O Mártir Policarpo de Esmirna







O Mártir Policarpo de Esmirna 

Bryan M. Litfin 


Uma paixão evangélica


    A história de Policarpo nos põe em contato com mais um tipo de texto, diferente dos que examinamos até agora. Aqui também temos uma carta cristã de encorajamento, tal como a de Inácio — essa, porém, conta a história inteira e não nos deixa dúvida acerca de como o martírio foi concluído. Além disso, em vez de ter de garimpar algumas poucas pepitas factuais em meio a toneladas de ficção, o Martírio de Policarpo apresenta alto grau de autenticidade histórica. Isso não quer dizer que o narrador nos transmita apenas os fatos nus e crus; não há dúvida de que ele queria comunicar um plano teológico e moldou a narrativa de acordo com esse plano.1 Não obstante, ele fez isso a partir de uma história fidedigna em sua essência. Isso faz de Policarpo o primeiro cristão cujo martírio conhecemos em detalhes.
    No entanto, a precisão histórica não é o único motivo para incluir essa narrativa neste livro. O relato da nobre morte do bem-aventurado Policarpo resistiu à prova do tempo nos anais da história da igreja e inspirou incontáveis gerações de cristãos a serem mais fiéis. Policarpo de Esmirna é um dos pais da igreja cuja história vale a pena conhecer.

    Quem foi ele? Alguns detalhes da biografia de Policarpo são contestados pelos pesquisadores, mas as fontes nos desenham um esboço de sua vida. Ele se tornou bispo de Esmirna em algum momento do século 2 d.C., o que significa que lhe foi confiada a supervisão espiritual dos cristãos da cidade. Embora servisse ao lado de outros anciãos, no final de sua vida era o líder reconhecido da comunidade — um pastor idoso cuja santidade lhe granjeara o respeito de todas as igrejas da Ásia.
    A cidade de Esmirna (atualmente chamada Izmir, na Turquia) era um assentamento muito antigo fundado no local onde um rio desembocava numa baía abrigada no mar Egeu. Por sua localização privilegiada, a cidade prosperou durante muitos séculos. Com efeito, afirma-se que Homero, o maior de todos os poetas gregos, residiu ali. Depois de um período de declínio, colonos gregos refundaram a cidade e inauguraram uma segunda era de prosperidade. Na época de Policarpo, Esmirna era uma animada metrópole romana no auge de seu progresso. Entre seus monumentos havia muitos templos e casas de banhos, um porto movimentado, escolas de retórica e de medicina, uma elegante praça do mercado e o estádio onde Policarpo foi executado. Uma grande população judaica também florescia na bela cidade marítima. É provável que os primeiros cristãos de Esmirna fossem judeus evangelizados por missionários de Éfeso, que distava cerca de 70 km dali.

    Policarpo morreu aos 86 anos de idade por volta do ano 156 d.C. Isso significa que ele nasceu apenas quarenta anos depois dos dias de Jesus, num espaço temporal que lhe teria permitido contato com pessoas que conviveram com o Senhor. Com efeito, a tradição da igreja antiga afirma que Policarpo foi discípulo do apóstolo João. Embora esse vínculo não seja comprovado com certeza absoluta, resta o fato de que Policarpo viveu sua juventude durante o período de formação da igreja, no século 1. Um autor antigo diz que ele foi “instruído pelos apóstolos” e “conviveu com muitos que tinham visto a Cristo”. Durante sua longa vida, sempre “ensinou as coisas que aprendera com os apóstolos e que a igreja transmitira, e que são, somente elas, verdadeiras”.
    Dessa maneira, Policarpo serviu de elo entre a geração dos apóstolos e os grandes pais da igreja que vieram depois. O fundamento jurídico para a execução de Policarpo no estádio de Esmirna não é bem claro. Parece que as autoridades romanas relutaram em aplicar a pena de morte contra um velho tão devoto. No fim, porém, prevaleceu o preconceito da multidão, e os governantes agiram de acordo com o sentimento popular. Quando os crentes locais assistiram à morte de seu líder espiritual na arena, sem dúvida se lembraram das palavras de Jesus à igreja de Esmirna em Apocalipse 2.10: “Conheço tua tribulação e tua pobreza, apesar de seres rico, e a blasfêmia dos que dizem ser judeus, mas não são; pelo contrário, são sinagoga de Satanás. Não temas o que hás de sofrer. O Diabo está para colocar alguns de vós na prisão, para que sejais provados; e passareis por uma tribulação de dez dias. Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida”. Como estamos prestes a ver, o bispo Policarpo ganhou com nobreza a coroa eterna prometida pelo Senhor.


