Quando sofrer é uma bem-aventurança?
Quando sofrer é uma bem-aventurança?
Hernandes Dias Lopes
Quando sofremos por causa da justiça (5.10). Alguns tomam a iniciativa de opor-se a nós não por causa dos nossos erros, mas porque não gostam da justiça da qual temos fome e sede. A perseguição é simplesmente o conflito entre dois sistemas de valores irreconciliáveis. Sofrer pelo erro não é bem- aventurança, mas vergonha e derrota. Sofrer pelo erro é punição e castigo, e não felicidade. Sofrer porque foi flagrado no erro não é ser bem-aventurado. Um aluno não é feliz ao receber nota zero por ter sido flagrado na prática da cola. Um funcionário não é feliz ao ser mandado embora por negligência. Um cristão não é feliz ao ser perseguido por ter transgredido a lei de Deus. Os crentes de Tiatira sofreram financeiramente por não participarem dos sindicatos comerciais que tinham suas divindades padroeiras. Os crentes sofriam porque, quando se convertiam, eram desprezados pelos outros membros da família.
Sofrer é bem-aventurança, ainda, quando sofremos por causa de nosso relacionamento com Cristo (5.11). O mundo não odeia o cristão, mas odeia a justiça, odeia a Cristo nele. Não é a nós que o mundo odeia primariamente, mas à verdade que representamos. O mundo está atrás de Cristo, é a ele que o mundo ainda está tentando matar. O mundo odiou Jesus e o levou à cruz. Assim, quando o mundo vê Cristo em sua vida, em suas atitudes, o mundo também odiará você. Às vezes, essa perseguição promovida pela língua não procede apenas do mundo pagão, mas dos próprios religiosos: Jesus foi mais duramente perseguido pelos fariseus, escribas e sacerdotes. A religião apóstata tornou-se o braço do anticristo. Vejamos, por exemplo, a perseguição na igreja primitiva. A igreja primitiva foi implacavelmente perseguida. Os crentes foram expulsos de Jerusalém. Eles foram espalhados pelo mundo. Nero iniciou uma sangrenta perseguição contra a igreja. Alguns crentes eram jogados aos leões esfaimados da Líbia. Outros eram queimados na fogueira. Os crentes eram untados com resina e depois incendiados vivos para iluminar os jardins de Roma. Alguns crentes eram enrolados em peles de animais para os cães de caça morderem. Os crentes eram torturados e esfolados vivos. Chumbo fundido era derramado sobre eles. Placas de latão em brasa eram fixadas nas partes mais frágeis do corpo. Partes do corpo eram cortadas e assadas diante dos seus olhos.
O império romano tinha uma grande preocupação com sua unificação. Na época de Cristo, o império romano estendeu seu domínio desde as Ilhas Britânicas até o rio Eufrates, desde o norte da Alemanha até o norte da África. Roma era adorada como deusa. Depois, o imperador passou a personificar Roma. Os imperadores passaram a ser chamados “Senhor e Deus”. O culto ao imperador passou a ser o grande elo da unificação política de Roma. Era obrigatório uma vez por ano todos os súditos do império queimarem incenso ao deus imperador num templo romano. Todos deviam dizer: “César é o Senhor”. Mas os cristãos se recusavam a fazer isso, sendo considerados revolucionários, traidores e ilegais. Por isso eram presos, torturados e mortos. John MacArthur apresenta esse fato assim:
Era obrigatório que, uma vez por ano, todas as pessoas no império romano queimassem incenso para César e dissessem: “César é o Senhor”. Quando alguém acendia seu incenso, recebia um certificado chamado libelo. Tendo recebido esse certificado, ele poderia adorar qualquer deus que quisesse. Os romanos queriam, em primeiro lugar, apenas se certificar de que todos convergiam para um ponto comum: César. Os cristãos não declaravam outra coisa senão “Jesus é o Senhor”, por isso nunca recebiam o libelo. Consequentemente, estavam sempre cultuando a Deus de maneira ilegal.
Vejamos, agora, as perseguições religiosas ao longo dos séculos. Os crentes foram perseguidos pela intolerância e pela inquisição religiosa. Alguns pré-reformadores foram queimados vivos, como Jan Hus e Girolamo Savonarola. John Wycliffe precisou se esconder. Lutero ficou trancado num mosteiro. William Tyndale foi esquartejado. Os calvinistas franceses, chamados huguenotes, foram perseguidos e assassinados na França com crueldade indescritível. Foram caçados, torturados, presos e mortos com desumanidade. A partir de 1559, o governo francês caiu nas mãos de Catarina de Médicis, que, educada na escola maquiavélica, estava disposta a sacrificar a vida dos súditos para alcançar a realização de suas ambições políticas. Na fatídica noite de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572, cerca de setenta mil crentes franceses foram esmagados e mortos numa emboscada. Rios de sangue jorraram de homens e mulheres que ousaram crer em Cristo e professar sua fé no salvador. Ao tomar conhecimento do massacre da noite de São Bartolomeu, o rei da Espanha, Felipe II, genro de Catarina de Médicis, encorajou a sua sogra a agir ainda com maior despotismo e violência, buscando exterminar os huguenotes da França e assim varrer todo o vestígio do protestantismo daquela terra.
