Apóstolo Bartolomeu: Vida e morte
Apóstolo Bartolomeu: Vida e morte
Abdias Castro
Bartolomeu é outro apóstolo cuja história e personalidade não transparece no relato bíblico. Seu ministério não é descrito nas Escrituras e não há informações anteriores àquelas citadas por Eusébio no século IV. Seu nome, só aparece nas listas dos apóstolos, em cada um dos evangelhos e no livro de Atos dos Apóstolos. Sua memória, cercada por lendas, está mais intimamente vinculada aos povos orientais. É curioso o fato de ele ser mencionado sempre ao lado de Filipe, dando a entender que este era o seu par nos serviços do ministério com Jesus. Bartolomeu, Bartholomaios, translitera o aramaico que significa literalmente Filho de Talmai, um termo patronímico aramaico muito encontrado nos escritos de Flávio Josefo e citado na Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento). Em hebraico, Tholmai quer dizer, agricultor, ou aquele que trabalha no arado. Mas há divergências com aqueles que alegam que Natanael era filho de um homem grego e que o termo seria Ptolomeu (grego) e não Tolmai (aramaico). Esta não é uma alegação inusitada, visto que naquele tempo existiam muitos casais das duas culturas como por exemplo os pais de Marcos, de Timóteo e de Silas.
O Chamado
Bartolomeu foi apresentado a Jesus por seu amigo Filipe que o encontrou e disse entusiasmado; “encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e também os profetas; é Jesus de Nazaré, o filho de José. Quando ficou sabendo que Jesus era de Nazaré, uma pequena cidade da Galileia, ele proferiu aquela famosa sentença carregada de preconceito: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (João 1.46). Acontece que ele era de uma vila ainda mais remota, a Caná do primeiro milagre de Jesus, distante apenas 14 quilômetros de Nazaré (João 21.2). Percebe-se que Natanael que significa dom de Deus, não conhecia bem as profecias que relacionavam o Messias com aquela região, bem como a origem de alguns grandes profetas como Isaias e Naum, ambos da região da Galiléia ou, mais provavelmente, era daquele seguimento judaico que aguardava um Messias esplendoroso empunhando uma espada flamenjante e colocando seus adversários sob estrado dos pés. Filipe não desistiu e levou-o até Jesus que ao invés de descriminá-lo pela ofensa, declarou sorridente:
“Vejam, aí está um verdadeiro israelita em quem não há falsidade”. Este elogio recorda o Salmo 32.2 que diz; “Feliz o homem a quem Javé não atribui iniquidade” A Bíblia diz em Provérbios 1.15 que “a resposta branda desvia o furor”, e foi assim que Jesus ganhou a confiança de Natanael. Jesus elogiou a sua sinceridade em dizer aquelas palavras sobre Nazaré.
INCURSÕES EVANGELÍSTICAS E MARTÍRIO
Segundo algumas tradições bastante confiáveis, Bartolomeu teria atuado como arauto do Senhor Jesus na região da Ásia Menor, atual Turquia. Trata-se de uma informação que recebe endosso da obra apócrifa Atos de Filipe que descreve o ministério de Filipe ao lado de seu grande companheiro e amigo Bartolomeu nas cidades de Hierápoles, Laodiceia e Colosso. Ele pregou o evangelho na Índia e onde hoje é a Europa Oriental. Sobre a presença dele na Índia, há uma linha de pensamento de que o termo Índia usado pelos antigos escritores e historiadores não se trate da Índia que conhecemos nos dias de hoje, mas que seja um termo genérico para terras longínquas, porém bem mais próximas, como Etiópia, Arábia, Pérsia e Média. De fato, muitos geógrafos antigos usavam o termo Índia para se referirem a vários lugares distintos. Descreve a obra supracitada que Bartolomeu, Filipe e sua irmã Mariane anunciaram o evangelho para a esposa do procônsul de Hierápolis, Antípatos e tendo ela sido curada de certa enfermidade, converteu-se ao cristianismo. A conversão da eminente senhora suscitou o ódio da autoridade romana que em represália condenou os dois arautos à morte por crucifixão de cabeça para baixo em 54 d.C. A lenda relata que a sentença foi levada a termo, e que Filipe de fato morreu neste episódio, enquanto Bartolomeu curiosamente escapou com vida tendo fugido para a Armênia. O episódio é tratado pelo historiador cristão Dorman Newman do século XVII da seguinte forma:
Em Hierápolis, na Frígia, o encontramos em companhia do apóstolo Filipe (como já fora antes observado em sua vida), diante de cujo martírio por crucificação, Bartolomeu acabou preso e também condenado à mesma pena capital. Entretanto, em razão de algo que desconhecemos, os magistrados interromperam seu suplício e o despediram. Dali, Bartolomeu dirigiu-se a Licaônia, onde João Crisóstomo afirma ter o apóstolo o iniciado na fé cristã.
Fontes adicionais acresentam outros pontos ao episódio, afirmando que os pregadores não foram alvo do furor romano apenas pela conversão da ilustre mulher, mas também por terem repreendido um culto pagão em que se adorava uma deusa-serpente. Tal repremenda atiçou a ira dos sacerdotes do estranho culto contra os arautos de Jesus que, apoiados pelo procônsul e clamaram pela morte dos apóstolos. O relato antigo declara que, quando estavam levando a termo a execução, um terremoto sacudiu o lugar causando grande pavor nos expectantes. Ato contínuo, os apóstolos começaram a interceder pelos assustados moradores. Estes, por sua vez passaram imediatamente a pedir pela vida dos condenados. Diz esta fonte que como a execução já estava em andamento havia horas, Bartolomeu sobreviveu, mas Felipe não. É fato que escapar com vida, após horas pendurado numa cruz, com os tornozelos e pulsos transpassados por pregos de 20 cm já seria um milagre, dada a perda de sangue, o trauma emocional e o tétano causado pela ferrugem. Mas o milagre é ainda mais notório quando pensamos em uma pena radical imposta por um alto mandatário do império sendo cancelada quando já está em andamento.