O martírio de Policarpo

    Saudação e introdução Da igreja de Deus em Esmirna para sua igreja em Filomélio e a todas as comunidades da santa igreja católica3 em toda parte: que sejam abundantes entre vocês a misericórdia, a paz e o amor de Deus Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo.

    Irmãos, escrevemos para lhes dar um relato do que aconteceu aos mártires, sobretudo ao bem-aventurado Policarpo, cujo martírio pôs fim à perseguição como um selo sobreposto a uma carta.4 Quase todos os acontecimentos que levaram à morte de Policarpo aconteceram para que o Senhor nos mostrasse um martírio em conformidade com o evangelho.5 Policarpo, por exemplo, esperou até que fosse traído, assim como o Senhor. Devemos ser imitadores do seu exemplo, “não tendo em vista somente os [...] próprios interesses, mas também os dos outros” (Fp 2.4, NAA). Porque essa é a marca do amor verdadeiro e fiel: o desejo de salvar não somente a si mesmo, mas também a todos os irmãos.
    Consideramos, portanto, bendito e nobre todo martírio que tenha ocorrido de acordo com a vontade de Deus (pois nós, que reverenciamos a Deus em verdade, devemos considerar que ele é soberano sobre tudo quanto ocorre). Quem deixaria de se maravilhar diante da nobreza, da total devoção ao Senhor e da firme perseverança dos mártires? Mesmo com a carne dilacerada pelos açoites, a ponto de expor veias, artérias e órgãos internos, eles suportaram a agonia com coragem, enquanto os espectadores se compadeciam deles e se derramavam em lágrimas. Não obstante, os próprios mártires demonstraram tamanha bravura que nenhum deles deixou escapar nem um murmúrio ou suspiro sequer. Com isso, esses nobres mártires de Cristo demonstraram a todos que, no momento exato em que eram torturados, já estavam desligados de seus corpos — ou melhor, que o Senhor estava bem ao lado deles, comungando com eles. Concentrando seus pensamentos na beleza de Cristo, eles desprezaram os tormentos terrenos e se libertaram do castigo eterno mediante apenas uma hora de sofrimento.7 As chamas dos torturadores desumanos lhes pareceram frias, porque preferiram voltar os olhos para a salvação do fogo eterno e inextinguível do inferno. Com os olhos do coração, os mártires contemplaram as coisas boas reservadas para os que perseveram com paciência - as coisas que “olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem penetraram o coração humano” (1Co 2.9). Tais maravilhas lhes foram reveladas de modo pessoal pelo Senhor, pois já não eram humanos, mas anjos.

    Do mesmo modo, os condenados às feras suportaram tormentos horrendos. Eram estirados sobre um leito de conchas pontiagudas ou afligidos com diversas outras formas de tortura. A intenção era, se possível, obrigá-los a abjurar a fé mediante a agonia contínua. Com efeito, o Diabo inventou muitos estratagemas para usar contra os mártires. Todavia, pela graça de Deus, ele não conseguiu a vitória sobre nenhum deles!

Bons e maus exemplos de martírio

    Germânico, um homem do mais alto valor, fortaleceu os temerosos com o exemplo de sua paciente perseverança e enfrentou as feras com notabilidade. Quando o governador da província tentou persuadi-lo a abjurar a fé, pedindo-lhe com insistência que voltasse atrás, uma vez que ainda estava na flor da idade, Germânico o contrariou, agarrou os animais e os atraiu para si à força! Ele só queria se libertar o mais rápido possível do estilo de vida indisciplinado e imoral da multidão. Vendo isso, todos os espectadores se admiraram da bravura da raça dos cristãos que amam e temem a Deus, e começaram a gritar: “Fora com os ateus! Encontrem Policarpo!”.
    Entretanto, também houve um homem chamado Quinto recém-chegado da Frígia. Quinto olhou para as feras e se acovardou. Ora, esse homem se entregara de forma voluntária às autoridades e instara com os outros para que fizessem o mesmo. Depois de muito insistir, o governador da província convenceu Quinto a prestar o juramento a César e fazer um sacrifício pagão! É por isso mesmo, irmãos, que não louvamos ninguém que se entregue às autoridades. O evangelho não ensina isso de modo algum.