Na Inglaterra, Maria Tudor ascendeu ao trono em 1553 e governou até 1558. Essa rainha matou tantos crentes que isso lhe valeu a alcunha de “Maria, a Sanguinária”. Ela levou à estaca os líderes cristãos e passou ao fio da espada milhares de crentes. O comunismo ateu e o nazismo nacionalista levou milhões de crentes ao martírio no século 20. Na Coreia do Norte, na China e ainda hoje nos países comunistas e islâmicos, os crentes são presos, torturados e mortos. Como devemos enfrentar essa perseguição? Com profunda alegria! Não devemos buscar a vingança como o incrédulo, nem ficar de mau humor como uma criança embirrada, nem lambendo nossa própria ferida cheios de autopiedade, nem negar a dor como os estoicos, muito menos gostar de sofrer como os masoquistas. As palavras usadas por Jesus descrevem uma alegria intensa, maiúscula, superlativa, absoluta. A palavra “exultai”, agalliasthe, significa saltar, pular, gritar de alegria.
Qual é a recompensa divina aos perseguidos por causa da justiça? Uma felicidade superlativa (5.10,11)! A palavra macarios, como já temos visto, descreve uma felicidade plena, copiosa, superlativa, eterna. Essa felicidade não é circunstancial. Não depende do que acontece à nossa volta. Ela vem do alto. Está dentro de nós. Jesus parabeniza aqueles que o mundo mais despreza e chama de bem-aventurados aqueles que o mundo persegue.
Outra recompensa é a posse de um reino glorioso (5.10). Essa última bem-aventurança termina como começou a primeira. Os perseguidos por causa da justiça recebem o reino dos céus. Aqui eles podem perder os bens, o nome e a vida, mas recebem um reino eterno, glorioso, para sempre. Os sofrimentos do tempo presente não se comparam às glórias a serem reveladas em nós (Rm 8.18). Os perseguidos podem ser lançados numa prisão, torturados e martirizados, mas eles recebem uma herança incorruptível, gloriosa. Eles são filhos e herdeiros. Um dia ouvirão Jesus dizer: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.
Os perseguidos por causa da justiça sabem que a recompensa final não é nesta vida (5.12). O mundo odeia pensar no futuro. O ímpio detesta pensar na eternidade. Ele tem medo de pensar na morte, mas o cristão sabe que sua recompensa está no futuro. Ele olha para a frente e sabe que tem o céu. Sabe que tem a coroa. Paulo disse na antessala do martírio: O da minha partida é chegado [...]. Já agora a coroa da justiça me está guardada... (2Tm 4.6,8). Nós aguardamos a cidade celestial (Hb 11.10). Crisóstomo, um grande cristão do século 5, foi preso e chamado diante do imperador Arcádio por pregar a Palavra. Este ameaçou bani-lo. Crisóstomo disse: “Majestade, não podes me banir, pois o mundo é a casa do meu Pai”. “Então, terei de matá-lo.” Crisóstomo respondeu: “Não podes, pois minha vida está guardada com Cristo em Deus”. Arcádio ameaçou: “Seus bens serão confiscados”. Crisóstomo retrucou: “Majestade, isso não será possível. Meus tesouros estão nos céus”. “Eu te afastarei dos homens e não terás amigos.” O servo de Deus respondeu: “Isso não podes fazer, porque tenho um amigo nos céus que disse: ‘De maneira alguma te deixarei, jamais te abandonarei’”.
Os perseguidos por causa da justiça sabem que são seguidores de uma bendita estirpe (5.12). Quando você estiver sendo perseguido por causa da justiça e por causa de Cristo, saiba que não está sozinho nessa arena, nessa fornalha, nesse campo juncado de espinhos. Atrás de você marchou um glorioso exército de profetas de Deus. A perseguição é um sinal de genuinidade, um certificado de autenticidade cristã, pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. Se somos perseguidos hoje, pertencemos a uma nobre sucessão.
Os ferimentos são como medalhas de honra para o cristão. Jesus disse: Ai de vós, quando todos vos louvarem! (Lc 6.26). Dietrich Bonhoeffer, executado no campo de concentração nazista de Flossenburg por ordem de Heinrich Himmler, em abril de 1945, disse que o sofrimento é uma das características dos seguidores de Cristo. Sofrer por Cristo é mais honroso do que ter um reino sobre a terra. Precisamos considerar que o nosso sofrimento aqui é leve e momentâneo quando visto à luz da recompensa eterna (2Co 4.17).
Os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós (Rm 8.18). Somos bem-aventurados!
Lopes, Hernandes Dias. Mateus (Comentários expositivos Hagnos) (pp. 170-175). Editora Hagnos. Edição do Kindle.
Pr. Ronaldo José Vicente. Formado em Teologia pela faculdade Mackenzie. Autor do livro “O profeta em Israel e a Justiça Social”. Faz parte de uma banda chamada “Templo de Fogo”, autor de diversas músicas sobre os profetas. Atualmente exerce o pastorado na Igreja “PorTuaCasa” localizada em São Paulo/Tatuapé́. Autor de vários artigos sendo disponibilizados sempre no site “Lagrimasportuacausa”.


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