá força para suportar as
chamas é o mesmo que me permitirá permanecer firme sobre a pira. A garantia
que os pregos lhes dão não é necessária.
Por isso, em vez de pregá-lo, só ataram-lhe os braços. E lá estava ele em pé,
com as mãos amarradas atrás de si, como um nobre carneiro escolhido em meio a um grande rebanho para ser um sacrifício preparado como holocausto
aprazível a Deus. Voltando os olhos para o céu, orou:
Ó Senhor Deus todo-poderoso, Pai de Jesus Cristo, teu Filho amado e
bendito, por meio de quem fomos informados acerca de ti! Ó Deus das
potestades angelicais, de toda a criação e de toda a família dos justos que
vivem na tua presença! Eu te louvo por me haveres considerado digno
deste dia e desta hora, para que eu seja arrolado na companhia dos
mártires que beberam o cálice do teu Cristo. Sei que isto me levará à
ressurreição para a vida eterna, em corpo e alma, na imortalidade garantida
pelo Espírito Santo. Que eu seja hoje bem recebido entre os mártires,
contemplando-te face a face como sacrifício propício e agradável.
Preparaste e revelaste tudo isto de antemão e agora o fizeste acontecer —
tu que és o Deus fiel, em quem não há mentira. Por essa razão, na verdade
por todas as coisas, eu te louvo, te bendigo e te glorifico por intermédio do
eterno e celestial Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, teu filho amado, por meio
de quem eu te dou glória, bem como a ele próprio e ao Espírito Santo, agora
e por todo o sempre. Amém!
A morte de Policarpo
Quando Policarpo pronunciou o amém, concluindo sua oração, os
homens encarregados da fogueira a acenderam com a tocha. Quando a enorme
chama se elevou, aqueles entre nós que tinham olhos para ver observaram um
grande milagre (e nós fomos protegidos da perseguição a fim de podermos
contar a outros o que aconteceu): o fogo, como a vela de um navio batida pelo
vento, encurvou-se num arco que cercou o corpo do mártir dentro de uma
muralha de chamas. Ele permaneceu ali não como alguém cuja carne está sendo
queimada, mas como um filão de pão no forno ou como ouro e prata sendo
refinados numa fornalha. Também sentimos um aroma doce, como se a fumaça
de incenso ou de outra especiaria aromática se espalhasse pelo ar. Por fim, os
malfeitores se deram conta de que o corpo de Policarpo não se consumia pelas
chamas. Mandaram que um carrasco subisse na pira e o ferisse com um golpe
de punhal; o sangue jorrou em tamanha quantidade que apagou o fogo, e toda
a multidão se maravilhou diante da impressionante diferença entre os incrédulos
e os eleitos.
Com efeito, o admirável mártir Policarpo era em verdade um eleito! Viveu
em nossos dias servindo como mestre profético e apostólico, e bispo da igreja
católica em Esmirna. Todas as palavras que saíram de sua boca se realizaram
e serão cumpridas.
As relíquias de Policarpo
Ora, o Diabo, invejoso, maligno e cheio de ódio, é o inimigo declarado de
toda a família dos justos. Ele assistiu ao grande martírio de Policarpo e observou
o inviolável caráter do mártir durante toda a sua vida. Vendo que Policarpo agora
ostentava a “coroa que não se acaba” e ganhara um “prêmio” que ninguém mais
lhe poderia tirar (1Co 9.24,25), o Maligno garantiu pelo menos que não
conseguíssemos recuperar seu cadáver, ainda que muitos de nós ansiássemos
por obtê-lo e ter contato com a santa carne de Policarpo.18 Desse modo, o Diabo
soprou a Nicetes, pai de Herodes e irmão de Alce, que convencesse o
governador a não nos dar o corpo. “Caso contrário”, disse Nicetes, “é possível
que abandonem o Crucificado e comecem a adorar esse homem em seu lugar”.
Tudo isso foi dito por sugestão e insistência dos judeus, que chegaram a montar
guarda sobre nós quando estávamos prontos para tirar o cadáver da pira. Porque
não compreendiam que jamais seríamos capazes de abandonar a Cristo ou
adorar outro a não ser ele, que sofreu pela salvação de todos os que são salvos
no mundo inteiro, o inocente em lugar dos pecadores. Adoramos a Cristo porque
ele é o Filho de Deus; quanto aos mártires, tão somente os amamos como
seguidores e imitadores do Senhor — e nosso amor é perfeitamente adequado
em vista da suprema devoção que eles tiveram por seu precioso rei e senhor.
Que nós também sejamos participantes da coroa dos mártires e nossos
condiscípulos!
Por isso, quando o centurião viu a agitação que os judeus haviam
estimulado, pôs o cadáver à vista de todos e o cremou segundo o costume
pagão. Foi então que por fim recolhemos os ossos de Policarpo, os quais para
nós são mais caros que pedras preciosas e mais estimados que o ouro, e os
sepultamos num local condigno. Nesse lugar, reunidos com a máxima
assiduidade possível, o Senhor nos permitirá celebrar com enorme alegria e
prazer o “aniversário” do martírio de Policarpo.19 Nossa observância não vai
apenas celebrar os que já combateram o bom combate como mártires, mas
também vai treinar e preparar aqueles que talvez venham a enfrentar esse
mesmo chamado.
Conclusão
Essa, portanto, é a história do bem-aventurado Policarpo. Apesar de ter
sido a duodécima pessoa a ser martirizada em Esmirna, ao lado de mais
algumas de Filadélfia, ele é lembrado por todos de modo particular e mencionado
em toda parte, até mesmo pelos pagãos. Ele não foi apenas um destacado
mestre, mas também um mártir extraordinário, cuja morte todos desejam imitar,
pois ocorreu em conformidade ao evangelho de Cristo. Com sua perseverança,
Policarpo derrotou o governador iníquo e recebeu uma coroa imperecível. Agora,
alegrando-se em grande medida com os apóstolos e todos os justos, ele está
glorificando a Deus Pai todo-poderoso e louvando a nosso Senhor Jesus Cristo
— o Salvador da nossa alma, capitão do nosso corpo, pastor da igreja católica
em todo o mundo!
Sabemos que vocês nos pediram um relato detalhado do acontecido. Por
ora, entretanto, nós lhes apresentamos um resumo por intermédio de nosso
irmão Marcião. Depois de tomarem conhecimento dos fatos essenciais, façam
circular esta carta entre os cristãos de outras regiões para que também eles
louvem ao Senhor que, dentre os seus próprios servos, escolhe alguns para o
martírio.
A ele, pois, que por seu dom gracioso é capaz de nos conduzir ao seu
reino celeste por meio de Jesus Cristo, seu Filho unigênito — a ele seja a glória,
a honra, o poder e a majestade para todo o sempre!
Saúdem com fervor a todos os santos. Todos aqui lhes enviam seus melhores
votos, entre eles Evaristo, o escriba que escreveu esta carta, e todos os de sua
casa.
Litfin, Bryan M.. Conhecendo os mártires da igreja primitiva (p. 97). Vida
Nova. Edição do Kindle.


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