A prisão de Policarpo

    Policarpo, porém, muito mais digno de admiração, não se incomodou nem um pouco quando ouviu falar da perseguição. Ele pretendia permanecer dentro dos limites de Esmirna, mas a maioria das pessoas o aconselhou a sair da cidade sem fazer alarde. Diante disso ele se retirou para uma pequena chácara nos arredores, onde permaneceu na companhia de alguns amigos. Dia e noite não fazia outra coisa a não ser orar por toda a humanidade e pela igreja em todo o mundo, como era seu costume. Três dias antes de sua prisão, enquanto orava, Policarpo entrou em êxtase e recebeu uma visão. Viu seu travesseiro completamente consumido pelo fogo. Voltando-se para os companheiros, disse: “Eu tenho de ser queimado vivo”.
    As autoridades continuavam perseguindo Policarpo, que, por sua vez, mudou-se para outra chácara. Não muito depois que partira, chegaram os perseguidores. Uma vez que não o encontraram, prenderam dois escravos jovens e um deles confessou sob tortura. Na verdade, era impossível a Policarpo evitar a prisão, pois os que o traíram eram de sua própria casa. O chefe da polícia — que, por predestinação, se chamava Herodes — quis trazê-lo com urgência ao estádio. Tudo isso aconteceu para que Policarpo cumprisse seu destino de se tornar um participante dos sofrimentos de Cristo, ao passo que os traidores acabariam recebendo o castigo de Judas. 
    Assim, levando consigo o jovem escravo, os oficiais da polícia montada partiram numa sexta-feira por volta da hora do jantar, portando todas as armas “como se perseguissem um bandido” (cf. Mt 26.55). Mais tarde, naquela mesma noite, chegaram aonde ele estava e o encontraram descansando num quartinho no andar de cima. Mesmo assim ele ainda tinha a oportunidade de fugir para outro local, mas decidiu não fazer isso, dizendo: “Seja feita a vontade de Deus” (cf. Mt 26.42). Quando ouviu a chegada dos guardas, desceu e conversou com eles. Eles notaram sua idade avançada e sua serena dignidade e ficaram perplexos diante do afã para prender tão respeitável cavalheiro. De imediato, Policarpo mandou que se oferecesse aos oficiais quanta comida e bebida quisessem. Depois, pediu-lhes que lhe dessem uma hora para orar sem ser perturbado. Quando consentiram, ele se levantou e orou — mas estava tão cheio da graça de Deus que não conseguiu parar de falar durante duas horas! Todos os que o ouviram ficaram admirados e muitos se arrependeram de ter de perseguir tão piedoso ancião.
    Por fim, quando terminou sua oração — depois de se lembrar de todas as pessoas que conhecera, comuns ou extraordinárias, famosas ou desconhecidas, bem como da igreja católica no mundo inteiro —, era hora de partir. Os guardas o puseram sobre um jumento e o levaram para a cidade. Era um dia especial, de comemoração do Sábado. Herodes, o chefe da guarda, foi encontrá-lo acompanhado do pai, Nicetes. Depois de transferir Policarpo para sua carruagem, sentaram-se ao lado dele e procuraram persuadi-lo, dizendo: “Qual é o problema? Que mal há em dizer ‘César é senhor’ e fazer um pequeno sacrifício, como se exige? Só assim você poderá salvar sua vida”.

    De início Policarpo nada lhes respondeu. Ao insistirem, porém, finalmente disse: “Não tenho nenhuma intenção de fazer o que vocês me aconselham”. Quando perceberam que não conseguiam convencê-lo, começaram a dirigir-lhe imprecações e o empurraram da carruagem com tanta violência que ele sofreu um corte profundo na canela. Sem se virar para trás, como se não estivesse ferido, ele caminhou depressa e cheio de energia, ansioso para chegar ao seu destino.