Após tal livramento, a lenda localiza Bartolomeu nas cidades de Licaônia, Derbe e Icônio, tempos depois da passagem de Paulo por estas cidades, fatos estes registrados em Atos 14.6-23; 16.1-5 e 2 Timóteo 3.11.
Após esta rápida passagem pela Ásia Menor, outra fonte relata que Bartolomeu teria se dirigido para a Armênia onde teria se aliado ao Apóstolo Judas Tadeu, o Lebeu , em 60 d. C. Ali, envolto numa cultura impregnada de idolatria religiosa, após desesseis anos de trabalho árduo e oração fervorosa, teria alcançado graça no Senhor e curado a filha de certo rei, expondo a inutilidade dos ídolos locais e de seus sacerdotes. Em consequência disto, o rei e muitos de seus súditos se converteram ao cristianismo, o que suscitou a ira dos sacerdotes, que, aliados ao irmão rival do soberano chamado Astíades, decidiram pela morte do apóstolo. Após escalpelarem (tirarem a pele) vivo o arauto do Senhor o crucificaram de cabeça para baixo. John Fox em O Livro dos Mártires diz que: “Por último, foi cruelmente açoitado e crucificado pelos conturbados idólatras”. Somente a partir da Idade Média é que é aceito pela tradição da Igreja que ele foi esfolado vivo, (ato de tirar toda a pele). Com base nisto é que Michelangelo pintou Bartolomeu segurando a própria pele no quadro “Juízo Final”, na Capela Cistina.
Embora outras tradições, como veremos adiante, apontem a Albânia como palco de seu martírio, não podemos reputar que tradições milenares afirmam que Bartolomeu e Judas Tadeu são os fundadores da Igreja Armênia. Assim diz o patriarcado armênio em Jerusalém:
O indiscutível e duradouro amor dos armênios e sua devoção pela Terra Santa têm seu início no século 1 da era cristã, quando o cristianismo foi trazido, diretamente daquele lugar, pelos apóstolos São Tadeu e São Bartolomeu.
Aziz Atiya em A Historia do Cristianismo Oriental (p. 306), declara:
Os primeiros iluminados da Armênia foram São Tadeu e São Bartolomeu [...] Uma tradição popular entre eles atribui a primeira evangelização da Armênia ao apóstolo Judas Tadeu que, segundo sua cronologia, lá permaneceu entre os anos 43 e 66 d. C., sendo a partir de 60 d.c., acompanhado por Bartolomeu, cujo suplício deu-se em 68 d.C.
PRESENÇA NA ÍNDIA
Escritos da tradição confiável da Igreja, bem como o apócrifo Evangelho de Bartolomeu, apontam a presença do apóstolo na Índia, onde teria deixado uma cópia do Evangelho de Mateus. O antigo historiador Rufino escreveu o seguinte sobre Bartolomeu na Índia:
Panteno, filósofo de formação estoica, segundo as tradições Alexandrinas [...] descobriu que Bartolomeu, um dos doze Apóstolos, já havia anunciado o Senhor Jesus e difundiu o Evangelho de Mateus. Ao retornar à Alexandria, Panteno trouxe consigo esta obra, escrita em caracteres hebraicos.
Eusébio de Cesaréia, um historiador cristão do séc. 4 afirma que Pantemo, um filósofo e teólogo do séc. 2 encontrou na Índia os sinais da presença de Bartolomeu por lá (cf. História Eclesiástica, V 10,3).
Corroborando com Eusébio acerca do referido relato em hebraico produzido por Mateus, e de cuja cópia se valeu Bartolomeu, estão outros autores patrísticos como segue:
Papias de Hierápolis, 170 d.C. afirma; “Mateus copôs a Palavra na língua hebraica e cada um a traduziu como pode”.
Irineu de Lyon, 150 d.C. declarou; “Mateus também produziu um evangelho entre os judeus, em seu próprio dialeto.”
A estes testemunhos acrescentem-se ainda, Cirilo de Jerusalém, Epifânio, Gregório e Agostinho de Hipona.
RESTOS MORTAIS
Sobre o local de repouso de seus ossos, a tradição e as lendas são ainda mais obscuras e díspares. Otto Hopham, em sua obra The Apostoles (p.167), apoia as lendas relacionadas:
A tradição Armênia sustenta que o corpo do apóstolo foi encontrado em Albanópolis (ou Urbanópolis), cidade da Armênia onde se acredita ter sido martirizado. Dali, seus restos mortais foram levados a Nefergerd-Mijafardin e, posteriormente, a Duras, na Mesopotâmia.
Não é conclusiva a informação de que os restos mortais de Bartolomeu Natanael tenham sido transladados da Mesopotâmia para Roma como sugerem alguns autores católicos, mas a presença do apóstolo em terras Armênias é bastante provável dada a ênfase tradicional de várias fontes apontando tal possibilidade.
Não se pode deixar, entretanto, de observar que ao longo da idade Média a hegemônica Igreja Católica Romana incentivou o surgimento de várias lendas acerca de relíquias relacionadas aos apóstolos e seus restos mortais.
CASTRO, ABDIAS. VIDA E MORTE DOS APÓSTOLOS: EDIÇÃO AMPLIADA (p. 77). Edição do Kindle.
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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