Policarpo no estádio


    Quando estava sendo conduzido para o estágio, a balbúrdia lá dentro era tamanha que ninguém conseguia se fazer ouvir. Mas, quando Policarpo entrou, uma voz do céu ecoou: “Seja forte e corajoso, Policarpo!”. Ninguém viu quem disse isso, mas todos os cristãos presentes ouviram a voz com clareza.

    Quando Policarpo foi apresentado, todos se deram conta de que ele fora preso, e ouviu-se um grande clamor. Ele estava diante do governador da província, que lhe perguntou se ele era mesmo Policarpo. Quando ele confirmou, o governador tentou convencê-lo a abjurar a fé.

— Tenha um pouco de respeito pela dignidade de sua velhice — instava, acrescentando coisas semelhantes a esta que em geral costumam ser ditas.
— Faça um simples juramento pelo espírito divino de César. Arrependa-se das suas crenças! Diga: “Fora com os ateus!”.
Com uma expressão austera, Policarpo encarou a turba de pagãos imorais presentes no estádio e lhes mostrou o punho cerrado. Com um gemido profundo e os olhos voltados para o céu, exclamou:

— Fora com os ateus!
O governador continuou a pressioná-lo.

— Apenas faça o juramento, que eu o libertarei. Amaldiçoe o nome de Cristo. Policarpo respondeu:
— Tenho servido a Cristo durante 86 anos, e ele não me fez mal algum. Como eu poderia blasfemar agora contra o meu rei, que me salvou?”

— Jure pelo divino espírito de César — instava ainda com ele o governador.
— Se você acha que vou fazer o que me pede e jurar pelo demônio de César, está enganado — replicou Policarpo.

— Mas, como continua fingindo não saber quem sou, eu mesmo declaro com coragem: Eu sou cristão! Se quiser aprender a verdadeira doutrina do cristianismo, marque uma data e me conceda uma audiência.
— Veja se consegue convencer a multidão — sugeriu o governador.

Mas Policarpo retrucou:
— A você eu teria considerado digno de um discurso, pois nossa fé nos ensinou a dar a devida honra aos soberanos e governadores, que são nomeados por Deus — desde que não tenhamos de comprometer nossos princípios. Quanto à turba, não a considero digna de ouvir uma defesa fundamentada.

— Tenho animais ferozes — disse o governador — e vou jogá-lo a eles se você não mudar de ideia.
— Traga-os, então! Nós cristãos não podemos mudar do melhor para o pior. A verdadeira beleza está em passar da maldade para a justiça.

O governador o ameaçou de novo:
— Já que não se importa com as feras, vou assá-lo no fogo caso não mude de ideia.

— O fogo de que você fala queima por um curto período e se extingue de forma rápida — tornou Policarpo. — Está claro que você não tem consciência do fogo do juízo iminente e do castigo eterno que aguarda os ímpios. O que está esperando, então? Vamos! Faça comigo o que quiser!

Enquanto dizia essas coisas e muitas outras, Policarpo transbordava de júbilo e coragem, e a graça brilhava em seu rosto. Não foi ele quem recuou aterrorizado diante das ameaças que lhe eram feitas, mas, sim, o governador que se mostrou atônito. Enviou então seu arauto pessoal para o meio do estádio a fim de proclamar três vezes:

— Policarpo confessou que é cristão!

Quando o arauto anunciou isso, a multidão inteira — não somente os gentios, mas também os judeus que moravam em Esmirna — gritou numa fúria incontrolável:
— Esse é o mestre de todos os cristãos da Ásia, o pai espiritual deles! Ele nega nossos deuses e ensina a muitos que não lhes façam sacrifícios e nem os adorem!

    Aos berros, exigiram que Filipe, um dos organizadores dos jogos na Ásia, soltasse um leão sobre Policarpo. Mas Filipe declarou que não lhe era permitido fazer isso, visto que já terminara a parte dos jogos em que as feras caçavam. Diante disso, a multidão decidiu clamar em uníssono que Policarpo fosse queimado vivo. Aconteceu dessa forma para se cumprir a visão que ele recebera durante a oração, quando viu o seu travesseiro em chamas, e depois se virou para seus fiéis companheiros e profetizou: “É necessário que eu seja queimado vivo”.
    Então, com uma rapidez impressionante, a multidão juntou troncos e galhos das oficinas e casas de banhos das proximidades. Como de hábito, os judeus eram sobremodo prestativos em colaborar nesse tipo de coisa.15 Quando a pira estava pronta, Policarpo tirou o cinto e se despiu de toda a sua roupa. Procurou até desatar os nós das sandálias, coisa que por costume não fazia, pois todos os crentes estavam sempre ávidos por ser os primeiros a ter algum tipo de contato físico com ele.16 Pois mesmo antes do seu martírio, Policarpo fora sobremaneira honrado em razão de sua vida virtuosa.

    A lenha reunida para a fogueira foi em seguida disposta ao seu redor. Quando estavam a ponto de pregá-lo na estaca, Policarpo disse:

— Podem me deixar como estou. O Deus que me dá força para suportar as chamas é o mesmo que me permitirá permanecer firme sobre a pira. A garantia que os pregos lhes dão não é necessária.

Por isso, em vez de pregá-lo, só ataram-lhe os braços. E lá estava ele em pé, com as mãos amarradas atrás de si, como um nobre carneiro escolhido em meio a um grande rebanho para ser um sacrifício preparado como holocausto aprazível a Deus. Voltando os olhos para o céu, orou:
    Ó Senhor Deus todo-poderoso, Pai de Jesus Cristo, teu Filho amado e bendito, por meio de quem fomos informados acerca de ti! Ó Deus das potestades angelicais, de toda a criação e de toda a família dos justos que vivem na tua presença! Eu te louvo por me haveres considerado digno deste dia e desta hora, para que eu seja arrolado na companhia dos mártires que beberam o cálice do teu Cristo. Sei que isto me levará à ressurreição para a vida eterna, em corpo e alma, na imortalidade garantida pelo Espírito Santo. Que eu seja hoje bem recebido entre os mártires, contemplando-te face a face como sacrifício propício e agradável. Preparaste e revelaste tudo isto de antemão e agora o fizeste acontecer — tu que és o Deus fiel, em quem não há mentira. Por essa razão, na verdade por todas as coisas, eu te louvo, te bendigo e te glorifico por intermédio do eterno e celestial Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, teu filho amado, por meio de quem eu te dou glória, bem como a ele próprio e ao Espírito Santo, agora e por todo o sempre. Amém!

A morte de Policarpo

    Quando Policarpo pronunciou o amém, concluindo sua oração, os homens encarregados da fogueira a acenderam com a tocha. Quando a enorme chama se elevou, aqueles entre nós que tinham olhos para ver observaram um grande milagre (e nós fomos protegidos da perseguição a fim de podermos contar a outros o que aconteceu): o fogo, como a vela de um navio batida pelo vento, encurvou-se num arco que cercou o corpo do mártir dentro de uma muralha de chamas. Ele permaneceu ali não como alguém cuja carne está sendo queimada, mas como um filão de pão no forno ou como ouro e prata sendo refinados numa fornalha. Também sentimos um aroma doce, como se a fumaça de incenso ou de outra especiaria aromática se espalhasse pelo ar. Por fim, os malfeitores se deram conta de que o corpo de Policarpo não se consumia pelas chamas. Mandaram que um carrasco subisse na pira e o ferisse com um golpe de punhal; o sangue jorrou em tamanha quantidade que apagou o fogo, e toda a multidão se maravilhou diante da impressionante diferença entre os incrédulos e os eleitos.
    Com efeito, o admirável mártir Policarpo era em verdade um eleito! Viveu em nossos dias servindo como mestre profético e apostólico, e bispo da igreja católica em Esmirna. Todas as palavras que saíram de sua boca se realizaram e serão cumpridas.

As relíquias de Policarpo
 
    Ora, o Diabo, invejoso, maligno e cheio de ódio, é o inimigo declarado de toda a família dos justos. Ele assistiu ao grande martírio de Policarpo e observou o inviolável caráter do mártir durante toda a sua vida. Vendo que Policarpo agora ostentava a “coroa que não se acaba” e ganhara um “prêmio” que ninguém mais lhe poderia tirar (1Co 9.24,25), o Maligno garantiu pelo menos que não conseguíssemos recuperar seu cadáver, ainda que muitos de nós ansiássemos por obtê-lo e ter contato com a santa carne de Policarpo.18 Desse modo, o Diabo soprou a Nicetes, pai de Herodes e irmão de Alce, que convencesse o governador a não nos dar o corpo. “Caso contrário”, disse Nicetes, “é possível que abandonem o Crucificado e comecem a adorar esse homem em seu lugar”. Tudo isso foi dito por sugestão e insistência dos judeus, que chegaram a montar guarda sobre nós quando estávamos prontos para tirar o cadáver da pira. Porque não compreendiam que jamais seríamos capazes de abandonar a Cristo ou adorar outro a não ser ele, que sofreu pela salvação de todos os que são salvos no mundo inteiro, o inocente em lugar dos pecadores. Adoramos a Cristo porque ele é o Filho de Deus; quanto aos mártires, tão somente os amamos como seguidores e imitadores do Senhor — e nosso amor é perfeitamente adequado em vista da suprema devoção que eles tiveram por seu precioso rei e senhor. Que nós também sejamos participantes da coroa dos mártires e nossos condiscípulos!
    Por isso, quando o centurião viu a agitação que os judeus haviam estimulado, pôs o cadáver à vista de todos e o cremou segundo o costume pagão. Foi então que por fim recolhemos os ossos de Policarpo, os quais para nós são mais caros que pedras preciosas e mais estimados que o ouro, e os sepultamos num local condigno. Nesse lugar, reunidos com a máxima assiduidade possível, o Senhor nos permitirá celebrar com enorme alegria e prazer o “aniversário” do martírio de Policarpo.19 Nossa observância não vai apenas celebrar os que já combateram o bom combate como mártires, mas também vai treinar e preparar aqueles que talvez venham a enfrentar esse mesmo chamado.

Conclusão

    Essa, portanto, é a história do bem-aventurado Policarpo. Apesar de ter sido a duodécima pessoa a ser martirizada em Esmirna, ao lado de mais algumas de Filadélfia, ele é lembrado por todos de modo particular e mencionado em toda parte, até mesmo pelos pagãos. Ele não foi apenas um destacado mestre, mas também um mártir extraordinário, cuja morte todos desejam imitar, pois ocorreu em conformidade ao evangelho de Cristo. Com sua perseverança, Policarpo derrotou o governador iníquo e recebeu uma coroa imperecível. Agora, alegrando-se em grande medida com os apóstolos e todos os justos, ele está glorificando a Deus Pai todo-poderoso e louvando a nosso Senhor Jesus Cristo — o Salvador da nossa alma, capitão do nosso corpo, pastor da igreja católica em todo o mundo!
    Sabemos que vocês nos pediram um relato detalhado do acontecido. Por ora, entretanto, nós lhes apresentamos um resumo por intermédio de nosso irmão Marcião. Depois de tomarem conhecimento dos fatos essenciais, façam circular esta carta entre os cristãos de outras regiões para que também eles louvem ao Senhor que, dentre os seus próprios servos, escolhe alguns para o martírio.
    A ele, pois, que por seu dom gracioso é capaz de nos conduzir ao seu reino celeste por meio de Jesus Cristo, seu Filho unigênito — a ele seja a glória, a honra, o poder e a majestade para todo o sempre!

Saúdem com fervor a todos os santos. Todos aqui lhes enviam seus melhores votos, entre eles Evaristo, o escriba que escreveu esta carta, e todos os de sua casa.

Litfin, Bryan M.. Conhecendo os mártires da igreja primitiva (p. 97). Vida Nova. Edição do Kindle. 


Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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BÍBLIA FALADA METAL 





Este é um projeto envolvendo todos os irmãos da Igreja PorTuaCasa (@igrejaportuacasa). O objetivo é unir duas coisas. As Escrituras e um bom Rock N Roll. Atualmente temos muitas músicas que se dizem "gospel", porém, encontramos muitas frases que exaltam mais o homem do que à Deus. Esta é a segunda música: Sal da terra e Luz do mundo: 


Mat 5.13-16, "Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus". 

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